O instante

Um dos exercícios que fizemos em nossos encontros foi o de escrever sobre um instante. Noemi sugeriu uma ação para cada um, e desenvolvemos um parágrafo falando do instante daquele acontecimento.

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Coçando algum lugar que estava incomodando

A lapiseira sem ponta de grafite, dentro do canal auricular,  faz movimentos de um espadachim ninja para vencer a batalha contra o suposto formigueiro em atividade pré invernal instalado na porta do tímpano.

Dominique Girard

Dando uma porrada

Ah, que prazer! Vou me meter em encrenca, mas valeu a pena, aquela cara de deboche ali na minha frente, o sacana me provocando, agora quero ver ele achar o dente naquela viela escura.

Eduardo Muylaert

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O DICIONÁRIO

Em nosso último encontro Noemi nos contou uma história, que deveríamos transformar em um pequeno texto: “Um rapaz bem disperso, fora da realidade, apaixonado por linguística, foi assaltado no centro de São Paulo. Ele corre em disparada atrás do ladrão, mas ao invés de pedir a mochila de volta, ele pede apenas o dicionário de latim.”

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“Medo. Paura. Timore. Wehi.
A hora que a gente sente, sabe que sente e o que é.
Quando saí de casa, minha mãe só pensava nisso. No tóxico. No crime. No elevador fora de serviço do Crusp. Nem posso dizer que sou uma pessoa de posses. Tenho livros, isso sempre tive. Mas eles não colocam em risco a vida de ninguém. Devia ter suspeitado, que fazia peso, dava a impressão de ter algo de valor. Nunca saí de relógio, de carteira no bolso de traz. Ainda mais para andar no Centrão.
Medo burguês esse, o de ser assaltado. Se a gente não tem apego ao valor, vira doação. Distribuição de renda.
Mas livro na mochila chama atenção. O povo acha que é computador, câmera fotográfica. Dessas, tipo Nikon.
Foi assim, na inocência do meu assombro dom a tribo Kayowá fazendo discurso no marco zero.
Medo. Paura. Fear. Peur.
Minha mãe ficaria aliviada. “Graças à Deus não levaram nada de valor!”
Levaram a parte que eu não queria distribuir. Foi o dicionário de latim, e toda a etimologia do dia.”

Adriana Rossatti

“No centro da cidade, local dos não escolhidos, ele é o escolhido, ele  que anda sem rumo, que tropeça em línguas maldosas que não falam as  línguas que ele fala, levam sua mochila, sua bagagem, o pouco em que  se reconhece, se afirma, corre atrás do que tem, do que tinha, sua  dignidade em poucas palavras, uma negociação, devolve, ao menos meu  dicionário de latim.”

Samir Mesquita

Língua morta

“Se eu falar em língua morta, o gatuno pode entender mal e partir para   cima.  Detesto violência, é preciso cabeça fria e criatividade nessa hora.
– Que merda é essa de torrinha, cara?
– É meu dicionário de latim, meu. Para você não vale nada, mas é minha vida. Se você devolver o Torrinha[1], nem vou dar parte, fica com o resto.
– A mochila também, cara? Não tem muito dessas por aqui, ia ter que por no lixo para não dar bandeira.
– Fica com a bolsa, tudo que pegou, meu, mas devolve o livrão.
– Vale grana, cara? Tô mais acostumado a aliviar carteira, celular. O que você faz com isso?
– Sabe o que é, tenho asma, preciso levantar a cabeceira da cama, é questão de saúde.
– Bom, se é assim, dou o livro de volta. Minha mãe também tem bronquite, eu sei como é. Não vai dar parte de 155[2] mesmo? A mochila é bem legal, obrigado, cara, vai agradar no meu pedaço. Depois, sem B.O. e sem o livrão, a coisa fica bem mais leve. É bom encontrar uma pessoa justa, cara, muito prazer.”
[1] O Dicionário Latino Português de Francisco Torrinha, que apresenta o significado dos vocábulos e o sentido de frases de autores como César, Cícero, Virgílio, Horácio e Ovídio, encontra-se esgotado no fornecedor.
[2] Código Penal  –    Furto – Art. 155 – Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.

Eduardo Muylaert

“O ônibus perdido. Machado de Assis passa às quatorze e quinze. Ele chegou ao ponto dez minutos depois. Culpa da vitrine do sebo. Esperaria o próximo, agora com tempo para ler mais um capítulo de O Arco e a Lira. Desejava secretamente alterar a rota do Machado de Assis para que esse ônibus passasse pela Rua João Guimarães Rosa. Seria um bonito cruzamento. Pensava nisso quando a mochila foi levada. Um moleque correndo pela calçada, ele atrás: carteira com pouco dinheiro, não tinha trabalho remunerado; carteira de estudante, como frequentaria a biblioteca?; carteira de motorista, não tinha carro mesmo; identidade, foda-se; celular, sem crédito; chave de casa, a mãe tem uma cópia; o dicionário de latim…ei, ei, devolva o meu dicionário de latim!, só o dicionário de latim! O moleque desacelerou o passo.”

Luciana Gerbovic

“Centrão! O corre-corre de todo dia. Pega ladrão.
Um que corre outro que foge. Em cada cabeça uma mochila. Aqui o celular, PC, grana e sapato de tênis e correndo ali atrás os textos raros, anotações nas margens, dicionário analógico, português – francês, polonês, hebraico, sânscrito, latim, sei lá o que.
– Só quero o dicionário de latim.
– Hã?
E o diálogo ficou fácil. Dava para repartir a mochila de acordo com a cabeça de cada um. Sem briga.”

Alcino Bastos

“- Ei, volta aqui com minha mochila, pô! Meu dicionário de latim!
– Cai fora mano, te cuida meu, quem tá latindo aqui?
– Tô falando sério amigo. Tô de boa, pode ficar com as tralhas todas , eu só quero de volta meu dicionário de latim!
– Disse o que? Da lata de quem? Tu pirou meu irmão?
– Não! É latim, a língua de Cristo!”

Dominique Girard

A palavra

No exercício dessa semana, cada um escolheu uma palavra (não podia ser nem substantivo, nem adjetivo, nem verbo) e passou para um colega. A palavra recebida foi usada como refrão/estribilho num fluxo de consciência alegre e positivo. Eis o resultado.

