O DICIONÁRIO

Em nosso último encontro Noemi nos contou uma história, que deveríamos transformar em um pequeno texto: “Um rapaz bem disperso, fora da realidade, apaixonado por linguística, foi assaltado no centro de São Paulo. Ele corre em disparada atrás do ladrão, mas ao invés de pedir a mochila de volta, ele pede apenas o dicionário de latim.”

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“Medo. Paura. Timore. Wehi.
A hora que a gente sente, sabe que sente e o que é.
Quando saí de casa, minha mãe só pensava nisso. No tóxico. No crime. No elevador fora de serviço do Crusp. Nem posso dizer que sou uma pessoa de posses. Tenho livros, isso sempre tive. Mas eles não colocam em risco a vida de ninguém. Devia ter suspeitado, que fazia peso, dava a impressão de ter algo de valor. Nunca saí de relógio, de carteira no bolso de traz. Ainda mais para andar no Centrão.
Medo burguês esse, o de ser assaltado. Se a gente não tem apego ao valor, vira doação. Distribuição de renda.
Mas livro na mochila chama atenção. O povo acha que é computador, câmera fotográfica. Dessas, tipo Nikon.
Foi assim, na inocência do meu assombro dom a tribo Kayowá fazendo discurso no marco zero.
Medo. Paura. Fear. Peur.
Minha mãe ficaria aliviada. “Graças à Deus não levaram nada de valor!”
Levaram a parte que eu não queria distribuir. Foi o dicionário de latim, e toda a etimologia do dia.”

Adriana Rossatti

“No centro da cidade, local dos não escolhidos, ele é o escolhido, ele  que anda sem rumo, que tropeça em línguas maldosas que não falam as  línguas que ele fala, levam sua mochila, sua bagagem, o pouco em que  se reconhece, se afirma, corre atrás do que tem, do que tinha, sua  dignidade em poucas palavras, uma negociação, devolve, ao menos meu  dicionário de latim.”

Samir Mesquita

Língua morta

“Se eu falar em língua morta, o gatuno pode entender mal e partir para   cima.  Detesto violência, é preciso cabeça fria e criatividade nessa hora.
– Que merda é essa de torrinha, cara?
– É meu dicionário de latim, meu. Para você não vale nada, mas é minha vida. Se você devolver o Torrinha[1], nem vou dar parte, fica com o resto.
– A mochila também, cara? Não tem muito dessas por aqui, ia ter que por no lixo para não dar bandeira.
– Fica com a bolsa, tudo que pegou, meu, mas devolve o livrão.
– Vale grana, cara? Tô mais acostumado a aliviar carteira, celular. O que você faz com isso?
– Sabe o que é, tenho asma, preciso levantar a cabeceira da cama, é questão de saúde.
– Bom, se é assim, dou o livro de volta. Minha mãe também tem bronquite, eu sei como é. Não vai dar parte de 155[2] mesmo? A mochila é bem legal, obrigado, cara, vai agradar no meu pedaço. Depois, sem B.O. e sem o livrão, a coisa fica bem mais leve. É bom encontrar uma pessoa justa, cara, muito prazer.”
[1] O Dicionário Latino Português de Francisco Torrinha, que apresenta o significado dos vocábulos e o sentido de frases de autores como César, Cícero, Virgílio, Horácio e Ovídio, encontra-se esgotado no fornecedor.
[2] Código Penal  –    Furto – Art. 155 – Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.

Eduardo Muylaert

“O ônibus perdido. Machado de Assis passa às quatorze e quinze. Ele chegou ao ponto dez minutos depois. Culpa da vitrine do sebo. Esperaria o próximo, agora com tempo para ler mais um capítulo de O Arco e a Lira. Desejava secretamente alterar a rota do Machado de Assis para que esse ônibus passasse pela Rua João Guimarães Rosa. Seria um bonito cruzamento. Pensava nisso quando a mochila foi levada. Um moleque correndo pela calçada, ele atrás: carteira com pouco dinheiro, não tinha trabalho remunerado; carteira de estudante, como frequentaria a biblioteca?; carteira de motorista, não tinha carro mesmo; identidade, foda-se; celular, sem crédito; chave de casa, a mãe tem uma cópia; o dicionário de latim…ei, ei, devolva o meu dicionário de latim!, só o dicionário de latim! O moleque desacelerou o passo.”

Luciana Gerbovic

“Centrão! O corre-corre de todo dia. Pega ladrão.
Um que corre outro que foge. Em cada cabeça uma mochila. Aqui o celular, PC, grana e sapato de tênis e correndo ali atrás os textos raros, anotações nas margens, dicionário analógico, português – francês, polonês, hebraico, sânscrito, latim, sei lá o que.
– Só quero o dicionário de latim.
– Hã?
E o diálogo ficou fácil. Dava para repartir a mochila de acordo com a cabeça de cada um. Sem briga.”

Alcino Bastos

“- Ei, volta aqui com minha mochila, pô! Meu dicionário de latim!
– Cai fora mano, te cuida meu, quem tá latindo aqui?
– Tô falando sério amigo. Tô de boa, pode ficar com as tralhas todas , eu só quero de volta meu dicionário de latim!
– Disse o que? Da lata de quem? Tu pirou meu irmão?
– Não! É latim, a língua de Cristo!”

Dominique Girard

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Uma faca é uma faca é uma faca.

Como exercício em nossos encontros no meio de tantos feriados, Noemi nos propôs que cada aluno disesse o nome de um móvel OU uma ferramenta OU um objeto OU uma parte do corpo OU uma ação. Com a palavra escolhida, cada um deveria usar como tema de um texto erótico, o qual, por sua vez, não podia ser explicitamente erótico ou fazer uso de palavras explicitamente eróticas/sexuais.

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SOCAR

O silêncio foi se instalando a partir dos halteres lá perto da porta. Os supinos. Depois os aparelhos de remada, a área de abdominais, as bolas de pilates, o grande ringue do centro da sala… Eu estava no fundo, socando um saco de areia. Mas também fui calada por sua aparição. Eu só o conhecia do cinema e dos cartazes imensos que divulgavam café expresso.

Era tudo; e mais. Ali não havia photoshop, como diziam as línguas maldosas. E ele agora estava ao meu lado, numa bicicleta ergométrica.

Os sons aos poucos voltaram ao salão, mas tudo era diferente. Parecia ritmado, obedecendo aos círculos daqueles pedais.

Eu não, que não me dobro a Hollywood. Arregacei as mangas da camiseta, mas só porque… panturrilhas… estava calor…. aquilo são quadríceps… e voltei a esmurrar o saco de areia… peitoral… socos e chutes… socos e chutes… socos e chutes… que costas… socos… socos, socos, socos, abdômem… jab, jab, jab, jab, jabjabjabjabjab

Elídia Novaes

O CANAPÉ(Ê)?

