A palavra

No exercício dessa semana, cada um escolheu uma palavra (não podia ser nem substantivo, nem adjetivo, nem verbo) e passou para um colega. A palavra recebida foi usada como refrão/estribilho num fluxo de consciência alegre e positivo. Eis o resultado.

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Sempre

Uma aliança na minha mão direita, sempre, essa aliança agora, sempre, da direita e daqui a quantos meses mesmo ele falou?, vinte e dois, lindo, sempre, vinte e dois meses, meu amor, e seremos marido e mulher, para sempre, ele, sempre, meu, eu, sempre, dele, conta os meses, vinte e dois, como quem conta os minutos para aquilo que mais quer na vida, e seremos, sempre, nós, nossas alianças, nossos dedos, nossas mãos, sempre, entrelaçadas, e depois um filho, dois, nós, sempre, misturados em outros seres, a lista de presentes, nossa casinha, sempre, com tapete de boas-vindas na porta, ah, pinguim na geladeira, toda breguice e felicidade a que temos direito, sempre, quero cerca branca e cortininhas com corações na janela da cozinha, sempre, eu, ele, nossas alianças, sempre.

Luciana Gerbovic

“Na festa, enfim, a turma me recebeu, estou dentro, não esperava esta casa tão grande, bonita, enfim, deu tudo certo e agora gostam do meu cabelo e como eu caminho, enfim, a vida vale pelo que é, mesmo, igualzinho como eu tinha pensado, enfim, como todos dizem, cheguei lá”

Alcino Bastos

Contudo

Andar com a nora e a neta é meu programa diário de minhas férias, contudo essas duas cachorras vira-latas que nos acompanham não combinam com o bairro que é sofisticado com casas de janelas grandes, contudo não iguais àquelas que existiam no bairro europeu de meu avô onde morei aos 18 anos; casas com jardim parecendo parques de rododentros que floresciam na primavera. Naquela época o maior presente que recebi dele foi um guarda-chuva, contudo um guarda-chuva vermelho igual o da capa da revista. As cachorras são obedientes, nem sequer pensam em fugir para praia, contudo Carolina, minha neta insiste em fazer mais uma tatuagem.

Dominique Girard

Amanhã 

Amanhã é coisa que bicho não entende. Eu sou ovelha, mas entendo bem o que é solstício. E é amanhã. Festa da colheita amanhã o dia todo. Amanhã. Não vou esquecer. Memória de ovelha não é nada excelente. Solstício, amanhã. Vai que eu arranjo uma encosta de morro para escalar, uma grama distante apetitosa, um motivo bom para ficar balindo sozinha por ai. Carneiros, muitos. Amanhã. Amanhã.

Elídia Novaes

Até

Segunda de tarde e lá vem, carro preto, ó. É mulher. Para na esquina quer atravessar, quer cruzar a via para ir na direção oposta. Preste atenção, dona, até pisco o farol do carro, estou aqui, estamos de olho, aí é conversão proibida, até buzino, duas vezes, mas ela não vê, ô, dona, via de mão dupla condutor não pode fazer isso, artigo 22, capitulo 3 do manual, no automático, ela está no automático, até que me ver ela viu, mas não liga, até sorri, até que tem o sorriso bonito. E segue, não vinha carro, até que tudo bem, está vazia a rua, está certo então, não multo, até mais, dona.

Isabela Noronha

Após

Ele vem me ver hoje. Após o almoço, falou no telefone, acho melhor comprar flores, enfeitar a casa, vestir roupa nova. Após o almoço, ele disse, encher a mesa de doces, os que ele gosta, muita cocada, da branca, a de fita, ele vem após o lanche, no almoço não deu, colocar o tapete, isso é bom, a casa mais bonita, aconchegante, chique, o suco já pronto, após o jantar, maldito trabalho, mas vem hoje, o rímel desbotando, preciso retocar, a casa cheira bem, ele vem, vou abrir as janelas, vem me ver hoje após, após, após…

Lídia Izecson

Agora

Agora. Chegou a minha vez. É agora. Acabou. Chega. Agora sim, vou fazer como sempre quis. Deixem comigo. Vocês vão ver quando um agora se transforma em agora sim, num agora mesmo, num agora já.

Eduardo Muylaert

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CHAMO/ AMO

Essa semana Noemi nos fez uma proposta divertida. A partir de uma história pessoal dela, nós deveríamos recontar a cena de acordo com uma perspectiva diferente, que ela designou para cada um de nós.

A história da Noemi: “Eu estava com um namorado recente, por quem eu estava apaixonada. Ele dormiu na minha casa e acordou cedo para me fazer café da manhã. Eu acordei e ele me disse: “dorme, eu te chamo”. Eu estava meio sonada e fiquei com uma dúvida martelando na minha cabeça: “Ele disse “eu te amo?” ou foi “eu te chamo”? Depois de um tempo, tomei coragem e perguntei se ele tinha me dito “eu te amo”. E ele respondeu que não, ” imagina dizer isso a essa hora da manhã”.

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Trágica
por Adriana Rossatti

“Acordei. Nem dormi. Ele apertava o snooze do rádio-relógio-despertador. Dormir a primeira vez na casa dele é como ganhar autorização para uma dimensão perdida. Móveis escuros, o lençol tem bolinhas e o travesseiro é fino demais para o meu gosto. A maçaneta do banheiro está quebrada. Ele coleciona caixas de fósforos. Atrás da porta tem um poster do DIO, na geladeira um bilhete da empregada. Fingi que ainda dormia, mas ele me beijou. Colocou a camiseta de ontem sobre o corpo nu e foi fazer café. ‘Dorme mais um pouco. Te amo’. Olhos estatelados. Me ama? Ou me chama? ‘Dorme mais um pouco. Te chamo’. Me chama? Ou me ama? Ele me ama? Será que finalmente ouvi? Será que ele é tão emocionalmente disponível assim? Parem as máquinas. Ele me ama. Tirem as crianças da sala. É amor. Eu mal acreditava que tinha acontecido. Vamos poder, enfim, passar para a fase em que a gente se ama, e nada mais precisa ser provado. Eu vou retribuir, preciso deixá-lo seguro. Talvez eu agradeça os ovos. ‘Ovos bennedict, meus favoritos! Como descobriu? Também te amo!’. Ou te chamo? Ou será que nem aconteceu?

Coloco a camisa aberta. Arrumo o despenteado do cabelo, o borrado da maquiagem. Escovo os dentes. Não quero falar nada com bafo. Chego na cozinha descalça, brincando com meus dedos no batente da porta. Fiz uma cara de frágil, porque eu estou. Eu estou frágil. ‘Aquilo que você falou. Foi te amo ou te chamo?’. Ele não fazia ovos. Cortava com uma faca cega as bordas do pão Pullman. ‘Te chamo, óbvio. Imagina dizer isso a essa hora da manhã.’

Acordei. Nem dormi. Fiz dois cortes fundos que me drenaram pela banheira de esmalte descacado. Embaixo da torneira tinha um fiapo de ferrugem escorrendo e em cima da caixa de descarga, exemplares antigos da Placar, da Playboy e da Carta Capital. A maconha, joguei toda na privada. Em cima do botão de snooze, do rádio-relógio-despertador, deixei um post it. ‘Desculpe fazer isso a essa hora da manhã. Te amo’.”