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Sempre

Uma aliança na minha mão direita, sempre, essa aliança agora, sempre, da direita e daqui a quantos meses mesmo ele falou?, vinte e dois, lindo, sempre, vinte e dois meses, meu amor, e seremos marido e mulher, para sempre, ele, sempre, meu, eu, sempre, dele, conta os meses, vinte e dois, como quem conta os minutos para aquilo que mais quer na vida, e seremos, sempre, nós, nossas alianças, nossos dedos, nossas mãos, sempre, entrelaçadas, e depois um filho, dois, nós, sempre, misturados em outros seres, a lista de presentes, nossa casinha, sempre, com tapete de boas-vindas na porta, ah, pinguim na geladeira, toda breguice e felicidade a que temos direito, sempre, quero cerca branca e cortininhas com corações na janela da cozinha, sempre, eu, ele, nossas alianças, sempre.

Luciana Gerbovic

“Na festa, enfim, a turma me recebeu, estou dentro, não esperava esta casa tão grande, bonita, enfim, deu tudo certo e agora gostam do meu cabelo e como eu caminho, enfim, a vida vale pelo que é, mesmo, igualzinho como eu tinha pensado, enfim, como todos dizem, cheguei lá”

Alcino Bastos

Contudo

Andar com a nora e a neta é meu programa diário de minhas férias, contudo essas duas cachorras vira-latas que nos acompanham não combinam com o bairro que é sofisticado com casas de janelas grandes, contudo não iguais àquelas que existiam no bairro europeu de meu avô onde morei aos 18 anos; casas com jardim parecendo parques de rododentros que floresciam na primavera. Naquela época o maior presente que recebi dele foi um guarda-chuva, contudo um guarda-chuva vermelho igual o da capa da revista. As cachorras são obedientes, nem sequer pensam em fugir para praia, contudo Carolina, minha neta insiste em fazer mais uma tatuagem.

Dominique Girard

Amanhã 

Amanhã é coisa que bicho não entende. Eu sou ovelha, mas entendo bem o que é solstício. E é amanhã. Festa da colheita amanhã o dia todo. Amanhã. Não vou esquecer. Memória de ovelha não é nada excelente. Solstício, amanhã. Vai que eu arranjo uma encosta de morro para escalar, uma grama distante apetitosa, um motivo bom para ficar balindo sozinha por ai. Carneiros, muitos. Amanhã. Amanhã.

Elídia Novaes

Até

Segunda de tarde e lá vem, carro preto, ó. É mulher. Para na esquina quer atravessar, quer cruzar a via para ir na direção oposta. Preste atenção, dona, até pisco o farol do carro, estou aqui, estamos de olho, aí é conversão proibida, até buzino, duas vezes, mas ela não vê, ô, dona, via de mão dupla condutor não pode fazer isso, artigo 22, capitulo 3 do manual, no automático, ela está no automático, até que me ver ela viu, mas não liga, até sorri, até que tem o sorriso bonito. E segue, não vinha carro, até que tudo bem, está vazia a rua, está certo então, não multo, até mais, dona.

Isabela Noronha

Após

Ele vem me ver hoje. Após o almoço, falou no telefone, acho melhor comprar flores, enfeitar a casa, vestir roupa nova. Após o almoço, ele disse, encher a mesa de doces, os que ele gosta, muita cocada, da branca, a de fita, ele vem após o lanche, no almoço não deu, colocar o tapete, isso é bom, a casa mais bonita, aconchegante, chique, o suco já pronto, após o jantar, maldito trabalho, mas vem hoje, o rímel desbotando, preciso retocar, a casa cheira bem, ele vem, vou abrir as janelas, vem me ver hoje após, após, após…

Lídia Izecson

Agora

Agora. Chegou a minha vez. É agora. Acabou. Chega. Agora sim, vou fazer como sempre quis. Deixem comigo. Vocês vão ver quando um agora se transforma em agora sim, num agora mesmo, num agora já.

Eduardo Muylaert

JOGUEI MINHA MÃE DA ESCADA

Retornamos nossos encontros em 2015 com novos integrantes e uma proposta diferente para desenvolver no semestre. Para não perdermos o hábito, Noemi nos propôs um exercício relâmpago ao final desse primeiro encontro. Escrever um parágrafo em primeira pessoa sobre uma personagem que joga a própria mãe escada abaixo. museu-vaticano-giuseppe-momo (1) “Quando pisquei, foi. As costas dela se desprendendo das minhas mãos. O olhar assustado, de quem ainda não compreende para onde ia. O chão sumindo, o teto entortando, e o barulho abafado da sua massa de pele, ossos, músculo e gordura atingindo o mármore da escada. Houve um gemido. Um ‘urhg’ abafado. Depois os cabelos taparam-lhe os olhos, o rosto, e deixou de ficar interessante. Não fiz de propósito. Fiz porque precisava fazer. Havia seu corpo em minha frente e uma imensidão de vazio atrás que eu precisava preencher. Precisava saber se ela era real. Se ela voava. Se ela endireitaria o pescoço torto no andar de baixo e levantaria da poça viscosa.” Adriana Rossatti NO TOPO DA ESCADA

“Não foi por causa de ontem
Nem por causa da sopa O cabelo estava em revoada, as mãos tremiam

Sim mamãe, sim mamãe, sim mamãe
Não mais mamãe, nunca mais mamãe, nunca mais.”
Lidia Izecson

“O que eu fiz? Não queria; pelo menos acho que não queria. Quem mandou beber? E agora, desço para ver, chamo a polícia ou fujo? Que medo. Vou espiar, aí saio pela porta sem barulho, finjo que estou chegando e grito. Ainda bem que não tem ninguém em casa. Ela está se mexendo, e agora? Mãe… MÃE!!! Parou de mexer. Cadê minha bolsa, o carro ainda está quente, entro e saio dele batendo a porta, e grito. Ah, e choro.” Eva Maria Lazar “Claro que ela merecia um descanso. Dos meus irmãos e do pai. Já era meu costume escutar o choro. Encostado na porta do banheiro. Toda noite era assim. Naquele dia, quando ela subia a escada com a pilha de roupa lavada, bastou só um encostão. Lá em baixo a cabeça soltava um sangue escuro por trás. Mas, naquele rosto enrugado, eu só via um sorriso feliz; e os olhos, bem abertos, pareciam me agradecer”. Alcino Bastos

“O primeiro degrau é por ela ter existido; ela esfolar as nádegas no segundo degrau a baixo é por ela ter trepado com meu pai; os hematomas que surgirão no ventre é por ela ter me parid; cada um dos outros degraus são por todas as palavras de amor dita aos outros.”
Dominique Girard

CHAMO/ AMO

Essa semana Noemi nos fez uma proposta divertida. A partir de uma história pessoal dela, nós deveríamos recontar a cena de acordo com uma perspectiva diferente, que ela designou para cada um de nós.