Um acento muda tudo. O canapê, com o circunflexo no ê, é um pãozinho ou torradinha, aperitivo, com muitas possíveis variações, todas de grande gulodice: ovo, salmão, tomate, pepino, não há limite ou fórmula pronta, pode-se inventar a gosto. Sendo de pequeno porte, acaba permitindo o contato, acidental ou não, dos lábios com os dedos, o que fica ainda mais interessante se a mão for do sexo oposto, ou complementar, como queiram. Vem do francês canapé, com o acento agudo no é, mas que se lê como ê, o que permite a transposição para o nosso chapéuzinho. Já o canapé brasileiro, palavra que vem do latim canapeu, é uma espécie néo-espartana de sofá, depojado de maior conforto, mas firme a ponto de poder dar guarida a variadas espécies de investidas. Posta de lado a veleidade gramatical, e mesmo a etimologia que remonta à antiga Grécia, o que dá vida ao canapé é o contato do assento que nele se assenta, pois é a função que faz o órgão, e não o contrário. Nada mais triste do que um canapé sem história, sem boas histórias para guardar, pois um canapé de verdade é mais discreto do que um amante casado. As boas lembranças ficam só para ele, não as compartilha com ninguém, mas ninguém mesmo. Quem nasceu para canapé não se deixa passar por reles aperitivo. Cada um com seu acento, mas a memória do verdadeiro canapé é um cofre que se compraz com a saudade do roçar dos melhores assentos.

Eduardo Muylaert

 TORNOZELO

Não é do cheiro do café na tua boca quando vinha me dar bom dia, eu sempre deixando o começo do dia para depois, você sempre querendo o começo do dia para ontem. Não é da dança ridícula – o quadril duro demais para o rebolado – que você fazia enquanto preparava o estrogonofe do domingo. Não é do teu cheiro salgado-doce, como aquelas balinhas de goma envoltas em pedrinhas de sal, que grudava na toalha que você largava ao pé da cama quando eu já estava lá. Do que eu mais sinto falta, ainda, vinte e cinco anos depois, é da tua mão ao redor do meu tornozelo, as veias do teu braço e da tua mão saltadas, a vontade que eu tinha de apalpá-las enquanto meu pé, preso, se retorcia. A marca da tua mão na minha pele avermelhada: você me soltou, mas eu ainda ainda a enxergo.

Luciana Gerbovic

A palavra

No exercício dessa semana, cada um escolheu uma palavra (não podia ser nem substantivo, nem adjetivo, nem verbo) e passou para um colega. A palavra recebida foi usada como refrão/estribilho num fluxo de consciência alegre e positivo. Eis o resultado.

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Sempre

Uma aliança na minha mão direita, sempre, essa aliança agora, sempre, da direita e daqui a quantos meses mesmo ele falou?, vinte e dois, lindo, sempre, vinte e dois meses, meu amor, e seremos marido e mulher, para sempre, ele, sempre, meu, eu, sempre, dele, conta os meses, vinte e dois, como quem conta os minutos para aquilo que mais quer na vida, e seremos, sempre, nós, nossas alianças, nossos dedos, nossas mãos, sempre, entrelaçadas, e depois um filho, dois, nós, sempre, misturados em outros seres, a lista de presentes, nossa casinha, sempre, com tapete de boas-vindas na porta, ah, pinguim na geladeira, toda breguice e felicidade a que temos direito, sempre, quero cerca branca e cortininhas com corações na janela da cozinha, sempre, eu, ele, nossas alianças, sempre.

Luciana Gerbovic

“Na festa, enfim, a turma me recebeu, estou dentro, não esperava esta casa tão grande, bonita, enfim, deu tudo certo e agora gostam do meu cabelo e como eu caminho, enfim, a vida vale pelo que é, mesmo, igualzinho como eu tinha pensado, enfim, como todos dizem, cheguei lá”

Alcino Bastos

Contudo

Andar com a nora e a neta é meu programa diário de minhas férias, contudo essas duas cachorras vira-latas que nos acompanham não combinam com o bairro que é sofisticado com casas de janelas grandes, contudo não iguais àquelas que existiam no bairro europeu de meu avô onde morei aos 18 anos; casas com jardim parecendo parques de rododentros que floresciam na primavera. Naquela época o maior presente que recebi dele foi um guarda-chuva, contudo um guarda-chuva vermelho igual o da capa da revista. As cachorras são obedientes, nem sequer pensam em fugir para praia, contudo Carolina, minha neta insiste em fazer mais uma tatuagem.

Dominique Girard

Amanhã 

Amanhã é coisa que bicho não entende. Eu sou ovelha, mas entendo bem o que é solstício. E é amanhã. Festa da colheita amanhã o dia todo. Amanhã. Não vou esquecer. Memória de ovelha não é nada excelente. Solstício, amanhã. Vai que eu arranjo uma encosta de morro para escalar, uma grama distante apetitosa, um motivo bom para ficar balindo sozinha por ai. Carneiros, muitos. Amanhã. Amanhã.

Elídia Novaes

Até

Segunda de tarde e lá vem, carro preto, ó. É mulher. Para na esquina quer atravessar, quer cruzar a via para ir na direção oposta. Preste atenção, dona, até pisco o farol do carro, estou aqui, estamos de olho, aí é conversão proibida, até buzino, duas vezes, mas ela não vê, ô, dona, via de mão dupla condutor não pode fazer isso, artigo 22, capitulo 3 do manual, no automático, ela está no automático, até que me ver ela viu, mas não liga, até sorri, até que tem o sorriso bonito. E segue, não vinha carro, até que tudo bem, está vazia a rua, está certo então, não multo, até mais, dona.

Isabela Noronha

Após

Ele vem me ver hoje. Após o almoço, falou no telefone, acho melhor comprar flores, enfeitar a casa, vestir roupa nova. Após o almoço, ele disse, encher a mesa de doces, os que ele gosta, muita cocada, da branca, a de fita, ele vem após o lanche, no almoço não deu, colocar o tapete, isso é bom, a casa mais bonita, aconchegante, chique, o suco já pronto, após o jantar, maldito trabalho, mas vem hoje, o rímel desbotando, preciso retocar, a casa cheira bem, ele vem, vou abrir as janelas, vem me ver hoje após, após, após…

Lídia Izecson

Agora

Agora. Chegou a minha vez. É agora. Acabou. Chega. Agora sim, vou fazer como sempre quis. Deixem comigo. Vocês vão ver quando um agora se transforma em agora sim, num agora mesmo, num agora já.

Eduardo Muylaert

Os desastres da raiva

“Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Mas ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto de ódio daquele homem que se certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele me irritava. Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo não quebrado de uma begônia, Eu o espicaçava e, ao conseguir exacerbá-lo sentia na boca, em glória de martírio, a acidez insuportável da begônia quando é esmagada entre os dentes; e roía as unhas, exultante. De manhã, ao atravessar os portões da escola, pura como ia com meu café com leite e cara lavada, era um choque deparar em carne e osso com o homem que me fizera devanear por um abismal minuto antes de dormir. Em superfície de tempo fora um minuto apenas, mas em profundidade eram velhos séculos de escuríssima doçura. De manhã, como se eu não tivesse contado com a existência real daquele que desencadeara meus negros sonhos de amor – de manhã, diante do homem grande com seu paletó curto, em choque eu era jogada na perplexidade, na vergonha e na assustadora esperança. A esperança era meu pecado maior.”
Clarice Lispector, “Os Desastres de Sofia

Inspirados nesse trecho do conto de Clarice, Noemi nos convidou a escrever um parágrafo como exercício. Como tema devíamos falar de alguém que estivéssemos com raiva e usar pelo menos três junções de substantivos e adjetivos opostos e não comuns.

