“todos os dias nossos uniformes pretos na tevê”

Noemi pediu para que pensássemos em um ofício que gostaríamos de ter. Depois, para que contássemos um episódio acontecido naquele dia conosco, como se fôssemos essa pessoa, com essa profissão.

*

Quando virei à direita a barreira policial estava tão próxima que obedeci a instrução de parar. A primeira coisa em que pensei foram nos muitos cálices de malbec argentino que havia tomado. A segunda foi se devia ou não soprar o bafômetro.
O policial que pediu os documentos devolveu-os rapidamente e me mandou seguir.
– Gosto quando comenta os jogos. Não acerta uma mas o importante é ser corintiano. É isso que vale.
Quase disse a ele para que time eu torcia, mas não estava tão bêbado assim.

(Alcino Bastos)

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Toda segunda-feira , por alguma razão, me dou o direito de ler o jornal inteiro. Sei que hoje existem várias ferramentas digitais que calculam com precisão a distância entre um ponto e outro mas sempre acho que vou acertar de cabeça. Levo 15 minutos dirigindo entre minha casa e o Instituto se acordar as nove da manhã e ler três cadernos do jornal, mas hoje é segunda-feira.

(Fernanda Brenner)

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Sobre cães e adiposes

– O seu é o amarelo ou o malhado?
– O sardento.
– E o seu? O mais gordo ou o mais magro?
– O meu cachorro não é gordo. É forte.
– Eu me atrapalho porque as coleiras são iguais.
– Não estou falando de coleira. Meu cachorro é forte. E daí se ele gosta de arroz com frango? Você está me julgando. Julgando meu cachorro.
– Bem, na verdade, isso nem é comida para cachorro.
– E você não é veterinário. E aquele solto ali? Está com você também?
– Volta aqui, Tocha!

(Elidia Novaes)

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KURO OBI*

Uma faixa na cintura não significa uma flexibilidade nos quadris, nem que o corpo responda de modo espontâneo aos seus comandos.
Uma faixa na cintura não quer dizer nada, por mais que você prepare esta pessoa que traz a faixa na cintura a ter flexibilidade nos quadris e que o corpo dela responda aos seus comandos.
Uma faixa na cintura apenas indica um tempo, um percurso, ou uma falha sua de ter permitido aquela faixa naquela cintura.
* faixa-preta

(Samir Mesquita)

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Um pão na chapa…não, espera…aquele pão na chapa com requeijão, sabe?, que fica bem tostadinho?, você fazem?…manda um. E um suco de laranja.

Sempre nos olham assim, né, Rodrigo, como se fôssemos PM que entra nas padarias com vale-coxinha, como se eu não fosse pagar pelo pão com requeijão tostado, mais caro. Ou nos olham assim porque acham que ficamos com parte do que recolhemos por aí e podemos pagar pelo mais caro na padaria? Suco no lugar de média, pão com requeijão tostado em vez de pão com manteiga. Agora todo mundo tem olhos pra gente, todos os dias nossos uniformes pretos na tevê e nos jornais carregando computadores e malas com dinheiro pra lá e pra cá, e aquele japonês da Lava Jato ainda foi nos foder, ninguém já separava mesmo o joio do trigo, agora, então, perdemos o respeito, mas esse uniforme aqui é bonito pra caralho, tenho um puta orgulho, desde criança era o que eu mais queria vestir, nada de conjuntinho e salto alto, queria esse pretinho básico aqui, vou é pedir mais um pão na chapa com requeijão tostado e uma tortinha de morango. Duas. Pra levar.

(Luciana Gerbovic)

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É amanhã! Melhor desmarcar? Tô perguntando isso desde as 10 da manhã e você fica aí com essa cara de bunda sem dizer uma palavra. É amanhã, entendeu? O prejuízo vai ser muito mais seu do que meu.
E tem mais uma coisa, a substituição do Bira por aquele percursionista novo deixou a banda meio capenga, eu não gostei. O ensaio ontem foi péssimo, você não tava lá então não sabe.
E agora essa, não dá, não vou conseguir fazer Atrás da Porta com toda aquela angústia se no meio eu tiver esse ataque de tosse. Desmarcamos? Vai continuar com essa cara de bunda sem dizer nada?

(Lidia Izecson)

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Último andar

A salada verde vermelha no prato na mesa na sala do
apartamento do 14o andar onde no quarto no lado leste do prédio
dorme a menininha doente no berço, 236 da Heitor, edifício Régio,
feito em 1973 por ordem da Igreja Católica, feito de pastilhas laminadas
cor de leite número 25 e ocre número 42 dispostas em colunas assimétricas,
o ocre nos detalhes, a menina dorme no berço no quarto do 14o andar,
acima só um teto falho de telhas metálicas que se movem em toda chuva.

(Isabela Noronha)

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Burocracia

Quando a moça do atendimento burocrático estiver diante de mim, não se lembrará que já estive aqui. Para logo me dispensar, dará a mesma informação pela segunda vez: pedirá para eu agendar um horário pelo site. Então saberei que esse condicionador de ar desligado para economizar energia; essa saleta de 3×3 com pé-direito desproporcional e duas claraboias encharcadas de limo são pilares da destruição do nosso bem-estar-social. Sairei contaminado, odiando ainda mais os prédios públicos projetados por algum sujeito desesperado para pagar suas contas e seus impostos.

(Edmar de Souza)

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Fingi que estava dormindo quando o ouvi falar, a quatro estações do meu destino, que era melhor pedir que roubar, mas antes que ele chegasse a mim com o papelzinho, “qualquer coisa ajuda”, tive vergonha dele (ou de mim) e fingi que despertava. Percorri mentalmente a carteira e, enquanto ninguém lhe oferecia nada, quis muito que chegasse logo minha estação. Eu não posso dar dinheiro a uma criança (era uma criança? Acho que sim) – não depois de hoje, desse dia difícil no fórum. Lembrei de duas moedas no bolso do casaco, esperei que ele se aproximasse pra decidir o que faria, mas quando a porta se abriu, ele pulou pra fora do trem.

(Carla Kinzo)

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o vermelho daquele ano

Noemi pediu que casa um de nós escrevêssemos um trauma em um papel e passássemos ao amigo ao lado. A ideia era fazer um trabalho entre o presente e o passado: a personagem está vivendo no presente e se lembra de um trauma do passado.

