O DICIONÁRIO

Em nosso último encontro Noemi nos contou uma história, que deveríamos transformar em um pequeno texto: “Um rapaz bem disperso, fora da realidade, apaixonado por linguística, foi assaltado no centro de São Paulo. Ele corre em disparada atrás do ladrão, mas ao invés de pedir a mochila de volta, ele pede apenas o dicionário de latim.”

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“Medo. Paura. Timore. Wehi.
A hora que a gente sente, sabe que sente e o que é.
Quando saí de casa, minha mãe só pensava nisso. No tóxico. No crime. No elevador fora de serviço do Crusp. Nem posso dizer que sou uma pessoa de posses. Tenho livros, isso sempre tive. Mas eles não colocam em risco a vida de ninguém. Devia ter suspeitado, que fazia peso, dava a impressão de ter algo de valor. Nunca saí de relógio, de carteira no bolso de traz. Ainda mais para andar no Centrão.
Medo burguês esse, o de ser assaltado. Se a gente não tem apego ao valor, vira doação. Distribuição de renda.
Mas livro na mochila chama atenção. O povo acha que é computador, câmera fotográfica. Dessas, tipo Nikon.
Foi assim, na inocência do meu assombro dom a tribo Kayowá fazendo discurso no marco zero.
Medo. Paura. Fear. Peur.
Minha mãe ficaria aliviada. “Graças à Deus não levaram nada de valor!”
Levaram a parte que eu não queria distribuir. Foi o dicionário de latim, e toda a etimologia do dia.”

Adriana Rossatti

“No centro da cidade, local dos não escolhidos, ele é o escolhido, ele  que anda sem rumo, que tropeça em línguas maldosas que não falam as  línguas que ele fala, levam sua mochila, sua bagagem, o pouco em que  se reconhece, se afirma, corre atrás do que tem, do que tinha, sua  dignidade em poucas palavras, uma negociação, devolve, ao menos meu  dicionário de latim.”

Samir Mesquita

Língua morta

“Se eu falar em língua morta, o gatuno pode entender mal e partir para   cima.  Detesto violência, é preciso cabeça fria e criatividade nessa hora.
– Que merda é essa de torrinha, cara?
– É meu dicionário de latim, meu. Para você não vale nada, mas é minha vida. Se você devolver o Torrinha[1], nem vou dar parte, fica com o resto.
– A mochila também, cara? Não tem muito dessas por aqui, ia ter que por no lixo para não dar bandeira.
– Fica com a bolsa, tudo que pegou, meu, mas devolve o livrão.
– Vale grana, cara? Tô mais acostumado a aliviar carteira, celular. O que você faz com isso?
– Sabe o que é, tenho asma, preciso levantar a cabeceira da cama, é questão de saúde.
– Bom, se é assim, dou o livro de volta. Minha mãe também tem bronquite, eu sei como é. Não vai dar parte de 155[2] mesmo? A mochila é bem legal, obrigado, cara, vai agradar no meu pedaço. Depois, sem B.O. e sem o livrão, a coisa fica bem mais leve. É bom encontrar uma pessoa justa, cara, muito prazer.”
[1] O Dicionário Latino Português de Francisco Torrinha, que apresenta o significado dos vocábulos e o sentido de frases de autores como César, Cícero, Virgílio, Horácio e Ovídio, encontra-se esgotado no fornecedor.
[2] Código Penal  –    Furto – Art. 155 – Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.

Eduardo Muylaert

“O ônibus perdido. Machado de Assis passa às quatorze e quinze. Ele chegou ao ponto dez minutos depois. Culpa da vitrine do sebo. Esperaria o próximo, agora com tempo para ler mais um capítulo de O Arco e a Lira. Desejava secretamente alterar a rota do Machado de Assis para que esse ônibus passasse pela Rua João Guimarães Rosa. Seria um bonito cruzamento. Pensava nisso quando a mochila foi levada. Um moleque correndo pela calçada, ele atrás: carteira com pouco dinheiro, não tinha trabalho remunerado; carteira de estudante, como frequentaria a biblioteca?; carteira de motorista, não tinha carro mesmo; identidade, foda-se; celular, sem crédito; chave de casa, a mãe tem uma cópia; o dicionário de latim…ei, ei, devolva o meu dicionário de latim!, só o dicionário de latim! O moleque desacelerou o passo.”

Luciana Gerbovic

“Centrão! O corre-corre de todo dia. Pega ladrão.
Um que corre outro que foge. Em cada cabeça uma mochila. Aqui o celular, PC, grana e sapato de tênis e correndo ali atrás os textos raros, anotações nas margens, dicionário analógico, português – francês, polonês, hebraico, sânscrito, latim, sei lá o que.
– Só quero o dicionário de latim.
– Hã?
E o diálogo ficou fácil. Dava para repartir a mochila de acordo com a cabeça de cada um. Sem briga.”

Alcino Bastos

“- Ei, volta aqui com minha mochila, pô! Meu dicionário de latim!
– Cai fora mano, te cuida meu, quem tá latindo aqui?
– Tô falando sério amigo. Tô de boa, pode ficar com as tralhas todas , eu só quero de volta meu dicionário de latim!
– Disse o que? Da lata de quem? Tu pirou meu irmão?
– Não! É latim, a língua de Cristo!”

Dominique Girard

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A palavra

No exercício dessa semana, cada um escolheu uma palavra (não podia ser nem substantivo, nem adjetivo, nem verbo) e passou para um colega. A palavra recebida foi usada como refrão/estribilho num fluxo de consciência alegre e positivo. Eis o resultado.

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Sempre

Uma aliança na minha mão direita, sempre, essa aliança agora, sempre, da direita e daqui a quantos meses mesmo ele falou?, vinte e dois, lindo, sempre, vinte e dois meses, meu amor, e seremos marido e mulher, para sempre, ele, sempre, meu, eu, sempre, dele, conta os meses, vinte e dois, como quem conta os minutos para aquilo que mais quer na vida, e seremos, sempre, nós, nossas alianças, nossos dedos, nossas mãos, sempre, entrelaçadas, e depois um filho, dois, nós, sempre, misturados em outros seres, a lista de presentes, nossa casinha, sempre, com tapete de boas-vindas na porta, ah, pinguim na geladeira, toda breguice e felicidade a que temos direito, sempre, quero cerca branca e cortininhas com corações na janela da cozinha, sempre, eu, ele, nossas alianças, sempre.

Luciana Gerbovic

“Na festa, enfim, a turma me recebeu, estou dentro, não esperava esta casa tão grande, bonita, enfim, deu tudo certo e agora gostam do meu cabelo e como eu caminho, enfim, a vida vale pelo que é, mesmo, igualzinho como eu tinha pensado, enfim, como todos dizem, cheguei lá”

Alcino Bastos

Contudo

Andar com a nora e a neta é meu programa diário de minhas férias, contudo essas duas cachorras vira-latas que nos acompanham não combinam com o bairro que é sofisticado com casas de janelas grandes, contudo não iguais àquelas que existiam no bairro europeu de meu avô onde morei aos 18 anos; casas com jardim parecendo parques de rododentros que floresciam na primavera. Naquela época o maior presente que recebi dele foi um guarda-chuva, contudo um guarda-chuva vermelho igual o da capa da revista. As cachorras são obedientes, nem sequer pensam em fugir para praia, contudo Carolina, minha neta insiste em fazer mais uma tatuagem.