“Era sempre pela manhã. Pelas soturnas manhãs que eu me deparava com a imagem e já começava o dia irritada e resignada. Existia algo na imagem, no formato do cabelo, na simétrica imperfeição das pernas tortas, que me faziam piscar longamente e desejar sumir com estardalhaço de uma vez. A voz também causava um conforto agudo. Eu sentia ainda mais raiva por não poder simplesmente me levantar e sair.
Nesse momento, me irrita também esse exercício, o esforço lúdico que faço para pensar em extremos, para escrever algo inteligente ou engraçadinho, ou que apenas gere rara manifestação de aprovação. Já que amanhã cedinho, a terna e raivosa imagem estará lá novamente. No espelho.”
Adriana Rossatti

Apito

“Ele apitou. Com olhos cândidos começou a escrever a multa, cravando suavemente a caneta no bloco. Não fiz nenhum movimento para sair do carro ou olhar para ele. Não ia lhe dar este gostinho terno. Teria que vir e trazer o papel, rastejando sua autoridade até mim. Eu o pegaria com dezprezo carinho, sem dizer uma palavra.”
Eva Maria Lazar

Raiva amarela no tapete.

“Eu o encarei com gosto de castigo fugaz. Seu rabo em pêndulo se agarrou no meu ódio macio, embaraçando aquele pelo duro na minha pele de hortelã. Ele sabe dar respostas à irresponsabilidade confortável da dona que o deixa só.”
Lidia Izecson

“Encostei a porta para que nenhum barulho o acordasse. Cerrei as cortinas. Ele tinha dormido mal à noite, eu vi pela escuridão refletida na tela de tevê. Dormia feito uma criança: egoísta. Era sempre assim, com ele finalmente adormecido na manhã, que eu sentia vontade de matá-lo levemente com as minhas mãos. Um gigante indefeso. Meu sorriso de café, gelado e sem açúcar.”
Luciana Gerbovic

“Eu não queria esquecer, nem por um minuto, da raiva secular que me corroía gostosamente os nervos e alimentava o premeditado desejo de sobreviver àquela mulher, foco da minha confortável volúpia, beleza de mármore incandescente com a voz gutural e doce que parecia provir de celestial demônio a se comprazer com cândida e agora inalcançável luxúria.”
Eduardo Muylaert

“De fato! A despedida me trouxe alegria. Pois a tinha visto chorar. Ela disse que queria sentir aquela solidão sozinha. E que eu deveria retornar, só, à companhia de meus livros de doce amargura.
Porque não ficou, não sei. Minha mulher amada é mesmo uma idiota; quando voltar vai apanhar muito para que não continue sofrendo.”
Alcino Bastos

“Me senti insultada: dez poucos minutos, ele disse; são a eternidade, respondi.
E na mesma trinca onde aquele atraso sovina reverberava, meu braço hipertenso queria amolecer em generosidades; porque era disso que se tratava, não mais esperas,  eu queria um atalho lépido para amá-lo com demora.”
Elza Tamas

CHAMO/ AMO

Essa semana Noemi nos fez uma proposta divertida. A partir de uma história pessoal dela, nós deveríamos recontar a cena de acordo com uma perspectiva diferente, que ela designou para cada um de nós.

A história da Noemi: “Eu estava com um namorado recente, por quem eu estava apaixonada. Ele dormiu na minha casa e acordou cedo para me fazer café da manhã. Eu acordei e ele me disse: “dorme, eu te chamo”. Eu estava meio sonada e fiquei com uma dúvida martelando na minha cabeça: “Ele disse “eu te amo?” ou foi “eu te chamo”? Depois de um tempo, tomei coragem e perguntei se ele tinha me dito “eu te amo”. E ele respondeu que não, ” imagina dizer isso a essa hora da manhã”.

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Trágica
por Adriana Rossatti

“Acordei. Nem dormi. Ele apertava o snooze do rádio-relógio-despertador. Dormir a primeira vez na casa dele é como ganhar autorização para uma dimensão perdida. Móveis escuros, o lençol tem bolinhas e o travesseiro é fino demais para o meu gosto. A maçaneta do banheiro está quebrada. Ele coleciona caixas de fósforos. Atrás da porta tem um poster do DIO, na geladeira um bilhete da empregada. Fingi que ainda dormia, mas ele me beijou. Colocou a camiseta de ontem sobre o corpo nu e foi fazer café. ‘Dorme mais um pouco. Te amo’. Olhos estatelados. Me ama? Ou me chama? ‘Dorme mais um pouco. Te chamo’. Me chama? Ou me ama? Ele me ama? Será que finalmente ouvi? Será que ele é tão emocionalmente disponível assim? Parem as máquinas. Ele me ama. Tirem as crianças da sala. É amor. Eu mal acreditava que tinha acontecido. Vamos poder, enfim, passar para a fase em que a gente se ama, e nada mais precisa ser provado. Eu vou retribuir, preciso deixá-lo seguro. Talvez eu agradeça os ovos. ‘Ovos bennedict, meus favoritos! Como descobriu? Também te amo!’. Ou te chamo? Ou será que nem aconteceu?

Coloco a camisa aberta. Arrumo o despenteado do cabelo, o borrado da maquiagem. Escovo os dentes. Não quero falar nada com bafo. Chego na cozinha descalça, brincando com meus dedos no batente da porta. Fiz uma cara de frágil, porque eu estou. Eu estou frágil. ‘Aquilo que você falou. Foi te amo ou te chamo?’. Ele não fazia ovos. Cortava com uma faca cega as bordas do pão Pullman. ‘Te chamo, óbvio. Imagina dizer isso a essa hora da manhã.’

Acordei. Nem dormi. Fiz dois cortes fundos que me drenaram pela banheira de esmalte descacado. Embaixo da torneira tinha um fiapo de ferrugem escorrendo e em cima da caixa de descarga, exemplares antigos da Placar, da Playboy e da Carta Capital. A maconha, joguei toda na privada. Em cima do botão de snooze, do rádio-relógio-despertador, deixei um post it. ‘Desculpe fazer isso a essa hora da manhã. Te amo’.”

Fantástico
por Eva Maria Lazar

“Aquela luz forte entrando pela janela me acordou. Lembrou filme de ficção. Vou dormir mais um pouco, cada sonho. Uma voz gentil com um jeito metálico me deu um susto: quer café? Não tenho certeza se eu disse sim. Dorme, eu te chamo. Passos, a luz sumiu, me encolhi, virei para o lado. O olho estatelou; como assim, quer café, quem? O coração acelerou, levantei. Comecei a descer as escadas, meio pé ante pé. Coragem, entra logo na cozinha.

Eu e minha camiseta amassada entramos. Um homem alto, usando roupa estranha, mexia na cafeteira; na mesa, pão fatiado, queijo e geleia. O medo, já curioso, disse: quem é você? O rapaz era lindo, parecia Charlton Heston no Ben Hur de ontem à noite na Sessão Coruja. Sorriu, com os 94 dentes mais bonitos que já vi, você já levantou? Ia levar na cama. Fiz o olhar mais digno possível; quem é você? Riu; você gosta forte, né? Esperei o coração bater menos de 100 vezes por minuto: você falou eu te amo? Ele riu de novo: claro que não, a uma hora dessas? E continuou a preparar o café, enquanto eu sentava em silêncio à mesa.”

Ingênua
por Mônica Carvalho

“Tomei o último gole de vinho antes de fechar os olhos; a taça, agora vazia, tinha sido preenchida até a borda, e eu também. Sempre achei que vinho combina bem com os primeiros passos: na festa em que não se conhece ninguém, na paixão da qual ainda pouco se sabe. Ele não fala quase nada, acho que porque essa vida de repórter internacional demanda tanto de contato com todo tipo de gente que ele prefere nem comentar. Já é bom poder estar junto, mesmo que só as sextas, hora de almoço.

