Noemi pediu para que Maria Fernanda Elias Maglio escrevesse um conto a partir de uma imagem em Eleanor Rigby, dos Beatles: Father McKenzie costurando uma meia.

Colocamos em sequência a primeira versão do conto, chamada “Era um cacto de coração” e a versão final retrabalhada – que recebeu um novo nome, “o hálito de limo nos dentes, quando ela dizia boa noite”.

*

I. Primeira Versão

Era um cacto de coração

 

                                                                                             “All the lonely people

                                                                                                                                            Where do they all come from?

                                                                                                                                            All the lonely people

                                                                                                                                            Where do they all belong?”

                                                                                                                                            (Lennon/McCartney)

 

 

Ninguém veria a meia guardada no sapato, o furo preenchido pelo amontoado da linha. Nem os sapatos, o colarinho em clausura, a batina de barra brocada. Ainda assim costurava. Furava a agulha no fino do tecido preto e puxava a linha até que estivesse esticada o suficiente para a nova volta. Mudava a feição quando a costura franzia: os olhos encrespavam e a boca se contorcia em um discreto bico. Soltava a agulha e, com as mãos em força contrária, repuxava até que a meia retornasse à forma de origem. No instante em que o tecido se recompunha, o pregueado dos olhos e da boca desaparecia. A agulha engolida pelo pano, surgindo do outro lado, como um fantasma que atravessa paredes, rompe a barreira da morte. Saía para depois entrar e sair e entrar de novo e de novo. Tão rápido, que não se sabia ao certo onde estava a agulha, se dentro ou fora do tecido, se do lado de cá, dos vivos, ou se vagava a imprecisão dos mortos.

 

Quando a meia estava íntegra, sem lembrança de buraco, o nó arrematando a costura, a linha excedente partida nos molares, o homem se levantou. A pele tinha a textura de casca de árvore e os cabelos, sem nenhum sinal de calvície, se assemelhavam à grama queimada. Também o coração tinha natureza vegetal: era um cacto de flor vermelha, resistente e frágil, que despreza água e reclama sol.

 

O sermão ainda espalhado na mesa de jantar. Sete páginas fora de ordem preenchidas pela letra miúda do homem de coração de cacto. Havia diabo, inferno, danação, pecado, alma e céu. Diabo estava escrito vinte e três vezes, seguido de pecado (dezoito) e alma (onze). Céu aparecia sete e uma vez, uma única vez, perdão. A última palavra era Deus: quem ousa ofender a Deus? E na manhã seguinte, quando o sermão fosse lido para a plateia invisível, que não veria a meia costurada no abrigo do sapato, ninguém ofenderia a Deus. E era preciso que alguém ousasse ofender, porque o inferno não existe se não há quem blasfeme Deus e não pode existir céu, se não existir inferno, nem virtude, se não houver pecado e nem mesmo Deus, se não existir o diabo. E o diabo existia, isso sim. Ele podia jurar por Deus. Aliás, de Deus duvidava um pouco. Nos momentos cativos de solidão, cerzindo as meias que ninguém veria, pregando para os bancos da igreja, para os vitrais e o cálice de hóstia vazio, duvidava da existência de Deus. Do diabo nunca.

 

Juntou os papéis na sequência, olhando com censura a mancha de manteiga na segunda folha, bem depois de alma, no meio do ponto final. A gordura dissolveu a tinta da caneta, expandindo o ponto em uma roda aguada de azul. Sentou-se em uma das cadeiras. Não era a única cadeira. Além dela, mais três. Quatro cadeiras em uma mesa onde só comia um. Seis pratos e cinco xícaras. E toda manhã apenas uma xícara de café com leite, um único prato com migalha de pão, uma faca besuntada de manteiga. Guardou o sermão na pasta de elástico e colocou-a no sofá, ao lado das meias cerzidas, da batina dobrada, as calças estendidas no encosto do sofá, os sapatos no chão, ainda exalando graxa.