Dominique Girard

Amanhã 

Amanhã é coisa que bicho não entende. Eu sou ovelha, mas entendo bem o que é solstício. E é amanhã. Festa da colheita amanhã o dia todo. Amanhã. Não vou esquecer. Memória de ovelha não é nada excelente. Solstício, amanhã. Vai que eu arranjo uma encosta de morro para escalar, uma grama distante apetitosa, um motivo bom para ficar balindo sozinha por ai. Carneiros, muitos. Amanhã. Amanhã.

Elídia Novaes

Até

Segunda de tarde e lá vem, carro preto, ó. É mulher. Para na esquina quer atravessar, quer cruzar a via para ir na direção oposta. Preste atenção, dona, até pisco o farol do carro, estou aqui, estamos de olho, aí é conversão proibida, até buzino, duas vezes, mas ela não vê, ô, dona, via de mão dupla condutor não pode fazer isso, artigo 22, capitulo 3 do manual, no automático, ela está no automático, até que me ver ela viu, mas não liga, até sorri, até que tem o sorriso bonito. E segue, não vinha carro, até que tudo bem, está vazia a rua, está certo então, não multo, até mais, dona.

Isabela Noronha

Após

Ele vem me ver hoje. Após o almoço, falou no telefone, acho melhor comprar flores, enfeitar a casa, vestir roupa nova. Após o almoço, ele disse, encher a mesa de doces, os que ele gosta, muita cocada, da branca, a de fita, ele vem após o lanche, no almoço não deu, colocar o tapete, isso é bom, a casa mais bonita, aconchegante, chique, o suco já pronto, após o jantar, maldito trabalho, mas vem hoje, o rímel desbotando, preciso retocar, a casa cheira bem, ele vem, vou abrir as janelas, vem me ver hoje após, após, após…

Lídia Izecson

Agora

Agora. Chegou a minha vez. É agora. Acabou. Chega. Agora sim, vou fazer como sempre quis. Deixem comigo. Vocês vão ver quando um agora se transforma em agora sim, num agora mesmo, num agora já.

Eduardo Muylaert

A FAUNA

No encontro do dia 6 de abril Noemi nos propôs um exercício para fazer em aula.
Descreve um grupo de pessoas através das características de comportamento.

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“Entraram na varanda envidraçada como um bando de dinossauros. Velociraptores, com presas agudas e unhas compridas. Ocuparam o longe se esparramando pelos sofás em ordem alfabética, como se a hierarquia e os lugares a se ocupar estivessem impressos em seus códigos genéticos. Não que fizesse alguma diferença para quem visse de fora. Uma excelente amostra do processo de clonagem social. Cabelos escorridos pelas costas, com mechas louras que imitavam uma longa temporada na praia, mas sem os danos do Sol e do mar. Esbeltas, soutiens de bojo B. Não maiores, para não ser vulgar. Alongavam pernas douradas sobre saltos finos de solas vermelhas, embaixo de saias e shorts folgados. As mãos, manicuradas sem a ponta francesa – que ficou brega no verão de 2006 – , seguravam flutes de mimosas e canudos de caipirinhas de frutas vermelhas, enquanto os olhos passava além de qualquer interlocutor. Mas não se engane. Mesmo sem notá-lo, seriam capazes de rasgar seu ventre e comer suas vísceras enquanto seu coração ainda bate.”

Adriana Rossatti

Pompa

“Elas entram uma a uma com pompa precisamente às 17 horas. Nenhuma resiste a dar uma olhadinha sutil no cabelo pelo espelho pesado com moldura de cobre. As bolsas, com seus sobrenomes famosos, são colocadas com displicência planejada sobre cadeiras perto das donas, como poodles amestradas. Sem celulares à vista, vulgaridade imperdoável; se necessário, o motorista se aproxima silenciosamente e faz um gesto. Os perfumes se amalgamam enquanto o chá começa a ser servido por garçons pisando o ar em suas luvas brancas em mais uma tarde na  Confeitaria Colombo.”

Eva Maria Lazar

Bar “Ases do Volante”

“Toda sexta feira estão lá bebendo cerveja no bar ‘Ases do Volante’. Um balcão sujo e três mesas brancas, quadradas, de material plástico, bem leve. As garrafas de cerveja vão se empilhando como se fossem troféus. São os prêmios que ganham por mais uma semana de vida. Vez por outra alguém se levanta para mijar e esbarra na mesa. As garrafas caem e esse é o divertimento da noite. Falam mal dos amigos que foram tentar a sorte na cidade grande – tomara que se fodam. Depois, bem mais tarde, voltam para suas casas. Quem não tiver o diploma de bêbado é veado.”

Alcino Bastos

“Passaram voando, ou quase. E começaram a se agrupar no Graal da Airton Sena.
Os motores ainda roncavam e eles já desciam de suas máquinas, tiravam os capacetes e estufavam as jaquetas de couro elogiando performances.
Números em quilômetros: cheguei a 180. E eu encostei nos 200. Pois passei bem disso.
As cabeças inoculadas pela gasolina elaboravam vastas reflexões sobre o pão de queijo local.
Na traseira das motos, os adesivos: “Pela redução da maioridade penal”.”

Lidia Izecson

“E de repente, mais um se rende ao whey protein, à creatina e, em  seguida, à finasterida.
Começam a dominar a anatomia do corpo em busca de uma hipertrofia  muscular e, sem se dar conta em muitos casos, cerebral também.
Passam a contar o tempo em séries e repetições de leg press, supinos,  crucifixos invertidos e agachamentos.
Se ao menos tirassem os onipresentes fones dos ouvidos, talvez se  envergonhariam dos gemidos que proferem sempre que os halteres ganham  novas anilhas.”

Samir Mesquita

Os desastres da raiva

“Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Mas ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto de ódio daquele homem que se certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele me irritava. Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo não quebrado de uma begônia, Eu o espicaçava e, ao conseguir exacerbá-lo sentia na boca, em glória de martírio, a acidez insuportável da begônia quando é esmagada entre os dentes; e roía as unhas, exultante. De manhã, ao atravessar os portões da escola, pura como ia com meu café com leite e cara lavada, era um choque deparar em carne e osso com o homem que me fizera devanear por um abismal minuto antes de dormir. Em superfície de tempo fora um minuto apenas, mas em profundidade eram velhos séculos de escuríssima doçura. De manhã, como se eu não tivesse contado com a existência real daquele que desencadeara meus negros sonhos de amor – de manhã, diante do homem grande com seu paletó curto, em choque eu era jogada na perplexidade, na vergonha e na assustadora esperança. A esperança era meu pecado maior.”
Clarice Lispector, “Os Desastres de Sofia

Inspirados nesse trecho do conto de Clarice, Noemi nos convidou a escrever um parágrafo como exercício. Como tema devíamos falar de alguém que estivéssemos com raiva e usar pelo menos três junções de substantivos e adjetivos opostos e não comuns.

“Era sempre pela manhã. Pelas soturnas manhãs que eu me deparava com a imagem e já começava o dia irritada e resignada. Existia algo na imagem, no formato do cabelo, na simétrica imperfeição das pernas tortas, que me faziam piscar longamente e desejar sumir com estardalhaço de uma vez. A voz também causava um conforto agudo. Eu sentia ainda mais raiva por não poder simplesmente me levantar e sair.
Nesse momento, me irrita também esse exercício, o esforço lúdico que faço para pensar em extremos, para escrever algo inteligente ou engraçadinho, ou que apenas gere rara manifestação de aprovação. Já que amanhã cedinho, a terna e raivosa imagem estará lá novamente. No espelho.”
Adriana Rossatti

Apito

“Ele apitou. Com olhos cândidos começou a escrever a multa, cravando suavemente a caneta no bloco. Não fiz nenhum movimento para sair do carro ou olhar para ele. Não ia lhe dar este gostinho terno. Teria que vir e trazer o papel, rastejando sua autoridade até mim. Eu o pegaria com dezprezo carinho, sem dizer uma palavra.”
Eva Maria Lazar

Raiva amarela no tapete.