Nem acreditei quando disse que ficaria para dormir, ele que nunca passa das duas da tarde por aqui. Sim, merece o vinho! Comprei com cuidado, junto com tudo mais; uma conta desse tamanho só cabe uma vez por ano, mais quem sabe, se ele topar voltar e ficar. Ainda bem que aquele tantinho que espirrou quanto tirei a rolha (agarrada, esforço danado tive que fazer) não borrou o livro que ele tinha deixado semiaberto em cima da mesa (li, sem querer, um “não se esque…”, acho que era isso, escrito no post-it da primeira página), mas desviei os olhos antes que fosse indiscreta de verdade; sim, teria sido um desastre estragar o tal livro que ele carregava meio ansioso quando chegou.

Acordei, ele não estava ali.  Chamei.
‘Não venha, eu te chamo’!
‘Eu também’!
‘Ainda é cedo!’.
‘Não, não é, sempre amei assim: de olhos bem abertos’.”

Poética
por Elza Tamas

“Vi quando ele abriu a janela, tinha sol, então acreditei que ele tivesse dito.  Logo depois um cheiro de café gostoso invadiu o quarto, -ele fazendo café pra mim?- então devia ser verdade. Eu estava sem óculos quando ele disse, possível ver um dia arrebentando de lindo, mas difícil perceber os detalhes do movimento da sua boca, sem óculos eu nem escuto direito.
Era primeira vez que ele dormia na minha casa, nossos corpos se entendiam e nenhum de nós se banhou, queríamos manter todas as impressões. Depois conversamos, e adormecemos sem perceber. Dormir juntos é o que há de mais intimo. Agora a pouco, ele me deu um beijo, tímido, acordei e ele disse dorme, dorme, eu te amo, e eu coloquei as mãos sob o travesseiro, as duas, juntas, quase uma reza, feliz, tudo de melhor acontecendo, ele me ama, mas ai senti um desconforto, leve, mas desconforto, talvez ele possa ter dito eu te chamo, porque foi fazer o café, deve ter sido, dorme, eu te chamo.

Precisava perguntar, mas uma pergunta destas não se faz nua. Vesti a camisa dele, jeans, manga longa; virei os punhos, arrumei a gola, os dois primeiros botões desabotoados, e mordendo a boca de vergonha, perguntei: Você falou ‘eu te amo’ ou ‘eu te chamo’? Eu? não lembro, por quê?,  mas ‘eu te amo’ eu não disse, porque imagina dizer isso a esta hora, não ia ter sentido, riu e me olhou danado, gostando de me ver na roupa dele.Você quer com pouco ou muito açúcar? O quê? perguntei.”

Filosófica
por Eduardo Muylaert

“Hoje eu acordei na caverna de Platão e me senti uma toupeira. A frase saiu do fundo do travesseiro e eu não acreditei. Ele nunca tinha dormido na minha casa, se ofereceu para fazer o café e eu, como boa epicurista, achei demais. Mas o que eram aquelas palavras mágicas? Podia ser “Dorme, eu te amo”, mas também “Dorme, eu te chamo”. Será? Mesmo apaixonada, sou adepta do mais puro ceticismo e quis trazer clareza à essência da inesperada declaração. Sei da volatilidade das palavras e das múltiplas possibilidades de significado, mas era preciso adequá-lo ao texto correto, sem perda de tempo. Você disse eu te amo? Não pensei, claro, no amor como virtude, em Platão sou mais a caverna e a escuridão. Mas quando ele disse “imagina dizer isso na primeira noite” eu achei que era hora de largar a filosofia e voltar para a terapia.”

Metalinguística
por Elídia Novaes

“O despertador toca.
Ela – mmmm… zzzzzzzzz
Ele – O que você disse?
Ela – ahn? hmmm…? quê? eu…?
Ele – Ah, dorme. Eu te chamo.
Ela – Você viu o que você falou? Está precisando mesmo se consultar com uma fonoaudióloga. Não se entende o que você diz. Eu estou aqui do lado e não sei se você disse chamo, amo, se espirrou ou fez algum tipo de crítica ao meu hábito de dormir até mais tarde.
Ele – Eu disse Dorme que eu te chamo.
Ela – E não precisa responder assim. No grito é que as coisas não se resolvem. Se não funcionou para Dom Pedro I, não seria para você. Ora você fala enrolado, ora me trata como se fosse surda. Não é assim que o diálogo vai se estabelecer.
Ele – …
Ela – E aí? Nada mais? Isso é jeito de conversar? Veja como funciona: um pergunta e o outro responde. Depois invertem. O outro pergunta e o um responde. Chama diálogo… Você não vai perguntar nada? Nada mesmo? Você está ficando impossível de conviver.
Ele – Você… Na primeira vez, eu disse que te amava. Mesmo que fosse tão cedo. Daí, fiquei sem graça, achei que você estava dormindo e mudei, disse que te chamava. Ia voltar ao assunto mais tarde.
Ela – Viu como você está precisando visitar a fonoaudióloga? Bem que eu te disse.”

Ironia
por Luciana Gerbovic

“Você disse que ia fazer o café…
Disse.
E depois?
Depois o quê?
Depois de dizer que ia fazer o café, você disse outra coisa…
Disse?
Disse… Eu te amo? Ou eu te chamo?
Ah! … Eu te chamo, claro. Imagina se eu falaria “eu te amo” às sete da manhã.
Ah… E à noite, você falaria?
O quê?
Eu te amo!
Ah … Não. “Eu te amo” só falo entre duas e quatro da tarde. “

Prolixo
por Lidia Izecson

“Depois de quase 6 meses de encontros no café Brasil, no bar do Afonso, no salão de danças do Andrei, eu tinha certeza que naquela noite as coisas iriam acontecer. Era a primeira vez que eu subia até o apartamento dele, nunca antes ele havia me convidado, nem mesmo no dia 7 de março, dia do seu aniversário e quando fizera um bolo para os mais íntimos. O hall do prédio era suntuoso, cheio de tapetes persas, e a escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo me deu um pouco de tontura. Essas escadas que copiamos dos franceses podem ser muito bonitas, mas não são nem um pouco práticas, enrolam daqui, enrolam dali, e a gente acaba tendo que gastar muito mais energia e tempo do que o necessário. As modernistas brasileiras, mais retas e com menos adornos, se prestam muito mais ao nosso estilo de vida.

