Os desastres da raiva

“Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Mas ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto de ódio daquele homem que se certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele me irritava. Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo não quebrado de uma begônia, Eu o espicaçava e, ao conseguir exacerbá-lo sentia na boca, em glória de martírio, a acidez insuportável da begônia quando é esmagada entre os dentes; e roía as unhas, exultante. De manhã, ao atravessar os portões da escola, pura como ia com meu café com leite e cara lavada, era um choque deparar em carne e osso com o homem que me fizera devanear por um abismal minuto antes de dormir. Em superfície de tempo fora um minuto apenas, mas em profundidade eram velhos séculos de escuríssima doçura. De manhã, como se eu não tivesse contado com a existência real daquele que desencadeara meus negros sonhos de amor – de manhã, diante do homem grande com seu paletó curto, em choque eu era jogada na perplexidade, na vergonha e na assustadora esperança. A esperança era meu pecado maior.”
Clarice Lispector, “Os Desastres de Sofia

Inspirados nesse trecho do conto de Clarice, Noemi nos convidou a escrever um parágrafo como exercício. Como tema devíamos falar de alguém que estivéssemos com raiva e usar pelo menos três junções de substantivos e adjetivos opostos e não comuns.

“Era sempre pela manhã. Pelas soturnas manhãs que eu me deparava com a imagem e já começava o dia irritada e resignada. Existia algo na imagem, no formato do cabelo, na simétrica imperfeição das pernas tortas, que me faziam piscar longamente e desejar sumir com estardalhaço de uma vez. A voz também causava um conforto agudo. Eu sentia ainda mais raiva por não poder simplesmente me levantar e sair.
Nesse momento, me irrita também esse exercício, o esforço lúdico que faço para pensar em extremos, para escrever algo inteligente ou engraçadinho, ou que apenas gere rara manifestação de aprovação. Já que amanhã cedinho, a terna e raivosa imagem estará lá novamente. No espelho.”
Adriana Rossatti

Apito

“Ele apitou. Com olhos cândidos começou a escrever a multa, cravando suavemente a caneta no bloco. Não fiz nenhum movimento para sair do carro ou olhar para ele. Não ia lhe dar este gostinho terno. Teria que vir e trazer o papel, rastejando sua autoridade até mim. Eu o pegaria com dezprezo carinho, sem dizer uma palavra.”
Eva Maria Lazar

Raiva amarela no tapete.

“Eu o encarei com gosto de castigo fugaz. Seu rabo em pêndulo se agarrou no meu ódio macio, embaraçando aquele pelo duro na minha pele de hortelã. Ele sabe dar respostas à irresponsabilidade confortável da dona que o deixa só.”
Lidia Izecson

“Encostei a porta para que nenhum barulho o acordasse. Cerrei as cortinas. Ele tinha dormido mal à noite, eu vi pela escuridão refletida na tela de tevê. Dormia feito uma criança: egoísta. Era sempre assim, com ele finalmente adormecido na manhã, que eu sentia vontade de matá-lo levemente com as minhas mãos. Um gigante indefeso. Meu sorriso de café, gelado e sem açúcar.”
Luciana Gerbovic

“Eu não queria esquecer, nem por um minuto, da raiva secular que me corroía gostosamente os nervos e alimentava o premeditado desejo de sobreviver àquela mulher, foco da minha confortável volúpia, beleza de mármore incandescente com a voz gutural e doce que parecia provir de celestial demônio a se comprazer com cândida e agora inalcançável luxúria.”
Eduardo Muylaert

“De fato! A despedida me trouxe alegria. Pois a tinha visto chorar. Ela disse que queria sentir aquela solidão sozinha. E que eu deveria retornar, só, à companhia de meus livros de doce amargura.
Porque não ficou, não sei. Minha mulher amada é mesmo uma idiota; quando voltar vai apanhar muito para que não continue sofrendo.”
Alcino Bastos

“Me senti insultada: dez poucos minutos, ele disse; são a eternidade, respondi.
E na mesma trinca onde aquele atraso sovina reverberava, meu braço hipertenso queria amolecer em generosidades; porque era disso que se tratava, não mais esperas,  eu queria um atalho lépido para amá-lo com demora.”
Elza Tamas

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CHAMO/ AMO

Essa semana Noemi nos fez uma proposta divertida. A partir de uma história pessoal dela, nós deveríamos recontar a cena de acordo com uma perspectiva diferente, que ela designou para cada um de nós.

A história da Noemi: “Eu estava com um namorado recente, por quem eu estava apaixonada. Ele dormiu na minha casa e acordou cedo para me fazer café da manhã. Eu acordei e ele me disse: “dorme, eu te chamo”. Eu estava meio sonada e fiquei com uma dúvida martelando na minha cabeça: “Ele disse “eu te amo?” ou foi “eu te chamo”? Depois de um tempo, tomei coragem e perguntei se ele tinha me dito “eu te amo”. E ele respondeu que não, ” imagina dizer isso a essa hora da manhã”.

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Trágica
por Adriana Rossatti

“Acordei. Nem dormi. Ele apertava o snooze do rádio-relógio-despertador. Dormir a primeira vez na casa dele é como ganhar autorização para uma dimensão perdida. Móveis escuros, o lençol tem bolinhas e o travesseiro é fino demais para o meu gosto. A maçaneta do banheiro está quebrada. Ele coleciona caixas de fósforos. Atrás da porta tem um poster do DIO, na geladeira um bilhete da empregada. Fingi que ainda dormia, mas ele me beijou. Colocou a camiseta de ontem sobre o corpo nu e foi fazer café. ‘Dorme mais um pouco. Te amo’. Olhos estatelados. Me ama? Ou me chama? ‘Dorme mais um pouco. Te chamo’. Me chama? Ou me ama? Ele me ama? Será que finalmente ouvi? Será que ele é tão emocionalmente disponível assim? Parem as máquinas. Ele me ama. Tirem as crianças da sala. É amor. Eu mal acreditava que tinha acontecido. Vamos poder, enfim, passar para a fase em que a gente se ama, e nada mais precisa ser provado. Eu vou retribuir, preciso deixá-lo seguro. Talvez eu agradeça os ovos. ‘Ovos bennedict, meus favoritos! Como descobriu? Também te amo!’. Ou te chamo? Ou será que nem aconteceu?