A história da Noemi: “Eu estava com um namorado recente, por quem eu estava apaixonada. Ele dormiu na minha casa e acordou cedo para me fazer café da manhã. Eu acordei e ele me disse: “dorme, eu te chamo”. Eu estava meio sonada e fiquei com uma dúvida martelando na minha cabeça: “Ele disse “eu te amo?” ou foi “eu te chamo”? Depois de um tempo, tomei coragem e perguntei se ele tinha me dito “eu te amo”. E ele respondeu que não, ” imagina dizer isso a essa hora da manhã”.

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Trágica
por Adriana Rossatti

“Acordei. Nem dormi. Ele apertava o snooze do rádio-relógio-despertador. Dormir a primeira vez na casa dele é como ganhar autorização para uma dimensão perdida. Móveis escuros, o lençol tem bolinhas e o travesseiro é fino demais para o meu gosto. A maçaneta do banheiro está quebrada. Ele coleciona caixas de fósforos. Atrás da porta tem um poster do DIO, na geladeira um bilhete da empregada. Fingi que ainda dormia, mas ele me beijou. Colocou a camiseta de ontem sobre o corpo nu e foi fazer café. ‘Dorme mais um pouco. Te amo’. Olhos estatelados. Me ama? Ou me chama? ‘Dorme mais um pouco. Te chamo’. Me chama? Ou me ama? Ele me ama? Será que finalmente ouvi? Será que ele é tão emocionalmente disponível assim? Parem as máquinas. Ele me ama. Tirem as crianças da sala. É amor. Eu mal acreditava que tinha acontecido. Vamos poder, enfim, passar para a fase em que a gente se ama, e nada mais precisa ser provado. Eu vou retribuir, preciso deixá-lo seguro. Talvez eu agradeça os ovos. ‘Ovos bennedict, meus favoritos! Como descobriu? Também te amo!’. Ou te chamo? Ou será que nem aconteceu?

Coloco a camisa aberta. Arrumo o despenteado do cabelo, o borrado da maquiagem. Escovo os dentes. Não quero falar nada com bafo. Chego na cozinha descalça, brincando com meus dedos no batente da porta. Fiz uma cara de frágil, porque eu estou. Eu estou frágil. ‘Aquilo que você falou. Foi te amo ou te chamo?’. Ele não fazia ovos. Cortava com uma faca cega as bordas do pão Pullman. ‘Te chamo, óbvio. Imagina dizer isso a essa hora da manhã.’

Acordei. Nem dormi. Fiz dois cortes fundos que me drenaram pela banheira de esmalte descacado. Embaixo da torneira tinha um fiapo de ferrugem escorrendo e em cima da caixa de descarga, exemplares antigos da Placar, da Playboy e da Carta Capital. A maconha, joguei toda na privada. Em cima do botão de snooze, do rádio-relógio-despertador, deixei um post it. ‘Desculpe fazer isso a essa hora da manhã. Te amo’.”

Fantástico
por Eva Maria Lazar

“Aquela luz forte entrando pela janela me acordou. Lembrou filme de ficção. Vou dormir mais um pouco, cada sonho. Uma voz gentil com um jeito metálico me deu um susto: quer café? Não tenho certeza se eu disse sim. Dorme, eu te chamo. Passos, a luz sumiu, me encolhi, virei para o lado. O olho estatelou; como assim, quer café, quem? O coração acelerou, levantei. Comecei a descer as escadas, meio pé ante pé. Coragem, entra logo na cozinha.

Eu e minha camiseta amassada entramos. Um homem alto, usando roupa estranha, mexia na cafeteira; na mesa, pão fatiado, queijo e geleia. O medo, já curioso, disse: quem é você? O rapaz era lindo, parecia Charlton Heston no Ben Hur de ontem à noite na Sessão Coruja. Sorriu, com os 94 dentes mais bonitos que já vi, você já levantou? Ia levar na cama. Fiz o olhar mais digno possível; quem é você? Riu; você gosta forte, né? Esperei o coração bater menos de 100 vezes por minuto: você falou eu te amo? Ele riu de novo: claro que não, a uma hora dessas? E continuou a preparar o café, enquanto eu sentava em silêncio à mesa.”

Ingênua
por Mônica Carvalho

“Tomei o último gole de vinho antes de fechar os olhos; a taça, agora vazia, tinha sido preenchida até a borda, e eu também. Sempre achei que vinho combina bem com os primeiros passos: na festa em que não se conhece ninguém, na paixão da qual ainda pouco se sabe. Ele não fala quase nada, acho que porque essa vida de repórter internacional demanda tanto de contato com todo tipo de gente que ele prefere nem comentar. Já é bom poder estar junto, mesmo que só as sextas, hora de almoço.

Nem acreditei quando disse que ficaria para dormir, ele que nunca passa das duas da tarde por aqui. Sim, merece o vinho! Comprei com cuidado, junto com tudo mais; uma conta desse tamanho só cabe uma vez por ano, mais quem sabe, se ele topar voltar e ficar. Ainda bem que aquele tantinho que espirrou quanto tirei a rolha (agarrada, esforço danado tive que fazer) não borrou o livro que ele tinha deixado semiaberto em cima da mesa (li, sem querer, um “não se esque…”, acho que era isso, escrito no post-it da primeira página), mas desviei os olhos antes que fosse indiscreta de verdade; sim, teria sido um desastre estragar o tal livro que ele carregava meio ansioso quando chegou.

Acordei, ele não estava ali.  Chamei.
‘Não venha, eu te chamo’!
‘Eu também’!
‘Ainda é cedo!’.
‘Não, não é, sempre amei assim: de olhos bem abertos’.”