Quando cheguei, de língua de fora e quase sem ar, vi a porta aberta e entrei. O relógio cuco, do qual ele tanto falava, estava pendurado na parede maior da sala, pintada de verde claro, e eu fiquei lá imóvel, esperando. Não sabia quem ia aparecer primeiro: se ele ou o cuco. Foi então que a voz dele, aquela voz rouca de locutor da rádio Eldorado anunciando o concerto da tarde, me chamou lá de dentro: – vem aqui, quero te mostar uma coisa. No quarto, a cama ocupava todo o espaço e, por cima dela, a colcha de matelassê  me trouxe um certo alívio. Era de bom gosto e não tinha aquela cara de coisa comprada na 25 de março, rua onde ele gerenciava a loja de tecidos do pai. A claridade que entrava pela janela não me deixava ver senão a silhueta dele, e quando chegou perto e me abraçou, percebi que já estava só de cuecas. Eu então tirei minha blusa de seda da China pintada à mão, deixando que ele visse a tatuagem que fiz na India, aquela de quando passei lá os quatro meses do curso de Ioga. O sorriso dele foi lindo e ele me abraçou falando alguma coisa que parecia um doce murmúrio, mas bem nessa hora o cuco resolveu sair da casinha dele lá na sala e começou a berrar : cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô. Ele falava coisas no meu ouvido, mas eu só escutava os berros do cuco. E quando o maldito pássaro, cuco é um pássaro?  parou com a barulheira, ele soltou o meu corpo e, com uma cara contrariada, foi logo dizendo: eu sabia que você não me amava de verdade; agora tenho certeza disso. Se me amasse, como vive dizendo, teria respondido à minha pergunta. – Mas o que você perguntou? -Ah, isso só se fala uma vez, e acho melhor pararmos por aqui. Eu ainda insisti, implorei por quase dez minutos, mas ele se trancou, sentou-se na beira da cama e não disse mais uma palavra. Não tive outra alternativa, senão vestir minha blusa de seda da China e descer novamente aquela maldita escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo.”

Narrador Onisciente Intruso
por Isabela Noronha

“Ele acordou primeiro e se virou de lado. Achava patético isso de ficar olhando o outro dormir, não era esse tipo de cara. Tentou fechar os olhos de novo mas foi inútil, estava calor e, para ele, aquela cama, a cama dela, era muito apertada — embora, ainda que ele não percebesse, fosse do tamanho exato da sua. Ia para casa, ligaria depois. Ou esperaria ela ligar, que se dane. Mas quando pegou a calça do chão, bateu no abajur e a acordou. Ela quis saber aonde ele ia. Ele se viu sem opção, gostava de pensar que não era o tipo de cara que abandonaria a namorada assim, na lata, então disse que ia fazer o café e terminou de se vestir. Já fora do quarto, acrescentou: ‘dorme, eu te chamo’.

Ela ficou em silêncio, e ele, porque só acreditava no que queria acreditar, achou que ela tinha voltado a dormir. Mas a frase a tinha despertado inteira, ela não sabia se ainda era sonho e tinha ouvido direito, espera, não era sonho, ela tinha escutado algo sim. Aquilo. Não era? Espera. Era grande demais, felicidade demais. Talvez. Ficou com a dúvida, e a levou à mesa para tomar café com ele, depois ao parque, onde foram ler, e para o apartamento de novo, quando a chuva apertou de repente e os dois correram, mas se molharam mesmo assim, e chegaram encharcados e talvez fossem transar, talvez só se enxugar, mas ela interrompeu de qualquer forma para finalmente perguntar se, de manhã, sabe, naquela hora, sabe, que você foi, sabe, fazer o café. ‘Você disse eu te amo?’ ‘Mas é claro’, ele respondeu, ‘é claro que não. Imagina dizer isso tão cedo, de manhã’. Ele era esse tipo de cara.”

Técnico
por Dominique Girard

“Quando acordei, Paulo ainda estava lá. Ele, uns ruídos na cozinha e um aroma de café. Ao sentir minha movimentação nos lençóis, foi logo dizendo: “Dorme, eu te chamo”. Dobrei o travesseiro em dois, virei para o lado esquerdo da cama, fechei os olhos. Te chamo ou te amo? O que será que ele disse? Será que ele se utilizou de um léxico iniciado por  uma consoante fricativa sibilante, chhhhh ,  em que o som é formado pela passagem do ar por um canal estreito da boca, por um obstáculo? A  língua se curva de maneira a conduzir o ar sobre as pontas dos dentes. chhhamo? Ou, se desfez de todas as barreiras entre nós e optou por iniciar nossa manhã com a vogal “a”, em cuja emissão o ar passa livremente pela boca, sem obstrução? aaamo! A ansiedade não me deixou mais dormir. “Paulo, você disse: eu te amo?”. “Não, eu disse: eu te chamo.“ A prosódia é cruel.”

Humor
por Alcino Bastos

“Bocejo:
– Vou preparar o café. Eu te chamo.
Ele, aos gritos:
– Eu também.
Ela, de longe:
– Para que?
– Ué, amar não tem finalidade.
– O que? Felicidade?
– Sim, eterna.
– Eu sei. Sou a própria ternurinha.
– Não, a tesourinha não está aqui. Fala de novo que me ama.
Ela, entrando no quarto:
– Quem ama quem? O café está pronto.
– Você falou que me ama.
– Tá sonhando.
– Com você.
– Larga de ser ridículo. O café está pronto.
– Como assim?
– O café está pronto. Já disse três vezes.
– Que me ama?
– Ah, vê se acorda, vai!”

Todos dizem eu te amo

Depois de uma noite de discussão sobre Barthes e seu discurso amoroso, Noemi nos propôs um exercício.
Escrever um diálogo em que um dos personagens diz “Eu te amo”.

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“Ela comeu o 5º chocolate seguido.
D – Não é pedir muito, é?
P – Não. Não é não.
D – (mastigando) Toda minha vida, tudo o que eu pedi, é sinceridade, sabe? Não me importa se a pessoa gosta, ou não gosta. Se me acha feia, chata ou burra. Acho que tá certo. Todo mundo tem direito a ter sua opinião. É legítimo. Mas não vem me falar uma coisa, quando tá pensando em outra. Não vem com um discurso, só para fazer o bacana.
P – Claro!
D – Não suporto mentira.
(Silêncio)
Come mais um chocolate.
P – Te entendo.
D – Mesmo?
P – Eu não seria louco de te mentir agora.
Ela olha fixo para ele, enfim abre um sorriso.
D – De fato. Sinceridade é tudo o que eu peço.
Joga mais um chocolate na boca. P acompanha o movimento.
D – (Parada, com a boca cheia) Você me acha gorda?
(Silêncio)
P – Que é isso?! Eu te amo!!!”

(Por Adriana Rossatti)

“– E agora eu digo ‘eu te amo’?
– Agora você diz o que quiser.
– Acho que agora não é o momento.
– Então quando será?
– Depois do terceiro prato talvez?
– Por favor, antes da sobremesa.
– Para termos um grande desfecho?
– Para eu não precisar ir embora com
a boca amarga quando dizer ‘eu também’.”

(Por Samir Mesquita)

“‘Mas já é tarde.’
‘Nem tanto, tem tempo.’
‘Mas eu te amo.’
‘Nem tanto. Tem tempo.'”

(Por Mônica Carvalho)

“- Você me ama? Diz vai! Diz! Pelo menos uma vez.
– Será que é preciso? Estamos juntos há mais de vinte anos! Nesse tempo todo você não sabe ainda o que eu sinto por você?
– Ah! Para com isso. Só quero escutar. De sua boca. E não vale falar em inglês.
– você não acha ridículo? Pensa em tudo que fizemos juntos, nossa cumplicidade. Será que não consegui demonstrar meus sentimentos por palavras, atos e obras? Nesse tempo todo?
– Mas que custa dizer?
– OK. OK. Rendição! Eu te amo. Esta bom assim? Ficou satisfeita agora?
– Não fiquei e você sabe muito bem que não. Isso é jeito de falar comigo? Se eu não te conhecesse tão bem pensaria até que você não me ama.”