“Eu o encarei com gosto de castigo fugaz. Seu rabo em pêndulo se agarrou no meu ódio macio, embaraçando aquele pelo duro na minha pele de hortelã. Ele sabe dar respostas à irresponsabilidade confortável da dona que o deixa só.”
Lidia Izecson

“Encostei a porta para que nenhum barulho o acordasse. Cerrei as cortinas. Ele tinha dormido mal à noite, eu vi pela escuridão refletida na tela de tevê. Dormia feito uma criança: egoísta. Era sempre assim, com ele finalmente adormecido na manhã, que eu sentia vontade de matá-lo levemente com as minhas mãos. Um gigante indefeso. Meu sorriso de café, gelado e sem açúcar.”
Luciana Gerbovic

“Eu não queria esquecer, nem por um minuto, da raiva secular que me corroía gostosamente os nervos e alimentava o premeditado desejo de sobreviver àquela mulher, foco da minha confortável volúpia, beleza de mármore incandescente com a voz gutural e doce que parecia provir de celestial demônio a se comprazer com cândida e agora inalcançável luxúria.”
Eduardo Muylaert

“De fato! A despedida me trouxe alegria. Pois a tinha visto chorar. Ela disse que queria sentir aquela solidão sozinha. E que eu deveria retornar, só, à companhia de meus livros de doce amargura.
Porque não ficou, não sei. Minha mulher amada é mesmo uma idiota; quando voltar vai apanhar muito para que não continue sofrendo.”
Alcino Bastos

“Me senti insultada: dez poucos minutos, ele disse; são a eternidade, respondi.
E na mesma trinca onde aquele atraso sovina reverberava, meu braço hipertenso queria amolecer em generosidades; porque era disso que se tratava, não mais esperas,  eu queria um atalho lépido para amá-lo com demora.”
Elza Tamas

A negação

O exercício proposto era escrever um parágrafo, usando uma negação indireta para falar de uma característica de uma personagem. Tivemos 15 minutos para realizar, e esse é o resultado.

“Marcela fechou os olhos e correu pelo cruzamento da Rebouças com a Brasil às 18h36. Chegou ao outro lado ruindo, triunfante. Ele estava tão encantado que não percebeu naquele instante, que a audácia da moça frente a efemeridade de seu corpo físico não se limitava apenas às leis de trânsito.”
Adriana Rossatti

“Toda a alegria na vida de Lucia vinha de um momento único no tempo. Foi naquele churrasco ao qual nem queria ter ido, pensou, se não tivesse intuído que Alberto não tinha somente aquela beleza quase feminina, que parecia tão vazia, conforme os comentários que havia escutado entre as amigas.”
Alcino Bastos

“Quem via Antonia rezando contrita, se persignando e tomando a comunhão como se fosse o mais rico alimento, nunca poderia imaginar que a mesma fome a consumia diante de acepipes bem menos espirituais.”
Eduardo Muylaert

O Avarento

“Pedro caminhava a passos curtos. Calculava meticulosamente as possibilidades de trajetos para ter certeza de fazer o menor percurso. Era seu jeito e sua diversão. Outros cálculos seus tinham motivações menos hedonísticas e traziam benefícios mais concretos.”
Eva Maria Lazar

JOGUEI MINHA MÃE DA ESCADA

Retornamos nossos encontros em 2015 com novos integrantes e uma proposta diferente para desenvolver no semestre. Para não perdermos o hábito, Noemi nos propôs um exercício relâmpago ao final desse primeiro encontro. Escrever um parágrafo em primeira pessoa sobre uma personagem que joga a própria mãe escada abaixo. museu-vaticano-giuseppe-momo (1) “Quando pisquei, foi. As costas dela se desprendendo das minhas mãos. O olhar assustado, de quem ainda não compreende para onde ia. O chão sumindo, o teto entortando, e o barulho abafado da sua massa de pele, ossos, músculo e gordura atingindo o mármore da escada. Houve um gemido. Um ‘urhg’ abafado. Depois os cabelos taparam-lhe os olhos, o rosto, e deixou de ficar interessante. Não fiz de propósito. Fiz porque precisava fazer. Havia seu corpo em minha frente e uma imensidão de vazio atrás que eu precisava preencher. Precisava saber se ela era real. Se ela voava. Se ela endireitaria o pescoço torto no andar de baixo e levantaria da poça viscosa.” Adriana Rossatti NO TOPO DA ESCADA

“Não foi por causa de ontem
Nem por causa da sopa O cabelo estava em revoada, as mãos tremiam

Sim mamãe, sim mamãe, sim mamãe
Não mais mamãe, nunca mais mamãe, nunca mais.”
Lidia Izecson

“O que eu fiz? Não queria; pelo menos acho que não queria. Quem mandou beber? E agora, desço para ver, chamo a polícia ou fujo? Que medo. Vou espiar, aí saio pela porta sem barulho, finjo que estou chegando e grito. Ainda bem que não tem ninguém em casa. Ela está se mexendo, e agora? Mãe… MÃE!!! Parou de mexer. Cadê minha bolsa, o carro ainda está quente, entro e saio dele batendo a porta, e grito. Ah, e choro.” Eva Maria Lazar “Claro que ela merecia um descanso. Dos meus irmãos e do pai. Já era meu costume escutar o choro. Encostado na porta do banheiro. Toda noite era assim. Naquele dia, quando ela subia a escada com a pilha de roupa lavada, bastou só um encostão. Lá em baixo a cabeça soltava um sangue escuro por trás. Mas, naquele rosto enrugado, eu só via um sorriso feliz; e os olhos, bem abertos, pareciam me agradecer”. Alcino Bastos

“O primeiro degrau é por ela ter existido; ela esfolar as nádegas no segundo degrau a baixo é por ela ter trepado com meu pai; os hematomas que surgirão no ventre é por ela ter me parid; cada um dos outros degraus são por todas as palavras de amor dita aos outros.”
Dominique Girard

CHAMO/ AMO

Essa semana Noemi nos fez uma proposta divertida. A partir de uma história pessoal dela, nós deveríamos recontar a cena de acordo com uma perspectiva diferente, que ela designou para cada um de nós.

A história da Noemi: “Eu estava com um namorado recente, por quem eu estava apaixonada. Ele dormiu na minha casa e acordou cedo para me fazer café da manhã. Eu acordei e ele me disse: “dorme, eu te chamo”. Eu estava meio sonada e fiquei com uma dúvida martelando na minha cabeça: “Ele disse “eu te amo?” ou foi “eu te chamo”? Depois de um tempo, tomei coragem e perguntei se ele tinha me dito “eu te amo”. E ele respondeu que não, ” imagina dizer isso a essa hora da manhã”.

