Acorda, água

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Noemi propôs a escrita de um texto a partir de sorteio de palavras com características de personagens (como “terrorista que tem medo de altura” e “autista com muita sede”)

Você já ouviu o silêncio que a água faz quando acorda?
A água acorda quando a gente bebe água. Enquanto a gente não bebe água, a água está dormindo. Sono de água é limpo. Sono de água é o sono mais limpo que existe. Eu quero acordar água nas minhas costas. Não quero beber água pela boca, quero beber pelas costas. Abrir um buraco nas minhas costas e deixar a água escorrer para dentro, que nem cachoeira pelo avesso. Queria beber uma cachoeira pelo avesso. Água pelo avesso é a água mais molinha que existe, mais gelatina.
Beber água pelas costas é mais rápido. Abre águas, abre águas. Beberia tanta água que nem daria tempo de um barquinho pousar. Água viva, água bebida. Se eu pudesse, toda água do mundo. Esponja, esponja, esponja. Toda do mundo. Deixar a água escorrer por dentro, toda. Deixar a água escorrer em silêncio. Limpa. Não quero beber água, quero que a água me beba. Você já ouviu o silêncio que a água faz quando acorda?
Acorda, água. Acorda, água. Acorda, água.
{André Gravatá}

*

Tudo em mim. Eu mereço. Não me mereço. Mereço as dobras, banhas, gorduras todas.
Deus não existe. Existe. Não me viu. Só eu sei.
É foda, fo, fo, foda!
{Lidia Izecson}

*

O mundo uma fila, sol estalando na careca. Mundo formulário: cor, sexo, pretensão salarial, histórico nas suas palavras, pai, mãe, formação. Formulário on line, sistema cai, luz branca da tela furando o olho, revirando na cachola. Incomoda, sabia?
Mundo escuro, chuva ribombando no cocuruto. Luzes da viatura piscando no teto, a cabeça latejando igual.
– Seu guarda, um favor. Me dá um tiro na testa, vai? É caridade.
{Alcino Bastos}

*

Um corpo que cai de uma altura imensa quando cai não é mais corpo, você já viu? Um corpo batendo no chão, vindo de cima? Cair da própria altura, cair de joelhos, ou não cair porque antes tem o gatilho, a explosão, isso eu posso, disso eu sei, e é porque eu vi muitos dos meus se espatifando do alto que sim, eu faço o disparo, mas não me peça pra subir nesse avião.
{Carla Kinzo}

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No Convento

Por Lidia Izecson

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AQUILO

Todos os dias eles conversam, veem TV, cozinham, às vezes vão ao cinema, cuidam da casa, do cachorro, e dormem sempre na mesma cama grande de casal. Mas eles nunca falam daquilo. Quando percebe que ela está nervosa, ele acha que é por causa daquilo. E quando ele fica parado olhando pro nada, ela tem certeza que aquilo o está perturbando. Ás vezes aquilo chega perto deles e os dois ficam mudos. Um dia, a mulher já cansada de carregar aquilo como se estivesse arrastando um enorme caixão, resolveu perguntar. Ele então tomou coragem e também quis saber. Ficaram tão aliviados depois dessa conversa que resolveram não se importar mais com aquilo. Mas em pouco tempo, sentiram tanta falta que começaram a desenvolver um novo aquilo.

CONVENTO

Nas escadas escuras, as suspeitas, as apalpadas, as escutas, as desculpas.
Chegou menina pobre como tantas outras, hoje madre Maria da Fé. Ontem Leila Milhahan, imigrante árabe alfabetizada nessa língua-desenho, as letras vindo da direita para a esquerda, depois tudo da esquerda para a direita, as duas se encontrando no meio, na fenda. Estrangeira no seu próprio território.

Com o tempo, a ordenação, o orgulho dos pais, a nova veste, mortalha de desejos.
Na padaria do convento a massa é quente e macia: mexo, estico, aliso, elas em volta, noviças, tão jovens, quase meninas, peitinhos amanhecendo. Chamo, assobio, faço ofertas –  doces em troca de mamilos rosados, moedas por princesas que querem virar rainhas, a farinha manchando meu hábito, nem tudo é preto, nem tudo é branco. Livrai-me das tentações senhor, livrai-me do mal, só o senhor me acompanha, só o senhor do meu lado, de que lado? Não posso, não devo, não quero, quero, quero, quero.

Às vezes, para se acalmar aspirava os tapetes, as outras dizendo: não faça madre, isso não é trabalho para uma superiora. Outras vezes, se dedicava a fechar as janelas do casarão – eram 22, uma dentro da outra. Gostava de ficar sozinha no sótão escutando Beethoven. Lá o seu mundo, lá não precisava ser quem fingia ser. O terno a encarava, a gravata lambia seu peito e o espelho se enchia de orgulho.  No dia em que foi à farmácia a pivete com a navalha a encarou: – passa a grana aí, urubu. Passou.

No sótão, madre Fé pediu que ela tirasse a roupa. Pela janela viu um sabiá laranjeira muito grande empoleirado em um galho fino que ameaçava quebrar com o seu peso. Havia muitos galhos mais fortes á sua volta, mas ele escolhera aquele. A garota colocou a navalha em cima da mesinha e a madre achou que ela tinha os seios muito grandes, desproporcionais para o seu tamanho. Observou o triângulo dourado daqueles pelos pubianos e pôs a sonata nº23 para tocar, recostando-se na poltrona florida. Sem desgrudar os olhos da navalha, a garota começou a andar de um lado para outro naquele espaço pequeno e abriu um armário. Tirou de dentro algumas caixas e uma lhe pareceu especial: bem acabada e toda revestida de seda vermelha. Abriu, e deu largo sorriso. Começou então a rir cada vez mais alto e a madre pediu que ela ficasse quieta. Ás gargalhadas, batia com os pés descalços no assoalho de madeira, requebrando os quadris no que parecia ser uma dança indígena. Um cheiro de bife saiu da cozinha e entrou pelas frestas da porta perfumando tudo com gordura. A freira levantou-se, tentou conte-la e, na tentativa de alcançar a navalha, se encontraram no corpo a corpo – os olhos da garota parecendo separados do resto, como se estivessem olhando de outro mundo – a madre gemendo na busca de uma força que não possuía mais, até que a pivete desembestou pelos corredores aos berros, exibindo o corpo nu. Levou com ela a caixa de seda vermelha, a navalha, a vingança.

Na hora do jantar, a madre conduziu as preces com serenidade: Pai nosso que estais no céu, bendito seja o fruto do vosso ventre, não nos deixais cair em tentação, Amém.

CARLABELARDA

por Isabela Noronha

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Que situação.

Que situação.

Um dilema.

E olha que eu tenho intimidade com a dita cuja, a que não se diz o nome, a derradeira, a dona da foice. Desde sempre, desde o útero. Eu brotei com um gêmeo. Convivemos, irmãos, um ao lado do outro, até o último ultrassom. Papai e mamãe estavam finalmente felizes. Tinham demorado anos para engravidar. Fizeram tratamento. Queriam meninos, meu pai tinha nome e sobrenome para varão, dois então, um tanto melhor. Mas éramos um casal. Tudo bem, ainda era benção, a justiça se fazendo divina.

Mas no dia do parto, só um estava vivo. Eu.