Coloco a camisa aberta. Arrumo o despenteado do cabelo, o borrado da maquiagem. Escovo os dentes. Não quero falar nada com bafo. Chego na cozinha descalça, brincando com meus dedos no batente da porta. Fiz uma cara de frágil, porque eu estou. Eu estou frágil. ‘Aquilo que você falou. Foi te amo ou te chamo?’. Ele não fazia ovos. Cortava com uma faca cega as bordas do pão Pullman. ‘Te chamo, óbvio. Imagina dizer isso a essa hora da manhã.’

Acordei. Nem dormi. Fiz dois cortes fundos que me drenaram pela banheira de esmalte descacado. Embaixo da torneira tinha um fiapo de ferrugem escorrendo e em cima da caixa de descarga, exemplares antigos da Placar, da Playboy e da Carta Capital. A maconha, joguei toda na privada. Em cima do botão de snooze, do rádio-relógio-despertador, deixei um post it. ‘Desculpe fazer isso a essa hora da manhã. Te amo’.”

Fantástico
por Eva Maria Lazar

“Aquela luz forte entrando pela janela me acordou. Lembrou filme de ficção. Vou dormir mais um pouco, cada sonho. Uma voz gentil com um jeito metálico me deu um susto: quer café? Não tenho certeza se eu disse sim. Dorme, eu te chamo. Passos, a luz sumiu, me encolhi, virei para o lado. O olho estatelou; como assim, quer café, quem? O coração acelerou, levantei. Comecei a descer as escadas, meio pé ante pé. Coragem, entra logo na cozinha.

Eu e minha camiseta amassada entramos. Um homem alto, usando roupa estranha, mexia na cafeteira; na mesa, pão fatiado, queijo e geleia. O medo, já curioso, disse: quem é você? O rapaz era lindo, parecia Charlton Heston no Ben Hur de ontem à noite na Sessão Coruja. Sorriu, com os 94 dentes mais bonitos que já vi, você já levantou? Ia levar na cama. Fiz o olhar mais digno possível; quem é você? Riu; você gosta forte, né? Esperei o coração bater menos de 100 vezes por minuto: você falou eu te amo? Ele riu de novo: claro que não, a uma hora dessas? E continuou a preparar o café, enquanto eu sentava em silêncio à mesa.”

Ingênua
por Mônica Carvalho

“Tomei o último gole de vinho antes de fechar os olhos; a taça, agora vazia, tinha sido preenchida até a borda, e eu também. Sempre achei que vinho combina bem com os primeiros passos: na festa em que não se conhece ninguém, na paixão da qual ainda pouco se sabe. Ele não fala quase nada, acho que porque essa vida de repórter internacional demanda tanto de contato com todo tipo de gente que ele prefere nem comentar. Já é bom poder estar junto, mesmo que só as sextas, hora de almoço.

Nem acreditei quando disse que ficaria para dormir, ele que nunca passa das duas da tarde por aqui. Sim, merece o vinho! Comprei com cuidado, junto com tudo mais; uma conta desse tamanho só cabe uma vez por ano, mais quem sabe, se ele topar voltar e ficar. Ainda bem que aquele tantinho que espirrou quanto tirei a rolha (agarrada, esforço danado tive que fazer) não borrou o livro que ele tinha deixado semiaberto em cima da mesa (li, sem querer, um “não se esque…”, acho que era isso, escrito no post-it da primeira página), mas desviei os olhos antes que fosse indiscreta de verdade; sim, teria sido um desastre estragar o tal livro que ele carregava meio ansioso quando chegou.

Acordei, ele não estava ali.  Chamei.
‘Não venha, eu te chamo’!
‘Eu também’!
‘Ainda é cedo!’.
‘Não, não é, sempre amei assim: de olhos bem abertos’.”

Poética
por Elza Tamas

“Vi quando ele abriu a janela, tinha sol, então acreditei que ele tivesse dito.  Logo depois um cheiro de café gostoso invadiu o quarto, -ele fazendo café pra mim?- então devia ser verdade. Eu estava sem óculos quando ele disse, possível ver um dia arrebentando de lindo, mas difícil perceber os detalhes do movimento da sua boca, sem óculos eu nem escuto direito.
Era primeira vez que ele dormia na minha casa, nossos corpos se entendiam e nenhum de nós se banhou, queríamos manter todas as impressões. Depois conversamos, e adormecemos sem perceber. Dormir juntos é o que há de mais intimo. Agora a pouco, ele me deu um beijo, tímido, acordei e ele disse dorme, dorme, eu te amo, e eu coloquei as mãos sob o travesseiro, as duas, juntas, quase uma reza, feliz, tudo de melhor acontecendo, ele me ama, mas ai senti um desconforto, leve, mas desconforto, talvez ele possa ter dito eu te chamo, porque foi fazer o café, deve ter sido, dorme, eu te chamo.

Precisava perguntar, mas uma pergunta destas não se faz nua. Vesti a camisa dele, jeans, manga longa; virei os punhos, arrumei a gola, os dois primeiros botões desabotoados, e mordendo a boca de vergonha, perguntei: Você falou ‘eu te amo’ ou ‘eu te chamo’? Eu? não lembro, por quê?,  mas ‘eu te amo’ eu não disse, porque imagina dizer isso a esta hora, não ia ter sentido, riu e me olhou danado, gostando de me ver na roupa dele.Você quer com pouco ou muito açúcar? O quê? perguntei.”