Poética
por Elza Tamas

“Vi quando ele abriu a janela, tinha sol, então acreditei que ele tivesse dito.  Logo depois um cheiro de café gostoso invadiu o quarto, -ele fazendo café pra mim?- então devia ser verdade. Eu estava sem óculos quando ele disse, possível ver um dia arrebentando de lindo, mas difícil perceber os detalhes do movimento da sua boca, sem óculos eu nem escuto direito.
Era primeira vez que ele dormia na minha casa, nossos corpos se entendiam e nenhum de nós se banhou, queríamos manter todas as impressões. Depois conversamos, e adormecemos sem perceber. Dormir juntos é o que há de mais intimo. Agora a pouco, ele me deu um beijo, tímido, acordei e ele disse dorme, dorme, eu te amo, e eu coloquei as mãos sob o travesseiro, as duas, juntas, quase uma reza, feliz, tudo de melhor acontecendo, ele me ama, mas ai senti um desconforto, leve, mas desconforto, talvez ele possa ter dito eu te chamo, porque foi fazer o café, deve ter sido, dorme, eu te chamo.

Precisava perguntar, mas uma pergunta destas não se faz nua. Vesti a camisa dele, jeans, manga longa; virei os punhos, arrumei a gola, os dois primeiros botões desabotoados, e mordendo a boca de vergonha, perguntei: Você falou ‘eu te amo’ ou ‘eu te chamo’? Eu? não lembro, por quê?,  mas ‘eu te amo’ eu não disse, porque imagina dizer isso a esta hora, não ia ter sentido, riu e me olhou danado, gostando de me ver na roupa dele.Você quer com pouco ou muito açúcar? O quê? perguntei.”

Filosófica
por Eduardo Muylaert

“Hoje eu acordei na caverna de Platão e me senti uma toupeira. A frase saiu do fundo do travesseiro e eu não acreditei. Ele nunca tinha dormido na minha casa, se ofereceu para fazer o café e eu, como boa epicurista, achei demais. Mas o que eram aquelas palavras mágicas? Podia ser “Dorme, eu te amo”, mas também “Dorme, eu te chamo”. Será? Mesmo apaixonada, sou adepta do mais puro ceticismo e quis trazer clareza à essência da inesperada declaração. Sei da volatilidade das palavras e das múltiplas possibilidades de significado, mas era preciso adequá-lo ao texto correto, sem perda de tempo. Você disse eu te amo? Não pensei, claro, no amor como virtude, em Platão sou mais a caverna e a escuridão. Mas quando ele disse “imagina dizer isso na primeira noite” eu achei que era hora de largar a filosofia e voltar para a terapia.”

Metalinguística
por Elídia Novaes

“O despertador toca.
Ela – mmmm… zzzzzzzzz
Ele – O que você disse?
Ela – ahn? hmmm…? quê? eu…?
Ele – Ah, dorme. Eu te chamo.
Ela – Você viu o que você falou? Está precisando mesmo se consultar com uma fonoaudióloga. Não se entende o que você diz. Eu estou aqui do lado e não sei se você disse chamo, amo, se espirrou ou fez algum tipo de crítica ao meu hábito de dormir até mais tarde.
Ele – Eu disse Dorme que eu te chamo.
Ela – E não precisa responder assim. No grito é que as coisas não se resolvem. Se não funcionou para Dom Pedro I, não seria para você. Ora você fala enrolado, ora me trata como se fosse surda. Não é assim que o diálogo vai se estabelecer.
Ele – …
Ela – E aí? Nada mais? Isso é jeito de conversar? Veja como funciona: um pergunta e o outro responde. Depois invertem. O outro pergunta e o um responde. Chama diálogo… Você não vai perguntar nada? Nada mesmo? Você está ficando impossível de conviver.
Ele – Você… Na primeira vez, eu disse que te amava. Mesmo que fosse tão cedo. Daí, fiquei sem graça, achei que você estava dormindo e mudei, disse que te chamava. Ia voltar ao assunto mais tarde.
Ela – Viu como você está precisando visitar a fonoaudióloga? Bem que eu te disse.”

Ironia
por Luciana Gerbovic

“Você disse que ia fazer o café…
Disse.
E depois?
Depois o quê?
Depois de dizer que ia fazer o café, você disse outra coisa…
Disse?
Disse… Eu te amo? Ou eu te chamo?
Ah! … Eu te chamo, claro. Imagina se eu falaria “eu te amo” às sete da manhã.
Ah… E à noite, você falaria?
O quê?
Eu te amo!
Ah … Não. “Eu te amo” só falo entre duas e quatro da tarde. “

Prolixo
por Lidia Izecson

“Depois de quase 6 meses de encontros no café Brasil, no bar do Afonso, no salão de danças do Andrei, eu tinha certeza que naquela noite as coisas iriam acontecer. Era a primeira vez que eu subia até o apartamento dele, nunca antes ele havia me convidado, nem mesmo no dia 7 de março, dia do seu aniversário e quando fizera um bolo para os mais íntimos. O hall do prédio era suntuoso, cheio de tapetes persas, e a escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo me deu um pouco de tontura. Essas escadas que copiamos dos franceses podem ser muito bonitas, mas não são nem um pouco práticas, enrolam daqui, enrolam dali, e a gente acaba tendo que gastar muito mais energia e tempo do que o necessário. As modernistas brasileiras, mais retas e com menos adornos, se prestam muito mais ao nosso estilo de vida.

Quando cheguei, de língua de fora e quase sem ar, vi a porta aberta e entrei. O relógio cuco, do qual ele tanto falava, estava pendurado na parede maior da sala, pintada de verde claro, e eu fiquei lá imóvel, esperando. Não sabia quem ia aparecer primeiro: se ele ou o cuco. Foi então que a voz dele, aquela voz rouca de locutor da rádio Eldorado anunciando o concerto da tarde, me chamou lá de dentro: – vem aqui, quero te mostar uma coisa. No quarto, a cama ocupava todo o espaço e, por cima dela, a colcha de matelassê  me trouxe um certo alívio. Era de bom gosto e não tinha aquela cara de coisa comprada na 25 de março, rua onde ele gerenciava a loja de tecidos do pai. A claridade que entrava pela janela não me deixava ver senão a silhueta dele, e quando chegou perto e me abraçou, percebi que já estava só de cuecas. Eu então tirei minha blusa de seda da China pintada à mão, deixando que ele visse a tatuagem que fiz na India, aquela de quando passei lá os quatro meses do curso de Ioga. O sorriso dele foi lindo e ele me abraçou falando alguma coisa que parecia um doce murmúrio, mas bem nessa hora o cuco resolveu sair da casinha dele lá na sala e começou a berrar : cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô. Ele falava coisas no meu ouvido, mas eu só escutava os berros do cuco. E quando o maldito pássaro, cuco é um pássaro?  parou com a barulheira, ele soltou o meu corpo e, com uma cara contrariada, foi logo dizendo: eu sabia que você não me amava de verdade; agora tenho certeza disso. Se me amasse, como vive dizendo, teria respondido à minha pergunta. – Mas o que você perguntou? -Ah, isso só se fala uma vez, e acho melhor pararmos por aqui. Eu ainda insisti, implorei por quase dez minutos, mas ele se trancou, sentou-se na beira da cama e não disse mais uma palavra. Não tive outra alternativa, senão vestir minha blusa de seda da China e descer novamente aquela maldita escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo.”