*

INOPERÁVEL

É nessas horas que a gente pensa em se tornar vegetariana. A cabecinha, depois a água fervendo e as penas arrancadas aos poucos, primeiro com as mãos, daí com a pinça. De que adianta? Continua sendo um frango. O corpo ainda se mexe, mesmo depois do corte. Movimentos involuntários, dizem. E o que fazer das vísceras? O coraçãozinho, a pele, o fígado. Hoje não doaria mais os órgãos. Não doaria mais nada. Guardaria tudo comigo, para continuar olhando até a gente desaparecer, até a gente desaparecer junto. Porque lembrar de quando ela aprendeu a falar e a primeira palavra foi cocô já não é mais divertido. O pequeno cérebro que, aos poucos, doía mais do que funcionava. O tumor crescendo e o olhar complacente do médico. Preferia lembrar do nome do remédio que passei em seu joelho depois daquele tombo na praça, quando eu disse que ia parar de doer. Eu jurei que não doía mais. Preferia não ter mentido. Nós seríamos, as duas, vegetarianas agora.

(Elidia Novaes)

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Ela, olhos castanhos quase pretos por trás dos óculos, cabelo não se sabe de que cor e textura debaixo da toca, boca escondida, boca escondida é bom, boca e dentes escondidos, boca e dentes escondidos é bom, boca e dentes atrás da máscara, não dentes, não dentes, não dentes, calma, é só a dentista, não dentes, não dentes, não dentes, que lhe pedia para segurar o espelho, não espelho, não espelho para a perna mutilada sem anestesia na boca de um, na boca de um, na boca de um, um dia falará, na boca de um tubarão, sem anestesia, a gente desmaia, o bom é que a gente desmaia sem desmaiar, não sei, não vi, vi boca, vi fileiras de dentes, vi mar, vi vermelho, vi perna não perna, anestesia, anestesia, doutora, para a menor cárie, por favor, anestesia, e o espelho para enxergar melhor o trabalho bem feito, sem cárie, sem tártaro, sem gengivite, vi gengiva, dentes pontiagudos, fileiras, não vi, vi vermelho, vi azul, vi minha perna na boca de um, na boca de um, um dia falará, o espelho não, não precisa, doutora, confio no trabalho, não, não tire a máscara, não agora, não dentes, não sorriso, um mundo banguela, seres banguelas, só termine, doutora, só termine.

(Luciana Gerbovic)

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Eu sei que você me ama, eu sei, acredito, gostei do anel, é lindo, parece um antigo que eu perdi, mas aquele não era tão bonito, tinha um brilho meio falso, falso como foi tudo, como era o jeito dele pra conseguir o que queria. Olha a lua como está clara hoje, e tem um brilho, parece o brilho desse anel que você me deu. A lua era clara e eu e ele, o canalha, eu tão menina, tão feliz, tão crédula, corola intocada. Acredito que você me ama, é lindo o anel, vou usar sempre. E ele me convenceu, adoro você mais do que tudo e meu pai, minha mãe, eu sem saber explicar o sumiço, e agora o brilho da lua já desaparecendo, como um dia você vai também fazer, você e esse anel tão lindo, me deixando só com a lua.

(Lidia Izecson)

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A balburdia daquela festinha: um corre-corre, gritinhos estridentes e a criançada tentando ver de perto os presentes do Carlinhos.
Zeloso de suas posses recém adquiridas, ele foi juntando tudo na caixa grande do caminhão tanque.
Flavia, um tanto alheia, observa o neto cumprir com seriedade esta tarefa de proteger o que é seu. Ela pensa que não protegeu bem seu bem maior. Naquele sábado ela tomava champanhe e conversava despreocupada com amigos. Enquanto isso sua filha querida enfrentava seu desespero íntimo, suas horas derradeiras.
– Mãe!
Quando seu filho chamou, sua atenção retornou ao aqui e agora. A festinha alegre do neto.
Pelo canto dos olhos reparou em sua neta Celina debruçada sobre a caixa de brinquedos. Quando ela se levantou, tinha nas mãos o lança dardos de plástico. A menina empunhou o brinquedo, introduziu o cano na boca e começou a chupar como se fosse pirulito.
Flavia desesperou pois enxergou a cena – uma cena que ela criou, não sabe se foi assim – a cena em que a moça bonita e inteligente, sua filha caçula, enfiou a pistola na boca e puxou o gatilho arrancando a parte de trás da cabeça.
O “não” ensurdecedor que gritou para a neta, fez com que a menina corresse e fosse chorar na saia da mãe.
Flavia desculpou-se rapidamente com todos e foi para casa chorar.

(Alcino Bastos)

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“Não consigo fazer nada melhor”, e João posiciona as pedras no tabuleiro, encostando a letra “U” e “A” no “R”, que faz parte da palavra “mulher”. Pina bebe o vinho muito alegre, ainda distraída com as cutucadinhas de Mirra, mesmo sendo sua vez de jogar. “O que vem aí?”, pergunta ao marido um pouco embriagada. “Mulher” e “Rua” e agora Pina se esforça com suas próprias pedras no cavalete, pegando a letra “N” e “A”, que podem formar “Nua”, encostadas no “U” de mulher. “Ta calor aqui, num tá?”, Pina se abana e João se dispõe a abrir a janela, mas ela não quer, de repente, irritada com o marido, pensando que nem todo homem gentil de fato pode ser confiado. “Não, João. Estou bem”. E as pedras ainda nas mãos fazem as palmas soarem. O peito avermelhado de calor e descoberto pelo decote, de súbito, causa constrangimento e ela diz. “Me empresta a blusa, Mirra.” “Mas você não estava com calor?”, e a amiga estende a malha. No tabuleiro, a mulher na rua, poderia estar nua, mas Pina não larga as pedras das mãos. Encara o marido, o homem que colocou a mulher lá.

(Rachel Poli)

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O ônibus vermelho de dois andares parou e ele estendeu o pé para o primeiro degrau. A viagem tão planejada a Londres estancou. Sons de tossidinhas discretas queriam fazê-lo avançar, os londrinos são educados. O carro parecia estar a uma distância infinita, ali, virando a esquina naquele final de dia. O passo não rendia, o coração cozinhava no calor insuportável como o do dia no fusca, do vermelho vivo que só foi fabricado naquele ano.
Apoiou-se no cano da porta para se erguer pelo segundo degrau e alcançar o interior do ônibus, o motorista com cara de espanto desagradado, e a esquina do fusca não chegava, e o seu corpo deitado no banco de trás de manhã, latido agradecido pelo passeio.
Sentou no primeiro assento, com a visão escurecida, sem enxergar a Londres sonhada.
Quando chegou ao fusca, ele estava com os olhos mortos, língua de fora e unhas cheias do vermelho daquele ano.

(Eva Maria Lazar)

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Entra no quarto de estudos e escuta a babá com a menina lá embaixo no quintal. Tomam banho de mangueira, a babá, nova no posto, tinha pedido autorização, Presa na cadeira, ela deve sofrer nesse calor. A babá ri, a menina geme. De felicidade!, a mulher diz para si. Felicidade! Mas vem um vento e ela se lembra de que precisa organizar o quarto. E quando fecha a janela naquele dia de luz, sente-se cega por instantes, tropeça num sapato esquecido, quase cai, se confunde, busca o chão e acaba nele, reerguendo-se devagar, só, no escuro, como no dia que soube da doença do bebê em sua barriga.