 

Foi para o quarto pensando na filha. Tinha certeza de que estava viva. A genética dele não era dada à mortes, de modo que ela poderia ter contraído tifo, tomado dois tiros no peito e um na cabeça, ter um bebê engastalhado na trompa, que estaria viva, do lado de cá do pano. Seu coração de cacto saberia se a filha tivesse morrido. E se o coração falhasse, podia contar com o diabo. Nos sonhos de febre, em que torcia para que estivesse mesmo sonhando, para que não fosse verdade o fogo cozinhando suas pernas, o oceano de lava derretendo sem doer as meias e os pés, o diabo segredaria: a filha está morta. E ele sairia da casa, da igreja vazia, das xícaras sem par, queimaria os sermões, as pastas de elásticos, as batinas, os furos das meias. Podaria a grama ressecada dos cabelos e arrancaria a flor vermelha do cacto do seu coração. Se a filha estivesse morta, se a filha morresse um dia, ainda que ele já estivesse morto, não seria capaz de resistir.

 

A menina nem sabia que tinha pai. A mãe se encarregou da mentira, alguma coisa sobre o pai ter morrido, ido embora, ter sido ungida por fecundação imaculada, sêmen de anjo. A mãe da menina era a única que ouvia os sermões. Sentava-se em um dos bancos do meio, nunca o primeiro, nunca o último, com o véu bordado de flor cobrindo o rosto. Tinha mais de quarenta anos, se chamava Euride e nunca tinha provado do amor. Por ignorar o gosto, adivinhava amor onde não havia e acreditou que aquele padre de cabelos de capim falava de amor quando contava, apenas para ela, das labaredas fritando os pecados das gentes do mundo inteiro.

 

Era quarta-feira de cinzas. Euride sentada na terceira fileira, o rosto descoberto do véu bordado (para ouvir melhor o sermão do amor), no vestido, dois botões desatados (para que batesse melhor o coração). A mulher escutava amor e o padre falava de profanação, dizia dos impuros quitando com o demônio o preço alto do sacrilégio. Quando o sermão acabou e o padre preparava o cálice com a única hóstia, ela se levantou. Não com dois botões abertos, mas quatro, os cabelos libertos do coque de todo dia, caindo sobre os ombros do vestido. O padre não reconheceu o pecado nos olhos, nem no suor que escorria pelas pernas sem meia calça, no miolo do decote desabotoado. Entendeu a investida como avidez de comunhão e quando ela se aproximou do altar, enfiou-lhe na boca a hóstia encharcada de vinho. Não era de Cristo que ela queria o corpo. Ali, no altar vazio, com São Bento, São Francisco de Assis, Nossa Senhora Imaculada Conceição e São Benedito de testemunhas, Euride teve o ventre inaugurado. Uma única vez e o que bastou. O corpo dela, sem esperanças de cópula, reteve a genética do padre e a converteu em filho. Euride grávida. Assistia aos sermões sem véu, os seios esmagados nos botões abertos, o abdômen alargando a saia. Alisava a barriga grávida a cada vez que o padre falava pecado. Comungava de olhos fechados, respondendo amém, antes de grudar a hóstia no céu na boca. Não deixou de ir à missa nem quando deu à luz. A menina nasceu em uma terça-feira, às três e quarenta da tarde e no domingo seguinte, às sete e meia da manhã, Euride estava na terceira fileira, cobrindo a filha com o véu bordado de flor.

 

A menina crescia aos domingos. Também às segundas e aos sábados, mas principalmente crescia aos domingos. O padre deixou de falar em inferno e aos poucos substituiu os sermões por histórias. A menina escutava vigilante ele dizer dos dragões e das princesas de cabelo de fogo, cerejas gigantes brotando dos troncos dos limoeiros, florestas de bétulas e jasmins de água, as raízes flutuando a correnteza. O padre reconhecia na menina os cabelos de planta e o coração de cacto. Talvez a flor dela fosse branca, amarela ou até nem tivesse flor, mas era cacto.

 

Em um domingo de páscoa elas não apareceram. O padre tinha escrito uma história de onze páginas, alguma coisa sobre um coelho enterrando sementes que viravam ovos de chocolate, uma jardineira infeliz e um casamento do coelho com a jardineira, muitos filhos coelhos, filhos crianças e de cabeça de criança e corpo de coelho. Nada de morte e ressurreição. Nunca mais soube delas. Andou pelo bairro, perguntando na padaria, na banca de jornal, no açougue e na loja de tintas. Ninguém nunca tinha escutado dizer da mãe de botões abertos e da menina de coração de cacto.

 

Deitou-se na cama pensando se reconheceria a filha se a encontrasse na farmácia, atendendo as mesas do café, ensaboando o chão do mercado. Ela tinha vinte e oito anos e a lembrança dele sete: uma menina de olhos aguados e cabelos indômitos de constituição vegetal, feito as florestas de bétulas e os jasmins aquáticos. Rezou um pai nosso e adormeceu sabendo que sonharia com o mar de caldeira e o diabo verificando a costura de suas meias e a graxa de seus sapatos.