Narrador Onisciente Intruso
por Isabela Noronha

“Ele acordou primeiro e se virou de lado. Achava patético isso de ficar olhando o outro dormir, não era esse tipo de cara. Tentou fechar os olhos de novo mas foi inútil, estava calor e, para ele, aquela cama, a cama dela, era muito apertada — embora, ainda que ele não percebesse, fosse do tamanho exato da sua. Ia para casa, ligaria depois. Ou esperaria ela ligar, que se dane. Mas quando pegou a calça do chão, bateu no abajur e a acordou. Ela quis saber aonde ele ia. Ele se viu sem opção, gostava de pensar que não era o tipo de cara que abandonaria a namorada assim, na lata, então disse que ia fazer o café e terminou de se vestir. Já fora do quarto, acrescentou: ‘dorme, eu te chamo’.

Ela ficou em silêncio, e ele, porque só acreditava no que queria acreditar, achou que ela tinha voltado a dormir. Mas a frase a tinha despertado inteira, ela não sabia se ainda era sonho e tinha ouvido direito, espera, não era sonho, ela tinha escutado algo sim. Aquilo. Não era? Espera. Era grande demais, felicidade demais. Talvez. Ficou com a dúvida, e a levou à mesa para tomar café com ele, depois ao parque, onde foram ler, e para o apartamento de novo, quando a chuva apertou de repente e os dois correram, mas se molharam mesmo assim, e chegaram encharcados e talvez fossem transar, talvez só se enxugar, mas ela interrompeu de qualquer forma para finalmente perguntar se, de manhã, sabe, naquela hora, sabe, que você foi, sabe, fazer o café. ‘Você disse eu te amo?’ ‘Mas é claro’, ele respondeu, ‘é claro que não. Imagina dizer isso tão cedo, de manhã’. Ele era esse tipo de cara.”

Técnico
por Dominique Girard

“Quando acordei, Paulo ainda estava lá. Ele, uns ruídos na cozinha e um aroma de café. Ao sentir minha movimentação nos lençóis, foi logo dizendo: “Dorme, eu te chamo”. Dobrei o travesseiro em dois, virei para o lado esquerdo da cama, fechei os olhos. Te chamo ou te amo? O que será que ele disse? Será que ele se utilizou de um léxico iniciado por  uma consoante fricativa sibilante, chhhhh ,  em que o som é formado pela passagem do ar por um canal estreito da boca, por um obstáculo? A  língua se curva de maneira a conduzir o ar sobre as pontas dos dentes. chhhamo? Ou, se desfez de todas as barreiras entre nós e optou por iniciar nossa manhã com a vogal “a”, em cuja emissão o ar passa livremente pela boca, sem obstrução? aaamo! A ansiedade não me deixou mais dormir. “Paulo, você disse: eu te amo?”. “Não, eu disse: eu te chamo.“ A prosódia é cruel.”

Humor
por Alcino Bastos

“Bocejo:
– Vou preparar o café. Eu te chamo.
Ele, aos gritos:
– Eu também.
Ela, de longe:
– Para que?
– Ué, amar não tem finalidade.
– O que? Felicidade?
– Sim, eterna.
– Eu sei. Sou a própria ternurinha.
– Não, a tesourinha não está aqui. Fala de novo que me ama.
Ela, entrando no quarto:
– Quem ama quem? O café está pronto.
– Você falou que me ama.
– Tá sonhando.
– Com você.
– Larga de ser ridículo. O café está pronto.
– Como assim?
– O café está pronto. Já disse três vezes.
– Que me ama?
– Ah, vê se acorda, vai!”

O fingidor

Nosso exercício no encontro do dia 15 de setembro segue nossa pesquisa da nuance no texto. A proposta foi, baseados na entrevista de Philip Roth que estudamos, escrever um parágrafo com um personagem que finge ser você.

um-estranho-no-ninho-de-pinguins

” Péra. Dejá vu. Eu estava subindo por aquela escada, eu lembro do formato dos ladrilhos, quintal de caco, todo craquelado. Já não se faz mais. Igualzinho a casa em que minha vó morava. Tinha uma escada enorme, uma escadona. E, bem, eu lembro do ladrlho e de olhar para você. A gente queria ir até o pessegueiro ensacar os pessegos com sacos de papel, enfiar tatu bola no nariz, e subir os blocos de cimento no muro do fundo para ver as crianças da escola estadual quando dava o sinal para o recreio. Péra. E você vinha para mim e dizia isso aí.
Pára. Essa é a história que te contei ontem. É minha.
Falei. Dejá vu.”
(Adriana Rossatti)

“As solas lisas dos sapatos me denunciarão. Preciso esfregá-las na calçada antes de me apresentar como ela. Mania de pobre andar tanto a pé, sempre com as solas desgastadas. E o cabelo que precisa ficar preso? Ela não consegue fazer nada com ele solto? Escrever, falar, comer, pensar? Pobre e burra, disfarçada de chique só por causa de um sobrenome difícil de pronunciar. Mas eu sei bem de onde ele vem. ”
(Luciana Gerbovic)

“O Senhor Augusto Malaest forjou uma crise de identidade: não sabe se ainda quer ser advogado, ou se prefere a fotografia, ou ainda se opta só pela literatura. Foi se aconselhar com a professora Noemi Jaffe, fazendo-se passar por um de seus alunos. Noemi, que não é nada boba, logo percebeu a farsa, mas fingiu entrar no jogo. Você deve escrever, se for um bom fingidor. Mas, se for desmascarado, é melhor procurar um bom advogado.”
(Eduardo Muylaert)