(Isabela Noronha)

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Era vagaroso que andava – e curvado. Como era possível um animal de quatro patas estar tão curvado, olhando apenas para o chão? Maldito chão que não acaba; a impressão daquela noite era que a estrada não terminaria jamais – fechou os olhos como se freasse. Sentiu o focinho do animal tocar as pontas dos dedos. Estava velho. Somos dois, meu rapaz. Ou sou só eu? Era subitamente um velho naquela noite e desde então, há vinte anos atrás. Agarrou as orelhas do bicho, algo nele continha aquela velha cena: um homem olhando pra mim, deixando de olhar para mim, um homem no chão e, então, um homem que já não está mais. Era isso, aquele homem. Era ele que voltava, estou aqui, vê? Ainda. Na estrada, sob suas rodas.

(Carla Kinzo)

lufa-lufa

Cada um de nós recebeu uma frase no passado, no presente e no futuro. Essas frases deveriam ser colocadas, da forma como recebidas, em um parágrafo que tivesse sentido. As frases estão em negrito.

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É o lufa-lufa da vida na grande cidade. E pra gente que chega, assim, desavisada? Quer dizer, avisar, avisam, mas quem acredita que a gente entra mesmo num vagão do metrô sem querer e não sai quando chega na estação porque não alcança a porta? E que se gasta quatro, até cinco horas do dia, no transporte público, só pra ir e voltar do trabalho? Me contavam, mas eu não acreditava porque na desgraça todo mundo exagera. E quando cheguei na rodoviária, aquele cheiro de sujeira no ar, tudo cinza e frio, tão perdida quanto eu estava uma cachorrinha no meio da rua, parecia um graveto. Peguei no colo e levei pra casa, nós duas vamos descobrir isso aqui e engordar, eu disse pra ela, que batizei Nena, apelido da minha mãe que ficou longe. Dez anos. Dez anos com a Nena me esperando chegar do trabalho, aquecendo a minha cama. Tenho uma Nena aqui, eu dizia pra minha mãe, que ria. Sofri muito quando minha cachorra morreu. Não quero mais. Voltarei depois que tudo acabar.

(Luciana Gerbovic)

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Quando seu quarto pegou fogo por causa da vela na cabeceira da cama, o velho saiu caminhando pela rua como um cego amparado pela bengala. Com o branco nos olhos, o choro escorrendo e a humilhação aos saltos, deixa-se levar pela lua que sussurra no seu ouvido: a pescaria de domingo vai ser um sucesso.

(Lidia Izecson)

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Ela toma um sorvete de açaí e observa a menina brincando.
Mesmo sabendo que haverá um momento cheio de silêncio e algum constrangimento, não resiste.
Na altura da filha, lá embaixo, estalou um beijo na testa, que demorou o tempo dela fechar os olhos e fazer carinha de brava.
– Mãe, para com isso!”

(Alcino Bastos)

*

Quando eu for velho vou me lembrar do que acabou de acontecer e darei o troco. Tenho tempo, venho estudando há anos como voltar lá; aprendi muito, estou entupida de conhecimento. A coisa aconteceu sem eu me dar conta, distraída pelos pensamentos. Há horas passeava por aquele campo, ele veio em marcha batida pela estrada do alto. Passou por mim, dei bom dia. Já me afastando, senti a pedrada nas costas ao som da risada louca dele. Ah, me aguarde, um dia eu volto.

(Eva Maria Lazar)

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Mas eu sirvo o jantar sem ele?, ela pensava, enquanto estendia a toalha; semana passada já foi a maior confusão porque esse homem se atrasou e eu tive que esperar a gritaria terminar pra pensar em voltar para casa; é, eles brigam e eu pago o pato, ela sofria, mas antes que alcançasse os pratos, ouviu o patrão abrir a porta, “fui comer uma pizza“; eita que é hoje que a porca vai torcer o rabo.

(Carla Kinzo)

a polpa da cômoda

Noemi nos pediu para criar metáforas inesperadas. Cada um de nós colocou em um papel uma palavra. Elas foram sorteadas e cada um recebeu dois papéis. Foi a partir desse encontro de palavras que as metáforas foram criadas.

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Palavras: vaso e língua.
Ela está sempre com a língua no vaso = Ela só fala merda.

(Lídia Izecson)

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Palavras: cabide e palito de dente.
Magra (ou frágil etc.) como um cabide (feito) de palitos de dente.
Fazia cabides para palitos de dente = fazia inutilidades.

(Alcino Bastos)

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Palavras: vento e guarda-chuva.
Vento guarda-chuva: Aquele vento forte que vai e volta.

(Eva Maria Lazar)

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Palavras: lagartixa e espelho.

Lagartixa de espelho: pessoa que não consegue parar de se olhar, tem fissura pelo espelho, é apaixonada pelo próprio reflexo.

(Isabela Noronha)

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Palavras: lugarejo e intriga.
Intriga de Lugarejo: fofocas localizadas, pequenas.
Lugarejo de Intriga: lugares ordinários, onde brigas acontecem.
(Rachel Poli)

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Palavras: lesma e folha(s).
Folha de lesma: aquela escorregadia, não permite avanços.
Lesma de folha: o que vai engolindo tudo, leitor, escritor, devoradora de palavras e ideias.

(Elza Tamas)

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Palavras: polpa e cômoda.
Polpa da cômoda é uma expressão de origem incerta. Alguns dizem que vem da França de Luiz XV, que vivia às turras com sua consorte (?!), Maria Leszczyñska. Ora, em uma das muitas anunciadas separações do casal imperial, a imprensa marrom noticiou em primeira página: “15 e sua nr.1 prestes a separar até a polpa da cômoda.” Aparentemente, ela intuiu que a expressão nr.1 fazia referência a Madame du Barry, então amante do esposo – a nr.2. Amigos do casal afirmam que foi tanto fuzuê que Maria botou fogo na tal cômoda… até a polpa.

Mas a expressão atravessou o Atlântico e, de nó náutico em nó náutico, assumiu sentido inverso. Funcionários da mansão Aniston-Pitt são unânimes em dizer que a seguinte frase constava dos votos trocados na cerimônia de casamento. “Estamos determinados a compartilhar nossas vidas pela eternidade. Da cômoda, até a polpa.”

Outra vertente dá conta de que, ao criar sua célebre Poltrona Mole, Sérgio Rodrigues teria se sentado durante a semana do design de Milão e afirmado perante membros da imprensa, fotógrafos, outros designers e o público em geral enquanto dava tapinhas de leve em sua própria nádega: “é cômoda até a polpa”.