O médico me tirou primeiro, pelos pés, a pele acinzentada e brilhante, coberta de sangue, um ser berrante. Depois foi ele, a mesma pele cinza, o brilho, o sangue. Silêncio. Um bicho morto, um frango que balançava pelo peso da cabeça, sem penas, sem vida, sem nada. 

1. Um sonho

2. A mínima possibilidade de dar certo


Essa parte do frango mam
ãe não contou. Fui eu que imaginei. Pensando bem, é desnecessária. Desculpe. É que trabalho em um açougue. 

A morte do meu irmão foi rara. Os médicos disseram que ele não tinha coração. Ele tinha, só não batia mais. Para mamãe, fui a primeira suspeita. Qualquer mínimo golpe poderia ter causado a tragédia: um chega para lá no útero, um pé mal colocado bloqueando o cordão umbilical e lá se ia todo o ar dele. Sufoco. Papai desconfiou de mamãe, de algum funcionamento errado, um gene torto, uma falha. Ela tentou argumentar. O médico interrompeu. Buscar culpados não mudaria nada. O tadinho não era para ser, vontade de Deus, seguíssemos em frente. Fomos. Meu pai sem o varão. Minha mãe sem o filho, eu sem o irmão, nós duas suspeitas, cúmplices e testemunhas, a verdade daquele crime na memória das nossas células.

Em casa, os dois berços no quarto, próximos, unidos, os nomes em placas acima deles: Carla e Abelardo. Abelardo era o nome do pai do papai, que tinha nos dado a casa e também o carro e também os médicos e o parto. Carla era só eu.

Mamãe ora me punha em um berço, ora em outro. Chamava papai para ver a criança ali, em paz, respirando bonitinha, abaixo da placa Carla, abaixo da placa Abelardo, decretando assim a presença dele, a nossa, a morte de ninguém.

Não eram berços iguais. O do meu irmão era mais espaçoso, reforçado. Meninos são maiores, mais fortes, até um pouco violentos, mamãe dizia. Quando eu fiz 3 anos e não cabia mais nem no berço do Abelardo, ela teve que tirar os dois do quarto. No lugar do meu berço, pôs meu colchão. No lugar do berço dele, outro.

Só o lugar de papai ficou vazio. Percebi que ele nunca mais tinha jantado com a gente e perguntei. Viajou, ela respondeu, definitiva. 

3. Um casamento

Mamãe me ensinou a me vestir com as minhas roupas e com as do meu irmão. Tínhamos o enxoval pronto até os 3 anos. Sorte, porque as roupas do Abelardo caíam perfeitamente em mim até os 5, quase 6. Meninos são maiores, mais fortes. Até um pouco violentos.
Fui
ótima aluna, principalmente em matemática e ciências. Nos esportes, preferia futebol. Era a capitã do time da escola que foi vice no intercolegial de 2004. Ouvia metal, AC/DC. Aprendi a tocar piano. Mamãe gostava de Branca. Nessa época, passei a assinar as lições como Carlabelarda. Carla era curto demais, Pedi aos colegas que me chamassem pelo novo nome. Quem não aceitasse, apanhava. Tinha os amigos certos. Era a rainha e o rei da pré-escola.


4. Uma pomba (sem querer)
5. Uma legi
ão de formigas
6. Tr
ês ou quatro besouros
7. Uma barata
8. A vontade de cortar o cabelo bem curto

9. Uma curiosidade: como é ser feliz?

Até que dona Lúcia me convidou para uma conversa na sua sala e quis explicações. Não dei, não tinha para dar. Ela ameaçou chamar mamãe. Implorei que não fizesse isso. Expliquei que mamãe não precisava de mais problemas, estava cozinhando para fora, trabalhando muito. Nos dias que conseguia. Nos outros, ela sumia, só voltava de noite, com comida ou roupa ou jornais ou outra coisa que conseguia na rua. Dona Lúcia não me ouviu, e então, do nada, bati a mão na mesa dela e disse: Filha da Puta. Algo me subiu. Era o Abelardo.

Pouco depois desse episódio, foram dar lá em casa uns policiais e uma moça, na hora do almoço. Mamãe estava dormindo, eu abri a porta. Perguntaram por ela, subi para acordá-la. Mamãe desceu sem se pentear e os policiais começaram um discurso, palavras como chance, irresponsabilidade, quinta, vez, criança, chiqueiro, fome, magreza, doença, tratamento e uma que eu ouvia pela primeira vez mas entendi: abandondincapaz. Mamãe gritou, chorou, quis vir até mim. Um deles a segurou pelo pulso. A moça me pegou pelo braço e mandou eu fazer a mala. Fiz. Quando descemos, mamãe ainda chorava e aí percebi, ela não viria. Então eu também não ia. Também não ia. Não ia. Me agarrei no corrimão da escada, mas eles eram três e eu, só dois. Mamãe ficou sozinha.

Abandondincapaz. Nunca me perdoei.

Tentaram me encaixar com alguma família, mas ninguém queria uma criança velha. Eu tinha 8 anos. Fiquei em instituições, foi bom, porque continuei a estudar e tinha comida e cama. Mamãe foi me visitar uma vez, meses depois. Não falou nada. Chorou e tocou meu rosto, seus dedos deslizaram nos meus olhos, no nariz, na boca, tentando voltar para algum lugar, um território, a geografia dela e de Abelardo em mim. Depois não veio mais.


10. Aulas de religi
ão.
11. Aulas de moral e c
ívica.

12. Aulas em geral.

13. Duas aranhas de pernas finas e a mãe delas.
14. Carrapatos.
15. Um escorpi
ão amarelo.

  Quando fiz 16 anos e estava perto de ser maior, consegui autorização para voltar para a nossa casa para uma visita. Bati a campainha. E de novo. Ninguém atendeu. Assim também foi no dia em que Abelardo e eu completamos 18 anos. E outras três vezes no ano seguinte, as plantas do quintal da frente engolindo a casa, amordaçando as portas e as janelas.

16. Flores na porta de casa.

17. Uma pomba (por querer).
18. Mam
ãe.

Nesse período, eu tinha arrumado trabalho no Zeffa. Garçonete. Eu não era mais problema do governo, só meu. O bar ficava cheio toda noite, dava para pagar as contas. Morava com outras três meninas em um apê no Padre Eustáquio. O gerente me elogiava pelo atendimento jeitoso, atencioso. Em maio, tinha sido a funcionária do mês. Perto do Natal, em um almoço, senti algo, um esbarrão?, na bunda. Ignorei. Voltei para servir o filé. Um apertão, agora de mão cheia, agora sem dúvida. Pra quê. Me subiu, ele veio, o Abelardo. Quando dei por mim, a faca estava fincada naquela mão redonda, saliente, o cliente gemendo. Fui despedida no meio do salão.

O gerente me ligou depois e disse que aquele cliente era um porco mesmo. Mas não podia me dar o emprego de volta. Ele me indicou para atendente no açougue do amigo dele. Lá eu poderia usar a faca à vontade, ele disse. E riu.

19. Orgulho

O açougue é um ponto de encontro de mortos e vivos, tipo um cemitério. Mas as semelhanças param aí. Em vez de enterrar os que se foram, eu os tiro da solidão gelada e entrego para os clientes. O Pedro, o dono, me disse isso, e eu agora repito para todos, porque acho bonito. Essa frasezinha besta fez algo viver em mim. E algo morrer também.