“Ela me irritou naquele dia. Falava muito, não dava vez. Levantei, fui até o grupo e comecei a discursar sobre cachorros, de como são tudo de bom, quase mais inteligentes do que gente. Não como judeus, claro, esse é outro tipo de gente. Cruzei as pernas do mesmo jeito, coloquei os óculos para cima da cabeça, olhei para o celular, até que ela fixou os olhos em mim, me observando séria.”
(Eva Maria Lazar)

“Ela pôs o avental como se fosse ela. Quando foi  tirar o “paellon” do armário, qual não foi a sua surpresa: tinham três! Um de 40 cm, outro de 50 e outro de 60 cm. A duvida era qual ela (a outra) escolheria? Ela escolheu o médio. Na feira ela comprou a lula, o marisco, as favas, o lombo e o frango. Ela nem pensou no açafrão.”
(Dominique Girard)

Rabanada

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Com a mão direita, Pilar segurava um pão adormecido, tomando o cuidado de deixar os dedos flexionados em paralelo, como havia aprendido nas aulas de gastronomia da TV, que assistia aos sábados à noite. Assim não corria o risco de se cortar, e sim, apenas o pão. Na outra mão, uma faca de serra com a ponta quadrada, uma verdadeira faca de pão. Essa, ela havia recebido de um admirador, tinha lamina de alumínio especial e serras de ondas largas, ela a escondia cada vez que terminava sua tarefa. O pão era cortado em fatias grossas, de aproximadamente três centímetros.

Aquelas que não possuíam essas medidas e também as pontas do pão, ela descartava em um recipiente específico, que denominava de “pudim de pão da sogra”; as fatias perfeitas eram depositadas em uma grande travessa retangular de plástico denominada “rabanada”. Ao cortar a segunda ou terceira fatia, o miolo do pão desabrochava. Era uma surpresa a cada vez, aquela massa branca e de natureza elástica, diferente dos tons beges amarelados da casca firme do pão. Uma massa formada por múltiplos poros, que se enrolava em espiral e se desprendia da casca, igual aos pensamentos. Todas aquelas fatias de pão dispostas nos recipientes formavam nuvens caracóis.

Pilar iniciava esse preparo às seis horas das manhãs de domingo, mesmo não sendo Páscoa ou Natal. Os clientes estranhariam muito, se por acaso, em algum domingo não encontrassem rabanada. Principalmente Antonio, um homem de meia idade, um cliente assíduo, que chegava à casa de pães logo após a missa das nove. Dizia não se satisfazer só com a hóstia. Logo que entrava, pedia um cappuccino e três fatias de rabanada. Sentava-se em uma das mesinhas olhando o movimento da rua. Aguardava que Pilar viesse se sentar junto dele para prosear, admirar seus olhos e lhe dar um mimo. “Noz moscada! Obrigada Antonio. Uma pitada e pronto; acende a paixão dos mais desacreditados.”

Ela aprendeu a receita da rabanada com sua Abuela Pilar. Uma mulher, que junto de seu marido e oito filhos, veio ao Brasil fugindo da segunda grande guerra. Uma abuelita de sorriso fácil; Certa vez , em uma reunião familiar, viu-se um leitão correndo no jardim, aquele que a Abuelita havia esquecido de mandar sacrificar para o almoço.

A mesma de quando ela se casou lhe havia dito: “Por que continuar a faculdade se você agora será esposa e mãe?” Desde pequena ajudava-a na cozinha, escolhendo as favas e os pimentões vermelhos e verdes para decoração da paella; ouvia as histórias de quantas vezes a avó gostaria de passar um, apenas um dia solteira novamente; Abuelita Pilar lhe dizia: “Em Valencia, antes de conhecer seu avô, eu e minhas amigas usávamos o leque como arma de sedução. Com o leque abanando em ritmo pensado, escondíamos os lábios e o nariz, fazendo com que os olhos bem maquiados saltassem para os rapazes.

Escolhi o seu avô porque tinha o carro mais bonito. Corte as fatias de pão sempre da mesma espessura; reserve; quando for passar no leite não esqueça do nosso segredinho.” E cochichava no ouvido de Pilar.

Alguns pães ela se demorava a cortar. Segurava aquela massa em forma de cilindro meia lua e apalpava-a. Era um ritual: deslizar os dedos para sentir as pregas e as rugas do relevo; olhar e imaginar o mundo que existiria dentro da crosta superior que se desprendia em forma de uma caverna; uma caverna no alto das montanhas, igual à que a forte e cigana Pilar de Hemingway usou para se esconder da cavalaria fascista. Pilar se escondia atrás da montanha de nuvens espiraladas que cortava todos os domingos na sua pequena padaria. Sua caverna desde que veio a necessidade de sustentar seus filhos. Uma manhã, o marido, que era francês, saiu de casa e disse que a noite traria pães para o jantar. No final da tarde, ela recebeu um telefonema do hospital municipal que informava um acidente. Naquela noite, ela ficou sem pão para o jantar. Quando terminou a reforma da casa de pão, não titubeou em nomeá-la com a versão francesa da rabanada: “Pain Perdu”.

(por Dominique Girard)

A mesa de trabalho

Mais um exercício de nuances no texto.

O desafio é descrever os objetos sobre uma mesa de trabalho qualquer, imaginada. Através desses objetos o texto deve transmitir o estado de espírito do personagem, que não está bem.