(Elidia Novaes)

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Palavras: guarda-chuva e calo.

Guarda-chuva de calo: uma mágoa muito profunda.

(Carla Kinzo)

 

o ser sol e a folha sulfite

Noemi nos pediu para sortearmos duas situações: uma importante e outra bem trivial. Deveríamos colocar duas pessoas conversando, uma falando sobre a coisa importante e a outra falando sobre a coisa trivial.

*

Luciana sorteou: 1. Morte da filha no dia de seu baile de debutantes | 2. pessoa com coceira atrás da orelha por causa de xampu seco.

– Ah, que bom que você voltou, como você tá? Imagino que péssima, não dá, né, pra superar, quer dizer, dá, mas, nossa, a gente rezou muito aqui por você, todos os dias, nem sei o que te falar…

– Não precisa falar nada, não… sei que rezaram, me ajudou muito, obrigada, mas como uma mãe supera a morte da filha no dia da sua festa de debutante, como?

– Não sei, não sei mesmo, que coisa mais triste, meu Deus, não repara não nessa coceira que eu tô, viu…

– Tudo bem, nem sei como levantei da cama esses dias todos, ainda bem que tenho esse emprego.

– Acho que fiquei com shampoo atrás da orelha. Sabe quando seca e coça?

– Não.

– E fica parecendo que eu tô distraída, né, mas olha…

– Eu sei, eu sei, tá tudo bem, fiquei dois meses fora, a diretoria foi tão compreensiva comigo.

– Mas você nunca ficou com shampoo seco atrás da orelha? Nunca?

– Não, acho que não, nem sei mais como eu lavo o cabelo…

– Nossa, que sorte a tua, olha pra mim, parece que tô com sarna.

– É. Bom, deixa eu ir, tô atrasada.

(Luciana Gerbovic)

*

Alcino sorteou: 1. dia de defesa da tese de doutoramento. | 2. pessoa removendo os pelos do buço.

– Beth, vamos! Preciso sair agora. Chegar antes, me posicionar, deixar o material no jeito.
– Um minutinho só pelo amor de deus! Não posso remover antes de cinco minutos.
– Tinha de fazer isso agora? Você quer que eu passe vexame; é isso?
– Ah, Alice! Não faz drama vai? É tudo proforma. Defesa de tese é só encenação.
– Ah é? Você é que não tem ideia. Sabe quem está na banca?
– Não sei e não quero saber e também não quero mostrar meu bigode para ninguém, tá?
– Não tem bigode nenhum. Está tudo perfeito. Você sabe disso.
– Ai meu deus. Olha só como ficou! Removi antes do tempo. Tudo vermelho. Vai embora, vai! Hoje eu não vou sair de casa.

(Alcino Bastos)

*

Rachel sorteou: 1. pessoa que ganha na loteria. | 2. alguém estalando os dedos.

– Ó, ó. Viu?
– Francisca, Francisca.
– Tá vendo? Não para mais.
– Francisca, olha isso aqui, peloamordedeus.
– Meu dedo vai ficar roxo, Maria. Vai cair. Tem que parar.
– Preciso ligar para as pessoas. Pensando bem, se eu sair contando pra todo mundo…
– Que meus dedos vão cair?! Não conta! Ele vai parar de estalar em algum momento. Tem que parar.
– Eu preciso parar de pensar pequeno. Agora posso contratar alguém para fazer tudo por mim. Será que vão repetir os números na TV?
– Você notou essa mudança? Antes, era o indicador, agora é o do meio. Será que quebrou?
– Não se preocupa, Fran. Eu te compro uma mão nova. Só preciso achar a próxima lotérica…
– Na lotérica tem implante de dedo? Segura a minha mão, Maria! Faz parar!
– Parar? Não quero que isso acabe nunca mais. Agora, a gente só para, quando chegar a Paris!

(Rachel Poli)

*

Samir sorteou: 1. encontro de adoração ao sol. | 2. alguém empilhando folha sulfite.

– Sai dessa posição e vem me ajudar.
– Não vê que estou impossibilitado no momento, o Ser Sol pode depois me punir com um eclipse total.
– Mas isso aqui é urgente.
– Uma pilha só é urgente se for alta suficiente para nos levar até o Ser Sol. Mas uma pilha de papel sulfite nem para isto prestaria, porque logo se queimaria.
– Mas pra gente não se queimar com o chefe é melhor você me dar uma mão aqui, vai.
– O Ser Sol merece respeito e devoção mais do que nosso chefe.
– Bem, só espero que te ensinem também nessa parada aí a se alimentar de luz.

(Samir Mesquita)

*

Carla sorteou: 1. encontro de adoração ao sol. | 2. alguém empilhando folha sulfite.

– Então.

– Espera um pouquinho, espera um pouquinho… Que número que eu te falei?

– Dezoito?

– Dezenove! Isso. Ufa. Continua.

– E aí eu tô de branco desde ontem, mas é hoje que é obrigatório. Só que eu quis garantir, e olha, deu certo, você viu que manhã? Que sol?

– Ahã.

– Vai ser lindo. Você tem algum pedido? Porque eu posso mentalizar você na hora, tem? Vai ser meio-dia em ponto.

-Sim.

-Qual?

-Qual o quê?

-Pedido, flor!

-Espera um pouquinho… Ok. Vinte e quatro. Grava pra mim. Que pedido?

(Carla Kinzo)

*

Eva sorteou 1. Morte da filha no dia de seu baile de debutantes | 2. pessoa com coceira atrás da orelha por causa de xampu seco.

Nunca imaginei te ver aqui.
Pois é, nem eu me imaginei.
Fica calma, tenta vai, a vida tem umas coisas que a gente não entende…
Logo hoje? Logo hoje, Mazé?
Nem fala, tanta preparação, tanta expectativa…
A gente deveria estar cortando o bolo bem agora.
E a valsa? Teu marido numa elegância.
Mazé, não tô conseguindo nem ficar em pé… Mazé, o que você tanto coça esta orelha, mulher? Tá me deixando mais desesperada ainda!

(Eva Maria Lazar)

Hum-hum, acontece. É, acontece.

Noemi nos pediu para imaginarmos uma situação e contá-la em dois diálogos, cada um tendo um interlocutor diferente.

*

1.

Nossa, o que aconteceu com a porta do carro?

Ah, bateram.

Nossa, mas como bateram? Quem bateu?

Eu.

Você bateram?

É, bati. Eu bati. Na garagem, aquela coluna, sabe?, aquela coluna que a gente não consegue ver, naquele ponto cego, eu não olhei, quer dizer, eu olhei, mas…

Mas, o quê? Você olhou? Não olhou? O carro apita todo quando se aproxima de algum objeto.

