Noemi pediu para que escrevêssemos em quatro papéis o nome de alguém famosos, uma ação, um lugar e uma data. Depois, sorteamos os papéis. A proposta era escrever um texto que conjugasse essas quatro informações.

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Fosse uma praia ampla – e não esse picote de areia em pata ferrada -, não se sentiria no ar o forte cheiro de barriga em decomposição, aquele meiado de ser que a gente sabe que sempre apodrece primeiro e, ainda, silenciosamente por dentro, inquieto, aquele caldo de banha que o mar vem lavar à noite, quando ninguém mais a banhar-se. Uma enorme carcaça que barrava o caminho dos baldinhos até a água, um resto de história mal acondicionada no corpo de um Fidel Castro nessa baía inventada pela rocha em pleno litoral norte de São Paulo, tudo bem nos dias mais ensolarados de 2025.

(André Fratti Costa)

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Ela chupava o osso. Já tinha comido a carne, mastigado a pela oleosa. Escutei o barulho dela triturando a ponta do osso entre os maxilares.
No palco, uma falação sem fim. Um blá blá blá no megafone sobre férias, décimo terceiro, salário maternidade. O cara gritava as condições as condições sem que as mulheres trabalhavam na fábrica de água sanitária, as pontas dos dedos derretidos pela soda.
E eu ouvia ela roendo o frango. Juro que ouvia. Ela estraçalhando a ponta oca do osso, nem aí para as mulheres que esfolavam os dedos no veneno. Não trabalhava em fábrica e decerto nunca tinha sentido o cheiro de água sanitária. Nem sabia que cheirava a porra.
Cara, ela era Elis Regina. Comia um osso já sem frango, na praça da Sé, em um primeiro de maio.

 

(Maria Fernanda Maglio)

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1970, BerlimAlexanderPlatz, a caminho do teatro, Nina Simone sai da estação do mestrô e tromba com ciganos arrumando a roda de uma carruagem. Sofrem apupos de skinheads, que ameaçam sequestrar uma jovem cozinhando um ovo numa espiriteira lá dentro.

(Paulo Ludmer)

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Tivesse sido em 23 de novembro de 1554 o último discurso parlamentar de Getúlio Vargas (e não quase 400 anos depois, em 24 de agosto de 1954), talvez não teríamos perdido um presidente para o suicídio; talvez não fôssemos assombrados pela instabilidade no poder, pela degenerescência, pela loucura, talvez. Não dá pra saber. Mas o fato de tudo ter acontecido no Catete e não no interior de algum país da Europa, isso sim confere um aspecto sombrio à nossa história; talvez tudo tivesse sido diferente não fosse esse pormenor.

(Carla Kinzo)

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