Outra diferença, essa observei sozinha: daqui, as pessoas saem sorrindo. Quando elas vêm. Não tem muito movimento. Mas o Pedro acha tudo ótimo.

20. Tempo
21. Moscas

A gente está junto há seis meses. Isso mesmo. Namorando. Ele me quis assim, de pronto. Diz que sabia o necessário: sou jeitosa, atenciosa e boa com a faca. Semana passada, me tirou da república e me convidou para morar com ele. Não preciso mais ir ao açougue se não quiser.

Nosso apartamento é ensolarado, ventilado e, como fica no primeiro andar, tem quintal. Pedro é mais velho uns 20 anos. Gosto. O Abelardo diz que, em geral, Pedro é bom. Ele não quis ser apresentado. Não deixou sequer que eu falasse dele para o meu namorado.

Foi pior. Porque o Abelardo voltou da clausura auto-imposta maior, mais forte e até um pouco violento. Subiu no meio da briga, uma briga horrível. Ele chegou a pegar a faca. O Abelardo. E gritou, fez ameaças. Pedro desviou dos golpes, ainda bem. Chorou. Pegou umas roupas e foi em direção à porta. Antes de sair, disse: ou você muda ou não dá

Que situação.

Que situação.
Um dilema.

Abelardo não tem para onde ir. Não vai se mudar. A não ser, a não ser que.

Não.
Eu n
ão poderia.

Mas Pedro.

Pedro é minha chance. Minha rocha.

Você entende, Abelardo?

Desculpe.

Matei tanto na minha vida, precisei. Matei e anotei, para não esquecer, para pagar depois. Mas o meu irmão não. Você, eu não poderia.
Poderia?


22. Abelardo

O Flâneur Pode Substituir o Autor?

de Alcino Bastos

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– Dá para acreditar? E, depois, o autor ainda disse o seguinte: “Barthes, no fundo, é muito parecido com Platão, para quem a mimese era apenas a imitação de uma imitação”.

– Para você entender melhor, é preciso dizer que o grupo era muito homogêneo. 

– Se eu destoava? Claro, uma das poucas exceções. A maioria deles e delas dizia ter trinta e cinco anos. No máximo. 

– A idade dele?

Saco. Ficam me atropelando e a Beth mais que ninguém.

– Deixa ver. A nota sobre o autor diz que nasceu em 1964. 

Estou casado com a Beth há pelo menos uns trinta anos. Acho. No princípio era o verbo e, depois, tudo veio à luz. Explico curto e grosso: no princípio achei que ela gostava de literatura e depois entendi que não. A Beth tem trinta e cinco anos. No máximo.

Outra explicação: eu estava contando tudo isso para Helena, não para a Beth. A Helena tem trinta e cinco anos e fala para quem quiser ouvir que tem cinquenta e sete. Não sei se quer contar vantagem ou causar comoção.

Bom, eu falava a respeito daquela noite. Cheia de pessoas com nomes como Licibeth Fakiani, Marianne Brepohl, Françoise Forton, Sarah Swolfs, Michel Lassner, Alexandre Reitzfeld. Nossa! Muito bacana. Contava tudo para Helena. Que ria.

Contar para a Beth era desnecessário: ela estava lá comigo naquela ocasião.

Existem esses encontros à noite. Todos de copo na mão. Uísque. Vinho também serve, mas acaba saindo mais caro se você quer um vinho razoável. Vamos de uísque mesmo. E, rápido. 

Essa historia da idade – essa precisão dos trinta e cinco anos – foi o que escutei logo de início. Ninguém admitia envelhecer e comentavam coisas da moda: autoplásticas de rejuvenescimento; bactérias inteligentes, ativadas com sensores que viajam dentro do corpo, combatendo doenças e aplacando qualquer possibilidade de envelhecimento. Alguns mais ousados discutiam abertamente a possibilidade, num futuro próximo, de optar entre morrer e não morrer. Assim, de orelhada, me pareceu que a maioria do grupo ali presente optaria por permanecer sempre com os trinta e cinco anos que tinha agora. Discussões mais acaloradas dividiam as pessoas entre “nós” e “eles”. “Nós” tínhamos preguiça, “eles” não. Eu rapidamente admiti que fosse preguiçoso e aceitaria a morte. Até já tinha lido um texto falando da minha preguiça: “preguiça de congelar a cabeça, de bactérias que curam males, de viver muito mais. Preguiça das sacolas; das assinaturas com firma reconhecida; dos dentistas; dos eletricistas; de não saber e de não saber; das esperas; de passar fio dental; dos medos, todos; da solidão; dos aeroportos; de muitas pessoas; de poucas pessoas; do medo de morrer”. Uma moça de trinta e cinco anos deu um salto e contra argumentou: “Se você tem medo de morrer então seria melhor não morrer, ou não?”. Para evitar falar de novo em preguiça eu disse que, para acabar com este medo, bastaria decidir sobre o que vem depois da morte: nada (nadinha mesmo?), reencarnação para aprimoramento contínuo (olha aí a preguiça!) ou vida eterna ao lado de deus (escutei alguém falar de tédio?). Uma coisa é certa: todo mundo acredita em morte após a vida. Já o conceito de vida após a morte é controverso. E por fim esse papo sobre a morte acabou morrendo de morte natural ou talvez tenha sido encapsulado numa câmara criogênica para ressuscitar no futuro com roupa nova e cara de jovem.

Parecia haver uma música no fundo (talvez um PC lá na cozinha, em regime de streaming e com o volume bem alto) e o som era tão abafado que permitia a conversação normal ali no living. Andei na ponta dos pés pela cozinha e encostei o rosto no congelador, aspirando os complexos cheiros da vida. Não achei nada produzindo música, nem dentro nem fora da geladeira. A geladeira era velha, com congelador na parte de cima. Dentro do congelador um saco de gelo, aberto. Na parte de baixo uma grande bandeja com bombas de chocolate (aquilo que os franceses chamam de éclair) e muitas tortas de pequeno tamanho abertas na parte de cima (é isso que os franceses chamam de quiche?). Alho-poró, queijo, frango etc.

Quando voltei para a sala, um rapaz, com trinta e cinco anos no máximo, estava dizendo: “São duas as grandes razões que fazem alguém ler: a busca de entretenimento e a do conhecimento. Mas, no mundo tecnológico em que vivemos, esse leitor não necessita mais da cadeia intermediaria entre ele e o conteúdo. Assim, editores, distribuidores e livreiros tornam-se, muitas vezes, dispensáveis o leitor, pois encarecem o produto”. Foi atacado e defendeu-se como pôde: “Não acredito no fim do livro em papel. Acredito no poder de uma boa história, seja em livro impresso, digital, cinema, qualquer ferramenta.”

Não. Não tinha mais conversa e nem era mais uma reunião comum. Foi assim, de repente.

– Virou uma palestra?

– Pode ser. Melhor ainda: uma aula do autor de meia idade para alunos de trinta e cinco anos, no máximo.