Fantástico
por Eva Maria Lazar

“Aquela luz forte entrando pela janela me acordou. Lembrou filme de ficção. Vou dormir mais um pouco, cada sonho. Uma voz gentil com um jeito metálico me deu um susto: quer café? Não tenho certeza se eu disse sim. Dorme, eu te chamo. Passos, a luz sumiu, me encolhi, virei para o lado. O olho estatelou; como assim, quer café, quem? O coração acelerou, levantei. Comecei a descer as escadas, meio pé ante pé. Coragem, entra logo na cozinha.

Eu e minha camiseta amassada entramos. Um homem alto, usando roupa estranha, mexia na cafeteira; na mesa, pão fatiado, queijo e geleia. O medo, já curioso, disse: quem é você? O rapaz era lindo, parecia Charlton Heston no Ben Hur de ontem à noite na Sessão Coruja. Sorriu, com os 94 dentes mais bonitos que já vi, você já levantou? Ia levar na cama. Fiz o olhar mais digno possível; quem é você? Riu; você gosta forte, né? Esperei o coração bater menos de 100 vezes por minuto: você falou eu te amo? Ele riu de novo: claro que não, a uma hora dessas? E continuou a preparar o café, enquanto eu sentava em silêncio à mesa.”

Ingênua
por Mônica Carvalho

“Tomei o último gole de vinho antes de fechar os olhos; a taça, agora vazia, tinha sido preenchida até a borda, e eu também. Sempre achei que vinho combina bem com os primeiros passos: na festa em que não se conhece ninguém, na paixão da qual ainda pouco se sabe. Ele não fala quase nada, acho que porque essa vida de repórter internacional demanda tanto de contato com todo tipo de gente que ele prefere nem comentar. Já é bom poder estar junto, mesmo que só as sextas, hora de almoço.

Nem acreditei quando disse que ficaria para dormir, ele que nunca passa das duas da tarde por aqui. Sim, merece o vinho! Comprei com cuidado, junto com tudo mais; uma conta desse tamanho só cabe uma vez por ano, mais quem sabe, se ele topar voltar e ficar. Ainda bem que aquele tantinho que espirrou quanto tirei a rolha (agarrada, esforço danado tive que fazer) não borrou o livro que ele tinha deixado semiaberto em cima da mesa (li, sem querer, um “não se esque…”, acho que era isso, escrito no post-it da primeira página), mas desviei os olhos antes que fosse indiscreta de verdade; sim, teria sido um desastre estragar o tal livro que ele carregava meio ansioso quando chegou.

Acordei, ele não estava ali.  Chamei.
‘Não venha, eu te chamo’!
‘Eu também’!
‘Ainda é cedo!’.
‘Não, não é, sempre amei assim: de olhos bem abertos’.”

Poética
por Elza Tamas

“Vi quando ele abriu a janela, tinha sol, então acreditei que ele tivesse dito.  Logo depois um cheiro de café gostoso invadiu o quarto, -ele fazendo café pra mim?- então devia ser verdade. Eu estava sem óculos quando ele disse, possível ver um dia arrebentando de lindo, mas difícil perceber os detalhes do movimento da sua boca, sem óculos eu nem escuto direito.
Era primeira vez que ele dormia na minha casa, nossos corpos se entendiam e nenhum de nós se banhou, queríamos manter todas as impressões. Depois conversamos, e adormecemos sem perceber. Dormir juntos é o que há de mais intimo. Agora a pouco, ele me deu um beijo, tímido, acordei e ele disse dorme, dorme, eu te amo, e eu coloquei as mãos sob o travesseiro, as duas, juntas, quase uma reza, feliz, tudo de melhor acontecendo, ele me ama, mas ai senti um desconforto, leve, mas desconforto, talvez ele possa ter dito eu te chamo, porque foi fazer o café, deve ter sido, dorme, eu te chamo.

Precisava perguntar, mas uma pergunta destas não se faz nua. Vesti a camisa dele, jeans, manga longa; virei os punhos, arrumei a gola, os dois primeiros botões desabotoados, e mordendo a boca de vergonha, perguntei: Você falou ‘eu te amo’ ou ‘eu te chamo’? Eu? não lembro, por quê?,  mas ‘eu te amo’ eu não disse, porque imagina dizer isso a esta hora, não ia ter sentido, riu e me olhou danado, gostando de me ver na roupa dele.Você quer com pouco ou muito açúcar? O quê? perguntei.”

Filosófica
por Eduardo Muylaert

“Hoje eu acordei na caverna de Platão e me senti uma toupeira. A frase saiu do fundo do travesseiro e eu não acreditei. Ele nunca tinha dormido na minha casa, se ofereceu para fazer o café e eu, como boa epicurista, achei demais. Mas o que eram aquelas palavras mágicas? Podia ser “Dorme, eu te amo”, mas também “Dorme, eu te chamo”. Será? Mesmo apaixonada, sou adepta do mais puro ceticismo e quis trazer clareza à essência da inesperada declaração. Sei da volatilidade das palavras e das múltiplas possibilidades de significado, mas era preciso adequá-lo ao texto correto, sem perda de tempo. Você disse eu te amo? Não pensei, claro, no amor como virtude, em Platão sou mais a caverna e a escuridão. Mas quando ele disse “imagina dizer isso na primeira noite” eu achei que era hora de largar a filosofia e voltar para a terapia.”

Metalinguística
por Elídia Novaes

“O despertador toca.
Ela – mmmm… zzzzzzzzz
Ele – O que você disse?
Ela – ahn? hmmm…? quê? eu…?
Ele – Ah, dorme. Eu te chamo.
Ela – Você viu o que você falou? Está precisando mesmo se consultar com uma fonoaudióloga. Não se entende o que você diz. Eu estou aqui do lado e não sei se você disse chamo, amo, se espirrou ou fez algum tipo de crítica ao meu hábito de dormir até mais tarde.
Ele – Eu disse Dorme que eu te chamo.
Ela – E não precisa responder assim. No grito é que as coisas não se resolvem. Se não funcionou para Dom Pedro I, não seria para você. Ora você fala enrolado, ora me trata como se fosse surda. Não é assim que o diálogo vai se estabelecer.
Ele – …
Ela – E aí? Nada mais? Isso é jeito de conversar? Veja como funciona: um pergunta e o outro responde. Depois invertem. O outro pergunta e o um responde. Chama diálogo… Você não vai perguntar nada? Nada mesmo? Você está ficando impossível de conviver.
Ele – Você… Na primeira vez, eu disse que te amava. Mesmo que fosse tão cedo. Daí, fiquei sem graça, achei que você estava dormindo e mudei, disse que te chamava. Ia voltar ao assunto mais tarde.
Ela – Viu como você está precisando visitar a fonoaudióloga? Bem que eu te disse.”