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Trágica
por Adriana Rossatti

“Acordei. Nem dormi. Ele apertava o snooze do rádio-relógio-despertador. Dormir a primeira vez na casa dele é como ganhar autorização para uma dimensão perdida. Móveis escuros, o lençol tem bolinhas e o travesseiro é fino demais para o meu gosto. A maçaneta do banheiro está quebrada. Ele coleciona caixas de fósforos. Atrás da porta tem um poster do DIO, na geladeira um bilhete da empregada. Fingi que ainda dormia, mas ele me beijou. Colocou a camiseta de ontem sobre o corpo nu e foi fazer café. ‘Dorme mais um pouco. Te amo’. Olhos estatelados. Me ama? Ou me chama? ‘Dorme mais um pouco. Te chamo’. Me chama? Ou me ama? Ele me ama? Será que finalmente ouvi? Será que ele é tão emocionalmente disponível assim? Parem as máquinas. Ele me ama. Tirem as crianças da sala. É amor. Eu mal acreditava que tinha acontecido. Vamos poder, enfim, passar para a fase em que a gente se ama, e nada mais precisa ser provado. Eu vou retribuir, preciso deixá-lo seguro. Talvez eu agradeça os ovos. ‘Ovos bennedict, meus favoritos! Como descobriu? Também te amo!’. Ou te chamo? Ou será que nem aconteceu?

Coloco a camisa aberta. Arrumo o despenteado do cabelo, o borrado da maquiagem. Escovo os dentes. Não quero falar nada com bafo. Chego na cozinha descalça, brincando com meus dedos no batente da porta. Fiz uma cara de frágil, porque eu estou. Eu estou frágil. ‘Aquilo que você falou. Foi te amo ou te chamo?’. Ele não fazia ovos. Cortava com uma faca cega as bordas do pão Pullman. ‘Te chamo, óbvio. Imagina dizer isso a essa hora da manhã.’

Acordei. Nem dormi. Fiz dois cortes fundos que me drenaram pela banheira de esmalte descacado. Embaixo da torneira tinha um fiapo de ferrugem escorrendo e em cima da caixa de descarga, exemplares antigos da Placar, da Playboy e da Carta Capital. A maconha, joguei toda na privada. Em cima do botão de snooze, do rádio-relógio-despertador, deixei um post it. ‘Desculpe fazer isso a essa hora da manhã. Te amo’.”

Fantástico
por Eva Maria Lazar

“Aquela luz forte entrando pela janela me acordou. Lembrou filme de ficção. Vou dormir mais um pouco, cada sonho. Uma voz gentil com um jeito metálico me deu um susto: quer café? Não tenho certeza se eu disse sim. Dorme, eu te chamo. Passos, a luz sumiu, me encolhi, virei para o lado. O olho estatelou; como assim, quer café, quem? O coração acelerou, levantei. Comecei a descer as escadas, meio pé ante pé. Coragem, entra logo na cozinha.

Eu e minha camiseta amassada entramos. Um homem alto, usando roupa estranha, mexia na cafeteira; na mesa, pão fatiado, queijo e geleia. O medo, já curioso, disse: quem é você? O rapaz era lindo, parecia Charlton Heston no Ben Hur de ontem à noite na Sessão Coruja. Sorriu, com os 94 dentes mais bonitos que já vi, você já levantou? Ia levar na cama. Fiz o olhar mais digno possível; quem é você? Riu; você gosta forte, né? Esperei o coração bater menos de 100 vezes por minuto: você falou eu te amo? Ele riu de novo: claro que não, a uma hora dessas? E continuou a preparar o café, enquanto eu sentava em silêncio à mesa.”

Ingênua
por Mônica Carvalho

“Tomei o último gole de vinho antes de fechar os olhos; a taça, agora vazia, tinha sido preenchida até a borda, e eu também. Sempre achei que vinho combina bem com os primeiros passos: na festa em que não se conhece ninguém, na paixão da qual ainda pouco se sabe. Ele não fala quase nada, acho que porque essa vida de repórter internacional demanda tanto de contato com todo tipo de gente que ele prefere nem comentar. Já é bom poder estar junto, mesmo que só as sextas, hora de almoço.

Nem acreditei quando disse que ficaria para dormir, ele que nunca passa das duas da tarde por aqui. Sim, merece o vinho! Comprei com cuidado, junto com tudo mais; uma conta desse tamanho só cabe uma vez por ano, mais quem sabe, se ele topar voltar e ficar. Ainda bem que aquele tantinho que espirrou quanto tirei a rolha (agarrada, esforço danado tive que fazer) não borrou o livro que ele tinha deixado semiaberto em cima da mesa (li, sem querer, um “não se esque…”, acho que era isso, escrito no post-it da primeira página), mas desviei os olhos antes que fosse indiscreta de verdade; sim, teria sido um desastre estragar o tal livro que ele carregava meio ansioso quando chegou.

Acordei, ele não estava ali.  Chamei.
‘Não venha, eu te chamo’!
‘Eu também’!
‘Ainda é cedo!’.
‘Não, não é, sempre amei assim: de olhos bem abertos’.”

Poética
por Elza Tamas

“Vi quando ele abriu a janela, tinha sol, então acreditei que ele tivesse dito.  Logo depois um cheiro de café gostoso invadiu o quarto, -ele fazendo café pra mim?- então devia ser verdade. Eu estava sem óculos quando ele disse, possível ver um dia arrebentando de lindo, mas difícil perceber os detalhes do movimento da sua boca, sem óculos eu nem escuto direito.
Era primeira vez que ele dormia na minha casa, nossos corpos se entendiam e nenhum de nós se banhou, queríamos manter todas as impressões. Depois conversamos, e adormecemos sem perceber. Dormir juntos é o que há de mais intimo. Agora a pouco, ele me deu um beijo, tímido, acordei e ele disse dorme, dorme, eu te amo, e eu coloquei as mãos sob o travesseiro, as duas, juntas, quase uma reza, feliz, tudo de melhor acontecendo, ele me ama, mas ai senti um desconforto, leve, mas desconforto, talvez ele possa ter dito eu te chamo, porque foi fazer o café, deve ter sido, dorme, eu te chamo.

Precisava perguntar, mas uma pergunta destas não se faz nua. Vesti a camisa dele, jeans, manga longa; virei os punhos, arrumei a gola, os dois primeiros botões desabotoados, e mordendo a boca de vergonha, perguntei: Você falou ‘eu te amo’ ou ‘eu te chamo’? Eu? não lembro, por quê?,  mas ‘eu te amo’ eu não disse, porque imagina dizer isso a esta hora, não ia ter sentido, riu e me olhou danado, gostando de me ver na roupa dele.Você quer com pouco ou muito açúcar? O quê? perguntei.”

Filosófica
por Eduardo Muylaert

“Hoje eu acordei na caverna de Platão e me senti uma toupeira. A frase saiu do fundo do travesseiro e eu não acreditei. Ele nunca tinha dormido na minha casa, se ofereceu para fazer o café e eu, como boa epicurista, achei demais. Mas o que eram aquelas palavras mágicas? Podia ser “Dorme, eu te amo”, mas também “Dorme, eu te chamo”. Será? Mesmo apaixonada, sou adepta do mais puro ceticismo e quis trazer clareza à essência da inesperada declaração. Sei da volatilidade das palavras e das múltiplas possibilidades de significado, mas era preciso adequá-lo ao texto correto, sem perda de tempo. Você disse eu te amo? Não pensei, claro, no amor como virtude, em Platão sou mais a caverna e a escuridão. Mas quando ele disse “imagina dizer isso na primeira noite” eu achei que era hora de largar a filosofia e voltar para a terapia.”