Então, mas aí, bem aí na porta, não apita, e eu não vi. Não vi, ué, acontece.

Hum-hum, acontece.

2.

Nossa, o que aconteceu com a porta do carro?

Puta que pariu, bati manobrando na garagem, não vi a coluna.

Não viu a coluna?

Não vi a coluna, ué, saí toda torta, olhando o whatsapp, terminando de passar a maquiagem, ah, essa correria danada todo dia, puta que pariu não aguento mais correr desse jeito, não vi a coluna, acontece.

É, acontece.

(Luciana Gerbovic)

*

1.
Meu Deus, foi quase! Quase, quase, quase. Me distraí falando com você e passei num amarelo quase vermelho e veio um ônibus e…Não, a Marina não tá no carro. Hum. Mas eu disse que precisava desligar e você veio falando da festa da vovó, hum. Hum. Então…Hum. Deixa…Hum, ó, tá, agora preciso ir mesmo, beijo!

2. Senhor, olha, me desculpe, me desculpe mesmo, mil desculpas. Mas é o que o sinal ainda não estava vermelho, o ônibus também foi um pouco afobado, eu, sabe, eu sou mãe, viu, uma menininha, é, dez meses, não ia me arriscar assim, né.

(Isabela Noronha)

*

1.
– Eu entendo. Mas uma viagem tão longa?
– Como assim? Seis meses?
– Então; você não prefere primeiro tomar pé no trabalho e depois, com mais dinheiro…
– Não vai fazer falta. Eu não fico no Ritz, sabe? Não fico vendo estrela de restaurante para comprar meu sanduba.
– Bom, você já tem idade para saber. Só acho que sua mãe vai ficar triste.
– Ah sei! Quando ela perceber já estou de volta. Aí conto para ela que fui, tá?

2.
– Nossa! Demais mesmo. E o Carlinhos?
– Ué! Vai comigo.
– E seus pais? Sabem?
– Da Viagem. Do Carlinhos nem pensar. Sou louca por acaso?
– Se inveja matar então já morri.
– Sabe que minha mãe nem falou nada?
– Como assim? Não perguntou nada?
– É. Nem para onde eu vou.

(Alcino Bastos)

*

1.

– Finalmente.

– Finalmente o quê?

– Finalmente vou poder mexer com madeira, vou fazer aquele curso de marcenaria agora, pensa que não?, vou mexer com parafuso, martelo, prego, furadeira; o tempo é meu! Meu!

– Mas o que houve?

– Saí! Pedi as contas! Sou um homem livre!

 

2.

– Então.

– O quê?

– Tenho que te contar uma coisa.

(…)

Tive que pedir demissão.

(Carla Kinzo)

O bem-casado

Noemi propôs a Carla que fizesse a adaptação do conto “O pastelzinho”, de Nelson Rodrigues, de modo que fossem explorados os diálogos.

*

  1. DIA – CORREDOR DE HOTEL

Não há ninguém, além de Sérgio, um homem de aproximadamente 40 anos, no corredor do hotel. Ele está bem vestido, terno, camisa, mas nota-se que sua gravata está afrouxada no pescoço. Sérgio está em frente a uma das portas do corredor, da qual não tira os olhos. Está visivelmente nervoso, mas se contém Ele faz que vai bater à porta, mas desiste, a mão em concha no ar. Com a mesma mão débil, investiga o maço de cigarros nos bolsos da camisa – sim, o maço está ali. Ele checa o relógio de pulso, quase seis, depois olha para os lados. Não há ninguém. Sérgio faz uma nova tentativa. Desta vez consegue bater com o nó dos dedos nervosos na porta, encorajado pela solidão do corredor.

 

SÉRGIO (a voz contida) – Dalva.

 

Tempo.

 

SÉRGIO (mais assertivo) – Dalva!

 

Sérgio tenta abrir a porta, mexe na maçaneta. É então que a mulher do outro lado responde.

 

DALVA – Sérgio, por favor!

 

SÉRGIO – Meu bem…

 

DALVA (enérgica) – Por favor, Sérgio!

 

SÉRGIO – Eu só queria te…

 

DALVA (definitiva) – Fica aí!

 

Um casal passa no fundo do corredor. Sérgio olha para eles com o canto dos olhos, como que pego fazendo algo errado. O casal não percebe que ele está ali; eles conversam animadamente, apaixonadamente. Esperam o elevador. Sérgio espera que eles saiam. O elevador demora. Sérgio transpira. Ele limpa o suor da testa com os punhos da camisa. Ouve-se o soar da chegada do elevador. O casal sai da visão de Sérgio. Suas vozes se distanciam. Sérgio espera que elas sumam de vez para tentar falar com Dalva mais uma vez.

 

SÉRGIO (batendo uma única vez com o nó dos dedos na porta) – Dalvinha…

 

Tempo.

 

SÉRGIO – Dalva!

 

DALVA – Meu Deus, Sérgio!

 

SÉRGIO (cuidadoso) – Querida, não é o caso de um… elixir paregórico?

 

DALVA (quase histérica) – Não!!!

 

Sérgio vira os olhos, impaciente. Agarra sem prudência um dos cigarros do maço dentro do bolso, enfia-o na boca; retira do bolso da calça um isqueiro e, ao se virar sobre os calcanhares, acendendo o cigarro, dá de cara com um funcionário do hotel. Eles se encaram. Tempo.

 

SÉRGIO (irritado) – Que foi?

 

FUNCIONÁRIO – É que. Não pode fumar aqui, senhor.

 

SÉRGIO – Ah.

 

FUNCIONÁRIO – Me desculpe, senhor, mas.

 

SÉRGIO – Sim, sim.

 

Sérgio tira o cigarro mal aceso da boca e, sem jeito, acaba quebrando-o ao meio.

 

SÉRGIO – Mas que merda, que merda.

 

O funcionário está saindo devagar, quando Sérgio se vira para ele.

 

SÉRGIO – Por favor!

 

FUNCIONÁRIO – Sim.

 

SÉRGIO – Acha que…

 

Tempo. Funcionário parado olhando-o. Sérgio olha para a porta.

 

FUNCIONÁRIO – Senhor?

 

SÉRGIO (falando mais baixo, afastando-se da porta pela qual conversou com Dalva) – Rapaz, acha que poderia ir até a farmácia para mim?

 

FUNCIONÁRIO – É que. Eu não posso…

 

SÉRGIO – É caso grave.

 

FUNCIONÁRIO – …deixar meu posto…

 

SÉRGIO – É vida ou morte, rapaz!

 

FUNCIONÁRIO – …sem autorização do meu superior…

 

SÉRGIO (retirando dos bolsos uma nota de dinheiro) – Por acaso isso aqui…

 

FUNCIONÁRIO (olhando para os lados) – …e se alguém me vê sair…

 

SÉRGIO (com a nota no ar) – …isso ajuda?