Ironia
por Luciana Gerbovic

“Você disse que ia fazer o café…
Disse.
E depois?
Depois o quê?
Depois de dizer que ia fazer o café, você disse outra coisa…
Disse?
Disse… Eu te amo? Ou eu te chamo?
Ah! … Eu te chamo, claro. Imagina se eu falaria “eu te amo” às sete da manhã.
Ah… E à noite, você falaria?
O quê?
Eu te amo!
Ah … Não. “Eu te amo” só falo entre duas e quatro da tarde. “

Prolixo
por Lidia Izecson

“Depois de quase 6 meses de encontros no café Brasil, no bar do Afonso, no salão de danças do Andrei, eu tinha certeza que naquela noite as coisas iriam acontecer. Era a primeira vez que eu subia até o apartamento dele, nunca antes ele havia me convidado, nem mesmo no dia 7 de março, dia do seu aniversário e quando fizera um bolo para os mais íntimos. O hall do prédio era suntuoso, cheio de tapetes persas, e a escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo me deu um pouco de tontura. Essas escadas que copiamos dos franceses podem ser muito bonitas, mas não são nem um pouco práticas, enrolam daqui, enrolam dali, e a gente acaba tendo que gastar muito mais energia e tempo do que o necessário. As modernistas brasileiras, mais retas e com menos adornos, se prestam muito mais ao nosso estilo de vida.

Quando cheguei, de língua de fora e quase sem ar, vi a porta aberta e entrei. O relógio cuco, do qual ele tanto falava, estava pendurado na parede maior da sala, pintada de verde claro, e eu fiquei lá imóvel, esperando. Não sabia quem ia aparecer primeiro: se ele ou o cuco. Foi então que a voz dele, aquela voz rouca de locutor da rádio Eldorado anunciando o concerto da tarde, me chamou lá de dentro: – vem aqui, quero te mostar uma coisa. No quarto, a cama ocupava todo o espaço e, por cima dela, a colcha de matelassê  me trouxe um certo alívio. Era de bom gosto e não tinha aquela cara de coisa comprada na 25 de março, rua onde ele gerenciava a loja de tecidos do pai. A claridade que entrava pela janela não me deixava ver senão a silhueta dele, e quando chegou perto e me abraçou, percebi que já estava só de cuecas. Eu então tirei minha blusa de seda da China pintada à mão, deixando que ele visse a tatuagem que fiz na India, aquela de quando passei lá os quatro meses do curso de Ioga. O sorriso dele foi lindo e ele me abraçou falando alguma coisa que parecia um doce murmúrio, mas bem nessa hora o cuco resolveu sair da casinha dele lá na sala e começou a berrar : cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô. Ele falava coisas no meu ouvido, mas eu só escutava os berros do cuco. E quando o maldito pássaro, cuco é um pássaro?  parou com a barulheira, ele soltou o meu corpo e, com uma cara contrariada, foi logo dizendo: eu sabia que você não me amava de verdade; agora tenho certeza disso. Se me amasse, como vive dizendo, teria respondido à minha pergunta. – Mas o que você perguntou? -Ah, isso só se fala uma vez, e acho melhor pararmos por aqui. Eu ainda insisti, implorei por quase dez minutos, mas ele se trancou, sentou-se na beira da cama e não disse mais uma palavra. Não tive outra alternativa, senão vestir minha blusa de seda da China e descer novamente aquela maldita escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo.”

Narrador Onisciente Intruso
por Isabela Noronha

“Ele acordou primeiro e se virou de lado. Achava patético isso de ficar olhando o outro dormir, não era esse tipo de cara. Tentou fechar os olhos de novo mas foi inútil, estava calor e, para ele, aquela cama, a cama dela, era muito apertada — embora, ainda que ele não percebesse, fosse do tamanho exato da sua. Ia para casa, ligaria depois. Ou esperaria ela ligar, que se dane. Mas quando pegou a calça do chão, bateu no abajur e a acordou. Ela quis saber aonde ele ia. Ele se viu sem opção, gostava de pensar que não era o tipo de cara que abandonaria a namorada assim, na lata, então disse que ia fazer o café e terminou de se vestir. Já fora do quarto, acrescentou: ‘dorme, eu te chamo’.

Ela ficou em silêncio, e ele, porque só acreditava no que queria acreditar, achou que ela tinha voltado a dormir. Mas a frase a tinha despertado inteira, ela não sabia se ainda era sonho e tinha ouvido direito, espera, não era sonho, ela tinha escutado algo sim. Aquilo. Não era? Espera. Era grande demais, felicidade demais. Talvez. Ficou com a dúvida, e a levou à mesa para tomar café com ele, depois ao parque, onde foram ler, e para o apartamento de novo, quando a chuva apertou de repente e os dois correram, mas se molharam mesmo assim, e chegaram encharcados e talvez fossem transar, talvez só se enxugar, mas ela interrompeu de qualquer forma para finalmente perguntar se, de manhã, sabe, naquela hora, sabe, que você foi, sabe, fazer o café. ‘Você disse eu te amo?’ ‘Mas é claro’, ele respondeu, ‘é claro que não. Imagina dizer isso tão cedo, de manhã’. Ele era esse tipo de cara.”

Técnico
por Dominique Girard

“Quando acordei, Paulo ainda estava lá. Ele, uns ruídos na cozinha e um aroma de café. Ao sentir minha movimentação nos lençóis, foi logo dizendo: “Dorme, eu te chamo”. Dobrei o travesseiro em dois, virei para o lado esquerdo da cama, fechei os olhos. Te chamo ou te amo? O que será que ele disse? Será que ele se utilizou de um léxico iniciado por  uma consoante fricativa sibilante, chhhhh ,  em que o som é formado pela passagem do ar por um canal estreito da boca, por um obstáculo? A  língua se curva de maneira a conduzir o ar sobre as pontas dos dentes. chhhamo? Ou, se desfez de todas as barreiras entre nós e optou por iniciar nossa manhã com a vogal “a”, em cuja emissão o ar passa livremente pela boca, sem obstrução? aaamo! A ansiedade não me deixou mais dormir. “Paulo, você disse: eu te amo?”. “Não, eu disse: eu te chamo.“ A prosódia é cruel.”

Humor
por Alcino Bastos

“Bocejo:
– Vou preparar o café. Eu te chamo.
Ele, aos gritos:
– Eu também.
Ela, de longe:
– Para que?
– Ué, amar não tem finalidade.
– O que? Felicidade?
– Sim, eterna.
– Eu sei. Sou a própria ternurinha.
– Não, a tesourinha não está aqui. Fala de novo que me ama.
Ela, entrando no quarto:
– Quem ama quem? O café está pronto.
– Você falou que me ama.
– Tá sonhando.
– Com você.
– Larga de ser ridículo. O café está pronto.
– Como assim?
– O café está pronto. Já disse três vezes.
– Que me ama?
– Ah, vê se acorda, vai!”

Todos dizem eu te amo

Depois de uma noite de discussão sobre Barthes e seu discurso amoroso, Noemi nos propôs um exercício.
Escrever um diálogo em que um dos personagens diz “Eu te amo”.