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“A escrivaninha ficava no cubículo perto dos elevadores, onde não batia Sol o dia inteiro. Central, ocupando toda a visão de quem se sentava na cadeira, ficava o monitor antigo, daqueles grandalhões, de tubo e carcaça bege. Os teclados também, eram largos e quadrados. As letras A e R estavam gastas. Ela escreveu por cima com caneta de retroprojetor, deixando o teclado remendado, gritando AR para quem visse de longe. A tecla de SPACE travava. À direita de quem olha para a mesa, um gaveteiro acumulava papéis. A gaveta do meio tinha meio sanduiche mofando, e a mais baixa inúmeros papéis de bala de canela. À frente, colocado na divisória de fórmica que a separava de Tom, um recorte da revista Boa Forma, uma imagem de pôr do Sol com uma frase de Paulo Coelho e a fotografia da família desbotada, com calças de helanca. Eram gêmeas.”
(Adriana Rossatti)

“Uma caneta tinteiro sem a tampa, deitada na folha de papel. Na folha, rabiscos em forma de quadrados e triângulos cobrindo uma coluna no lado esquerdo, simetricamente. Algumas partes estão borradas pela tinta, preta. Um calendário de mesa, daqueles com um impresso para cada mês, apoiado na base de acrílico; mostrava o mês terminado há 43 dias. Nesse mês os dias estavam riscados, menos os últimos 5. Mais nada sobre a mesa, ninguém presente.”
(Eva Maria Lazar)

“Abro a porta do quarto dele e vejo em cima da mesa: um copo que servia de cinzeiro com bitucas até a boca; cinzas de cigarro espalhadas no tampo e em cima dos fleyrs de balada; sobre os monitores de som o abajur, em forma de espremedor de frutas, aceso; um prato com restos de arroz, um osso de frango; dois livros fechados de Manga; em baixo do prato dois pacotes de papel de seda para enrolar cigarro, um cartão de crédito já meio amassado ao lado do saquinho de fumo.”
(Dominique Girard)

“A mesa ficava em uma sala minúscula, anexa ao laboratório. Nela, livros se amontoavam. Eles a cobriam completamente, mas os que estavam no meio se empilhavam abertos. Eram 6. Não, eram 8. Eram muitos. Ao deles, havia inúmeros papéis A4 preenchidos com frases que terminavam abruptamente, às vezes, no meio de uma palavra. Em cima de tudo, outros tipos de papel: guardanapos sujos de gordura e de molho de lanchonete, copos de refrigerantes e sacos amassados. Todos vazios.”
(Isabela Noronha)

“A mesa era de mármore de Carrara. Em cima dela um laptop moderníssimo, canetas enfileiradas da menor para a maior, o cinzeiro de prata com 15 bitucas de cigarro, um porta retratos vazio e pedaços de foto espalhados pelo carpete verde”
(Lidia Izecson)

A tomada

Nosso encontro do dia 18 continuamos a discutir nossos temas de interesse nesse semestre: a banalidade cotidiana como tema. A banalidade, quando colocada em detalhes, torna-se interessante. A partir disso entramos em uma reflexão sobre a nuance no texto. Pode-se criar nuances do personagem através desses detalhes. 

Como exercício, Noemi nos propôs descrever uma tomada comum, e a partir dessa descrição, o leitor deveria reconhecer um sentimento do narrador. Eis o resultado.

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“É fêmea. Logo se vê, tem cara de menina. O espelho de plástico, emoldurando a tomada redonda, com os dois buracos marcados para entradas dos padrões europeu e americano. Parece um rosto, de olhos arregalados e despertos, ansiosos pela vida na sala, a rotina das botas, o ir e vir das luzes do Sol e do abajur. Só consigo pensar em quão ingênua essa tomada parece ser. Mal sabe que ao conectar qualquer objeto elétrico, perde seus olhos, sofre um curto e derrete-se por dentro. Talvez a mudem para o padrão britânico ou asiático. Sem olhos que possam ver.”
(Adriana Rossatti)

“Você levou o adaptador, junto com suas camisas, cuecas, sapatos, perfume e livros. Agora só eu, toda noite, olhando para essa tomada branca – dois buracos não sei o quão profundos -, nessa parede branca, nesse quarto branco, sem poder me aquecer com a luz amarela do abajur.”
(Luciana Gerbovic)

“Um retângulo. No centro, um círculo com dois furos. E para que? No escuro. Sem campainha…
De que adianta estar na França e ter uma panela de raclete à mão? Tanto queijo, pão, batatas, cremes. E esses dois furos me encarando. Rindo. Os parafusos parecendo sobrancelhas de filme mudo. Comédia. Odeio filme mudo. Detesto raclete. Não suporto a França. E te odeio, tomada. Você com esses dois furos inúteis, essas sobrancelhas desprezíveis, esse focinho de porco enjoado. Tome uma batatada. E um pote de creme nas fuças. Lá vai pão, casca dura. Farelo também. E veja se gosta de queijo!! Assim!”
(Elidia Novaes)

“O sol que incide sobre ela todas as manhãs do verão fez com que seu amarelo semifluorescente tornasse ainda mais semi, e quase apenas um vestígio de amarelo. Pode parecer ridículo, mas este fato dificultava acertar de primeira (serei honesto, nunca antes da quarta tentativa) o plugue do carregador do celular. Pelo que lembrava minha avó dizer, o sol só cegava quando se olhava diretamente para ele.”
(Samir Mesquita)

“Igual a todas; bom, nem todas, tem as com 3 buracos para os novos pinos doidos, as tipo beliche, duplas; também as encaixadas numa peça redonda, as das peças quadradas. Essa é branca; existem de várias outras cores. Simples, comum. Mas essa tem uma coisa bacana: os buracos em par, pertinho um do outro, amigos e precisam estar juntinhos para funcionar.”
(Eva Maria Lazar)

“A tomada que vejo atrás desse balcão é um retângulo de latão brilhante, com um circulo que contém dois buraquinhos. Prestem atenção, somente dois buraquinhos conseguem acender o abajur que ilumina esse bar; fazer rodar o toca discos que enche o ambiente de romantismo; ligar o liquidificador que prepara meus whisky sauers. E eu com muito mais orifícios não consigo emprego, muito menos arrancar um sorriso da loira senta do outro lado do balcão.”
(Dominique Girard)

“Resolveu acender a luminária, se abaixou e tocou na tomada. Talvez ela nunca tenha chegado tão perto de uma. Olhou para aqueles dois furos simétricos, calmos, irradiavam a paz dos casais afortunados. Passou a ponta dos dedos naquele marrom escuro uma, duas, três vezes e o orvalho salpicou seus olhos.”
(Lidia Izecson)

“A tomada é: um quadrado dentro de outro quadrado. E é branca. É isso”, digo.
“Mas como são os furos?”, você pergunta.
Os furos, eu me esqueci. Como pude? Os furos não são nem parte da tomada, os furos são a tomada em si, todo o resto é adereço, pouco importa. Como pude?
“Está certo, os furos. São como nas outras, são dois. E têm traços nas laterais. Está bem: uma tomada é um quadrado dentro de outro. Brancos, os dois. E os furos são pretos, profundos, com traços. Satisfeita?”
“Não é um quadrado”, você diz. “É um retângulo. Um quadrado dentro de um retângulo.”
(Isabela Noronha)  