Claro, não era para ser assim. Todos haviam pensado em distribuir ideias, fazer networking, trocar figurinhas, marcar encontros, aproveitar o bem estar físico que os trinta e cinco anos proporcionam, tudo isso. Mas, para o bem ou para o mal, ele monopolizou.  Era de noite, entende? Com uísque na mão. Todos foram ficando com uma capacidade rara de entendimento dos conceitos e das verdades absolutas que iam sendo distribuídas de maneira tão generosa pelo autor: “Não posso escutar a palavra cinema”. Silêncio respeitoso. “O gênero mais privilegiado em termos econômicos para uma boa história (há,há), para o entretenimento (há,há), e dentro deste realismo totalmente apático, é o cinema comercial. O realismo comercial monopolizou o mercado e se tornou a marca literária mais poderosa. O realismo não passa de uma gramática, um conjunto de maneirismos e técnicas que obscurece a vida literária”.

A partir daí, urbi e orbe, o autor começou a proibir: “não usem situações de conseguir ou perder o emprego”; “nunca ninguém deve brincar com a comida enquanto está pensando em alguma coisa”; “nada de cartas de amor ou propostas de casamento”; “nada de doenças e suicídios em sucessivas gerações de uma mesma família e, importante, nem pensar em incesto”; “evitar a todo custo rapazes promissores de olhos azuis e moças com decote mostrando o arfante vale entre os seios”.

E, didático, explicava: “o realismo nada mais é do que uma convenção que reflete as aspirações de leitores pequeno-burgueses”.

Helena ria e se deliciava. Era isto que eu gostava nela. Muito natural que, depois desses anos todos como minha amiga, ela estivesse pensando se tudo aquilo era mesmo verdade, se o coquetel tinha acontecido e se o autor tinha dado aquela aula. Que importava? Era engraçado, não era? 

– Então era sobre o realismo?

E queria mais.

– Ele não falou dos personagens? Diálogos, linguagem? Ele falou mesmo um “há, há” para desmerecer uma “boa história”? O que ele falou sobre a figura do “flâneur”?

– Nada. Sobre isso tenho certeza de que não disse nem uma palavra.

Na noite do coquetel, quando eu estava voltando para casa, a Beth passou a desancar o autor. Fiquei surpreso e reconheci que ela tinha entendido pelo menos uma parte do que tinha sido dito; a mensagem que o autor quis passar chegou até a Beth. Um pouco borrada. Uma espécie de telefone sem fio.

O fato é que ela estava muito brava com tudo aquilo e desandou a falar. Saco. Eu queria dizer para a Beth o seguinte: “vamos falar sobre isso a qualquer outra hora, meu bem, mas, por favor – só desta vez, vai? – não agora”. Infelizmente este tipo de comentário constava da lista de proibições do autor e, então, permaneci calado. Se eu tivesse dito aquela frase, ela teria retrucado: “você não me ama mais?” e eu teria respondido: “não é isso, é só que estou muito cansado”. Estas duas frases também constavam da lista do autor e então eu cheguei a pensar que a vida me seria mais difícil daquele dia em diante.

Ela disparava a falar. “Ele fez pouco de gente boa. O que está errado com Le Carré ou P. D. James? Eu não gosto de Flaubert ou George Eliot, e daí? O Barthes é um bundão ridículo”. (Eu concordava com isso, mas, permaneci cuidadosamente calado). “A lista de proibições foi primária, não foi?”. (Achei que não precisava dizer nada, mas, educadamente, emiti um han-han que, se preciso, poderia ser confundido com um pigarrear suave). “Ele pensa o quê? Que somos crianças? Será que ele não via que todos ali já tinham trinta e cinco anos, no mínimo?”

Ah, bom, no mínimo. No mínimo fizemos algum progresso naquela conversa. Bem mais tarde, no fim de semana, a Beth me disse que precisava viajar por uns dias. Ia visitar um sobrinho.

Por mim tudo bem.

Depois que o autor falou sem cessar por um tempo que não consegui medir com precisão, ele calou-se. Imagino que tenha se dado por satisfeito com as lições generosamente oferecidas ao grupo, ou quem sabe esperava perguntas ou mesmo comentários inteligentes. Não sei dizer por que não perguntei nada a ele. No entanto, notei que o grupo estava catatônico e tinha perdido a voz. Não estou dizendo que tinha perdido a voz por causa de uma epidemia de gripe, de uma amigdalite grupal; eu estou dizendo que o grupo tinha sentido um impacto tão grande com as palavras do autor que, de alguma maneira, a voz que porventura ainda tivessem lhes havia sido arrancada como em uma operação cirúrgica. Até aí tudo bem. O interessante foi que este acontecimento me permitiu vislumbrar algumas diferenças ainda hoje existentes entre homens e mulheres. Sim, olha só. Para os homens recuperarem a voz é necessário jogar umas duas pedras de gelo dentro de um copo largo e baixo e completar até a borda com uísque. Foi o que os homens fizeram em caráter de urgência. Já, no caso das mulheres, é diferente. A dona da casa, que tem trinta e cinco anos, foi rapidamente até a cozinha, esbarrando nos móveis, e voltou para a sala carregando uma grande bandeja com bombas de chocolate (aquilo que os franceses chamam de éclair). Verifiquei que basta consumir duas ou três dessas bombas para que a voz das mulheres retorne. Tão melodiosas como sempre. Foi fácil ver quando homens e mulheres ficaram subitamente felizes, confiantes nas bactérias inteligentes, nas enzimas geneticamente modificadas: todo este pequeno mundo, ativado por sensores, em movimentação constante dentro daqueles corpos, combatendo quaisquer efeitos deletérios do chocolate, do uísque ou de eventuais conceitos literários desagradáveis à estética de cada um.

Outros comentários desagradáveis: “não há grandes novidades ou livros realmente notáveis”. “Não vemos um pensamento novo. Os livros hoje são os mesmos dos últimos anos”.

Helena (que gosta de literatura) lamentou-se comentando que tudo que havia para ser escrito já tinha sido escrito. Inúmeras vezes. Eu tinha que concordar, mas ponderei:

– Eu não tenho vergonha de escrever de novo o que já foi escrito. E se as palavras dos outros foram melhores que as minhas, eu uso aquelas mesmas palavras, sem dó nem piedade.

Helena bocejou e, antes de apagar a luz, perguntou o que havia acontecido depois que todos tinham recuperado a voz. 

– A reunião estava no fim. Antes das despedidas fui me postar ao lado do autor e disse para o grupo: “o escritor tem que agir como se os estilos e métodos literários disponíveis estivessem constantemente à beira de se transformar em meras convenções e, por isso, ele precisa tentar vencer esse inevitável envelhecimento. Precisa agir como se a própria vida estivesse sempre à beira de se tornar convencional”.

Helena achou que eu era um gênio e resolvi não dizer para ela que as palavras não eram minhas. Eu só achava que elas eram inspiradoras.

Ensurdecedor

de Eva Maria Lazar

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Já tem uma hora que você não faz um movimento. Ontem no passeio da noite você andou mais devagar, eu achando que era cansaço da disputa pela bolinha de tênis. A cara da tua veterinária vem na minha cabeça e afasto. Teu tratamento foi um sucesso, lembro da festa quando ela te declarou curada. Aquele inchado perto da axila foi crescendo até que não pudemos mais ignorar, o teu olhar pedia. Daí foi aquela sucessão de internações, medicamentos, aplicações, teu pelo caiu, você mal comia e só dormia. Lembra? Foram dois meses muito difíceis para nós. Até chegar na comemoração, teve faixa de bem-vinda de volta.