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“Ela comeu o 5º chocolate seguido.
D – Não é pedir muito, é?
P – Não. Não é não.
D – (mastigando) Toda minha vida, tudo o que eu pedi, é sinceridade, sabe? Não me importa se a pessoa gosta, ou não gosta. Se me acha feia, chata ou burra. Acho que tá certo. Todo mundo tem direito a ter sua opinião. É legítimo. Mas não vem me falar uma coisa, quando tá pensando em outra. Não vem com um discurso, só para fazer o bacana.
P – Claro!
D – Não suporto mentira.
(Silêncio)
Come mais um chocolate.
P – Te entendo.
D – Mesmo?
P – Eu não seria louco de te mentir agora.
Ela olha fixo para ele, enfim abre um sorriso.
D – De fato. Sinceridade é tudo o que eu peço.
Joga mais um chocolate na boca. P acompanha o movimento.
D – (Parada, com a boca cheia) Você me acha gorda?
(Silêncio)
P – Que é isso?! Eu te amo!!!”

(Por Adriana Rossatti)

“– E agora eu digo ‘eu te amo’?
– Agora você diz o que quiser.
– Acho que agora não é o momento.
– Então quando será?
– Depois do terceiro prato talvez?
– Por favor, antes da sobremesa.
– Para termos um grande desfecho?
– Para eu não precisar ir embora com
a boca amarga quando dizer ‘eu também’.”

(Por Samir Mesquita)

“‘Mas já é tarde.’
‘Nem tanto, tem tempo.’
‘Mas eu te amo.’
‘Nem tanto. Tem tempo.'”

(Por Mônica Carvalho)

“- Você me ama? Diz vai! Diz! Pelo menos uma vez.
– Será que é preciso? Estamos juntos há mais de vinte anos! Nesse tempo todo você não sabe ainda o que eu sinto por você?
– Ah! Para com isso. Só quero escutar. De sua boca. E não vale falar em inglês.
– você não acha ridículo? Pensa em tudo que fizemos juntos, nossa cumplicidade. Será que não consegui demonstrar meus sentimentos por palavras, atos e obras? Nesse tempo todo?
– Mas que custa dizer?
– OK. OK. Rendição! Eu te amo. Esta bom assim? Ficou satisfeita agora?
– Não fiquei e você sabe muito bem que não. Isso é jeito de falar comigo? Se eu não te conhecesse tão bem pensaria até que você não me ama.”

(Por Alcino Bastos)

” – Dois pãezinhos bem branquinhos, Dona Rosa.
–  Obrigada, Seu Almeida, boa memória a sua.
– Dona Rosa, lhe atendo todo dia, a gente guarda.
– Por isso sua padaria é a melhor do bairro, com esse atendimento personalizado, Seu Almeida.
– A gente se sente bem em ver as clientes felizes, Dona Rosa.
– Muito simpático isso, Seu Almeida. Vou indo, estou atrasada.
– Eu te amo, Dona Rosa.”

(Por Eva Maria Lazar)

“- … É que eu te amo.
– Ama?
– Amo.
– Por quê?
– Por que o quê?
– Me ama?
– Eu não sei.
– Então não ama.
– Amo.
– Como?
– Como o quê?
– Como me ama?
– Ah, não sei.
– Então não ama.
– Amo. Assim ó: levando um copo com água gelada todas as noites para o seu criado-mudo.”

(Por Luciana Gerbovic)

“Se
– Não dá. Se você diz hora, ouço cobra, se diz mão, ouço não, diz fé, ouço até…
– Espera, vai.
(…)
-E se digo eu te amo?”

(Por Isabela Noronha)

“- diz
– por que você quer que eu diga? você não sabe?
– diz
– já falei, só digo uma vez por mês
– diz, tô precisando
– mas já combinamos, se falar toda hora gasta, perde o efeito
– diz, por favor
– tá bom, tá bom. olha bem pra mim: você está muito mais magra.
– ai, que bom! eu te amo
– eu também.”

(Por Elza Tamas)

“- Eu te amo.
– Não, eu te amo!
– Não, eu te amo!
– Eu te amo primeiro.
– Não, você falou antes, mas eu senti primeiro!
– Eu te amo desde a primeira vez que eu te vi!
– Eu amo a ideia de você antes mesmo de te conhecer!
– Pois eu te amo antes de existir.
– E eu só existo porque te amo…”

(Por Renato Stetner)
“FRITOS E COZIDOS
– Você não precisava ter falado comigo daquele jeito na frente deles.
– E você não precisava ter ofendido o dono da casa.
– Eu não ofendi ninguém.
– Claro que não. Todo mundo adora ser chamado de coxinha.
– Mas ele é coxinha.
– E precisava dizer?
– E você não precisava ter praticamente me mandado calar a boca. Com a Luísa ali do lado?!
– E quem se importa com a Luísa. Quem você ofendeu foi o Arnaldo.
– Mas o Arnaldo não é seu ex. Ela ainda fez aquela cara de “se ferrou”. E você acha que alguém gosta de ver a ex do marido fazer cara de “se ferrou”?
– Ai, tá bom, vá. Você me desculpa pela exposição Luísa, eu te desculpo pela coxinha. Pode ser? E a gente pede a comida? A gente sempre encrenca, mas você sabe que eu te amo.
– Pode ser. Mas estou começando a achar que você também é um pouco coxinha.”

(Por Elídia Novaes)

CARLABELARDA

por Isabela Noronha

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Que situação.

Que situação.

Um dilema.

E olha que eu tenho intimidade com a dita cuja, a que não se diz o nome, a derradeira, a dona da foice. Desde sempre, desde o útero. Eu brotei com um gêmeo. Convivemos, irmãos, um ao lado do outro, até o último ultrassom. Papai e mamãe estavam finalmente felizes. Tinham demorado anos para engravidar. Fizeram tratamento. Queriam meninos, meu pai tinha nome e sobrenome para varão, dois então, um tanto melhor. Mas éramos um casal. Tudo bem, ainda era benção, a justiça se fazendo divina.

Mas no dia do parto, só um estava vivo. Eu.

O médico me tirou primeiro, pelos pés, a pele acinzentada e brilhante, coberta de sangue, um ser berrante. Depois foi ele, a mesma pele cinza, o brilho, o sangue. Silêncio. Um bicho morto, um frango que balançava pelo peso da cabeça, sem penas, sem vida, sem nada. 

1. Um sonho

2. A mínima possibilidade de dar certo


Essa parte do frango mam
ãe não contou. Fui eu que imaginei. Pensando bem, é desnecessária. Desculpe. É que trabalho em um açougue. 

A morte do meu irmão foi rara. Os médicos disseram que ele não tinha coração. Ele tinha, só não batia mais. Para mamãe, fui a primeira suspeita. Qualquer mínimo golpe poderia ter causado a tragédia: um chega para lá no útero, um pé mal colocado bloqueando o cordão umbilical e lá se ia todo o ar dele. Sufoco. Papai desconfiou de mamãe, de algum funcionamento errado, um gene torto, uma falha. Ela tentou argumentar. O médico interrompeu. Buscar culpados não mudaria nada. O tadinho não era para ser, vontade de Deus, seguíssemos em frente. Fomos. Meu pai sem o varão. Minha mãe sem o filho, eu sem o irmão, nós duas suspeitas, cúmplices e testemunhas, a verdade daquele crime na memória das nossas células.