“A tomada branca parecia deslocada naquele canto obscuro de coluna. O arredondado da moldura é um arremedo, não chega a dar conforto aos contornos mal retangulados. O miolo, perfeitamente quadrado, impõe a forma dominante, restringindo a área de onde emana a energia. Nos orifícios, que lembram essa praga moderna que são os emoticons, pode-se subentender terminais de cobre, ou latão, com polaridades diferentes, um positivo, carregado, e outro neutro, mero auxiliar de um circuito a ser fechado. O bi-fásico é assim, um mais e um menos. Ah, se houvesse um fio terra, como hoje é recomendado, aí sem haveria por onde descarregar os excessos. Se a instalação fosse tripolar, dois positivos e um negativo gerariam voltagem em dobro e choques assustadores. Mas, em resumo, trata-se apenas de uma tomada simples, pobre, branca, sem cor e sem graça.”
(Eduardo Muylaert)

“Tomadas com buracos são tomadas femeas, negativas, passivas; dependem de que uma outra tomada, essa sim, positiva, tomada macho, a penetre pra que algo aconteça: o vinho gela, um abajur acende, e ele não vem.”
(Elza Tamas)

 

Mitos caídos

Em nosso encontro da segunda-feira, dia 11/08, fizemos um exercício baseado no pequeno conto “Sobre a velhice de Odisseu”, do livro “Para a próxima mágica vou precisar de Asas” de Alex Epstein. Nesse conto, Epstein faz uma paródia do grande herói em uma situação humana, contemporânea e decadente. 

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Nosso exercício consistiu em escolher um mito e usar sua personagem em uma situação decadente e contemporânea. Seguem os resultados. 

DELTA DE VÊNUS

“Àquela hora ela já nem sentia mais as pernas. Não apenas pelo salto de acrílico remendado, muito mais pela pressão de tantos quadris em suas coxas. Puxou a saia para cobrir o desfiado da meia e o hematoma. Ouvia as sirenes na rua de traz, as gaivotas já acordadas. Tinha cheiro de mar. Jogou o cigarro que já queimava o filtro e pensou em ir para casa, quando avistou o homem na esquina da avenido, logo onde ela se divide e se parte em três pequenas ruas. Meio embriagado, meio barbeado. ‘Mais um, talvez, porque não!?’. O homem a olhou em dúvida, pensando se valia a pena.
– Faz sem camisinha?
– Faço. Mas é mais caro.”
(Adriana Rossatti)

“Enquanto olhava para suas pernas roliças e esburacadas, as dobras na cintura que pareciam brotar a cada manhã, os vestidos que não lhe cabiam jogados no armário, os anéis que já não entravam em nenhum dos seus dedos, Jocasta pensou que Édipo furou os próprios olhos à toa.”
(Luciana Gerbovic)

“Hipólita repousava inquieta e a respiração era entrecortada. Olhando à sua volta vislumbrou um circulo de Amazonas que olhavam para ela com preocupação. Várias portavam lanças e escudos. A velha senhora lhes perguntou: estamos em guerra?”
(Alcino Bastos)

ASAS

“Não fosse o mau tempo, ele talvez tentasse, foi o que pensei. Ou, quem sabe, se o prédio tivesse vinte andares; ou ainda, se na janela do outro lado da rua alguém, com um olhar curioso. o fizesse pensar, sabe-se lá, em alguma forma de desafio. Nada indicava movimento, o ar não se moveu. As asas de cera pesavam mais que a depressão.”
(Monica Carvalho)

ANTÍGONA PRENHA

“Quem é o pai, Antígona?
– Bem que eu queria saber. Na viagem que fiz para as exéquias de meu pai, acabei engravidando de um soldado, mas não consigo lembrar seu nome.”
(Eduardo Muylaert)

ENGANOS MORTAIS

“Essa, você deveria buscar, numa praia do Rio Grande do Norte, onde ela morreria afogada, só daqui a 5 anos.
Mas não é a Marcia?
Não, essa é a Maria, acho que você acabou trazendo a filha ao invés da mãe.
Xi, preciso urgente trocar de óculos e providenciar uma agenda para anotações; é muito trabalho, minha memória não dá mais conta , disse Hades.” 
(Elza Tamas)

“- Me ajude aqui?
– Ajudar o que, meu velho?
– A atravessar a rua.
– Ué, e essa bengala?
– Me apoia para andar, mas não me ajuda a enxergar.
– Tá bom vai, pega no meu braço.
– Obrigada, garoto, como você se chama?
– James, e você?
– Peter.”
(Eva Maria Lazar)

“Ele foi o último a chegar no cemitério. Estava cheirando a álcool e com seus grandes pés estorvando o seu andar. Ele se prostrou al lado de seu pai que logo lhe repreendeu: é um desaforo essa sua conduta no enterro de sua mãe, Édipo!”
(Dominique Girard) 

MORRO DA BABILÔNIA
“Fumou todas hoje Caim?
Não, só dois baseados
Se tivesse fumado mais te mataria.”
(Lidia Izecson)
 

NARCISO FORA D’ÁGUA

“É o farol ficar vermelho, o farol ficar vermelho, ficou. Saiu. O primeiro carro. Não rola. O segundo carro. Não rola. No terceiro também não. Precisa ser rápido, as mãos no chão, as mãos no chão, o vento escova o cabelo, pelo menos isso. O corpo pesa no skate. Alguém abre o vidro, ele pega os trocados e guarda no bolso. Faz o serviço de olhos fechados: não quer arriscar o espelho, nem o reflexo na lataria do carro.”
(Isabela Noronha)

“Para de comer isso! Tem caco de vidro.
E larga essa garrafa, você não está acostumada a beber.
Alguém me ajuda a tirar essa faca da mão dela?
Sai desse balcão, minha filha! Não adianta, ele morreu. Não vem mais. Tenta esquecer, Ju! (lieta)”
(Elidia Novaes)

“A cadeira de balanço range zangada com o esforço para levantar.
Um passo de cada vez e você chega na porta.
Calma! Devagar Hércules.”
(Regina Datti)