 

  1. DIA – RUA EM FRENTE AO HOTEL

O funcionário do hotel está esperando para atravessar a rua e retornar. Ele olha ora para os lados, ora para a avenida. Está apressado – e não quer ser visto. Tem nas mãos um pacotinho de farmácia, com o elixir dentro. O farol demora para abrir para pedestres. É então que ele ouve um grito e, súbito, o corpo de uma mulher cai em frente ao hotel. Gritaria, confusão. Funcionário atônito.

 

 CORTA PARA CRÉDITOS:

O BEM-CASADO

Adaptação do conto “O pastelzinho”, de Nelson Rodrigues, por Carla Kinzo

 

 

  1. DIA – SALA DE DEPOIMENTO/DELEGACIA

Os depoimentos a seguir compõem uma longa sequência de cenas, não enumeradas. A ideia é que haja uma composição polifônica sobre o ocorrido.

O AMIGO, um homem de aproximadamente 40 anos, dá seu depoimento.

 

AMIGO – Foi. A gente conversou pouco antes do casamento. Coisa de. Coisa. Cara, coisa de amigo, entende? É que ele tava preocupado com a noiva. Não, não com ela, mas com eles, entende. Não, eles não tinham um problema não, não é isso. É que Sérgio é um homem. Um homem. É um homem por natureza emotivo… É normal que se preocupasse. Com a primeira. Com a primeira… Cara, com a primeira, entendeu?

 

O MÉDICO, um homem de aproximadamente 60 anos, dá seu depoimento.

 

MÉDICO – Eu o atendi, sim, dia 14. Uma semana atrás. Eu ainda pensei que pudesse ser o caso de um calmante, mas depois, conversando melhor, achei que não. Acontece, as pessoas ficam ansiosas, é natural que às vésperas do… Como? Agitado…? Pode-se dizer que sim, um pouco.

 

O FUNCIONÁRIO DO HOTEL dá seu depoimento.

 

FUNCIONÁRIO – Elixir paregórico. Não faço perguntas, doutor. Não, não podia sair, mas acontece que. Bem. Ele disse que era caso de vida ou morte. É, ele disse. Confirmo. Tava. Olha, doutor, eu só fui atrás do elixir, não fiquei olhando muito pra ele não.

 

O SOGRO dá seu depoimento.

 

SOGRO – Sim. Obrigado. Eu só quero resolver isso o mais rápido possível. Pode ser sem ser gelada, obrigado. Eu nunca gostei desse homem. Nunca. A Dalvinha não era disso, depressão… E o que é que é isso, depressão? Minha filha era um doce, tranquila, sem um pingo de tristeza nos olhos. (Emociona-se) Perdão. Mas me diz, meu bom rapaz, por que uma noiva se atira da janela na noite de núpcias? Ou ela foi jogada…?

 

A DOCEIRA dá seu depoimento.

 

DOCEIRA – Meus doces nunca deram problema, isso é uma afronta, há trinta anos que eu trabalho com casamentos, a história desse noivo é um absurdo completo e eu me recuso a continuar com essa palhaçada! (Tempo. A doceira se apazigua) Tá bom. Tá bom! Olha, podem checar minha cozinha, data de validade de tudo, meu bem. Não uso nada estragado, nada passado, nada vencido e nem perto de vencer, é tudo fresco, limpo, higienizado, organizado, embalado no mesmo dia com três qualidades de papéis finíssimos!

 

O TAXISTA dá seu depoimento.

 

TAXISTA – Eu sei lá, eu não fico, assim, ouvindo conversa alheia quando tô trabalhando. Ok. Ela tava. Com uma cara, assim, incomodada. É. Cara de gases. Ele queria era chegar logo, falou pra eu correr, mas olha, eu não ando acima da velocidade, viu. Eu sei lá, coisa minha.

 

Os depoimentos seguem cada vez mais entrecortados.

 

MÉDICO – Sim, a recomendação era evitar as frituras.

 

DOCEIRA – Não, os bem-casados não são fritos, que pergunta.

 

FUNCIONÁRIO – Sim, só elixir paregórico.

 

AMIGO – Não, eu não vi ele comendo nada na festa.

 

SOGRO (bebendo um copo d’água) – Uma coisa é certa, eu sempre tive o pé atrás com esse um…

 

DOCEIRA – 30 gemas, 20 claras, farinha e açúcar. (Tempo) Que foi? É, doutor, é bastante ovo.

 

AMIGO – Disse. Ué, mas é verdade ou não? A primeira noite é quando se decide tudo. Ou tô errado?

 

DOCEIRA – Se não tiver ovo, não tem doce, é simples desse jeito, agora a culpa de tudo é o ovo?

 

MÉDICO – A recomendação era dar preferência aos bifes, às carnes assadas, melhor ainda se sangrentas.

 

TAXISTA – Ela pulou do táxi, isso foi, saiu correndo. Ele? Assim, ele tava com uma cara meio branca, meio sem sangue, assim, sei lá.

 

MÉDICO – A recomendação é evitar esse tipo de docinho.

 

AMIGO – Eu comi um monte no fim da festa…

 

SOGRO – Dalva nunca foi de se empanturrar!

 

AMIGO – Não notei nada. Bom, minha mulher achou o doce pesado…

 

FUNCIONÁRIO – A camareira disse que ouviu o homem aos berros, “foi o bem-casado, o bem-casado!”

 

AMIGO – Conheci assim, assim. Sei que não falava muito. Aliás, era uma esfinge. Não transpirava; o cabelo sempre no lugar, moça fina.

 

MÉDICO – Pode ser que ela tenha tido uma reação emocional a tudo aquilo, pode ser que tenha sido um mal-estar, pode ser.

 

SOGRO – Dalva nunca foi de excessos!

 

DOCEIRA – Não, a noiva não chegou a experimentar antes, não.

 

SOGRO – Quero esse homem na cadeia.

 

AMIGO – Ele não merece passar por isso depois do que aconteceu. Percebe? O cara já tá marcado…

 

MÉDICO – Pobre rapaz.

 

TAXISTA – Eu que não queria tá na pele desse cara.

 

DOCEIRA – Coitada dessa menina.

 

SOGRO – Estava tão linda a minha filha. Parecia uma rainha.

 

AMIGO – Pareciam tão bem os dois na cerimônia.

 

FUNCIONÁRIO – Ela parecia que voava. Parecia uma coisa que voava. Coitado… E eu nem tive coragem de entregar o elixir paregórico… Será que eu posso deixar o remédio na delegacia, doutor?

 

FIM

“Com o olhar abaixo da linha da cintura”

Noemi propôs que inventássemos expressões novas para cada uma destas situações: I. Não entender nada. II. Fazer papel de otário. III. Ser pego em flagrante. IV. Uma pessoa muito bonita.