Agora são seis meses de paz, teu pelo cresceu, mais liso, verdade, mas lindo. Você voltou a comer e a brincar, combinamos de esquecer o que tinha acontecido. Eu fiz minha parte, acho que você fez a tua.

Não quero pensar nisso agora, enquanto espero você acordar. Você sempre foi uma gozadora, está tirando uma comigo. É bom que descanse até mais tarde, afinal, hoje é sábado; o poetinha já disse que é o dia em que tudo acontece. Eu lia poemas dele em voz alta quando você ficava agitada, te acalmava e logo dormia. Poesia ajuda a deixar as coisas do tamanho que dá para lidar. Nem uma mexida involuntária do cotoco de rabo; nem orelha, nem pata. Eu com o coração parado. Lembra dos filmes que a gente assistia? No dia do Babe, você não piscou até acabar, eu ri muito.

Não quer mesmo tomar um pouco de água? Pego para você. Não? Tá bom. Quando quiser me avisa. Você está muito quieta. Ainda bem que não preciso ir trabalhar, posso te esperar. E lembra quando eu quebrei a perna e fiquei semanas de cama? Você deitava no gesso e não queria sair de jeito nenhum. Deu uma de enfermeira, só saía pra comer, ir no banheiro e voltava correndo. Até te dei a tala de presente quando não precisei mais, você roeu toda.

Tem gente que me acha louca por curtir tanto cachorro. E daí? É que não te conhecem. Quando viajei para aquele curso, você emagreceu um monte, fiquei culpada. Não adiantou falar que tive saudade todos os dias. Na volta te enchi de brinquedos, lembra? Na alfândega olharam esquisito para a minha mala.

Não quer mesmo dar uma volta? Não, não estou com pressa, só para saber. O dia lá fora está lindo. Tá, não pergunto mais. Acho que hoje você não está a fim de papo. Não, não quero sair daqui, não esquenta. Já disse que não preciso. Olha teu petisco favorito, encosto no focinho e nada. Chamo, busco a coleira, você imóvel.

Peraí, é a campainha, preciso abrir. Doutora, que bom que chegou. Ela está deitada ali, parada. Venha ver o que fazer, eu não consigo.