Metalinguística
por Elídia Novaes

“O despertador toca.
Ela – mmmm… zzzzzzzzz
Ele – O que você disse?
Ela – ahn? hmmm…? quê? eu…?
Ele – Ah, dorme. Eu te chamo.
Ela – Você viu o que você falou? Está precisando mesmo se consultar com uma fonoaudióloga. Não se entende o que você diz. Eu estou aqui do lado e não sei se você disse chamo, amo, se espirrou ou fez algum tipo de crítica ao meu hábito de dormir até mais tarde.
Ele – Eu disse Dorme que eu te chamo.
Ela – E não precisa responder assim. No grito é que as coisas não se resolvem. Se não funcionou para Dom Pedro I, não seria para você. Ora você fala enrolado, ora me trata como se fosse surda. Não é assim que o diálogo vai se estabelecer.
Ele – …
Ela – E aí? Nada mais? Isso é jeito de conversar? Veja como funciona: um pergunta e o outro responde. Depois invertem. O outro pergunta e o um responde. Chama diálogo… Você não vai perguntar nada? Nada mesmo? Você está ficando impossível de conviver.
Ele – Você… Na primeira vez, eu disse que te amava. Mesmo que fosse tão cedo. Daí, fiquei sem graça, achei que você estava dormindo e mudei, disse que te chamava. Ia voltar ao assunto mais tarde.
Ela – Viu como você está precisando visitar a fonoaudióloga? Bem que eu te disse.”

Ironia
por Luciana Gerbovic

“Você disse que ia fazer o café…
Disse.
E depois?
Depois o quê?
Depois de dizer que ia fazer o café, você disse outra coisa…
Disse?
Disse… Eu te amo? Ou eu te chamo?
Ah! … Eu te chamo, claro. Imagina se eu falaria “eu te amo” às sete da manhã.
Ah… E à noite, você falaria?
O quê?
Eu te amo!
Ah … Não. “Eu te amo” só falo entre duas e quatro da tarde. “

Prolixo
por Lidia Izecson

“Depois de quase 6 meses de encontros no café Brasil, no bar do Afonso, no salão de danças do Andrei, eu tinha certeza que naquela noite as coisas iriam acontecer. Era a primeira vez que eu subia até o apartamento dele, nunca antes ele havia me convidado, nem mesmo no dia 7 de março, dia do seu aniversário e quando fizera um bolo para os mais íntimos. O hall do prédio era suntuoso, cheio de tapetes persas, e a escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo me deu um pouco de tontura. Essas escadas que copiamos dos franceses podem ser muito bonitas, mas não são nem um pouco práticas, enrolam daqui, enrolam dali, e a gente acaba tendo que gastar muito mais energia e tempo do que o necessário. As modernistas brasileiras, mais retas e com menos adornos, se prestam muito mais ao nosso estilo de vida.

Quando cheguei, de língua de fora e quase sem ar, vi a porta aberta e entrei. O relógio cuco, do qual ele tanto falava, estava pendurado na parede maior da sala, pintada de verde claro, e eu fiquei lá imóvel, esperando. Não sabia quem ia aparecer primeiro: se ele ou o cuco. Foi então que a voz dele, aquela voz rouca de locutor da rádio Eldorado anunciando o concerto da tarde, me chamou lá de dentro: – vem aqui, quero te mostar uma coisa. No quarto, a cama ocupava todo o espaço e, por cima dela, a colcha de matelassê  me trouxe um certo alívio. Era de bom gosto e não tinha aquela cara de coisa comprada na 25 de março, rua onde ele gerenciava a loja de tecidos do pai. A claridade que entrava pela janela não me deixava ver senão a silhueta dele, e quando chegou perto e me abraçou, percebi que já estava só de cuecas. Eu então tirei minha blusa de seda da China pintada à mão, deixando que ele visse a tatuagem que fiz na India, aquela de quando passei lá os quatro meses do curso de Ioga. O sorriso dele foi lindo e ele me abraçou falando alguma coisa que parecia um doce murmúrio, mas bem nessa hora o cuco resolveu sair da casinha dele lá na sala e começou a berrar : cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô. Ele falava coisas no meu ouvido, mas eu só escutava os berros do cuco. E quando o maldito pássaro, cuco é um pássaro?  parou com a barulheira, ele soltou o meu corpo e, com uma cara contrariada, foi logo dizendo: eu sabia que você não me amava de verdade; agora tenho certeza disso. Se me amasse, como vive dizendo, teria respondido à minha pergunta. – Mas o que você perguntou? -Ah, isso só se fala uma vez, e acho melhor pararmos por aqui. Eu ainda insisti, implorei por quase dez minutos, mas ele se trancou, sentou-se na beira da cama e não disse mais uma palavra. Não tive outra alternativa, senão vestir minha blusa de seda da China e descer novamente aquela maldita escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo.”

Narrador Onisciente Intruso
por Isabela Noronha

“Ele acordou primeiro e se virou de lado. Achava patético isso de ficar olhando o outro dormir, não era esse tipo de cara. Tentou fechar os olhos de novo mas foi inútil, estava calor e, para ele, aquela cama, a cama dela, era muito apertada — embora, ainda que ele não percebesse, fosse do tamanho exato da sua. Ia para casa, ligaria depois. Ou esperaria ela ligar, que se dane. Mas quando pegou a calça do chão, bateu no abajur e a acordou. Ela quis saber aonde ele ia. Ele se viu sem opção, gostava de pensar que não era o tipo de cara que abandonaria a namorada assim, na lata, então disse que ia fazer o café e terminou de se vestir. Já fora do quarto, acrescentou: ‘dorme, eu te chamo’.

Ela ficou em silêncio, e ele, porque só acreditava no que queria acreditar, achou que ela tinha voltado a dormir. Mas a frase a tinha despertado inteira, ela não sabia se ainda era sonho e tinha ouvido direito, espera, não era sonho, ela tinha escutado algo sim. Aquilo. Não era? Espera. Era grande demais, felicidade demais. Talvez. Ficou com a dúvida, e a levou à mesa para tomar café com ele, depois ao parque, onde foram ler, e para o apartamento de novo, quando a chuva apertou de repente e os dois correram, mas se molharam mesmo assim, e chegaram encharcados e talvez fossem transar, talvez só se enxugar, mas ela interrompeu de qualquer forma para finalmente perguntar se, de manhã, sabe, naquela hora, sabe, que você foi, sabe, fazer o café. ‘Você disse eu te amo?’ ‘Mas é claro’, ele respondeu, ‘é claro que não. Imagina dizer isso tão cedo, de manhã’. Ele era esse tipo de cara.”

Técnico
por Dominique Girard

“Quando acordei, Paulo ainda estava lá. Ele, uns ruídos na cozinha e um aroma de café. Ao sentir minha movimentação nos lençóis, foi logo dizendo: “Dorme, eu te chamo”. Dobrei o travesseiro em dois, virei para o lado esquerdo da cama, fechei os olhos. Te chamo ou te amo? O que será que ele disse? Será que ele se utilizou de um léxico iniciado por  uma consoante fricativa sibilante, chhhhh ,  em que o som é formado pela passagem do ar por um canal estreito da boca, por um obstáculo? A  língua se curva de maneira a conduzir o ar sobre as pontas dos dentes. chhhamo? Ou, se desfez de todas as barreiras entre nós e optou por iniciar nossa manhã com a vogal “a”, em cuja emissão o ar passa livremente pela boca, sem obstrução? aaamo! A ansiedade não me deixou mais dormir. “Paulo, você disse: eu te amo?”. “Não, eu disse: eu te chamo.“ A prosódia é cruel.”