Em casa, os dois berços no quarto, próximos, unidos, os nomes em placas acima deles: Carla e Abelardo. Abelardo era o nome do pai do papai, que tinha nos dado a casa e também o carro e também os médicos e o parto. Carla era só eu.

Mamãe ora me punha em um berço, ora em outro. Chamava papai para ver a criança ali, em paz, respirando bonitinha, abaixo da placa Carla, abaixo da placa Abelardo, decretando assim a presença dele, a nossa, a morte de ninguém.

Não eram berços iguais. O do meu irmão era mais espaçoso, reforçado. Meninos são maiores, mais fortes, até um pouco violentos, mamãe dizia. Quando eu fiz 3 anos e não cabia mais nem no berço do Abelardo, ela teve que tirar os dois do quarto. No lugar do meu berço, pôs meu colchão. No lugar do berço dele, outro.

Só o lugar de papai ficou vazio. Percebi que ele nunca mais tinha jantado com a gente e perguntei. Viajou, ela respondeu, definitiva. 

3. Um casamento

Mamãe me ensinou a me vestir com as minhas roupas e com as do meu irmão. Tínhamos o enxoval pronto até os 3 anos. Sorte, porque as roupas do Abelardo caíam perfeitamente em mim até os 5, quase 6. Meninos são maiores, mais fortes. Até um pouco violentos.
Fui
ótima aluna, principalmente em matemática e ciências. Nos esportes, preferia futebol. Era a capitã do time da escola que foi vice no intercolegial de 2004. Ouvia metal, AC/DC. Aprendi a tocar piano. Mamãe gostava de Branca. Nessa época, passei a assinar as lições como Carlabelarda. Carla era curto demais, Pedi aos colegas que me chamassem pelo novo nome. Quem não aceitasse, apanhava. Tinha os amigos certos. Era a rainha e o rei da pré-escola.


4. Uma pomba (sem querer)
5. Uma legi
ão de formigas
6. Tr
ês ou quatro besouros
7. Uma barata
8. A vontade de cortar o cabelo bem curto

9. Uma curiosidade: como é ser feliz?

Até que dona Lúcia me convidou para uma conversa na sua sala e quis explicações. Não dei, não tinha para dar. Ela ameaçou chamar mamãe. Implorei que não fizesse isso. Expliquei que mamãe não precisava de mais problemas, estava cozinhando para fora, trabalhando muito. Nos dias que conseguia. Nos outros, ela sumia, só voltava de noite, com comida ou roupa ou jornais ou outra coisa que conseguia na rua. Dona Lúcia não me ouviu, e então, do nada, bati a mão na mesa dela e disse: Filha da Puta. Algo me subiu. Era o Abelardo.

Pouco depois desse episódio, foram dar lá em casa uns policiais e uma moça, na hora do almoço. Mamãe estava dormindo, eu abri a porta. Perguntaram por ela, subi para acordá-la. Mamãe desceu sem se pentear e os policiais começaram um discurso, palavras como chance, irresponsabilidade, quinta, vez, criança, chiqueiro, fome, magreza, doença, tratamento e uma que eu ouvia pela primeira vez mas entendi: abandondincapaz. Mamãe gritou, chorou, quis vir até mim. Um deles a segurou pelo pulso. A moça me pegou pelo braço e mandou eu fazer a mala. Fiz. Quando descemos, mamãe ainda chorava e aí percebi, ela não viria. Então eu também não ia. Também não ia. Não ia. Me agarrei no corrimão da escada, mas eles eram três e eu, só dois. Mamãe ficou sozinha.

Abandondincapaz. Nunca me perdoei.

Tentaram me encaixar com alguma família, mas ninguém queria uma criança velha. Eu tinha 8 anos. Fiquei em instituições, foi bom, porque continuei a estudar e tinha comida e cama. Mamãe foi me visitar uma vez, meses depois. Não falou nada. Chorou e tocou meu rosto, seus dedos deslizaram nos meus olhos, no nariz, na boca, tentando voltar para algum lugar, um território, a geografia dela e de Abelardo em mim. Depois não veio mais.


10. Aulas de religi
ão.
11. Aulas de moral e c
ívica.

12. Aulas em geral.

13. Duas aranhas de pernas finas e a mãe delas.
14. Carrapatos.
15. Um escorpi
ão amarelo.

  Quando fiz 16 anos e estava perto de ser maior, consegui autorização para voltar para a nossa casa para uma visita. Bati a campainha. E de novo. Ninguém atendeu. Assim também foi no dia em que Abelardo e eu completamos 18 anos. E outras três vezes no ano seguinte, as plantas do quintal da frente engolindo a casa, amordaçando as portas e as janelas.

16. Flores na porta de casa.

17. Uma pomba (por querer).
18. Mam
ãe.

Nesse período, eu tinha arrumado trabalho no Zeffa. Garçonete. Eu não era mais problema do governo, só meu. O bar ficava cheio toda noite, dava para pagar as contas. Morava com outras três meninas em um apê no Padre Eustáquio. O gerente me elogiava pelo atendimento jeitoso, atencioso. Em maio, tinha sido a funcionária do mês. Perto do Natal, em um almoço, senti algo, um esbarrão?, na bunda. Ignorei. Voltei para servir o filé. Um apertão, agora de mão cheia, agora sem dúvida. Pra quê. Me subiu, ele veio, o Abelardo. Quando dei por mim, a faca estava fincada naquela mão redonda, saliente, o cliente gemendo. Fui despedida no meio do salão.

O gerente me ligou depois e disse que aquele cliente era um porco mesmo. Mas não podia me dar o emprego de volta. Ele me indicou para atendente no açougue do amigo dele. Lá eu poderia usar a faca à vontade, ele disse. E riu.

19. Orgulho

O açougue é um ponto de encontro de mortos e vivos, tipo um cemitério. Mas as semelhanças param aí. Em vez de enterrar os que se foram, eu os tiro da solidão gelada e entrego para os clientes. O Pedro, o dono, me disse isso, e eu agora repito para todos, porque acho bonito. Essa frasezinha besta fez algo viver em mim. E algo morrer também.

Outra diferença, essa observei sozinha: daqui, as pessoas saem sorrindo. Quando elas vêm. Não tem muito movimento. Mas o Pedro acha tudo ótimo.

20. Tempo
21. Moscas

A gente está junto há seis meses. Isso mesmo. Namorando. Ele me quis assim, de pronto. Diz que sabia o necessário: sou jeitosa, atenciosa e boa com a faca. Semana passada, me tirou da república e me convidou para morar com ele. Não preciso mais ir ao açougue se não quiser.

Nosso apartamento é ensolarado, ventilado e, como fica no primeiro andar, tem quintal. Pedro é mais velho uns 20 anos. Gosto. O Abelardo diz que, em geral, Pedro é bom. Ele não quis ser apresentado. Não deixou sequer que eu falasse dele para o meu namorado.

Foi pior. Porque o Abelardo voltou da clausura auto-imposta maior, mais forte e até um pouco violento. Subiu no meio da briga, uma briga horrível. Ele chegou a pegar a faca. O Abelardo. E gritou, fez ameaças. Pedro desviou dos golpes, ainda bem. Chorou. Pegou umas roupas e foi em direção à porta. Antes de sair, disse: ou você muda ou não dá

Que situação.