(Por Alcino Bastos)

” – Dois pãezinhos bem branquinhos, Dona Rosa.
–  Obrigada, Seu Almeida, boa memória a sua.
– Dona Rosa, lhe atendo todo dia, a gente guarda.
– Por isso sua padaria é a melhor do bairro, com esse atendimento personalizado, Seu Almeida.
– A gente se sente bem em ver as clientes felizes, Dona Rosa.
– Muito simpático isso, Seu Almeida. Vou indo, estou atrasada.
– Eu te amo, Dona Rosa.”

(Por Eva Maria Lazar)

“- … É que eu te amo.
– Ama?
– Amo.
– Por quê?
– Por que o quê?
– Me ama?
– Eu não sei.
– Então não ama.
– Amo.
– Como?
– Como o quê?
– Como me ama?
– Ah, não sei.
– Então não ama.
– Amo. Assim ó: levando um copo com água gelada todas as noites para o seu criado-mudo.”

(Por Luciana Gerbovic)

“Se
– Não dá. Se você diz hora, ouço cobra, se diz mão, ouço não, diz fé, ouço até…
– Espera, vai.
(…)
-E se digo eu te amo?”

(Por Isabela Noronha)

“- diz
– por que você quer que eu diga? você não sabe?
– diz
– já falei, só digo uma vez por mês
– diz, tô precisando
– mas já combinamos, se falar toda hora gasta, perde o efeito
– diz, por favor
– tá bom, tá bom. olha bem pra mim: você está muito mais magra.
– ai, que bom! eu te amo
– eu também.”

(Por Elza Tamas)

“- Eu te amo.
– Não, eu te amo!
– Não, eu te amo!
– Eu te amo primeiro.
– Não, você falou antes, mas eu senti primeiro!
– Eu te amo desde a primeira vez que eu te vi!
– Eu amo a ideia de você antes mesmo de te conhecer!
– Pois eu te amo antes de existir.
– E eu só existo porque te amo…”

(Por Renato Stetner)
“FRITOS E COZIDOS
– Você não precisava ter falado comigo daquele jeito na frente deles.
– E você não precisava ter ofendido o dono da casa.
– Eu não ofendi ninguém.
– Claro que não. Todo mundo adora ser chamado de coxinha.
– Mas ele é coxinha.
– E precisava dizer?
– E você não precisava ter praticamente me mandado calar a boca. Com a Luísa ali do lado?!
– E quem se importa com a Luísa. Quem você ofendeu foi o Arnaldo.
– Mas o Arnaldo não é seu ex. Ela ainda fez aquela cara de “se ferrou”. E você acha que alguém gosta de ver a ex do marido fazer cara de “se ferrou”?
– Ai, tá bom, vá. Você me desculpa pela exposição Luísa, eu te desculpo pela coxinha. Pode ser? E a gente pede a comida? A gente sempre encrenca, mas você sabe que eu te amo.
– Pode ser. Mas estou começando a achar que você também é um pouco coxinha.”

(Por Elídia Novaes)

Lugar Comum

No nosso encontro do dia 13 de Outubro, Noemi nos propôs usar duas frases que fossem provérbios ou clichês e que estivessem no texto de uma forma natural e não zombeteira. Sentamos e escrevemos isso:

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“‘O importante é ter sáude’, me falou com aqueles dentes tortos. Tomanocú! Tô cagando pra ter saúde. Importante mesmo é ser magra. Magra, linda e rica. Com Y. Ryca. E se eu tiver que tomar bola controlada pela Anvisa e ficar louca e agressiva por 6 meses para ficar magra, pode ter certeza que eu vou fazer. ‘Você pode trocar o requeijão por tahine com mel’. Tahine é um negócio que alguém coloca no meu homus. Eu não vou tacar mel no troço do meu homus. ‘Fica muito bom!’. A pele da vaca brilhava. Besuntada de tahine e mel. Eu fico pensando se existe mesmo esse planeta maravilhoso de nutricionistas funcionais, cheios de chia e flocos de amaranto e organismos desintoxicados e regulados. Algum planeta onde ela morasse com suas coleguinhas, comendo pão integral maçudo e desfilando regatas de alcinhas em dias de calor infernal. Tomanocú. Eu passo a pão e água, e uso moletom, até ficar magra.’
Adrinaa Rossatti

“Quando eu era pequena tinha uma inveja danada da Nurian. Por causa da mãe dela. A mãe da Nurian, o nome dela, era Esperança. Daí eu sempre ouvia a mamãe, conversando com as amigas no telefone. Interurbano. Dizia, quando contava da nova vida na cidade, da mudança e da loja que papai abria. ‘A Esperança é a última que morre.’ E eu pensava. ‘Que bom pra Nurian, né? Vai ser a última a ficar orfã.’ Porque todo mundo fica orfão. Uma hora ou outra. É a lei. Mamãe contou quando a Nona morreu, e o vovô tentou entrar no túmulo junto com ela. Ele chorava. Mamãe falou. ‘Vovô chora porquê tá orfão. Todo mundo fica orfão um dia. É a Lei da Natureza.’ Então tá, né!? Se é a Lei. Menos o Júnior, que morreu antes da mãe dele. Foi acidente de carro e ele voou pelo parabrisa. A mãe dele ficou com uma cicatriz em formato de C na testa. E ele morreu. Mas o Júnior era adotado. Acho que por isso não tinha como ficar orfão. Pena que a mãe dele não chama Esperança. Aí ele seria irmão da Nurian.”
Adriana Rossatti

“Só obedecia a uma regra autoimposta nessa vida: jamais comer numa praça de alimentação de shopping center. O sol nasce para todos, mas metade da população parece se esconder dele nessas praças, especialmente aos domingos. A promessa foi feita logo na primeira vez em que se viu nessa situação: se para morrer basta estar vivo, para não viver basta passar os sábados e principalmente os domingos enfiado numa praça de alimentação de shopping center.”
Luciana Gerbovic

“Ele estava lá dizendo aquelas coisas quando de repente me encarou – eu estava sentado bem no meio de uma plateia de 150 pessoas – e disse: faça o bem sem olhar a quem e você será recompensado. Recompensado, pensado, passado, sossegado, furtado, caluniado. Tudo isso me fez lembrar minha mãe com sua frase preferida: Mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico ir para o céu. Por que eu? Por que tinha que olhar justo pra mim que não enxergo direito, não faço o bem, não entendo de agulhas, de camelos, sou rico, gosto do meu iate, da mercedes, dos meus amigos do face, do instagram, dos companheiros da Petrobrás e amo o  meu cão? Encarei-o de volta e mandei ver: Vá pra puta que o pariu!”
Lidia Izecson

“Adolescentes, eles agiam como tal. A prova seria de geografia física. Sobre o mapa-múndi, coca-cola, pipoca e algo indecifravelmente marrom que eles haviam cozinhado, os celerados, sem a presença de um adulto ou, ao menos, de alguém sóbrio. O colega voltou do banheiro ainda fechando a braguilha. Tem algo de podre no reino da Dinamarca, disse apontando. A bolha cor de avelã já se espalhava pela Alemanha e chegava à Polônia. O rapaz alto de braços incontroláveis apressou-se. Minha irmã me mata. E lá se foi a coca-cola África afora, percorrendo do Marrocos à Serra Leoa. A garota CDF ia decorando os nomes dos países antes que desaparecessem, acometidos pela bolha parda. A loira gritou ‘Xi, é a última coca-cola do deserto! Pega um guardanapo… É isso aí!’. A essa altura, as pipocas já venciam as fronteiras planetárias e chegavam à cama, à porta do quarto, muitas escondidas sob a escrivaninha, perseguidas por Boris, o babento. O garoto de braços incontroláveis agarrou-o pela coleira dizendo: pode parar, seu Boris. Quem tudo quer, tudo perde! Vai ficar lá no quintal porque eu não vou limpar seu vômito de novo. Ao que as garotas responderam em uníssono: Blargh!”
Elidia Novaes

Sobre escrever

Em nosso encontro de 06 de Outubro, Noemi nos propôs um exercício surpresa. Cada um de nós recebeu uma palavra do colega sentado ao lado. Deveríamos escrever um parágrafo sobre “O que é escrever”, fazer uma digressão no meio do tema sobre o assunto recebido pelo colega, e voltar o tema principal novamente.