ARDENTE

de Adriana Rossatti

Tungurahua volcano 4

Adriana espreguiçou o corpo, subindo a parte de cima do babydoll. A luz das velas espalhadas pela sala do apartamento improvisado marcaram o contorno de seus seios e as costelas aparentes. Sugou mais um gole da Coca Light batizada com vodka e gesticulava animada contando sobre o processo que passava na oficina do Teatro da Vertigem para o roommate. Estavam na semana de Jó. A gente já tava umas 3 horas fazendo meditação ativa, foi um tempão de kundalini e um trabalho corporal intenso, saca!? Eu tive até um orgasmo fazendo. Os joelhos tortos e pontudos estavam esfolados e hematomas subiam pela coxa. Pára! Como assim, no meio de todo mundo!? Corou, mas o rapaz não percebeu. Ninguém viu. Foi uma trip bem particular. Mas aí é que veio o lance doido! Separaram a gente em grupos e cada grupo elegeu o seu ‘cordeirinho’. Tipo, a gente tinha que subverter o cordeirinho… Os olhos do roommate brilhavam. Ele congelou com a boca no canudo de onde mamava uma baby Chandon. Quem foi o cordeirinho? Você foi o cordeirinho? Seus lábios tremeram levemente de irritação pela interrupção, e Adriana ofegou acelerando a história impaciente. Sim. Também. Todo mundo foi cordeirinho. Tipo, não posso falar o que rolou, porque tem um lance de sigilo, mas teve de tudo. T-U-D-O! O rapaz, na metade dos 20, cabelos desgrenhados e roupas sujas de tinta, ficou fitando a colega com um semi-sorriso safado, esperando um encerramento mais revelador. Arrancaram sua roupa, Bi!? Não, ninguém arrancou minha roupa, Bi. A minha não. Mas fiquei morrendo de medo de que me arrancassem. Sabe que eu tenho essa coisa com nudez. Enfiou dois Mentos na boca, acendeu um cigarro e sentiu vergonha pelo que tinha feito com o seu cordeirinho. Arrancara a cueca do ator, um homem já, subira no teto do galpão e jogara a peça pela janela enquanto ele engatinhava e chorava de humilhação. Sabia que aquilo fascinava o roommate – não só a ele, como a todos que conhecia – mas detestava a pessoa que tinha sido, detestava aquela pessoa do palco. Quanto tempo você não dorme, Dri? Esfregou as unhas negras nos olhos borrando o rímel, contando mentalmente os dias. Três dias. Teve aniversário do Pedro na quarta… Me deixa! Eu durmo quando eu morrer! Passava os dedos sobre as velas em cima da TV. Há três dias não dormia, nem cochilava. Lembrava-se do banho pela manhã, da sensação de nunca mais precisar dormir na vida. Bi, sabe o que eu mais amo em você!? Você é uma bicha que deu a sorte de nascer mulher. Riram. Adorava quando ele dizia aquilo. Era o melhor elogio que podia ouvir. Adorava pensar que era uma bicha, uma versão sonhada de bicha. São seus olhos! Deu um selinho no rapaz. E ontem? Quem era o bofe que dormiu aqui? Garçon do Ritz. Qual? Aquele tímido, que você acha gatinho. O roomate levantou da rede em um salto, dando um grito e jogando os braços para o alto. JEEESUUUUS!?????? Não me diga que você comeu o Jesus!? O nome dele não é Jesus. Pra mim ele é Jesus. O presente de Deus aos homens pra que a gente se lembre que ele nos ama! Riu histericamente da própria piada. Adriana tentou segurar o riso, mas a imagem do rapaz era boa demais. Riu com ele e mastigou outro Mentos. Pára! O moço é bonzinho, todo sensível, escreve poesia. É praticamente um clichê, coitado! O roommate começou a fazer cócegas nela. Conta! Conta detalhes!!! Como é, qual o tamanho? Pára! PÁRA! Não sei! Não fiquei com ele. Ele pára, dá um passo para trás desconfiado. Não comi o moço. Não rola, muito novo. Quantos anos? 19. É só 5 de diferença, Adriana. Seis. Muito novo para mim! Fiquei com dó. Trouxe para casa, só. O rapaz perde o interesse na conversa. Por mim, desde que você recolha da rua só garçons sarados e não cachorros pulguentos, você pode não transar com quem você quiser. Suga o restante da champagne fazendo barulhos com o canudinho e vai em direção da bolsa, chaves, casaco. Bom, sabe porque você não é uma bicha, Bi!? Por que? Porque uma bicha teria comido Jesus! Ela riu. Não pode ficar regulando muito essa mixaria aí, Bi. Daqui a pouco ninguém quer. Ela jogou a cabeça para trás no puff, soltou a fumaça para o alto. Estou abstêmia. Estava. Abstêmia de tudo o que compunha sua vida. Vai pra onde, Leco? Ferver? O rapaz olhou com um sorriso no rosto, um sorriso de quem está feliz, mas tem medo de contar para alguém. Vou passar o findi no Estevão… AHHHHHH!!!! Quem diria, sua bicha velha!!! Ela começa a pular e dançar em volta dele. Tá namorando-o, tá namorando-o!!! O rapaz ria, feliz. Eu sabia que eu viveria pra ver esse dia. Leco e a monogamia! Pára, pára, bicha abstêmia! Bicha monogâmica! Abstêmia! Monogâmicaaaaa!!! O rapaz sorri, radiante. Volta-se na porta, antes de sair. Você? Vai ferver? Ela ergue 3 DVDs. Ai! Você e esse Cary Grant! O que eu posso fazer!? É o homem perfeito, Bi. Ele era gay!!! Eu sei, mas nunca nos filmes. Nos filmes era perfeito pra mim. Fecha os olhos, sonhadora como uma menina. Larga a mão de ser velha, e vai ferver! Você é tão velha, Adriana, que até sua paixão platônica já morreu! Adriana joga o escarpin em direção a porta. O colega fecha antes de ser atingido. Volta para mostrar a língua e fecha a porta novamente, partindo. O apartamento fica em silêncio. Adriana vai até a porta, tranca, passa a corrente no ferrolho. Coloca o DVD no aparelho e aperta o play. Sente um alívio de não precisar sair. Sente um alívio por estar dispensada de ferver. Anda pelo apartamento descalça, um pouco ressentida de ele ainda ser um improviso depois de 3 anos. Não que ela precisasse, poderia morar no conforto da família. Mas ela quis. Na noite em que decidiram morar juntos, o rapaz tinha aparecido esbaforido na Torre do Dr. Zero. Trabalhava como produtor de objetos no mesmo filme em que a amiga que fazia cinema. Precisava de um novo roommate urgente, ou não tinha como fechar as contas do mês. Adriana topou, mas só por um ano. Vou viajar depois. Tirar um sabático. Tinha tudo planejado. Um bom emprego na área executiva de uma grande emissora de TV, um ótimo salário. Mas não quero aquela vida não. Eu olho pras mulheres da emissora, tudo surtada. Com os dentes trincados cheios de batom. Um ano e já estava bom. Abriu a bolsa, puxou o cantil de metal no qual gravou a inscrição pretensiosa de Kerouac. Vazio. A pia da cozinha acumulava louça de três dias que não eram dela. Na lavanderia tropeçou em pilhas de objetos da produção do rapaz. Havia restos da fantasia com a qual desfilou no Carnaval. Não lembrava o nome da escola de samba, mas assobiou o refrão. No alto da estante sua mochilona, que havia comprado aos 18 anos anos e nunca usado. Olhou para ela por alguns segundos, depois puxou uma nova garrafa de vodka e apagou a luz. Completou um copo com suco de laranja, guardou a vodka no congelador. No fundo nem gostava da bebida. Queria apenas se embriagar. Apoiou os ombros ossudos no batente da sala. Havia uma lanterna japonesa pendendo no fundo do cômodo, em cima de um enorme puff branco de curvim. Ao lado dele, seu stereo ficava no chão, junto a uma torre de 350 CDs organizados em ordem alfabética. Abriu a caixa do Immaculate Collection para descobrir o CD do Jamiroquai. Puta que o pariu, Leco! Custa guardar onde achou!? A porta de entrada ficava no outro extremo da sala, isolada de todo o resto do apartamento. Um sofá grande, mais 3 puffs espalhados e uma rede cortando a sala ao meio. A TV era nova. Tinha acabado de comprar. Seguindo pelo corredor dava de frente para o seu quarto, uma porta para o banheiro, e o outro quarto. O quarto do rapaz fedia a maconha. O colchão estava direto no chão, os lençóis amarrotados no pé. As telas inacabadas estão encostadas sem cuidado na parede oposta à janela. Depois se diz um artista! Um pote de Cup Noodles apodrecia em cima de uma pilha de vinis. No seu quarto a organização imperava. Seus livros ficavam na estante, organizados em ordem alfabética. Assim como os contratos em seu escritório. Meu mundo em ordem alfabética. Episódio de hoje: O cordeiro. Os travesseiros afofados depois que Jesus passou a noite, um bichinho de pelúcia. Fotos da família na cabeceira. Passou os dedos pelos livros. Pensou em estudar de novo. Pensou em um mestrado em semiótica. Poderia ser uma daquelas intelectuais sérias de óculos e calças de tergal. Eu podia estar ouvindo Zimbo Trio. Não era nada disso que ela queria estar fazendo em sua vida. Tinha o teatro, tinha Jó. Tenho nojo. Era isso. Tinha nojo do palco. Experimentou um sapato novo que estava na caixa. Colocou de volta em uma sacola para devolver. Imaginava sua vida como atriz à sério. A exposição, o contato físico com outros atores. Nojo! Não sabia de nenhuma outra atriz que se constrangesse com o que se faz no palco. Olhou-se no espelho. Lavou os olhos de guaxinim. E se meu tempo acabar? Talvez o que realmente quisesse era apenas um papel para representar. Colocou a bebida em uma taça e se sentou com o pé arqueado e os dedos em ponta. Cary Grant era perseguido por um avião no deserto. A cena é a mais genial do filme. Adriana gostava de discorrer sobre ela em mesas de bar. Hitchcock é gênio, me entende? Gênio! O cara subverteu completamente o cinema de ação, ok, que o filme nem é de ação, mas virou um ícone. Toda a série 007 veio dali. Olha só, você tem Cary Grant, largado no meio do deserto. E nada acontece, saca!? Tipo, passam uns carros, e o cara lá. Ele sabe que está deixando a gente tenso, então ele coloca um outro personagem. Um cara suspeito, que incomoda, intimida. Quando estamos quase reagindo, ele desvenda o cara. É só um passageiro, pegando um ônibus. E o Cary ainda lá, no deserto. Tem isso, é um deserto. Isolado, derretendo no Sol. Até que o tal avião de agrotóxicos, que até então a gente nem deu muita bola, começa a perseguir o herói. É lindo! É claro que nada ali soa muito real, soa absurdo tudo, na verdade. Mas é o que ele queria. Na vida real não tem nada de especial. Engoliu o resto da bebida, desligou o filme na cara de Eva Marie Saint e foi dormir. Ainda pensou em apagar as velas, mas a preguiça a deteve. Que queime! Queimaram. Amanheceu com o apartamento em chamas. Sentiu o babydoll se carregar de fuligem. A sala toda queimava, a TV nova havia explodido, a capa de “Ladrão de Casaca” derretia com a pilha de CDs e as labaredas alcançavam a lanterna japonesa. Ouviu pessoas na porta. Ouviu gritos, tentavam arrombar. O ferrolho. Correu até o quarto, arrancou uma fronha do travesseiro. Era sua chance de deixar tudo aquilo queimar. Deixar para trás aquela vida improvisada, cheia de faltas, cheia daquela pessoa que ela não gostava de ser. Pediria demissão. Compraria uma nova mochila. Essa pode queimar. Encontraria o grande amor da sua vida. Iria viajar. Eles iriam para a Índia, fazer trilha no Himalaia. Escreveria poemas nas areias da Tailândia, andaria de elefante na África. Ele a tiraria para dançar em uma piazza da Itália, e cantaria “Tiny Dancer” em seu ouvido vendo o por do Sol na Grécia. Estava acordada. Há tantos dias, só agora acordada. Colocou a fronha no rosto, o cheiro de amaciante lhe deu enjôo. Rastejou pelo corredor pensando em fugir. Tudo o que eu tenho está nesse apartamento. De repente se deu conta de que nada daquilo era importante. Colocou fogo em uma vida para se ver livre, mas nada do que queimava valia a pena. As labaredas lambiam as paredes, cavalgavam sobre os puffs como animais. O som do crepitar, as pequenas explosões de plástico. Tudo tão lindo! Durante 25 anos quis  se sentir viva, durante 25 anos procurou algum momento que lhe trouxesse maravilhamento. Então, quando está prestes a fugir, quando a fronha em seu rosto começa a se encharcar de lágrimas, ela entende. Não era assim que seria definida. Não naquele apartamento, não em um sabático alguns anos depois. É o que eu faço agora que me define. Era sua negação da vida que levava. Era sua recusa em se tornar uma pessoa comum. Assalariada. Com ticket refeição. Baixou a fronha do rosto. Foi até a janela e abriu. Deixou o oxigênio entrar. Deitou na cama. Que queime! Talvez tenha chegado. Talvez fosse sua hora de dormir.