Filosófica
por Eduardo Muylaert

“Hoje eu acordei na caverna de Platão e me senti uma toupeira. A frase saiu do fundo do travesseiro e eu não acreditei. Ele nunca tinha dormido na minha casa, se ofereceu para fazer o café e eu, como boa epicurista, achei demais. Mas o que eram aquelas palavras mágicas? Podia ser “Dorme, eu te amo”, mas também “Dorme, eu te chamo”. Será? Mesmo apaixonada, sou adepta do mais puro ceticismo e quis trazer clareza à essência da inesperada declaração. Sei da volatilidade das palavras e das múltiplas possibilidades de significado, mas era preciso adequá-lo ao texto correto, sem perda de tempo. Você disse eu te amo? Não pensei, claro, no amor como virtude, em Platão sou mais a caverna e a escuridão. Mas quando ele disse “imagina dizer isso na primeira noite” eu achei que era hora de largar a filosofia e voltar para a terapia.”

Metalinguística
por Elídia Novaes

“O despertador toca.
Ela – mmmm… zzzzzzzzz
Ele – O que você disse?
Ela – ahn? hmmm…? quê? eu…?
Ele – Ah, dorme. Eu te chamo.
Ela – Você viu o que você falou? Está precisando mesmo se consultar com uma fonoaudióloga. Não se entende o que você diz. Eu estou aqui do lado e não sei se você disse chamo, amo, se espirrou ou fez algum tipo de crítica ao meu hábito de dormir até mais tarde.
Ele – Eu disse Dorme que eu te chamo.
Ela – E não precisa responder assim. No grito é que as coisas não se resolvem. Se não funcionou para Dom Pedro I, não seria para você. Ora você fala enrolado, ora me trata como se fosse surda. Não é assim que o diálogo vai se estabelecer.
Ele – …
Ela – E aí? Nada mais? Isso é jeito de conversar? Veja como funciona: um pergunta e o outro responde. Depois invertem. O outro pergunta e o um responde. Chama diálogo… Você não vai perguntar nada? Nada mesmo? Você está ficando impossível de conviver.
Ele – Você… Na primeira vez, eu disse que te amava. Mesmo que fosse tão cedo. Daí, fiquei sem graça, achei que você estava dormindo e mudei, disse que te chamava. Ia voltar ao assunto mais tarde.
Ela – Viu como você está precisando visitar a fonoaudióloga? Bem que eu te disse.”

Ironia
por Luciana Gerbovic

“Você disse que ia fazer o café…
Disse.
E depois?
Depois o quê?
Depois de dizer que ia fazer o café, você disse outra coisa…
Disse?
Disse… Eu te amo? Ou eu te chamo?
Ah! … Eu te chamo, claro. Imagina se eu falaria “eu te amo” às sete da manhã.
Ah… E à noite, você falaria?
O quê?
Eu te amo!
Ah … Não. “Eu te amo” só falo entre duas e quatro da tarde. “

Prolixo
por Lidia Izecson

“Depois de quase 6 meses de encontros no café Brasil, no bar do Afonso, no salão de danças do Andrei, eu tinha certeza que naquela noite as coisas iriam acontecer. Era a primeira vez que eu subia até o apartamento dele, nunca antes ele havia me convidado, nem mesmo no dia 7 de março, dia do seu aniversário e quando fizera um bolo para os mais íntimos. O hall do prédio era suntuoso, cheio de tapetes persas, e a escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo me deu um pouco de tontura. Essas escadas que copiamos dos franceses podem ser muito bonitas, mas não são nem um pouco práticas, enrolam daqui, enrolam dali, e a gente acaba tendo que gastar muito mais energia e tempo do que o necessário. As modernistas brasileiras, mais retas e com menos adornos, se prestam muito mais ao nosso estilo de vida.

Quando cheguei, de língua de fora e quase sem ar, vi a porta aberta e entrei. O relógio cuco, do qual ele tanto falava, estava pendurado na parede maior da sala, pintada de verde claro, e eu fiquei lá imóvel, esperando. Não sabia quem ia aparecer primeiro: se ele ou o cuco. Foi então que a voz dele, aquela voz rouca de locutor da rádio Eldorado anunciando o concerto da tarde, me chamou lá de dentro: – vem aqui, quero te mostar uma coisa. No quarto, a cama ocupava todo o espaço e, por cima dela, a colcha de matelassê  me trouxe um certo alívio. Era de bom gosto e não tinha aquela cara de coisa comprada na 25 de março, rua onde ele gerenciava a loja de tecidos do pai. A claridade que entrava pela janela não me deixava ver senão a silhueta dele, e quando chegou perto e me abraçou, percebi que já estava só de cuecas. Eu então tirei minha blusa de seda da China pintada à mão, deixando que ele visse a tatuagem que fiz na India, aquela de quando passei lá os quatro meses do curso de Ioga. O sorriso dele foi lindo e ele me abraçou falando alguma coisa que parecia um doce murmúrio, mas bem nessa hora o cuco resolveu sair da casinha dele lá na sala e começou a berrar : cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô. Ele falava coisas no meu ouvido, mas eu só escutava os berros do cuco. E quando o maldito pássaro, cuco é um pássaro?  parou com a barulheira, ele soltou o meu corpo e, com uma cara contrariada, foi logo dizendo: eu sabia que você não me amava de verdade; agora tenho certeza disso. Se me amasse, como vive dizendo, teria respondido à minha pergunta. – Mas o que você perguntou? -Ah, isso só se fala uma vez, e acho melhor pararmos por aqui. Eu ainda insisti, implorei por quase dez minutos, mas ele se trancou, sentou-se na beira da cama e não disse mais uma palavra. Não tive outra alternativa, senão vestir minha blusa de seda da China e descer novamente aquela maldita escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo.”