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MORTE
por Adriana Rossatti

Me sinto um tanto canastrona em falar sobre escrever. Escrever é um troço orgânico para mim. Escrevo como tomo banho, roo a unha e vou dormir com dor de cabeça em dias quentes e vagarosos. Quem fala de coisas assim, cagando regras do que nem se faz força, é canastrão e sem salvação. A verdade é que sou canastrona e preguiçosa. Se não fosse tão fácil para mim, talvez nunca escreveria. Às vezes penso se não vou morrer nessa ambição meia-boca. Acho que é na morte que a coisa toda pega. Chegando lá deve ter um “tio”, um juiz, alguém com um talão de Zona Azul para prestar contas. ” E aí!? O que você fez de extraordinário?”. Nada. Só escrevi. Vou ser cobrada por não mexer uma palha da minha zona de conforto. A morte é quando o bicho pega. Ninguém sai ileso dela. E só porque acho que ela está longe demais, falo com essa consciência danada..de quem está ferrada, mas não vai mexer a bunda do lugar. Acho também que, se escrever não fosse tão fácil quanto bocejar, se não fosse tão natural quanto me lambuzar de manga e tirar casquinha de pipoca do dente, eu daria um jeito. Eu iria arrancar sangue, deformar membros, mas acharia um jeito de fazer com que a escrita fosse o que me é hoje. Respirar.

SEQUÊNCIA DE LETRAS E CAMINHOS ERMOS
de Elidia Novaes

É mesmo como dizem. Escrever é terrível; bom de fato é ter escrito. A gente fica olhando para cima, mirando à direita e à esquerda com olhares cegos, à cata de assuntos. Abana as mãos, pretende formas no ar enquanto as palavras, sinônimos, estruturas passam ali adiante e não se deixam agarrar. A respiração fica curta, o coração acelerado, os dentes trincam, as mãos ensopam – lembra uma crise de pânico ou o prenúncio de um derrame. O deserto pode ter areia, animais, pedras, oásis ocasionais. Mas caminhar por ele é coisa para tuaregue, não para turista. Não se vê o fim. Lá vêm as cores, as formas, algum movimento, mas a assimilação escapa. Até que uma ideia vem com bússola.

NOITE
por Lidia Izecson

Eu, no garimpo. De palavras, verbos, sons. Essa frase está artificial, talvez seja melhor tirar os adjetivos, ou deixar só: aquela mulher gorda. Não, também ficou ruim e ainda perdeu o ritmo. Quem sabe, aquela mulher comia como um…, um …, um o quê meu deus? É isso que dá escrever de manhã, as ideias não fluem, não se organizam. Se eu tivesse escrito esse conto ontem à noite, com aquela inspiração que chega nas madrugadas, congelada nos cubos de gelo do gin tônica que só o Vicente sabe preparar e, que é feito com gin do bom, senão dá dor de cabeça; ele sempre diz que tem de ser do caro, bem caro. Daí tudo estaria terminado e eu não estaria aqui sofrendo.
Maldito prazo.

UÍSQUE
por Eduardo Muylaert

Quais as condições ideais para escrever? Cada escritor tem suas manias, seus horários, sua disciplina – ou sua indisciplina. Alguns precisam de drogas, outros de álcool. Embora o vinho seja mais refinado, o uísque sempre foi a bebida por excelência dos escritores. O cachorro engarrafado, como foi chamado por um amigo de todas as horas. Uns gostam de bourbon, o de milho, mais americano. Outros querem mesmo é o scotch, vindo da Escócia (nem é preciso dizer), com sua base em malte. Já ouvi dizer que o uísque era a droga da minha geração. Pode ser, mas para fotografar o álcool é péssimo: o foco demora, a mão treme, as imagens borram, um tremido sem poesia, ainda por cima. Produzir sob efeito de uísque é para poucos; um dos maiores advogados que conheci costumava absolver o réu, embora subisse cambaleante à tribuna do Júri. Mas escrever? Escrever exige concentração e empenho. Muitas vezes, as ideias movidas a álcool, postas num guardanapo ou outro pedaço de papel, viram lixo na manhã seguinte. Sem uísque, portanto. A escrita sai sozinha, de um canto do cérebro que está em sintonia com os braços, as mãos, e também o resto do corpo. É preciso sobriedade, inspiração, concentração e vontade, até para deixar aflorar a memória afetiva, emocional, e as lembranças de fatos e pessoas, com as sensações que carregam. Há grandes escritores que associaram sua figura à do uísque, basta citar Hemingway e Vinícius. A maioria, porém, só se embriaga depois de entregar a lição de casa. Ou de se entregar à preguiça do bloqueio criativo ou da dor de cotovelo.

OFICINA MECÂNICA
por Luciana Gerbovic

O clichê da página em branco, na tela ou no papel, não importa. A questão está em juntar as palavras e formar uma frase que preste. E uma frase que preste tem beleza, impacto, boa combinação de nomes, adjetivos, advérbios, sei lá o que faz de uma frase uma frase boa, mas tem uma combinação que não é mágica. É fruto de trabalho mesmo, sem milagres. Um mecânico que todas as manhãs abre a porta da oficina e olha para todos aqueles carros ali, à espera da combinação perfeita das peças que o colocarão para rodar novamente. Com a diferença da inspiração, talvez: todas aquelas gostosas em pôsteres. Vou colocar uma foto do Billy Bob Thornton na parede. Não, George Clooney. Casou, o desgraçado. Qualquer inspiração deve valer para encontrarmos a frase boa, que deve se juntar com outra frase boa, a rebimboca que se junta à parafuseta, até alcançarmos o ponto final, que pode nunca representar o fim.

O fingidor

Nosso exercício no encontro do dia 15 de setembro segue nossa pesquisa da nuance no texto. A proposta foi, baseados na entrevista de Philip Roth que estudamos, escrever um parágrafo com um personagem que finge ser você.