Os mínimos detalhes

por Eduardo Muylaert

Tribunal_560

Eu conheço esse homem nos mínimos detalhes, dizia no Cartório a escrevente para quem quisesse ouvir. Os outros funcionários não falavam nada, mas olhavam desconfiados, pois morriam de medo do Dr. Álvaro Perdiz, já há oito meses substituindo na Terceira Vara Criminal. Os juízes, quando chegam, em geral procuram uma aliança com os serventuários, alguma camaradagem, pois sem eles o serviço empaca e o Corregedor vem atrás. Dessa vez, foi diferente. O homem não sorria, no primeiro dia cumprimentou cada um com o braço duro e a mão fria, forçando a distância. Depois, nada, nem bom dia. Funcionário também é gente, por que esse horror de nós? E que intimidade é essa de que Liria fica se gabando, se o homem mal fala com ela? É verdade que ela é a escrevente da sala de audiências, a que digita no computador decrépito as coisas que o magistrado dita com vagar, numa dicção tão forçada que parece que é para a cretina não perguntar nada e o réu perceber que a justiça é fria e implacável. O povo simples do Taboão da Serra estranhava a figura do novo juiz, sempre de terno preto, camisa branca e gravata muito escura. Parecia uma daquelas pinturas antigas de desembargador que assombram o Palácio da Justiça, mas que se sentiriam deslocadas naquelas instalações precárias, com sua freguesia ainda mais precária. Na verdade, a escrevente também tinha medo do juiz, não como os outros funcionários que temiam uma advertência, ou remoção para o interior. Quem trabalha há muito tempo na justiça logo reconhece um juiz de verdade, um que tenha sentimentos. E detecta, com a mesma rapidez, o incapaz que se arvora em autoridade para esconder a incapacidade de compreender e lidar com o ser humano. O Dr. Perdiz não olhava no rosto das pessoas, conversava de soslaio, do alto do estrado que o fazia parecer maior do que era. Mas gostava de olhar bem no olho do acusado, fulminando durante toda a sessão o coitado que chegava algemado, mal vestido e suplicante. Só tratava a escrevente de A Senhora, o promotor e o advogado de Doutor, era como se ninguém tivesse nome. Só o réu, diga seu nome, fale com clareza, não gosto de repetir a pergunta. As absolvições eram raras, a escrevente podia adivinhar pelo ar de enfado do magistrado ao ouvir as testemunhas e argumentos da defesa. Os dedos batiam nervosamente na mesa, como se todo aquele ritual fosse tempo perdido, já que não ia dar em nada. Não é que o juiz não tivesse sentimentos, é que Liria nunca detectou nele qualquer amostra de bom sentimento. Quando a resposta do acusado não era a que ele esperava, ou queria, o pomo de adão começava a subir e descer, como se quisesse fugir do pescoço, o homem ia ficando vermelho, falava mais alto e mais rápido, nem dava para entender. Ela sabia quando ele começava a cansar, pois saía da postura ereta e se inclinava ligeiramente para um dos lados. Era o sinal para ela trazer um copo de água e um café, que ele agradecia com um rápido piscar de olhos, sem desviar o rosto do processo sobre a mesa. Num dia ele cruzava as pernas sem parar, puxando a barra das calças para baixo. Liria fez que não viu, mas havia um furo na meia preta e ele não se aquietou até a hora de ir embora. Nem para o joelho da escrevente ele olhava, ela que às vezes vinha com uma saia mais curta, numa espécie de experiência. Nesses dias, ele carregava nos erres, A Senhorra, porr favorr. Mas nenhum comentário. Sentindo seu misterioso poder, Liria um dia deixou o cabelo solto e com ele roçou o braço do magistrado ao devolver um processo. O pescoço dele arrepiou como uma galinha, e retesou-se como que preparando um torcicolo. O lábio fino deu uma tremida, só do lado esquerdo, mas a tentativa de disfarçar deu uma aparência de isquemia no rosto do juiz. Ela conhecia os humores dele, as rugas na testa na hora da contrariedade, as pálpebras caídas depois da insônia, um esboço de sorriso, rapidamente contido, nas raras e eventuais incongruências que detectava na vida à sua volta. O desejo passava longe, não estava à mostra. O homem é um monstro, pensou Liria. Para dar um jeito nesse cara, só uma boa moça da periferia. Acho que vou me casar com ele.

Rabanada

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Com a mão direita, Pilar segurava um pão adormecido, tomando o cuidado de deixar os dedos flexionados em paralelo, como havia aprendido nas aulas de gastronomia da TV, que assistia aos sábados à noite. Assim não corria o risco de se cortar, e sim, apenas o pão. Na outra mão, uma faca de serra com a ponta quadrada, uma verdadeira faca de pão. Essa, ela havia recebido de um admirador, tinha lamina de alumínio especial e serras de ondas largas, ela a escondia cada vez que terminava sua tarefa. O pão era cortado em fatias grossas, de aproximadamente três centímetros.

Aquelas que não possuíam essas medidas e também as pontas do pão, ela descartava em um recipiente específico, que denominava de “pudim de pão da sogra”; as fatias perfeitas eram depositadas em uma grande travessa retangular de plástico denominada “rabanada”. Ao cortar a segunda ou terceira fatia, o miolo do pão desabrochava. Era uma surpresa a cada vez, aquela massa branca e de natureza elástica, diferente dos tons beges amarelados da casca firme do pão. Uma massa formada por múltiplos poros, que se enrolava em espiral e se desprendia da casca, igual aos pensamentos. Todas aquelas fatias de pão dispostas nos recipientes formavam nuvens caracóis.

Pilar iniciava esse preparo às seis horas das manhãs de domingo, mesmo não sendo Páscoa ou Natal. Os clientes estranhariam muito, se por acaso, em algum domingo não encontrassem rabanada. Principalmente Antonio, um homem de meia idade, um cliente assíduo, que chegava à casa de pães logo após a missa das nove. Dizia não se satisfazer só com a hóstia. Logo que entrava, pedia um cappuccino e três fatias de rabanada. Sentava-se em uma das mesinhas olhando o movimento da rua. Aguardava que Pilar viesse se sentar junto dele para prosear, admirar seus olhos e lhe dar um mimo. “Noz moscada! Obrigada Antonio. Uma pitada e pronto; acende a paixão dos mais desacreditados.”