Humor
por Alcino Bastos

“Bocejo:
– Vou preparar o café. Eu te chamo.
Ele, aos gritos:
– Eu também.
Ela, de longe:
– Para que?
– Ué, amar não tem finalidade.
– O que? Felicidade?
– Sim, eterna.
– Eu sei. Sou a própria ternurinha.
– Não, a tesourinha não está aqui. Fala de novo que me ama.
Ela, entrando no quarto:
– Quem ama quem? O café está pronto.
– Você falou que me ama.
– Tá sonhando.
– Com você.
– Larga de ser ridículo. O café está pronto.
– Como assim?
– O café está pronto. Já disse três vezes.
– Que me ama?
– Ah, vê se acorda, vai!”

Todos dizem eu te amo

Depois de uma noite de discussão sobre Barthes e seu discurso amoroso, Noemi nos propôs um exercício.
Escrever um diálogo em que um dos personagens diz “Eu te amo”.

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“Ela comeu o 5º chocolate seguido.
D – Não é pedir muito, é?
P – Não. Não é não.
D – (mastigando) Toda minha vida, tudo o que eu pedi, é sinceridade, sabe? Não me importa se a pessoa gosta, ou não gosta. Se me acha feia, chata ou burra. Acho que tá certo. Todo mundo tem direito a ter sua opinião. É legítimo. Mas não vem me falar uma coisa, quando tá pensando em outra. Não vem com um discurso, só para fazer o bacana.
P – Claro!
D – Não suporto mentira.
(Silêncio)
Come mais um chocolate.
P – Te entendo.
D – Mesmo?
P – Eu não seria louco de te mentir agora.
Ela olha fixo para ele, enfim abre um sorriso.
D – De fato. Sinceridade é tudo o que eu peço.
Joga mais um chocolate na boca. P acompanha o movimento.
D – (Parada, com a boca cheia) Você me acha gorda?
(Silêncio)
P – Que é isso?! Eu te amo!!!”

(Por Adriana Rossatti)

“– E agora eu digo ‘eu te amo’?
– Agora você diz o que quiser.
– Acho que agora não é o momento.
– Então quando será?
– Depois do terceiro prato talvez?
– Por favor, antes da sobremesa.
– Para termos um grande desfecho?
– Para eu não precisar ir embora com
a boca amarga quando dizer ‘eu também’.”

(Por Samir Mesquita)

“‘Mas já é tarde.’
‘Nem tanto, tem tempo.’
‘Mas eu te amo.’
‘Nem tanto. Tem tempo.'”

(Por Mônica Carvalho)

“- Você me ama? Diz vai! Diz! Pelo menos uma vez.
– Será que é preciso? Estamos juntos há mais de vinte anos! Nesse tempo todo você não sabe ainda o que eu sinto por você?
– Ah! Para com isso. Só quero escutar. De sua boca. E não vale falar em inglês.
– você não acha ridículo? Pensa em tudo que fizemos juntos, nossa cumplicidade. Será que não consegui demonstrar meus sentimentos por palavras, atos e obras? Nesse tempo todo?
– Mas que custa dizer?
– OK. OK. Rendição! Eu te amo. Esta bom assim? Ficou satisfeita agora?
– Não fiquei e você sabe muito bem que não. Isso é jeito de falar comigo? Se eu não te conhecesse tão bem pensaria até que você não me ama.”

(Por Alcino Bastos)

” – Dois pãezinhos bem branquinhos, Dona Rosa.
–  Obrigada, Seu Almeida, boa memória a sua.
– Dona Rosa, lhe atendo todo dia, a gente guarda.
– Por isso sua padaria é a melhor do bairro, com esse atendimento personalizado, Seu Almeida.
– A gente se sente bem em ver as clientes felizes, Dona Rosa.
– Muito simpático isso, Seu Almeida. Vou indo, estou atrasada.
– Eu te amo, Dona Rosa.”

(Por Eva Maria Lazar)

“- … É que eu te amo.
– Ama?
– Amo.
– Por quê?
– Por que o quê?
– Me ama?
– Eu não sei.
– Então não ama.
– Amo.
– Como?
– Como o quê?
– Como me ama?
– Ah, não sei.
– Então não ama.
– Amo. Assim ó: levando um copo com água gelada todas as noites para o seu criado-mudo.”

(Por Luciana Gerbovic)

“Se
– Não dá. Se você diz hora, ouço cobra, se diz mão, ouço não, diz fé, ouço até…
– Espera, vai.
(…)
-E se digo eu te amo?”

(Por Isabela Noronha)

“- diz
– por que você quer que eu diga? você não sabe?
– diz
– já falei, só digo uma vez por mês
– diz, tô precisando
– mas já combinamos, se falar toda hora gasta, perde o efeito
– diz, por favor
– tá bom, tá bom. olha bem pra mim: você está muito mais magra.
– ai, que bom! eu te amo
– eu também.”

(Por Elza Tamas)

“- Eu te amo.
– Não, eu te amo!
– Não, eu te amo!
– Eu te amo primeiro.
– Não, você falou antes, mas eu senti primeiro!
– Eu te amo desde a primeira vez que eu te vi!
– Eu amo a ideia de você antes mesmo de te conhecer!
– Pois eu te amo antes de existir.
– E eu só existo porque te amo…”

(Por Renato Stetner)
“FRITOS E COZIDOS
– Você não precisava ter falado comigo daquele jeito na frente deles.
– E você não precisava ter ofendido o dono da casa.
– Eu não ofendi ninguém.
– Claro que não. Todo mundo adora ser chamado de coxinha.
– Mas ele é coxinha.
– E precisava dizer?
– E você não precisava ter praticamente me mandado calar a boca. Com a Luísa ali do lado?!
– E quem se importa com a Luísa. Quem você ofendeu foi o Arnaldo.
– Mas o Arnaldo não é seu ex. Ela ainda fez aquela cara de “se ferrou”. E você acha que alguém gosta de ver a ex do marido fazer cara de “se ferrou”?
– Ai, tá bom, vá. Você me desculpa pela exposição Luísa, eu te desculpo pela coxinha. Pode ser? E a gente pede a comida? A gente sempre encrenca, mas você sabe que eu te amo.
– Pode ser. Mas estou começando a achar que você também é um pouco coxinha.”

(Por Elídia Novaes)

Sentimentos científicos

No dia 3 de novembro nos encontramos novamente. Depois de uma maravilhosa discussão sobre os contos de Lydia Davis, Noemi nos propôs mais um exercício para realizarmos em aula. O desafio era oferecer um sentimento ao colega sentado ao lado, e cada um deveria escrever um parágrafo falando daquele sentimento usando como linguagem algum recurso científico de qualquer campo acadêmico.
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ANSIEDADE
Por Adriana Rossatti

“Foi a Dra. Sun Xi Zyang, academica da Universidade de Beijim, exilada em manila após censura ao seu artigo “Novas perspectivas da relação de tempo nos espaços urbanos do pós-11 de Setembro” – que inclusive foi publicado com estardalhaço na American Dysfunctional Review em julho (e eu adquiri pela Amazon junto ao lançamento oficial) – a concepção real da passagem de tempo tornou-se completamente descreditada. Acredita-se até que toda a divisão do Universo em segundos, minutos e horas, cai por terra para assumirmos uma percepção mais sutil – talvez não sutil, mas brutal – de realizações e não realizações pessoais individuais. Sendo assim, até a percepção de distância espacial, entre eu e você, entre corpos e, principalmente, planetas e supernovas, passa a ser lida, finalmente, a partir da perspectiva do sentimento do indivíduo quanto suas próprias realizações pessoais e/ou a probabilidade de realizá-las. Somos capazes de entender, enfim, o surgimento dos buracos negros.”