*

Não entender nada: cortando queijo com faca de manteiga

Fazer papel de otário: fazendo onda em piscina de bolinha / cortando linha em dia de rapel

Ser pego em flagrante: pegar noivo na farmácia em dia de casamento

(Rachel Poli)

*

Não entender nada: que nem sambista em papo de húngaros

Fazer papel de otário: pescar com o anzol fora da água para não molhar a isca

Ser pego em flagrante: ficou com cara de cachorro que fez xixi no tapete

Uma pessoa muito bonita: melhor que brigadeiro

(Eva Lazar)

*

Não entender nada: confundir sânscrito com grego

Fazer papel de otário: comprar bilhete premiado

Ser pego em flagrante: com o olhar abaixo da linha da cintura

Uma pessoa muito bonita: tão bonita que era até desperdício

(Alcino Bastos)

*

Fazer papel de otário: ser o desentendido da festa à fantasia

Ser pego em flagrante: ser pego com o amendoim preso no dente

Uma pessoa muito bonita: Uma pessoa que faz encurtar minha miopia

(Carla Kinzo)

*

Não entender nada: não conseguir nem caçar formiga

Fazer papel de otário: usar leque de papel em dia de chuva

Ser pego em flagrante: com a gordura do pastel escorrendo até o cotovelo

(Lidia Izecson)

*

Não entender nada: parecer um russo numa aula de samba / estar feito pagão na missa do galo / parecer um advogado numa aula de mecânico dos fluidos

Fazer papel de otário: ficar feito jogador de bolinha pra cachorro /  ficar feito recolhedor de brinquedo de criança

Ser pego em flagrante: ser pego almoçando e cagando / ser pego no bafômetro

Uma pessoa muito bonita: é toda a mitologia deusa / o encontro do Rio Negro e Solimões / é a aurora boreal / parece um congresso do Olimpo

(Luciana Gerbovic)

*

Não entender nada: plantar feijão para colher abóbora

Fazer papel de otário: sair de fantasia na sexta 13 / tentar acender fogueira com canivete

Ser pego em flagrante: viram o buraco da minha meia

(Isabela Noronha)

 

Palavras-cruzadas

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Noemi propôs para Rachel um texto que se fizesse a partir do diálogo de um casal, na cama, antes de dormir. Eles se gostam, mas perderam o interesse um pelo outro.

 

Rachel Poli

– Você tá ouvindo esse barulho?
– De-sen-tu-piii-dor. Há.
– Ah, Augusta, francamente.
– Hahaha!
– Você quer que eu compre um pra você?
– Como você é egoísta, Fernando. É uma palavrinha só.
– Mas aí não sobra nada pra mim.
– Você fica aí parado, parece morto. Resolvi te ajudar.
– Obrigado, Augusta, pelo seu altruísmo.
– Desde quando você se importa com palavras-cruzadas?
– Sei lá. Resolvi ter um hobby.
– Tô vendo. Onde você arranjou isso?
– Você pode soltar o lençol? Tá deitada em cima…
Augusta levanta o corpo com desajeito, se desequilibra e cai. Tenta outra vez. Fernando puxa o lençol e o ajeita milimetricamente ao redor das pernas.
– Sobrou uma pontinha amassada ali — Augusta ironiza.
– Você não ia ver TV?
– Ia. — olha para a TV ligada — Mas tá passando aquela novela lá.
– Aquela do casalzinho, que se apaixona, blá blá blá?
– Nossa, é muito drama! Não aguento.
– Qual é o nome daquele ator mesmo?
– Qual?
– Aquele lá. Do peitoral.
– Peitoral?
– Augusta, você sabe muito bem quem é. O que tem o beiço do tamanho de uma jiboia.
– Ah. Cauã Reymond.
– Esse aí.
– Que que tem?
– Ah, sei lá… Ele tem cara de broxa.
– Broxa?
– É, é. Broxa. A moça fica lá, dando em cima, dando em cima. O cara, nada.
– Huumm.
– Você não acha?
– Ué. Não sei.
– Não sabe?
– Eu lá vou saber se o Cauã Reymond é broxa, Fernando.
Augusta muda de canal. Fernando coça o peito, descoberto pelo pijama de cetim.
– Eu nunca fui desse jeito.
– Hã?
– Meu avô chutava a minha bunda, quando achava que eu tava sendo mole.
– Ah é? O vô Durval?
– Não, o outro. O que morreu.
– O homofóbico?
– É.
– Huuuuuummmm.
– O quê?
– Nada não.
Fernando suspira e pega um maço de cigarro no criado-mudo.
– Ai, Fernando. Sinceramente.
– O quê?
– Nada, nada! Fuma o quanto você quiser.
– Obrigado.
– Te dá bafo.
– E eu ligo?
– Não liga pro bafo, não liga pra saúde, não liga pro teto que vai ficar todo preto com a fumaça… Agora, o Cauã Reymond! Ahhhhh, ele deve ser broxa.
– É. Quer um trago?
– Quero.
Os dois fumam. Augusta cospe a fumaça para o teto.
– Se ao menos isso aqui fosse um beque, hein, Fernando. Quem sabe, a gente não…
– Ó aí. De novo. Tá ouvindo?
– O quê.
– Esse barulho. Abaixa a TV.
– Não tô ouvindo nada.
– Shh. Ó. Ouviu?
– Não.
– Esse nhec-nhec-nhec. Não tá ouvindo?
– Hahaha!
– O quê.
– Deve ser a vizinha.
– … a vizinha? — Fernando amassa as palavras-cruzadas na mão.
– É. A vizinha.
– Qual vizinha?
– A de cima, ué. Qual mais?
– Ahh.
– Desde quando você conhece as vizinhas, Fernando?

 

Hora certa

unnamedPor Carla Kinzo
* versão integral do conto cujo trecho foi divulgado pela Ilustríssima.

Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo o seu fôlego tentando conquistá-lo, era o que você não me dizia da estante, do livro que não me esquecia, que não era você, e que, no entanto, era você inteira – “para que você não se esqueça”.

 

Eu me lembro. Eu precisava esquecer. Primeiro de abril, mil novecentos e sessenta e quatro. Duas e quarenta e cinco da manhã. Acordo antes do despertador. Perco um tempo olhando o teto do quarto, suas manchas. Elas não me dizem muito – e olho. Da janela, uma lufada de vento me lembra que há mais do que o teto.

Lembro que é hoje o dia. O despertador vai tocar em quinze minutos.

Lembro, foi há um ano que te deixei em São Paulo.

 

O tempo sabe dizer do que não saberemos nunca, do que não deveríamos saber. De copos sujos sobre a pia. Daquilo que temos que abandonar ao fazer a mala que talvez precise durar o resto de uma vida. Do que há no verso de dedicatórias breves, em livros que irão para sempre nos perseguir, “para que você não se esqueça”.