Ela aprendeu a receita da rabanada com sua Abuela Pilar. Uma mulher, que junto de seu marido e oito filhos, veio ao Brasil fugindo da segunda grande guerra. Uma abuelita de sorriso fácil; Certa vez , em uma reunião familiar, viu-se um leitão correndo no jardim, aquele que a Abuelita havia esquecido de mandar sacrificar para o almoço.

A mesma de quando ela se casou lhe havia dito: “Por que continuar a faculdade se você agora será esposa e mãe?” Desde pequena ajudava-a na cozinha, escolhendo as favas e os pimentões vermelhos e verdes para decoração da paella; ouvia as histórias de quantas vezes a avó gostaria de passar um, apenas um dia solteira novamente; Abuelita Pilar lhe dizia: “Em Valencia, antes de conhecer seu avô, eu e minhas amigas usávamos o leque como arma de sedução. Com o leque abanando em ritmo pensado, escondíamos os lábios e o nariz, fazendo com que os olhos bem maquiados saltassem para os rapazes.

Escolhi o seu avô porque tinha o carro mais bonito. Corte as fatias de pão sempre da mesma espessura; reserve; quando for passar no leite não esqueça do nosso segredinho.” E cochichava no ouvido de Pilar.

Alguns pães ela se demorava a cortar. Segurava aquela massa em forma de cilindro meia lua e apalpava-a. Era um ritual: deslizar os dedos para sentir as pregas e as rugas do relevo; olhar e imaginar o mundo que existiria dentro da crosta superior que se desprendia em forma de uma caverna; uma caverna no alto das montanhas, igual à que a forte e cigana Pilar de Hemingway usou para se esconder da cavalaria fascista. Pilar se escondia atrás da montanha de nuvens espiraladas que cortava todos os domingos na sua pequena padaria. Sua caverna desde que veio a necessidade de sustentar seus filhos. Uma manhã, o marido, que era francês, saiu de casa e disse que a noite traria pães para o jantar. No final da tarde, ela recebeu um telefonema do hospital municipal que informava um acidente. Naquela noite, ela ficou sem pão para o jantar. Quando terminou a reforma da casa de pão, não titubeou em nomeá-la com a versão francesa da rabanada: “Pain Perdu”.

(por Dominique Girard)

“ARTE CONCEITUAL VERSUS CONCEITO DE ARTE” ou “DE AZUIS, CHICLETES E FUMAÇA BRANCA”

Passando a porta de vidro, a balbúrdia de uma aglomeração. Três garotas distribuíam chicletes, convidando todos a mascarem a goma e agregarem a uma imensa bola formada de pequenas bolotas disformes em vários tons de verde e rosa, do cítrico ao esmaecido. Aquele hall rescendia a tutti-frutti e hortelã.

– Não, obrigada, a arte não precisa de… minha colaboração. E eu estou acabando de crer que não entendo nada de arte conceitual.

Um imenso círculo de arames

Garrafas de Coca-Cola® enfileiradas

Uma coluna pintada com restos de esmaltes de uma puta de Berlim

A sombra projetada de um pequeno cavaleiro e sua montaria

Minúsculos carros de metal parodiando monumentais acidentes e congestionamentos com o fundo musical de cantos de pássaros

“Foda-se” escrito em ideogramas chineses

Pelos corredores, pais perseguiam crianças com picolés e saquinhos de amendoim. E chicletes.

Uma porta estreita levava a um salão mais vazio, onde se via uma única pintura. Talvez 10 metros por dois. De azul.

– Por favor, você pode me explicar essa arte?

– Oh, isso é um Yves Klein, disse a emocionada monitora.

– Mas a pintura… do que se trata?

– É International Klein Blue.

– A cor é dele?

– Sim, não é linda?

– É azul.

– Evidente. Azul Klein.

– Mas… obrigada.

Mais uma porta, mais uma sala. As portas pareciam cada vez mais estreitas e os salões maiores.
Desta vez, havia umas vinte telas pelas paredes. Todas brancas. As telas.

– Estes quadros ainda não foram pintados?

– Foram. São artistas de países nórdicos e eles representaram o que viam de suas janelas no inverno. Eles dizem que, assim como nossos olhos se acostumam com a paisagem de floresta e ficamos mais sensibilizados aos inúmeros tons de verde, eles conseguem distinguir mais brancos.

– …, …, …, …, obrigada.

Rampa acima, as pessoas se acotovelavam para entrar na sala especial. É bacon, diziam. Confesso que achei que finalmente chegávamos à praça de alimentação.

Mas não.

Enfileirados, bem acima de nossas cabeças, retratos do Papa Inocêncio X. Todos sentados em tronos, que às vezes lembravam ringues de luta livre. Todos vestindo umas batinas do rosa profundo ao púrpura e ao azul marinho. Não consegui sustentar o olhar daquelas caras, que pareciam ter sido borradas por impressões digitais do autor; a tinta escorrida em alguns dos quadros parecia revesti-los das barras de uma cela.

Boquiaberta. Meu olho tentava, e temia, olhar para cima. Senti a têmpora umedecer. As mãos geladas. Eu mirava uma mancha esmaecida na parede, bem abaixo das molduras. Depois, fixava o olhar numa plaquinha de identificação. O tênis de um passante, um pouco de poeira no rodapé, um cesto de lixo. A lembrança de uma prova de matemática, aquela vez em que eu fui pega passando cola, o dia em que quebrei a antena do rádio e pus a culpa em meu irmão.

Voltei a olhar para cima, mas o olhar daquela cara-digital era impositivo e opressor. Minha coluna cedia um pouco, encurvada.

Tentei me convencer de que aquilo era só tinta e tela. Que Francis Bacon tinha morrido e os quadros eram de cinquenta anos antes. Meu coração, no entanto, continuava acelerado. Tinha vontade de pedir perdão, dificuldade de sair dali. Quase confessava pecados e aguardava uma penitência que me tirasse aquela sensação. Quase inventava pecados.

Olhei para cima novamente, a tempo de ver uma daquelas bocas se abrindo para berrar impropérios. Tampei os dois ouvidos com as mãos. Algumas pessoas trombavam em mim, bolsas enganchavam as alças, uma reclamação em voz baixa. A respiração continuava acelerada e curta, forrada da imagem daquelas máscaras prepotentes, disformes. E eu de cabeça baixa, petrificada pelos gritos que ecoavam naquelas paredes.

por Elidia Novaes

innocent

 

4 de Agosto de 2014

Em nosso primeiro encontro desse semestre lidamos com a euforia de um novo local de encontro, uma nova integrante no coletivo, e um novo projeto para desenvolver (além de um animado “Parabéns pra você” para a Dominique, com direito a vela e bolo!).

Ainda não sabemos se teremos tempo para desenvolver mais de um conto durante esse semestre, mas a proposta é fazer uma cartografia pessoal, partindo de um acontecimento rotineiro e banal. É um novo desafio, que vamos refletir semanalmente aqui.