Que situação.
Um dilema.

Abelardo não tem para onde ir. Não vai se mudar. A não ser, a não ser que.

Não.
Eu n
ão poderia.

Mas Pedro.

Pedro é minha chance. Minha rocha.

Você entende, Abelardo?

Desculpe.

Matei tanto na minha vida, precisei. Matei e anotei, para não esquecer, para pagar depois. Mas o meu irmão não. Você, eu não poderia.
Poderia?


22. Abelardo

Rápido veloz

A proposta desse exercício se dividiu em duas partes. Em um primeiro momento fomos convidados a listar o máximo possível de sinônimos para a palavra “RÁPIDO” que pudéssemos lembrar.

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veloz        acelerado       repentino      ágil           urgente        expresso          diligente          de supetão      

ligeiro            célere              corrido         instantâneo            no susto          num átimo        num piscar de olhos

Na segunda parte do exercício nós devíamos escolher 5 desses sinônimos e construir frases em que somente essas palavras se aplicam, buscando o sentido mais próximo e insubstituível para a palavra.

“REPENTINO
Quando vi esfriava, o Sol tocava a água e ele partia, repentino, antes mesmo do meu dia acabar.

EXPRESSO
A queda da ponte até a água, e o sangue circulando expresso no meu coração.

URGENTE
Desliguei o telefone sem forças, sem braços, sem a falta urgente de ar.

DE SUPETÃO
Hoje acordei mulher, me enxerguei com rugas, de supetão.

ÁGIL
Ele se levantou, juntou as roupas pelo chão e partiu antes mesmo dos ágeis dígitos do despertador, mudarem para 01:23.”
(Adriana Rossatti)

“Foi um relacionamento breve. Ela pediu que ele chegasse rápido, gostava do pão quente. Ele saiu acelerado, mas seu carro não era veloz. Quando abriu a porta, eram 19h05. A briga foi instantânea.”
(Isabela Noronha)

“Com suas mãos ágeis acendeu todos os abajures da casa num piscar de olhos.
Morreu assim, no susto de quem viu o demônio.
Veloz, cruzou na frente dela e se esborrachou no cimento vermelho da ciclovia.”
(Lidia Izecson)

A mesa de trabalho

Mais um exercício de nuances no texto.

O desafio é descrever os objetos sobre uma mesa de trabalho qualquer, imaginada. Através desses objetos o texto deve transmitir o estado de espírito do personagem, que não está bem.

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“A escrivaninha ficava no cubículo perto dos elevadores, onde não batia Sol o dia inteiro. Central, ocupando toda a visão de quem se sentava na cadeira, ficava o monitor antigo, daqueles grandalhões, de tubo e carcaça bege. Os teclados também, eram largos e quadrados. As letras A e R estavam gastas. Ela escreveu por cima com caneta de retroprojetor, deixando o teclado remendado, gritando AR para quem visse de longe. A tecla de SPACE travava. À direita de quem olha para a mesa, um gaveteiro acumulava papéis. A gaveta do meio tinha meio sanduiche mofando, e a mais baixa inúmeros papéis de bala de canela. À frente, colocado na divisória de fórmica que a separava de Tom, um recorte da revista Boa Forma, uma imagem de pôr do Sol com uma frase de Paulo Coelho e a fotografia da família desbotada, com calças de helanca. Eram gêmeas.”
(Adriana Rossatti)

“Uma caneta tinteiro sem a tampa, deitada na folha de papel. Na folha, rabiscos em forma de quadrados e triângulos cobrindo uma coluna no lado esquerdo, simetricamente. Algumas partes estão borradas pela tinta, preta. Um calendário de mesa, daqueles com um impresso para cada mês, apoiado na base de acrílico; mostrava o mês terminado há 43 dias. Nesse mês os dias estavam riscados, menos os últimos 5. Mais nada sobre a mesa, ninguém presente.”
(Eva Maria Lazar)

“Abro a porta do quarto dele e vejo em cima da mesa: um copo que servia de cinzeiro com bitucas até a boca; cinzas de cigarro espalhadas no tampo e em cima dos fleyrs de balada; sobre os monitores de som o abajur, em forma de espremedor de frutas, aceso; um prato com restos de arroz, um osso de frango; dois livros fechados de Manga; em baixo do prato dois pacotes de papel de seda para enrolar cigarro, um cartão de crédito já meio amassado ao lado do saquinho de fumo.”
(Dominique Girard)

“A mesa ficava em uma sala minúscula, anexa ao laboratório. Nela, livros se amontoavam. Eles a cobriam completamente, mas os que estavam no meio se empilhavam abertos. Eram 6. Não, eram 8. Eram muitos. Ao deles, havia inúmeros papéis A4 preenchidos com frases que terminavam abruptamente, às vezes, no meio de uma palavra. Em cima de tudo, outros tipos de papel: guardanapos sujos de gordura e de molho de lanchonete, copos de refrigerantes e sacos amassados. Todos vazios.”
(Isabela Noronha)

“A mesa era de mármore de Carrara. Em cima dela um laptop moderníssimo, canetas enfileiradas da menor para a maior, o cinzeiro de prata com 15 bitucas de cigarro, um porta retratos vazio e pedaços de foto espalhados pelo carpete verde”
(Lidia Izecson)

A tomada

Nosso encontro do dia 18 continuamos a discutir nossos temas de interesse nesse semestre: a banalidade cotidiana como tema. A banalidade, quando colocada em detalhes, torna-se interessante. A partir disso entramos em uma reflexão sobre a nuance no texto. Pode-se criar nuances do personagem através desses detalhes. 

Como exercício, Noemi nos propôs descrever uma tomada comum, e a partir dessa descrição, o leitor deveria reconhecer um sentimento do narrador. Eis o resultado.

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“É fêmea. Logo se vê, tem cara de menina. O espelho de plástico, emoldurando a tomada redonda, com os dois buracos marcados para entradas dos padrões europeu e americano. Parece um rosto, de olhos arregalados e despertos, ansiosos pela vida na sala, a rotina das botas, o ir e vir das luzes do Sol e do abajur. Só consigo pensar em quão ingênua essa tomada parece ser. Mal sabe que ao conectar qualquer objeto elétrico, perde seus olhos, sofre um curto e derrete-se por dentro. Talvez a mudem para o padrão britânico ou asiático. Sem olhos que possam ver.”
(Adriana Rossatti)

“Você levou o adaptador, junto com suas camisas, cuecas, sapatos, perfume e livros. Agora só eu, toda noite, olhando para essa tomada branca – dois buracos não sei o quão profundos -, nessa parede branca, nesse quarto branco, sem poder me aquecer com a luz amarela do abajur.”
(Luciana Gerbovic)

“Um retângulo. No centro, um círculo com dois furos. E para que? No escuro. Sem campainha…
De que adianta estar na França e ter uma panela de raclete à mão? Tanto queijo, pão, batatas, cremes. E esses dois furos me encarando. Rindo. Os parafusos parecendo sobrancelhas de filme mudo. Comédia. Odeio filme mudo. Detesto raclete. Não suporto a França. E te odeio, tomada. Você com esses dois furos inúteis, essas sobrancelhas desprezíveis, esse focinho de porco enjoado. Tome uma batatada. E um pote de creme nas fuças. Lá vai pão, casca dura. Farelo também. E veja se gosta de queijo!! Assim!”
(Elidia Novaes)