 

Duas e cinquenta e dois. Levanto quase sem pressa, mas calculo os minutos que antecedem a chegada do carro que me levará à fronteira. Confiro o que falta fazer: nada. Quase nada. Preciso deixar um trabalho inacabado sobre a mesa. Ainda tenho algum tempo, dá tempo. Devo ser um monge para dar conta dessa espera – e da rua, e de mim, e dessa falta agora, quarta-feira, de repente.

 

Agora, essa palavra que mente. Sinto: devo te escrever. Para me salvar de desaparecer, se tudo der errado. E quem sabe mudar o curso dos acontecimentos; me salvar de desaparecer aqui (outra palavra que mente).

 

Aqui. Agora. Enquanto há algum tempo.

 

Então agora (e aqui): você. Esquecer os ponteiros. E depois, lembrar: são três horas da manhã. Tenho duas horas.

Olho a escrivaninha. O livro que você me deu é grande demais, não há espaço para ele. Olho ao redor: há alguém, outra pessoa em mim, muito desleixada, que me acompanha. E ela quer te escrever, dizer o que está se passando: talvez eu tenha que mudar meu nome. É por isso, é porque devo desaparecer que quero que você não me esqueça, que não deixe ir essa parte de mim que te lembra agora, que carrega o nome que vou ter que esquecer. Minha outra metade, essa que será rebatizada, me diz, prática: seja um monge. Esquece. O tempo é curto. Deixa ir São Paulo, esse livro, o seu nome, deixa Maputo; esquece a ideia de escrever a essa mulher, não há tempo, meios, como dizer.

 

Olho a máquina de escrever sobre a mesa e, depois, o livro que você me deu. Não para que você se lembre do tempo. Agora, Ana, e aqui: esse tempo. Você escrevendo o verbo dos dias que me prenderiam para sempre no dia em que parti – esquecer. (O livro me diz para não lembrar, você me diz para não esquecer; eu não te escrevo, mas fico a sua volta como um besouro) (Você sob o sol: minha lâmpada).

 

Três e quinze da manhã. Sento à máquina, sem café. A mala feita ao lado da cama é pequena, como deve ser. Tento organizar um texto que me dê um álibi em volta do mecanismo das teclas. Se não tivessem me avisado tão em cima da hora, tão sem tempo pra pensar direito, esse texto já estaria escrito. Abro meus cadernos com anotações de um ano atrás, feitas no Brasil; cinema, literatura e, de repente, você: como se diz amanhã em Changana, “você me distrai”; Diz! “Por que, Ana?” Porque sim – e eu me rendo às suas respostas curtas, porque sim, era sempre assim. “Mundzuku”. Então Mundzuku você não vai estar mais aqui. “Vem comigo.” Eu? Em Moçambique? Vou fazer o quê em Moçambique? Você ri. Eu finjo que rio; será que você se dá conta do que acontece em mim quando você ri e eu finjo?

 

Volto para o quarto: agora e aqui. Três e quarenta cinco. Você em algum lugar em São Paulo e eu ainda aqui, neste lugar, em Maputo. Ainda. Por mais uma hora e quinze nesse quarto. De frente para o papel, penso se algum dia conseguirei ler o livro que você me deu de presente, a caminho do aeroporto, no dia em que voltei. “Faulkner?” Para que você não se esqueça.

 

Lembro: deixar um artigo inacabado na máquina, como se estivesse me esperando. “Maputo, primeiro de abril de sessenta e quatro”, digito. Quase quatro da manhã. “Os cafajestes, primeiro longa de Rui Guerra”. Certo, Rui Guerra. “O filme não se propõe a fazer um diagnóstico do Brasil, ainda que construa uma crítica contundente à classe média”, repito o que escrevi em algum lugar, algum tempo atrás. “A atriz Norma Benguell faz uma aparição memorável”. De repente, me dou conta, “a câmera é agressiva ao redor de sua nudez”, é para você que escrevo, “no longo plano-sequência”, como se conversássemos depois de uma aula, “são quatro profundos minutos”, aquelas nossas conversas sérias sobre nossos países, “que ressoam por muito tempo”, em que eu te revelava algo meu, “no deslocamento sem rumo”, querendo te confessar, “daquelas personagens”, de forma cifrada:

 

Nilava Wena.

 

Procure saber o que é isso, miúda.

Vejo suas sobrancelhas se levantarem, você não gosta que te chame de miúda. Gosto de te ver reagir ao meu jeito de falar o português que você fala.

 

Olho a mala: quatro e vinte. Tenho quarenta minutos. Se eu não me perder no tempo, se eu conseguir entregar a carta pra alguém… mas quem? Talvez Gulamo, Nilava Wena, talvez ele coloque o envelope no correio para mim, Nilava Wena, Gulamo não faz perguntas, Nilava Wena, vou até ele antes que o carro chegue.

 

“Você vai gostar do livro. Fala de algum jeito das plantações de algodão, do que está em volta disso. Lembrei das plantações em Moçambique. Do inferno branco. Isso um dia acaba, sabe.”.

 

Quatro e meia: troco de roupa, qualquer roupa. Tenho ainda meia hora, meia hora. Enfio o livro que você me deu na mala e escrevo num papel o que não lembro se cheguei a te dizer, Nilava Wena. Apenas isso. Você vai saber. Olho o quarto. Artigo inacabado na escrivaninha, desordem calculada de papéis, livros, copos sujos sobre a pia. Como alguém que vai voltar. Como alguém que um dia eu fui. Anoto seu endereço no envelope. A hora certa marca: oito e trinta e cinco. A hora certa diz: espere em seu quarto. Mas a hora certa aqui marca a hora errada onde você está.

 

Abro a porta do quarto, sem barulho. Me movo feito um tigre pelo corredor, subo as escadas. Bato na porta de Gulamo com o nó dos dedos. Quatro e quarenta. Nada. “Gulamo”, falo baixo. “Sou eu”. Ouço um barulho no andar de cima. Gulamo não está, Gulamo não está. Lembro das instruções: descer pouco antes das cinco, o carro não deve ficar parado na rua. Algo em mim estala, é isso? Vai ser assim? Sinto um tranco no estômago. Volto para o quarto. A mala, de repente, pesa. Me pergunto por que não li seu livro enquanto havia tempo. Então me lembro do tempo que fazia na última vez que te vi. Sem sol, mas você estava de laranja. Sua roupa aquecia aquele quadro. “Isso um dia acaba, sabe.”. Sim. Acaba.

Fecho a porta do quarto. O que há atrás da porta acabou-se também.

 

Tão cedo, quatro e cinquenta da manhã, e era tarde demais.