 

*

II. Versão final

o hálito de limo dos dentes, quando ela dizia boa noite

 

                                                                                                                                            “All the lonely people

                                                                                                                                            Where do they all come from?

                                                                                                                                            All the lonely people

                                                                                                                                            Where do they all belong?”

                                                                                                                                            (Lennon/McCartney)

 

Ninguém veria a meia guardada no sapato, o furo suturado, nem o colarinho, a batina de barra brocada. Ainda assim costurava. Furava a agulha no tecido preto e puxava a linha até que estivesse esticada o suficiente para a nova volta. Quando a costura franzia, os olhos encrespavam e a boca se contorcia em um discreto bico. Soltava a agulha e repuxava até que a meia retornasse à forma de origem. No instante em que o tecido se recompunha, o pregueado dos olhos e da boca desaparecia. A agulha engolida pelo pano, surgindo do outro lado, como um fantasma que atravessa paredes, saía para depois entrar e sair e entrar de novo e de novo. Tão rápido, que não se sabia ao certo onde estava, se dentro ou fora do tecido.

 

Quando a meia estava íntegra, sem sinal de buraco, o nó arrematando a costura, a linha partida nos dentes, o homem se levantou. O sermão ainda espalhado na mesa de jantar, sete páginas fora de ordem. Havia diabo, inferno, danação, pecado, alma e céu. Diabo estava escrito vinte e três vezes, seguido de pecado (dezoito) e alma (onze). A última palavra era Deus: quem ousa ofender a Deus? E na manhã seguinte, quando o sermão fosse lido para a plateia invisível, que não veria a meia costurada no abrigo do sapato, ninguém ofenderia a Deus. E era preciso que alguém ousasse ofender, porque o inferno não existe se não há quem blasfeme Deus e não pode existir céu, se não existir inferno, nem virtude, se não houver pecado e nem mesmo Deus, se não existir o diabo. E o diabo existia, isso sim.

 

Juntou os papéis na sequência, olhando com censura a mancha de manteiga na segunda folha, bem depois de alma, no meio do ponto final. A gordura dissolveu a tinta da caneta, expandindo o ponto em uma roda aguada de azul. Sentou-se em uma das cadeiras. Não era a única, além dela, mais três. Quatro cadeiras em uma mesa onde só comia um. Seis pratos e cinco xícaras. E toda manhã um único café, um prato com migalha de pão, uma faca besuntada de manteiga. Guardou o sermão na pasta de elástico e colocou-a no sofá, ao lado das meias cerzidas, da batina dobrada, os sapatos no chão, exalando graxa.

 

Antes de entrar no banheiro, conferiu o mofo do corredor. Abriu a mão direita na mancha, recolheu o polegar no dedo mindinho e esticou de novo: dois palmos. Aproximou o nariz e aspirou. O cheiro do bolor lembrava a mãe, o hálito de limo dos dentes, quando ela dizia boa noite, com o queixo amparado na bochecha dele.

 

Teve um soluço quando apertava a pasta na escova. Uma fileira do creme dental escorregou na pia. Esperou novo soluço. Não veio. Destacou uma volta do papel higiênico e limpou a pasta escorrida. Escovou os dentes e doíam todos: os de osso e os de gesso. Sentou na privada e esperou. O inferno em suas vias urinárias. O mijo desceu vagaroso e incandescente, seguido de uma gota de pus. Foi para o quarto com as calças arriadas, os pés patinando o carpete, o pênis gotejando urina inflamada.

 

Deitou-se na cama sem tempo de pijama, despindo o embolado de calças e cueca sem usar as mãos. Mais um soluço e esperou o próximo. Quatro vezes, antes de tomar coragem e colocar no copo a água da moringa. Não se lembrava de quando a tinha enchido pela última vez, na semana passada ou na outra. Bebeu em três goladas imensas, a água que não coube na boca escorrendo pela camiseta. Tateou o interruptor e deitou-se, puxando a coberta até o pescoço. O cobertor protegeu os pés sem meias, as pernas, o pênis infeccionado, a camiseta e a água absorvida pela camiseta. Adormeceu sem rezar, conservando nas narinas o cheiro de fungo da respiração da mãe. Vai ver o diabo não existia.

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