MELANCOLIA
Por Eduardo Muylaert (Lévi-Strauss ficaria orgulhoso)

“Uma das questões mais importantes e ao mesmo tempo mais difíceis é a que diz respeito certas tribos que, num dado momento de sua história, não se sentem motivadas a dar continuidade aos rituais e usos herdados de seus ancestrais; homens e mulheres permanecem nas redes o dia todo, sem falar, com a sensação de que nada mais na vida vale a pena.”

DESESPERO
Por Lidia Izecson

“Aula de Matemática:  Regra de três 60 está para 25 assim como X está para as 18 facadas que ela deu no marido enquanto ele dormia na cama ao lado da jovem amante.”

ÓDIO
Por Elidia Novaes

ÓDIO ó.dio s.m. (lat odiu1 Vontade de ter um fecho éclair no centro do osso esterno que permitisse arrancar o próprio coração, rachá-lo em dois, pisotear os átrios e comer os ventrículos. 2 Vontade de ter um fecho éclair no centro do osso esterno de outrem… 3 Grito que às vezes se grita”

TRISTEZA
Por Eva Maria Lazar

“O que queremos despertar no consumidor é aquela sensação de que sem este produto ele fica… fica… com alguma coisa faltando, como se ele percebesse a importância que tem na vida dele e nunca tinha dado conta antes. Assim, por exemplo, sem o produto as coisas perdem o brilho e ele vai querer olhar em volta para ver quem tem; quem não tiver vai ficar na mesmice, naquele cotidiano sem graça, como se estivesse se afogando, sem nunca mais se encontrar, nunca mais sentir alegria, entendeu? Uma vez com a consciência desperta, ele passa a precisar muito, senão bate fundo aquele negócio lá…”

COMPAIXÃO
Por Alcino Bastos

“Se quiser, anote. A receita requer a decima parte da razão, a raiva multiplicada por zero vezes zero e o coração elevado à milésima potencia.”

SAUDADE
Por Elza Tamas

“Tudo nasce do escuro e no vácuo. É no vazio que moram as possiblidades, ele tentou me explicar. Não entendi. Agora que ele se foi, sei que estava errado. Meu vazio é só vazio: um ovo sem gema, nem clara.”

O Flâneur Pode Substituir o Autor?

de Alcino Bastos

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– Dá para acreditar? E, depois, o autor ainda disse o seguinte: “Barthes, no fundo, é muito parecido com Platão, para quem a mimese era apenas a imitação de uma imitação”.

– Para você entender melhor, é preciso dizer que o grupo era muito homogêneo. 

– Se eu destoava? Claro, uma das poucas exceções. A maioria deles e delas dizia ter trinta e cinco anos. No máximo. 

– A idade dele?

Saco. Ficam me atropelando e a Beth mais que ninguém.

– Deixa ver. A nota sobre o autor diz que nasceu em 1964. 

Estou casado com a Beth há pelo menos uns trinta anos. Acho. No princípio era o verbo e, depois, tudo veio à luz. Explico curto e grosso: no princípio achei que ela gostava de literatura e depois entendi que não. A Beth tem trinta e cinco anos. No máximo.

Outra explicação: eu estava contando tudo isso para Helena, não para a Beth. A Helena tem trinta e cinco anos e fala para quem quiser ouvir que tem cinquenta e sete. Não sei se quer contar vantagem ou causar comoção.

Bom, eu falava a respeito daquela noite. Cheia de pessoas com nomes como Licibeth Fakiani, Marianne Brepohl, Françoise Forton, Sarah Swolfs, Michel Lassner, Alexandre Reitzfeld. Nossa! Muito bacana. Contava tudo para Helena. Que ria.

Contar para a Beth era desnecessário: ela estava lá comigo naquela ocasião.

Existem esses encontros à noite. Todos de copo na mão. Uísque. Vinho também serve, mas acaba saindo mais caro se você quer um vinho razoável. Vamos de uísque mesmo. E, rápido. 

Essa historia da idade – essa precisão dos trinta e cinco anos – foi o que escutei logo de início. Ninguém admitia envelhecer e comentavam coisas da moda: autoplásticas de rejuvenescimento; bactérias inteligentes, ativadas com sensores que viajam dentro do corpo, combatendo doenças e aplacando qualquer possibilidade de envelhecimento. Alguns mais ousados discutiam abertamente a possibilidade, num futuro próximo, de optar entre morrer e não morrer. Assim, de orelhada, me pareceu que a maioria do grupo ali presente optaria por permanecer sempre com os trinta e cinco anos que tinha agora. Discussões mais acaloradas dividiam as pessoas entre “nós” e “eles”. “Nós” tínhamos preguiça, “eles” não. Eu rapidamente admiti que fosse preguiçoso e aceitaria a morte. Até já tinha lido um texto falando da minha preguiça: “preguiça de congelar a cabeça, de bactérias que curam males, de viver muito mais. Preguiça das sacolas; das assinaturas com firma reconhecida; dos dentistas; dos eletricistas; de não saber e de não saber; das esperas; de passar fio dental; dos medos, todos; da solidão; dos aeroportos; de muitas pessoas; de poucas pessoas; do medo de morrer”. Uma moça de trinta e cinco anos deu um salto e contra argumentou: “Se você tem medo de morrer então seria melhor não morrer, ou não?”. Para evitar falar de novo em preguiça eu disse que, para acabar com este medo, bastaria decidir sobre o que vem depois da morte: nada (nadinha mesmo?), reencarnação para aprimoramento contínuo (olha aí a preguiça!) ou vida eterna ao lado de deus (escutei alguém falar de tédio?). Uma coisa é certa: todo mundo acredita em morte após a vida. Já o conceito de vida após a morte é controverso. E por fim esse papo sobre a morte acabou morrendo de morte natural ou talvez tenha sido encapsulado numa câmara criogênica para ressuscitar no futuro com roupa nova e cara de jovem.

Parecia haver uma música no fundo (talvez um PC lá na cozinha, em regime de streaming e com o volume bem alto) e o som era tão abafado que permitia a conversação normal ali no living. Andei na ponta dos pés pela cozinha e encostei o rosto no congelador, aspirando os complexos cheiros da vida. Não achei nada produzindo música, nem dentro nem fora da geladeira. A geladeira era velha, com congelador na parte de cima. Dentro do congelador um saco de gelo, aberto. Na parte de baixo uma grande bandeja com bombas de chocolate (aquilo que os franceses chamam de éclair) e muitas tortas de pequeno tamanho abertas na parte de cima (é isso que os franceses chamam de quiche?). Alho-poró, queijo, frango etc.

Quando voltei para a sala, um rapaz, com trinta e cinco anos no máximo, estava dizendo: “São duas as grandes razões que fazem alguém ler: a busca de entretenimento e a do conhecimento. Mas, no mundo tecnológico em que vivemos, esse leitor não necessita mais da cadeia intermediaria entre ele e o conteúdo. Assim, editores, distribuidores e livreiros tornam-se, muitas vezes, dispensáveis o leitor, pois encarecem o produto”. Foi atacado e defendeu-se como pôde: “Não acredito no fim do livro em papel. Acredito no poder de uma boa história, seja em livro impresso, digital, cinema, qualquer ferramenta.”