Narrador Onisciente Intruso
por Isabela Noronha

“Ele acordou primeiro e se virou de lado. Achava patético isso de ficar olhando o outro dormir, não era esse tipo de cara. Tentou fechar os olhos de novo mas foi inútil, estava calor e, para ele, aquela cama, a cama dela, era muito apertada — embora, ainda que ele não percebesse, fosse do tamanho exato da sua. Ia para casa, ligaria depois. Ou esperaria ela ligar, que se dane. Mas quando pegou a calça do chão, bateu no abajur e a acordou. Ela quis saber aonde ele ia. Ele se viu sem opção, gostava de pensar que não era o tipo de cara que abandonaria a namorada assim, na lata, então disse que ia fazer o café e terminou de se vestir. Já fora do quarto, acrescentou: ‘dorme, eu te chamo’.

Ela ficou em silêncio, e ele, porque só acreditava no que queria acreditar, achou que ela tinha voltado a dormir. Mas a frase a tinha despertado inteira, ela não sabia se ainda era sonho e tinha ouvido direito, espera, não era sonho, ela tinha escutado algo sim. Aquilo. Não era? Espera. Era grande demais, felicidade demais. Talvez. Ficou com a dúvida, e a levou à mesa para tomar café com ele, depois ao parque, onde foram ler, e para o apartamento de novo, quando a chuva apertou de repente e os dois correram, mas se molharam mesmo assim, e chegaram encharcados e talvez fossem transar, talvez só se enxugar, mas ela interrompeu de qualquer forma para finalmente perguntar se, de manhã, sabe, naquela hora, sabe, que você foi, sabe, fazer o café. ‘Você disse eu te amo?’ ‘Mas é claro’, ele respondeu, ‘é claro que não. Imagina dizer isso tão cedo, de manhã’. Ele era esse tipo de cara.”

Técnico
por Dominique Girard

“Quando acordei, Paulo ainda estava lá. Ele, uns ruídos na cozinha e um aroma de café. Ao sentir minha movimentação nos lençóis, foi logo dizendo: “Dorme, eu te chamo”. Dobrei o travesseiro em dois, virei para o lado esquerdo da cama, fechei os olhos. Te chamo ou te amo? O que será que ele disse? Será que ele se utilizou de um léxico iniciado por  uma consoante fricativa sibilante, chhhhh ,  em que o som é formado pela passagem do ar por um canal estreito da boca, por um obstáculo? A  língua se curva de maneira a conduzir o ar sobre as pontas dos dentes. chhhamo? Ou, se desfez de todas as barreiras entre nós e optou por iniciar nossa manhã com a vogal “a”, em cuja emissão o ar passa livremente pela boca, sem obstrução? aaamo! A ansiedade não me deixou mais dormir. “Paulo, você disse: eu te amo?”. “Não, eu disse: eu te chamo.“ A prosódia é cruel.”

Humor
por Alcino Bastos

“Bocejo:
– Vou preparar o café. Eu te chamo.
Ele, aos gritos:
– Eu também.
Ela, de longe:
– Para que?
– Ué, amar não tem finalidade.
– O que? Felicidade?
– Sim, eterna.
– Eu sei. Sou a própria ternurinha.
– Não, a tesourinha não está aqui. Fala de novo que me ama.
Ela, entrando no quarto:
– Quem ama quem? O café está pronto.
– Você falou que me ama.
– Tá sonhando.
– Com você.
– Larga de ser ridículo. O café está pronto.
– Como assim?
– O café está pronto. Já disse três vezes.
– Que me ama?
– Ah, vê se acorda, vai!”

Todos dizem eu te amo

Depois de uma noite de discussão sobre Barthes e seu discurso amoroso, Noemi nos propôs um exercício.
Escrever um diálogo em que um dos personagens diz “Eu te amo”.

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“Ela comeu o 5º chocolate seguido.
D – Não é pedir muito, é?
P – Não. Não é não.
D – (mastigando) Toda minha vida, tudo o que eu pedi, é sinceridade, sabe? Não me importa se a pessoa gosta, ou não gosta. Se me acha feia, chata ou burra. Acho que tá certo. Todo mundo tem direito a ter sua opinião. É legítimo. Mas não vem me falar uma coisa, quando tá pensando em outra. Não vem com um discurso, só para fazer o bacana.
P – Claro!
D – Não suporto mentira.
(Silêncio)
Come mais um chocolate.
P – Te entendo.
D – Mesmo?
P – Eu não seria louco de te mentir agora.
Ela olha fixo para ele, enfim abre um sorriso.
D – De fato. Sinceridade é tudo o que eu peço.
Joga mais um chocolate na boca. P acompanha o movimento.
D – (Parada, com a boca cheia) Você me acha gorda?
(Silêncio)
P – Que é isso?! Eu te amo!!!”

(Por Adriana Rossatti)

“– E agora eu digo ‘eu te amo’?
– Agora você diz o que quiser.
– Acho que agora não é o momento.
– Então quando será?
– Depois do terceiro prato talvez?
– Por favor, antes da sobremesa.
– Para termos um grande desfecho?
– Para eu não precisar ir embora com
a boca amarga quando dizer ‘eu também’.”

(Por Samir Mesquita)

“‘Mas já é tarde.’
‘Nem tanto, tem tempo.’
‘Mas eu te amo.’
‘Nem tanto. Tem tempo.'”

(Por Mônica Carvalho)

“- Você me ama? Diz vai! Diz! Pelo menos uma vez.
– Será que é preciso? Estamos juntos há mais de vinte anos! Nesse tempo todo você não sabe ainda o que eu sinto por você?
– Ah! Para com isso. Só quero escutar. De sua boca. E não vale falar em inglês.
– você não acha ridículo? Pensa em tudo que fizemos juntos, nossa cumplicidade. Será que não consegui demonstrar meus sentimentos por palavras, atos e obras? Nesse tempo todo?
– Mas que custa dizer?
– OK. OK. Rendição! Eu te amo. Esta bom assim? Ficou satisfeita agora?
– Não fiquei e você sabe muito bem que não. Isso é jeito de falar comigo? Se eu não te conhecesse tão bem pensaria até que você não me ama.”