“O sol que incide sobre ela todas as manhãs do verão fez com que seu amarelo semifluorescente tornasse ainda mais semi, e quase apenas um vestígio de amarelo. Pode parecer ridículo, mas este fato dificultava acertar de primeira (serei honesto, nunca antes da quarta tentativa) o plugue do carregador do celular. Pelo que lembrava minha avó dizer, o sol só cegava quando se olhava diretamente para ele.”
(Samir Mesquita)

“Igual a todas; bom, nem todas, tem as com 3 buracos para os novos pinos doidos, as tipo beliche, duplas; também as encaixadas numa peça redonda, as das peças quadradas. Essa é branca; existem de várias outras cores. Simples, comum. Mas essa tem uma coisa bacana: os buracos em par, pertinho um do outro, amigos e precisam estar juntinhos para funcionar.”
(Eva Maria Lazar)

“A tomada que vejo atrás desse balcão é um retângulo de latão brilhante, com um circulo que contém dois buraquinhos. Prestem atenção, somente dois buraquinhos conseguem acender o abajur que ilumina esse bar; fazer rodar o toca discos que enche o ambiente de romantismo; ligar o liquidificador que prepara meus whisky sauers. E eu com muito mais orifícios não consigo emprego, muito menos arrancar um sorriso da loira senta do outro lado do balcão.”
(Dominique Girard)

“Resolveu acender a luminária, se abaixou e tocou na tomada. Talvez ela nunca tenha chegado tão perto de uma. Olhou para aqueles dois furos simétricos, calmos, irradiavam a paz dos casais afortunados. Passou a ponta dos dedos naquele marrom escuro uma, duas, três vezes e o orvalho salpicou seus olhos.”
(Lidia Izecson)

“A tomada é: um quadrado dentro de outro quadrado. E é branca. É isso”, digo.
“Mas como são os furos?”, você pergunta.
Os furos, eu me esqueci. Como pude? Os furos não são nem parte da tomada, os furos são a tomada em si, todo o resto é adereço, pouco importa. Como pude?
“Está certo, os furos. São como nas outras, são dois. E têm traços nas laterais. Está bem: uma tomada é um quadrado dentro de outro. Brancos, os dois. E os furos são pretos, profundos, com traços. Satisfeita?”
“Não é um quadrado”, você diz. “É um retângulo. Um quadrado dentro de um retângulo.”
(Isabela Noronha)  

“A tomada branca parecia deslocada naquele canto obscuro de coluna. O arredondado da moldura é um arremedo, não chega a dar conforto aos contornos mal retangulados. O miolo, perfeitamente quadrado, impõe a forma dominante, restringindo a área de onde emana a energia. Nos orifícios, que lembram essa praga moderna que são os emoticons, pode-se subentender terminais de cobre, ou latão, com polaridades diferentes, um positivo, carregado, e outro neutro, mero auxiliar de um circuito a ser fechado. O bi-fásico é assim, um mais e um menos. Ah, se houvesse um fio terra, como hoje é recomendado, aí sem haveria por onde descarregar os excessos. Se a instalação fosse tripolar, dois positivos e um negativo gerariam voltagem em dobro e choques assustadores. Mas, em resumo, trata-se apenas de uma tomada simples, pobre, branca, sem cor e sem graça.”
(Eduardo Muylaert)

“Tomadas com buracos são tomadas femeas, negativas, passivas; dependem de que uma outra tomada, essa sim, positiva, tomada macho, a penetre pra que algo aconteça: o vinho gela, um abajur acende, e ele não vem.”
(Elza Tamas)

 

Mitos caídos

Em nosso encontro da segunda-feira, dia 11/08, fizemos um exercício baseado no pequeno conto “Sobre a velhice de Odisseu”, do livro “Para a próxima mágica vou precisar de Asas” de Alex Epstein. Nesse conto, Epstein faz uma paródia do grande herói em uma situação humana, contemporânea e decadente. 

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Nosso exercício consistiu em escolher um mito e usar sua personagem em uma situação decadente e contemporânea. Seguem os resultados. 

DELTA DE VÊNUS

“Àquela hora ela já nem sentia mais as pernas. Não apenas pelo salto de acrílico remendado, muito mais pela pressão de tantos quadris em suas coxas. Puxou a saia para cobrir o desfiado da meia e o hematoma. Ouvia as sirenes na rua de traz, as gaivotas já acordadas. Tinha cheiro de mar. Jogou o cigarro que já queimava o filtro e pensou em ir para casa, quando avistou o homem na esquina da avenido, logo onde ela se divide e se parte em três pequenas ruas. Meio embriagado, meio barbeado. ‘Mais um, talvez, porque não!?’. O homem a olhou em dúvida, pensando se valia a pena.
– Faz sem camisinha?
– Faço. Mas é mais caro.”
(Adriana Rossatti)

“Enquanto olhava para suas pernas roliças e esburacadas, as dobras na cintura que pareciam brotar a cada manhã, os vestidos que não lhe cabiam jogados no armário, os anéis que já não entravam em nenhum dos seus dedos, Jocasta pensou que Édipo furou os próprios olhos à toa.”
(Luciana Gerbovic)

“Hipólita repousava inquieta e a respiração era entrecortada. Olhando à sua volta vislumbrou um circulo de Amazonas que olhavam para ela com preocupação. Várias portavam lanças e escudos. A velha senhora lhes perguntou: estamos em guerra?”
(Alcino Bastos)

ASAS

“Não fosse o mau tempo, ele talvez tentasse, foi o que pensei. Ou, quem sabe, se o prédio tivesse vinte andares; ou ainda, se na janela do outro lado da rua alguém, com um olhar curioso. o fizesse pensar, sabe-se lá, em alguma forma de desafio. Nada indicava movimento, o ar não se moveu. As asas de cera pesavam mais que a depressão.”
(Monica Carvalho)

ANTÍGONA PRENHA

“Quem é o pai, Antígona?
– Bem que eu queria saber. Na viagem que fiz para as exéquias de meu pai, acabei engravidando de um soldado, mas não consigo lembrar seu nome.”
(Eduardo Muylaert)

ENGANOS MORTAIS

“Essa, você deveria buscar, numa praia do Rio Grande do Norte, onde ela morreria afogada, só daqui a 5 anos.
Mas não é a Marcia?
Não, essa é a Maria, acho que você acabou trazendo a filha ao invés da mãe.
Xi, preciso urgente trocar de óculos e providenciar uma agenda para anotações; é muito trabalho, minha memória não dá mais conta , disse Hades.” 
(Elza Tamas)

“- Me ajude aqui?
– Ajudar o que, meu velho?
– A atravessar a rua.
– Ué, e essa bengala?
– Me apoia para andar, mas não me ajuda a enxergar.
– Tá bom vai, pega no meu braço.
– Obrigada, garoto, como você se chama?
– James, e você?
– Peter.”
(Eva Maria Lazar)