Não. Não tinha mais conversa e nem era mais uma reunião comum. Foi assim, de repente.

– Virou uma palestra?

– Pode ser. Melhor ainda: uma aula do autor de meia idade para alunos de trinta e cinco anos, no máximo.

Claro, não era para ser assim. Todos haviam pensado em distribuir ideias, fazer networking, trocar figurinhas, marcar encontros, aproveitar o bem estar físico que os trinta e cinco anos proporcionam, tudo isso. Mas, para o bem ou para o mal, ele monopolizou.  Era de noite, entende? Com uísque na mão. Todos foram ficando com uma capacidade rara de entendimento dos conceitos e das verdades absolutas que iam sendo distribuídas de maneira tão generosa pelo autor: “Não posso escutar a palavra cinema”. Silêncio respeitoso. “O gênero mais privilegiado em termos econômicos para uma boa história (há,há), para o entretenimento (há,há), e dentro deste realismo totalmente apático, é o cinema comercial. O realismo comercial monopolizou o mercado e se tornou a marca literária mais poderosa. O realismo não passa de uma gramática, um conjunto de maneirismos e técnicas que obscurece a vida literária”.

A partir daí, urbi e orbe, o autor começou a proibir: “não usem situações de conseguir ou perder o emprego”; “nunca ninguém deve brincar com a comida enquanto está pensando em alguma coisa”; “nada de cartas de amor ou propostas de casamento”; “nada de doenças e suicídios em sucessivas gerações de uma mesma família e, importante, nem pensar em incesto”; “evitar a todo custo rapazes promissores de olhos azuis e moças com decote mostrando o arfante vale entre os seios”.

E, didático, explicava: “o realismo nada mais é do que uma convenção que reflete as aspirações de leitores pequeno-burgueses”.

Helena ria e se deliciava. Era isto que eu gostava nela. Muito natural que, depois desses anos todos como minha amiga, ela estivesse pensando se tudo aquilo era mesmo verdade, se o coquetel tinha acontecido e se o autor tinha dado aquela aula. Que importava? Era engraçado, não era? 

– Então era sobre o realismo?

E queria mais.

– Ele não falou dos personagens? Diálogos, linguagem? Ele falou mesmo um “há, há” para desmerecer uma “boa história”? O que ele falou sobre a figura do “flâneur”?

– Nada. Sobre isso tenho certeza de que não disse nem uma palavra.

Na noite do coquetel, quando eu estava voltando para casa, a Beth passou a desancar o autor. Fiquei surpreso e reconheci que ela tinha entendido pelo menos uma parte do que tinha sido dito; a mensagem que o autor quis passar chegou até a Beth. Um pouco borrada. Uma espécie de telefone sem fio.

O fato é que ela estava muito brava com tudo aquilo e desandou a falar. Saco. Eu queria dizer para a Beth o seguinte: “vamos falar sobre isso a qualquer outra hora, meu bem, mas, por favor – só desta vez, vai? – não agora”. Infelizmente este tipo de comentário constava da lista de proibições do autor e, então, permaneci calado. Se eu tivesse dito aquela frase, ela teria retrucado: “você não me ama mais?” e eu teria respondido: “não é isso, é só que estou muito cansado”. Estas duas frases também constavam da lista do autor e então eu cheguei a pensar que a vida me seria mais difícil daquele dia em diante.

Ela disparava a falar. “Ele fez pouco de gente boa. O que está errado com Le Carré ou P. D. James? Eu não gosto de Flaubert ou George Eliot, e daí? O Barthes é um bundão ridículo”. (Eu concordava com isso, mas, permaneci cuidadosamente calado). “A lista de proibições foi primária, não foi?”. (Achei que não precisava dizer nada, mas, educadamente, emiti um han-han que, se preciso, poderia ser confundido com um pigarrear suave). “Ele pensa o quê? Que somos crianças? Será que ele não via que todos ali já tinham trinta e cinco anos, no mínimo?”

Ah, bom, no mínimo. No mínimo fizemos algum progresso naquela conversa. Bem mais tarde, no fim de semana, a Beth me disse que precisava viajar por uns dias. Ia visitar um sobrinho.

Por mim tudo bem.

Depois que o autor falou sem cessar por um tempo que não consegui medir com precisão, ele calou-se. Imagino que tenha se dado por satisfeito com as lições generosamente oferecidas ao grupo, ou quem sabe esperava perguntas ou mesmo comentários inteligentes. Não sei dizer por que não perguntei nada a ele. No entanto, notei que o grupo estava catatônico e tinha perdido a voz. Não estou dizendo que tinha perdido a voz por causa de uma epidemia de gripe, de uma amigdalite grupal; eu estou dizendo que o grupo tinha sentido um impacto tão grande com as palavras do autor que, de alguma maneira, a voz que porventura ainda tivessem lhes havia sido arrancada como em uma operação cirúrgica. Até aí tudo bem. O interessante foi que este acontecimento me permitiu vislumbrar algumas diferenças ainda hoje existentes entre homens e mulheres. Sim, olha só. Para os homens recuperarem a voz é necessário jogar umas duas pedras de gelo dentro de um copo largo e baixo e completar até a borda com uísque. Foi o que os homens fizeram em caráter de urgência. Já, no caso das mulheres, é diferente. A dona da casa, que tem trinta e cinco anos, foi rapidamente até a cozinha, esbarrando nos móveis, e voltou para a sala carregando uma grande bandeja com bombas de chocolate (aquilo que os franceses chamam de éclair). Verifiquei que basta consumir duas ou três dessas bombas para que a voz das mulheres retorne. Tão melodiosas como sempre. Foi fácil ver quando homens e mulheres ficaram subitamente felizes, confiantes nas bactérias inteligentes, nas enzimas geneticamente modificadas: todo este pequeno mundo, ativado por sensores, em movimentação constante dentro daqueles corpos, combatendo quaisquer efeitos deletérios do chocolate, do uísque ou de eventuais conceitos literários desagradáveis à estética de cada um.

Outros comentários desagradáveis: “não há grandes novidades ou livros realmente notáveis”. “Não vemos um pensamento novo. Os livros hoje são os mesmos dos últimos anos”.

Helena (que gosta de literatura) lamentou-se comentando que tudo que havia para ser escrito já tinha sido escrito. Inúmeras vezes. Eu tinha que concordar, mas ponderei:

– Eu não tenho vergonha de escrever de novo o que já foi escrito. E se as palavras dos outros foram melhores que as minhas, eu uso aquelas mesmas palavras, sem dó nem piedade.

Helena bocejou e, antes de apagar a luz, perguntou o que havia acontecido depois que todos tinham recuperado a voz. 

– A reunião estava no fim. Antes das despedidas fui me postar ao lado do autor e disse para o grupo: “o escritor tem que agir como se os estilos e métodos literários disponíveis estivessem constantemente à beira de se transformar em meras convenções e, por isso, ele precisa tentar vencer esse inevitável envelhecimento. Precisa agir como se a própria vida estivesse sempre à beira de se tornar convencional”.

Helena achou que eu era um gênio e resolvi não dizer para ela que as palavras não eram minhas. Eu só achava que elas eram inspiradoras.