(Por Alcino Bastos)

” – Dois pãezinhos bem branquinhos, Dona Rosa.
–  Obrigada, Seu Almeida, boa memória a sua.
– Dona Rosa, lhe atendo todo dia, a gente guarda.
– Por isso sua padaria é a melhor do bairro, com esse atendimento personalizado, Seu Almeida.
– A gente se sente bem em ver as clientes felizes, Dona Rosa.
– Muito simpático isso, Seu Almeida. Vou indo, estou atrasada.
– Eu te amo, Dona Rosa.”

(Por Eva Maria Lazar)

“- … É que eu te amo.
– Ama?
– Amo.
– Por quê?
– Por que o quê?
– Me ama?
– Eu não sei.
– Então não ama.
– Amo.
– Como?
– Como o quê?
– Como me ama?
– Ah, não sei.
– Então não ama.
– Amo. Assim ó: levando um copo com água gelada todas as noites para o seu criado-mudo.”

(Por Luciana Gerbovic)

“Se
– Não dá. Se você diz hora, ouço cobra, se diz mão, ouço não, diz fé, ouço até…
– Espera, vai.
(…)
-E se digo eu te amo?”

(Por Isabela Noronha)

“- diz
– por que você quer que eu diga? você não sabe?
– diz
– já falei, só digo uma vez por mês
– diz, tô precisando
– mas já combinamos, se falar toda hora gasta, perde o efeito
– diz, por favor
– tá bom, tá bom. olha bem pra mim: você está muito mais magra.
– ai, que bom! eu te amo
– eu também.”

(Por Elza Tamas)

“- Eu te amo.
– Não, eu te amo!
– Não, eu te amo!
– Eu te amo primeiro.
– Não, você falou antes, mas eu senti primeiro!
– Eu te amo desde a primeira vez que eu te vi!
– Eu amo a ideia de você antes mesmo de te conhecer!
– Pois eu te amo antes de existir.
– E eu só existo porque te amo…”

(Por Renato Stetner)
“FRITOS E COZIDOS
– Você não precisava ter falado comigo daquele jeito na frente deles.
– E você não precisava ter ofendido o dono da casa.
– Eu não ofendi ninguém.
– Claro que não. Todo mundo adora ser chamado de coxinha.
– Mas ele é coxinha.
– E precisava dizer?
– E você não precisava ter praticamente me mandado calar a boca. Com a Luísa ali do lado?!
– E quem se importa com a Luísa. Quem você ofendeu foi o Arnaldo.
– Mas o Arnaldo não é seu ex. Ela ainda fez aquela cara de “se ferrou”. E você acha que alguém gosta de ver a ex do marido fazer cara de “se ferrou”?
– Ai, tá bom, vá. Você me desculpa pela exposição Luísa, eu te desculpo pela coxinha. Pode ser? E a gente pede a comida? A gente sempre encrenca, mas você sabe que eu te amo.
– Pode ser. Mas estou começando a achar que você também é um pouco coxinha.”

(Por Elídia Novaes)

Sentimentos científicos

No dia 3 de novembro nos encontramos novamente. Depois de uma maravilhosa discussão sobre os contos de Lydia Davis, Noemi nos propôs mais um exercício para realizarmos em aula. O desafio era oferecer um sentimento ao colega sentado ao lado, e cada um deveria escrever um parágrafo falando daquele sentimento usando como linguagem algum recurso científico de qualquer campo acadêmico.
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ANSIEDADE
Por Adriana Rossatti

“Foi a Dra. Sun Xi Zyang, academica da Universidade de Beijim, exilada em manila após censura ao seu artigo “Novas perspectivas da relação de tempo nos espaços urbanos do pós-11 de Setembro” – que inclusive foi publicado com estardalhaço na American Dysfunctional Review em julho (e eu adquiri pela Amazon junto ao lançamento oficial) – a concepção real da passagem de tempo tornou-se completamente descreditada. Acredita-se até que toda a divisão do Universo em segundos, minutos e horas, cai por terra para assumirmos uma percepção mais sutil – talvez não sutil, mas brutal – de realizações e não realizações pessoais individuais. Sendo assim, até a percepção de distância espacial, entre eu e você, entre corpos e, principalmente, planetas e supernovas, passa a ser lida, finalmente, a partir da perspectiva do sentimento do indivíduo quanto suas próprias realizações pessoais e/ou a probabilidade de realizá-las. Somos capazes de entender, enfim, o surgimento dos buracos negros.”

MELANCOLIA
Por Eduardo Muylaert (Lévi-Strauss ficaria orgulhoso)

“Uma das questões mais importantes e ao mesmo tempo mais difíceis é a que diz respeito certas tribos que, num dado momento de sua história, não se sentem motivadas a dar continuidade aos rituais e usos herdados de seus ancestrais; homens e mulheres permanecem nas redes o dia todo, sem falar, com a sensação de que nada mais na vida vale a pena.”

DESESPERO
Por Lidia Izecson

“Aula de Matemática:  Regra de três 60 está para 25 assim como X está para as 18 facadas que ela deu no marido enquanto ele dormia na cama ao lado da jovem amante.”