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” Péra. Dejá vu. Eu estava subindo por aquela escada, eu lembro do formato dos ladrilhos, quintal de caco, todo craquelado. Já não se faz mais. Igualzinho a casa em que minha vó morava. Tinha uma escada enorme, uma escadona. E, bem, eu lembro do ladrlho e de olhar para você. A gente queria ir até o pessegueiro ensacar os pessegos com sacos de papel, enfiar tatu bola no nariz, e subir os blocos de cimento no muro do fundo para ver as crianças da escola estadual quando dava o sinal para o recreio. Péra. E você vinha para mim e dizia isso aí.
Pára. Essa é a história que te contei ontem. É minha.
Falei. Dejá vu.”
(Adriana Rossatti)

“As solas lisas dos sapatos me denunciarão. Preciso esfregá-las na calçada antes de me apresentar como ela. Mania de pobre andar tanto a pé, sempre com as solas desgastadas. E o cabelo que precisa ficar preso? Ela não consegue fazer nada com ele solto? Escrever, falar, comer, pensar? Pobre e burra, disfarçada de chique só por causa de um sobrenome difícil de pronunciar. Mas eu sei bem de onde ele vem. ”
(Luciana Gerbovic)

“O Senhor Augusto Malaest forjou uma crise de identidade: não sabe se ainda quer ser advogado, ou se prefere a fotografia, ou ainda se opta só pela literatura. Foi se aconselhar com a professora Noemi Jaffe, fazendo-se passar por um de seus alunos. Noemi, que não é nada boba, logo percebeu a farsa, mas fingiu entrar no jogo. Você deve escrever, se for um bom fingidor. Mas, se for desmascarado, é melhor procurar um bom advogado.”
(Eduardo Muylaert)

“Ela me irritou naquele dia. Falava muito, não dava vez. Levantei, fui até o grupo e comecei a discursar sobre cachorros, de como são tudo de bom, quase mais inteligentes do que gente. Não como judeus, claro, esse é outro tipo de gente. Cruzei as pernas do mesmo jeito, coloquei os óculos para cima da cabeça, olhei para o celular, até que ela fixou os olhos em mim, me observando séria.”
(Eva Maria Lazar)

“Ela pôs o avental como se fosse ela. Quando foi  tirar o “paellon” do armário, qual não foi a sua surpresa: tinham três! Um de 40 cm, outro de 50 e outro de 60 cm. A duvida era qual ela (a outra) escolheria? Ela escolheu o médio. Na feira ela comprou a lula, o marisco, as favas, o lombo e o frango. Ela nem pensou no açafrão.”
(Dominique Girard)

A tomada

Nosso encontro do dia 18 continuamos a discutir nossos temas de interesse nesse semestre: a banalidade cotidiana como tema. A banalidade, quando colocada em detalhes, torna-se interessante. A partir disso entramos em uma reflexão sobre a nuance no texto. Pode-se criar nuances do personagem através desses detalhes. 

Como exercício, Noemi nos propôs descrever uma tomada comum, e a partir dessa descrição, o leitor deveria reconhecer um sentimento do narrador. Eis o resultado.

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“É fêmea. Logo se vê, tem cara de menina. O espelho de plástico, emoldurando a tomada redonda, com os dois buracos marcados para entradas dos padrões europeu e americano. Parece um rosto, de olhos arregalados e despertos, ansiosos pela vida na sala, a rotina das botas, o ir e vir das luzes do Sol e do abajur. Só consigo pensar em quão ingênua essa tomada parece ser. Mal sabe que ao conectar qualquer objeto elétrico, perde seus olhos, sofre um curto e derrete-se por dentro. Talvez a mudem para o padrão britânico ou asiático. Sem olhos que possam ver.”
(Adriana Rossatti)

“Você levou o adaptador, junto com suas camisas, cuecas, sapatos, perfume e livros. Agora só eu, toda noite, olhando para essa tomada branca – dois buracos não sei o quão profundos -, nessa parede branca, nesse quarto branco, sem poder me aquecer com a luz amarela do abajur.”
(Luciana Gerbovic)

“Um retângulo. No centro, um círculo com dois furos. E para que? No escuro. Sem campainha…
De que adianta estar na França e ter uma panela de raclete à mão? Tanto queijo, pão, batatas, cremes. E esses dois furos me encarando. Rindo. Os parafusos parecendo sobrancelhas de filme mudo. Comédia. Odeio filme mudo. Detesto raclete. Não suporto a França. E te odeio, tomada. Você com esses dois furos inúteis, essas sobrancelhas desprezíveis, esse focinho de porco enjoado. Tome uma batatada. E um pote de creme nas fuças. Lá vai pão, casca dura. Farelo também. E veja se gosta de queijo!! Assim!”
(Elidia Novaes)

“O sol que incide sobre ela todas as manhãs do verão fez com que seu amarelo semifluorescente tornasse ainda mais semi, e quase apenas um vestígio de amarelo. Pode parecer ridículo, mas este fato dificultava acertar de primeira (serei honesto, nunca antes da quarta tentativa) o plugue do carregador do celular. Pelo que lembrava minha avó dizer, o sol só cegava quando se olhava diretamente para ele.”
(Samir Mesquita)

“Igual a todas; bom, nem todas, tem as com 3 buracos para os novos pinos doidos, as tipo beliche, duplas; também as encaixadas numa peça redonda, as das peças quadradas. Essa é branca; existem de várias outras cores. Simples, comum. Mas essa tem uma coisa bacana: os buracos em par, pertinho um do outro, amigos e precisam estar juntinhos para funcionar.”
(Eva Maria Lazar)

“A tomada que vejo atrás desse balcão é um retângulo de latão brilhante, com um circulo que contém dois buraquinhos. Prestem atenção, somente dois buraquinhos conseguem acender o abajur que ilumina esse bar; fazer rodar o toca discos que enche o ambiente de romantismo; ligar o liquidificador que prepara meus whisky sauers. E eu com muito mais orifícios não consigo emprego, muito menos arrancar um sorriso da loira senta do outro lado do balcão.”
(Dominique Girard)

“Resolveu acender a luminária, se abaixou e tocou na tomada. Talvez ela nunca tenha chegado tão perto de uma. Olhou para aqueles dois furos simétricos, calmos, irradiavam a paz dos casais afortunados. Passou a ponta dos dedos naquele marrom escuro uma, duas, três vezes e o orvalho salpicou seus olhos.”
(Lidia Izecson)

“A tomada é: um quadrado dentro de outro quadrado. E é branca. É isso”, digo.
“Mas como são os furos?”, você pergunta.
Os furos, eu me esqueci. Como pude? Os furos não são nem parte da tomada, os furos são a tomada em si, todo o resto é adereço, pouco importa. Como pude?
“Está certo, os furos. São como nas outras, são dois. E têm traços nas laterais. Está bem: uma tomada é um quadrado dentro de outro. Brancos, os dois. E os furos são pretos, profundos, com traços. Satisfeita?”
“Não é um quadrado”, você diz. “É um retângulo. Um quadrado dentro de um retângulo.”
(Isabela Noronha)  

“A tomada branca parecia deslocada naquele canto obscuro de coluna. O arredondado da moldura é um arremedo, não chega a dar conforto aos contornos mal retangulados. O miolo, perfeitamente quadrado, impõe a forma dominante, restringindo a área de onde emana a energia. Nos orifícios, que lembram essa praga moderna que são os emoticons, pode-se subentender terminais de cobre, ou latão, com polaridades diferentes, um positivo, carregado, e outro neutro, mero auxiliar de um circuito a ser fechado. O bi-fásico é assim, um mais e um menos. Ah, se houvesse um fio terra, como hoje é recomendado, aí sem haveria por onde descarregar os excessos. Se a instalação fosse tripolar, dois positivos e um negativo gerariam voltagem em dobro e choques assustadores. Mas, em resumo, trata-se apenas de uma tomada simples, pobre, branca, sem cor e sem graça.”
(Eduardo Muylaert)

“Tomadas com buracos são tomadas femeas, negativas, passivas; dependem de que uma outra tomada, essa sim, positiva, tomada macho, a penetre pra que algo aconteça: o vinho gela, um abajur acende, e ele não vem.”
(Elza Tamas)