“Ele foi o último a chegar no cemitério. Estava cheirando a álcool e com seus grandes pés estorvando o seu andar. Ele se prostrou al lado de seu pai que logo lhe repreendeu: é um desaforo essa sua conduta no enterro de sua mãe, Édipo!”
(Dominique Girard) 

MORRO DA BABILÔNIA
“Fumou todas hoje Caim?
Não, só dois baseados
Se tivesse fumado mais te mataria.”
(Lidia Izecson)
 

NARCISO FORA D’ÁGUA

“É o farol ficar vermelho, o farol ficar vermelho, ficou. Saiu. O primeiro carro. Não rola. O segundo carro. Não rola. No terceiro também não. Precisa ser rápido, as mãos no chão, as mãos no chão, o vento escova o cabelo, pelo menos isso. O corpo pesa no skate. Alguém abre o vidro, ele pega os trocados e guarda no bolso. Faz o serviço de olhos fechados: não quer arriscar o espelho, nem o reflexo na lataria do carro.”
(Isabela Noronha)

“Para de comer isso! Tem caco de vidro.
E larga essa garrafa, você não está acostumada a beber.
Alguém me ajuda a tirar essa faca da mão dela?
Sai desse balcão, minha filha! Não adianta, ele morreu. Não vem mais. Tenta esquecer, Ju! (lieta)”
(Elidia Novaes)

“A cadeira de balanço range zangada com o esforço para levantar.
Um passo de cada vez e você chega na porta.
Calma! Devagar Hércules.”
(Regina Datti)

Rembrandt Velho

No encontro de segunda-feria conseguimos cumprir com nossa rotina tradicional dos atividades: Discutir um estilo, refletir sobre uma leitura e fazer um exercício.

Como inspiração do estilo que vamos explorar nesse semestre, Noemi nos leu um trecho do livro “Minha luta” do escritor norueguês Karl Ove Knausgård. Ele desenvolve um estilo de narrativa distanciada e direta, objetivando friamente acontecimentos rotineiros e banais, criando através dessa uma projeção de suas angústias pessoais. No trecho que foi lido, Knausgård faz uma reflexão sobre sua memória do “Auto-retrato de Rembrandt Velho”, o qual viu na National Gallery durante uma viagem à Londres. Ao desvendar as sutilezas do quadro, acaba por analisar sua própria condição perante o tempo e a velhice. 

A proposta do exercício foi: escrever um relato fazendo uma projeção pessoal através da análise do mesmo quadro que Karl Ove Knausgård. Falar da imagem a partir do que se sente ao vê-la.

Eis o resultado.

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“Escamas. A pele se escama, não de verdade, mas pelo efeito da forma, do pincel, do acumulado de tinta; porque se formos literais não há nada de verdadeiro nessa imagem. Ele já nem existe. Embora na vida a pele se escama, se gasta, se definha de verdade. Crueldade as escamas da pele, indo ao longo do tempo, se soltando e se acumulando no mundo junto à poeira, ao lixo e à poluição. No final, é isso mesmo que acontece. Terminamos escamados. Do pó ao pó. Ele sabe disso. Ele sente a agonia de um tempo findo, das oportunidades perdidas, de tudo o que não foi, e agora nunca vai ser. Sente vergonha do engodo que se tornou e pede desculpas a nós, suas testemunhas, por não ter se saído melhor. 
Mas olhe novamente. É um mentiroso! Ele nos fisga com piedade e sua cara de santo. É só um narcisista. Mais um, entre tantos. Querendo imortalizar sua velhice carregada de vida, sua humildade culpada, sua pele escamada de propósito para se espalhar pelo mundo.”
(Adriana Rossatti)

“Carnes coloridas, pequenos morros que sobem e descem escorregando entre os sulcos arredondados, protuberâncias moles em tons entre o rosa e o bege, sombreados pela sua história.
Vejo dois lagos ovais de água lodosa, sem fundo; dá medo de pisar. Não são perigosos, acho, mas escondem mais do que consigo enfrentar.
As águas são velhas e parecem geleia de vida. Me chamam, me prendem e me ameaçam de um jeito calmo.”
(Eva Maria Lazar)

“A boca fechada de Rembrandt velho é um borrão. Não diz nada. Mas isso é desimportante. Na testa de Rembrandt velho há mais curvas que nunca. Elas pesam, são barrigas que apontam para baixo e atravessam tudo, flácidas, como elásticos gastos. Mas isso também não é importante. Rembrandt velho olha diretamente para mim, há uma última gota de brilho em seus olhos, velhos, e o que eles dizem, isso sim importa. É: não venha, nem pense em chegar aqui.”
(Isabela Noronha)

“As bolsas abaixo dos olhos foram sendo preenchidas pouco à pouco no tempo: preenchidas com o primeiro pincel descabelado, com a morte de ente próximos, com os furos nas solas de sapato, com a indefinição do sucesso, com a crise da criação, com a dúvida da imortalidade. Mas o olhar continua límpido e atento aos próximos episódios.”
(Dominique Girard)

“Vejo o retrato de um homem cansado. Existem vincos na testa e os olhos estão molhados; não de lágrimas, mas de secreções que incomodam. Este olhar revela uma tristeza grande e dizem que seu dono está vazio de toda e qualquer ilusão que possa tê-lo animado nos bons momentos de sua vida. O bigode conserva ligeiros arrebitados nas pontas e sugerem alguma audácia e vaidade que já se foram. Completam o quadro de desalento, as manchas da pele e olheiras que me assustam.”
(Alcino Bastos)

“Quado a gente fica velho, bolsas arroxeadas aparecem sob os olhos, as bochechas flácidas pendem para a terra e os lábios envergados apenas murmuram.
Os olhos trazem uma névoa permanente pendurada entre a palpebra e a córnea.Talvez não seja mais possível suportar tanta realidade.
O corpo velho sabe e apenas se recolhe.”
(Elza Tamas)

“Olhos melequentos um pouco enviesados e pele flácida com nervuras avermelhadas que caminham por toda a face tornam esse homem uma figura rosada, quase feminina, que conversa com suas rugas todas as noites ansiando por uma despedida que demora a chegar.” 
(Lidia Izecson) 

“O olho já não me vê. Procura o indivisável. A mão tenta alcançar algo que não está, uma folha, um cigarro de tabaco, o pé de uma taça. Busca um rosto que o acolha, desesperançado e inerte.
Quer que chame alguém?
Não mais.”
(Elidia Novaes)

“O homem está acuado, seus olhos tentam entender, ou ver como sempre viram, mas talvez seja tarde. O pincel reproduz com perfeição as imperfeições da pele, se desfazendo como um velho pergaminho. A testa franzida e as rugas sob as órbitas são uma moldura de obsolescência. Vê-se o brilho do nariz, a superfície rósea e lustrosa ainda é um sinal de vida. A boca está cerrada, o homem não está feliz com sua imagem, com sua vida, com o fim próximo. Ele não acredita mais, e quer nos legar essa advertência. Nada resiste ao tempo, as sobrancelhas já não impõem autoridade, mas desgaste; a boca se traduz em desgosto, mas os olhos, já quase mortiços, ainda buscam luz.”
(Eduardo Muylaert)