ÓDIO
Por Elidia Novaes

ÓDIO ó.dio s.m. (lat odiu1 Vontade de ter um fecho éclair no centro do osso esterno que permitisse arrancar o próprio coração, rachá-lo em dois, pisotear os átrios e comer os ventrículos. 2 Vontade de ter um fecho éclair no centro do osso esterno de outrem… 3 Grito que às vezes se grita”

TRISTEZA
Por Eva Maria Lazar

“O que queremos despertar no consumidor é aquela sensação de que sem este produto ele fica… fica… com alguma coisa faltando, como se ele percebesse a importância que tem na vida dele e nunca tinha dado conta antes. Assim, por exemplo, sem o produto as coisas perdem o brilho e ele vai querer olhar em volta para ver quem tem; quem não tiver vai ficar na mesmice, naquele cotidiano sem graça, como se estivesse se afogando, sem nunca mais se encontrar, nunca mais sentir alegria, entendeu? Uma vez com a consciência desperta, ele passa a precisar muito, senão bate fundo aquele negócio lá…”

COMPAIXÃO
Por Alcino Bastos

“Se quiser, anote. A receita requer a decima parte da razão, a raiva multiplicada por zero vezes zero e o coração elevado à milésima potencia.”

SAUDADE
Por Elza Tamas

“Tudo nasce do escuro e no vácuo. É no vazio que moram as possiblidades, ele tentou me explicar. Não entendi. Agora que ele se foi, sei que estava errado. Meu vazio é só vazio: um ovo sem gema, nem clara.”

A tomada

Nosso encontro do dia 18 continuamos a discutir nossos temas de interesse nesse semestre: a banalidade cotidiana como tema. A banalidade, quando colocada em detalhes, torna-se interessante. A partir disso entramos em uma reflexão sobre a nuance no texto. Pode-se criar nuances do personagem através desses detalhes. 

Como exercício, Noemi nos propôs descrever uma tomada comum, e a partir dessa descrição, o leitor deveria reconhecer um sentimento do narrador. Eis o resultado.

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“É fêmea. Logo se vê, tem cara de menina. O espelho de plástico, emoldurando a tomada redonda, com os dois buracos marcados para entradas dos padrões europeu e americano. Parece um rosto, de olhos arregalados e despertos, ansiosos pela vida na sala, a rotina das botas, o ir e vir das luzes do Sol e do abajur. Só consigo pensar em quão ingênua essa tomada parece ser. Mal sabe que ao conectar qualquer objeto elétrico, perde seus olhos, sofre um curto e derrete-se por dentro. Talvez a mudem para o padrão britânico ou asiático. Sem olhos que possam ver.”
(Adriana Rossatti)

“Você levou o adaptador, junto com suas camisas, cuecas, sapatos, perfume e livros. Agora só eu, toda noite, olhando para essa tomada branca – dois buracos não sei o quão profundos -, nessa parede branca, nesse quarto branco, sem poder me aquecer com a luz amarela do abajur.”
(Luciana Gerbovic)

“Um retângulo. No centro, um círculo com dois furos. E para que? No escuro. Sem campainha…
De que adianta estar na França e ter uma panela de raclete à mão? Tanto queijo, pão, batatas, cremes. E esses dois furos me encarando. Rindo. Os parafusos parecendo sobrancelhas de filme mudo. Comédia. Odeio filme mudo. Detesto raclete. Não suporto a França. E te odeio, tomada. Você com esses dois furos inúteis, essas sobrancelhas desprezíveis, esse focinho de porco enjoado. Tome uma batatada. E um pote de creme nas fuças. Lá vai pão, casca dura. Farelo também. E veja se gosta de queijo!! Assim!”
(Elidia Novaes)

“O sol que incide sobre ela todas as manhãs do verão fez com que seu amarelo semifluorescente tornasse ainda mais semi, e quase apenas um vestígio de amarelo. Pode parecer ridículo, mas este fato dificultava acertar de primeira (serei honesto, nunca antes da quarta tentativa) o plugue do carregador do celular. Pelo que lembrava minha avó dizer, o sol só cegava quando se olhava diretamente para ele.”
(Samir Mesquita)

“Igual a todas; bom, nem todas, tem as com 3 buracos para os novos pinos doidos, as tipo beliche, duplas; também as encaixadas numa peça redonda, as das peças quadradas. Essa é branca; existem de várias outras cores. Simples, comum. Mas essa tem uma coisa bacana: os buracos em par, pertinho um do outro, amigos e precisam estar juntinhos para funcionar.”
(Eva Maria Lazar)

“A tomada que vejo atrás desse balcão é um retângulo de latão brilhante, com um circulo que contém dois buraquinhos. Prestem atenção, somente dois buraquinhos conseguem acender o abajur que ilumina esse bar; fazer rodar o toca discos que enche o ambiente de romantismo; ligar o liquidificador que prepara meus whisky sauers. E eu com muito mais orifícios não consigo emprego, muito menos arrancar um sorriso da loira senta do outro lado do balcão.”
(Dominique Girard)

“Resolveu acender a luminária, se abaixou e tocou na tomada. Talvez ela nunca tenha chegado tão perto de uma. Olhou para aqueles dois furos simétricos, calmos, irradiavam a paz dos casais afortunados. Passou a ponta dos dedos naquele marrom escuro uma, duas, três vezes e o orvalho salpicou seus olhos.”
(Lidia Izecson)

“A tomada é: um quadrado dentro de outro quadrado. E é branca. É isso”, digo.
“Mas como são os furos?”, você pergunta.
Os furos, eu me esqueci. Como pude? Os furos não são nem parte da tomada, os furos são a tomada em si, todo o resto é adereço, pouco importa. Como pude?
“Está certo, os furos. São como nas outras, são dois. E têm traços nas laterais. Está bem: uma tomada é um quadrado dentro de outro. Brancos, os dois. E os furos são pretos, profundos, com traços. Satisfeita?”
“Não é um quadrado”, você diz. “É um retângulo. Um quadrado dentro de um retângulo.”
(Isabela Noronha)  

“A tomada branca parecia deslocada naquele canto obscuro de coluna. O arredondado da moldura é um arremedo, não chega a dar conforto aos contornos mal retangulados. O miolo, perfeitamente quadrado, impõe a forma dominante, restringindo a área de onde emana a energia. Nos orifícios, que lembram essa praga moderna que são os emoticons, pode-se subentender terminais de cobre, ou latão, com polaridades diferentes, um positivo, carregado, e outro neutro, mero auxiliar de um circuito a ser fechado. O bi-fásico é assim, um mais e um menos. Ah, se houvesse um fio terra, como hoje é recomendado, aí sem haveria por onde descarregar os excessos. Se a instalação fosse tripolar, dois positivos e um negativo gerariam voltagem em dobro e choques assustadores. Mas, em resumo, trata-se apenas de uma tomada simples, pobre, branca, sem cor e sem graça.”
(Eduardo Muylaert)

“Tomadas com buracos são tomadas femeas, negativas, passivas; dependem de que uma outra tomada, essa sim, positiva, tomada macho, a penetre pra que algo aconteça: o vinho gela, um abajur acende, e ele não vem.”
(Elza Tamas)

 

Mitos caídos

Em nosso encontro da segunda-feira, dia 11/08, fizemos um exercício baseado no pequeno conto “Sobre a velhice de Odisseu”, do livro “Para a próxima mágica vou precisar de Asas” de Alex Epstein. Nesse conto, Epstein faz uma paródia do grande herói em uma situação humana, contemporânea e decadente. 

epstein

Nosso exercício consistiu em escolher um mito e usar sua personagem em uma situação decadente e contemporânea. Seguem os resultados. 

DELTA DE VÊNUS

“Àquela hora ela já nem sentia mais as pernas. Não apenas pelo salto de acrílico remendado, muito mais pela pressão de tantos quadris em suas coxas. Puxou a saia para cobrir o desfiado da meia e o hematoma. Ouvia as sirenes na rua de traz, as gaivotas já acordadas. Tinha cheiro de mar. Jogou o cigarro que já queimava o filtro e pensou em ir para casa, quando avistou o homem na esquina da avenido, logo onde ela se divide e se parte em três pequenas ruas. Meio embriagado, meio barbeado. ‘Mais um, talvez, porque não!?’. O homem a olhou em dúvida, pensando se valia a pena.
– Faz sem camisinha?
– Faço. Mas é mais caro.”
(Adriana Rossatti)

“Enquanto olhava para suas pernas roliças e esburacadas, as dobras na cintura que pareciam brotar a cada manhã, os vestidos que não lhe cabiam jogados no armário, os anéis que já não entravam em nenhum dos seus dedos, Jocasta pensou que Édipo furou os próprios olhos à toa.”
(Luciana Gerbovic)

“Hipólita repousava inquieta e a respiração era entrecortada. Olhando à sua volta vislumbrou um circulo de Amazonas que olhavam para ela com preocupação. Várias portavam lanças e escudos. A velha senhora lhes perguntou: estamos em guerra?”
(Alcino Bastos)

ASAS

“Não fosse o mau tempo, ele talvez tentasse, foi o que pensei. Ou, quem sabe, se o prédio tivesse vinte andares; ou ainda, se na janela do outro lado da rua alguém, com um olhar curioso. o fizesse pensar, sabe-se lá, em alguma forma de desafio. Nada indicava movimento, o ar não se moveu. As asas de cera pesavam mais que a depressão.”
(Monica Carvalho)

ANTÍGONA PRENHA

“Quem é o pai, Antígona?
– Bem que eu queria saber. Na viagem que fiz para as exéquias de meu pai, acabei engravidando de um soldado, mas não consigo lembrar seu nome.”
(Eduardo Muylaert)

ENGANOS MORTAIS

“Essa, você deveria buscar, numa praia do Rio Grande do Norte, onde ela morreria afogada, só daqui a 5 anos.
Mas não é a Marcia?
Não, essa é a Maria, acho que você acabou trazendo a filha ao invés da mãe.
Xi, preciso urgente trocar de óculos e providenciar uma agenda para anotações; é muito trabalho, minha memória não dá mais conta , disse Hades.” 
(Elza Tamas)

“- Me ajude aqui?
– Ajudar o que, meu velho?
– A atravessar a rua.
– Ué, e essa bengala?
– Me apoia para andar, mas não me ajuda a enxergar.
– Tá bom vai, pega no meu braço.
– Obrigada, garoto, como você se chama?
– James, e você?
– Peter.”
(Eva Maria Lazar)

“Ele foi o último a chegar no cemitério. Estava cheirando a álcool e com seus grandes pés estorvando o seu andar. Ele se prostrou al lado de seu pai que logo lhe repreendeu: é um desaforo essa sua conduta no enterro de sua mãe, Édipo!”
(Dominique Girard) 

MORRO DA BABILÔNIA
“Fumou todas hoje Caim?
Não, só dois baseados
Se tivesse fumado mais te mataria.”
(Lidia Izecson)
 

NARCISO FORA D’ÁGUA

“É o farol ficar vermelho, o farol ficar vermelho, ficou. Saiu. O primeiro carro. Não rola. O segundo carro. Não rola. No terceiro também não. Precisa ser rápido, as mãos no chão, as mãos no chão, o vento escova o cabelo, pelo menos isso. O corpo pesa no skate. Alguém abre o vidro, ele pega os trocados e guarda no bolso. Faz o serviço de olhos fechados: não quer arriscar o espelho, nem o reflexo na lataria do carro.”
(Isabela Noronha)

“Para de comer isso! Tem caco de vidro.
E larga essa garrafa, você não está acostumada a beber.
Alguém me ajuda a tirar essa faca da mão dela?
Sai desse balcão, minha filha! Não adianta, ele morreu. Não vem mais. Tenta esquecer, Ju! (lieta)”
(Elidia Novaes)

“A cadeira de balanço range zangada com o esforço para levantar.
Um passo de cada vez e você chega na porta.
Calma! Devagar Hércules.”
(Regina Datti)

Rembrandt Velho

No encontro de segunda-feria conseguimos cumprir com nossa rotina tradicional dos atividades: Discutir um estilo, refletir sobre uma leitura e fazer um exercício.

Como inspiração do estilo que vamos explorar nesse semestre, Noemi nos leu um trecho do livro “Minha luta” do escritor norueguês Karl Ove Knausgård. Ele desenvolve um estilo de narrativa distanciada e direta, objetivando friamente acontecimentos rotineiros e banais, criando através dessa uma projeção de suas angústias pessoais. No trecho que foi lido, Knausgård faz uma reflexão sobre sua memória do “Auto-retrato de Rembrandt Velho”, o qual viu na National Gallery durante uma viagem à Londres. Ao desvendar as sutilezas do quadro, acaba por analisar sua própria condição perante o tempo e a velhice. 

A proposta do exercício foi: escrever um relato fazendo uma projeção pessoal através da análise do mesmo quadro que Karl Ove Knausgård. Falar da imagem a partir do que se sente ao vê-la.

Eis o resultado.

6

“Escamas. A pele se escama, não de verdade, mas pelo efeito da forma, do pincel, do acumulado de tinta; porque se formos literais não há nada de verdadeiro nessa imagem. Ele já nem existe. Embora na vida a pele se escama, se gasta, se definha de verdade. Crueldade as escamas da pele, indo ao longo do tempo, se soltando e se acumulando no mundo junto à poeira, ao lixo e à poluição. No final, é isso mesmo que acontece. Terminamos escamados. Do pó ao pó. Ele sabe disso. Ele sente a agonia de um tempo findo, das oportunidades perdidas, de tudo o que não foi, e agora nunca vai ser. Sente vergonha do engodo que se tornou e pede desculpas a nós, suas testemunhas, por não ter se saído melhor. 
Mas olhe novamente. É um mentiroso! Ele nos fisga com piedade e sua cara de santo. É só um narcisista. Mais um, entre tantos. Querendo imortalizar sua velhice carregada de vida, sua humildade culpada, sua pele escamada de propósito para se espalhar pelo mundo.”
(Adriana Rossatti)

“Carnes coloridas, pequenos morros que sobem e descem escorregando entre os sulcos arredondados, protuberâncias moles em tons entre o rosa e o bege, sombreados pela sua história.
Vejo dois lagos ovais de água lodosa, sem fundo; dá medo de pisar. Não são perigosos, acho, mas escondem mais do que consigo enfrentar.
As águas são velhas e parecem geleia de vida. Me chamam, me prendem e me ameaçam de um jeito calmo.”
(Eva Maria Lazar)

“A boca fechada de Rembrandt velho é um borrão. Não diz nada. Mas isso é desimportante. Na testa de Rembrandt velho há mais curvas que nunca. Elas pesam, são barrigas que apontam para baixo e atravessam tudo, flácidas, como elásticos gastos. Mas isso também não é importante. Rembrandt velho olha diretamente para mim, há uma última gota de brilho em seus olhos, velhos, e o que eles dizem, isso sim importa. É: não venha, nem pense em chegar aqui.”
(Isabela Noronha)

“As bolsas abaixo dos olhos foram sendo preenchidas pouco à pouco no tempo: preenchidas com o primeiro pincel descabelado, com a morte de ente próximos, com os furos nas solas de sapato, com a indefinição do sucesso, com a crise da criação, com a dúvida da imortalidade. Mas o olhar continua límpido e atento aos próximos episódios.”
(Dominique Girard)

“Vejo o retrato de um homem cansado. Existem vincos na testa e os olhos estão molhados; não de lágrimas, mas de secreções que incomodam. Este olhar revela uma tristeza grande e dizem que seu dono está vazio de toda e qualquer ilusão que possa tê-lo animado nos bons momentos de sua vida. O bigode conserva ligeiros arrebitados nas pontas e sugerem alguma audácia e vaidade que já se foram. Completam o quadro de desalento, as manchas da pele e olheiras que me assustam.”
(Alcino Bastos)

“Quado a gente fica velho, bolsas arroxeadas aparecem sob os olhos, as bochechas flácidas pendem para a terra e os lábios envergados apenas murmuram.
Os olhos trazem uma névoa permanente pendurada entre a palpebra e a córnea.Talvez não seja mais possível suportar tanta realidade.
O corpo velho sabe e apenas se recolhe.”
(Elza Tamas)

“Olhos melequentos um pouco enviesados e pele flácida com nervuras avermelhadas que caminham por toda a face tornam esse homem uma figura rosada, quase feminina, que conversa com suas rugas todas as noites ansiando por uma despedida que demora a chegar.” 
(Lidia Izecson) 

“O olho já não me vê. Procura o indivisável. A mão tenta alcançar algo que não está, uma folha, um cigarro de tabaco, o pé de uma taça. Busca um rosto que o acolha, desesperançado e inerte.
Quer que chame alguém?
Não mais.”
(Elidia Novaes)

“O homem está acuado, seus olhos tentam entender, ou ver como sempre viram, mas talvez seja tarde. O pincel reproduz com perfeição as imperfeições da pele, se desfazendo como um velho pergaminho. A testa franzida e as rugas sob as órbitas são uma moldura de obsolescência. Vê-se o brilho do nariz, a superfície rósea e lustrosa ainda é um sinal de vida. A boca está cerrada, o homem não está feliz com sua imagem, com sua vida, com o fim próximo. Ele não acredita mais, e quer nos legar essa advertência. Nada resiste ao tempo, as sobrancelhas já não impõem autoridade, mas desgaste; a boca se traduz em desgosto, mas os olhos, já quase mortiços, ainda buscam luz.”
(Eduardo Muylaert)