Noemi pediu para que, a partir das características de algum objeto, escrevêssemos um texto em que houvesse uma perturbação semelhante a essas características.

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ESCADA

Olhei para cima e não vi o fim. Não sei onde dava, nem de onde partia.
Começava em mim. Não sei se terminava em mim.
Talvez terminasse no outro de mim, o que morava onde não havia mais degrau.
Eu ia pisando em cada plataforma e rezava ave maria-pai nosso-salve rainha para que não tivesse fim.
Não queria cair no meu profundo.
Se eu despencasse no meu buraco, ficaria dentro de mim para sempre.
Ninguém se lembraria de vasculhar meu fundo.
Ninguém nem sabia quantos degraus eu tinha.
Nem que eu tinha abismo.

(Maria Fernanda Maglio)

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CHAVE

​Meu poder, minha posse, em casa ninguém ousa substitui-la.
​Quando  caminho, eu a carrego comigo, não desgarro, apalpo mais que namorada; e,
​em movimento, escuto sua música minimalista no convívio com as outras.
De noite, em pesadelos, levanto-me para conferir sua verticalidade.
Obsessivo, não a esqueço, não perco, não troco.
​É meu pênis no útero do descanso.

(Paulo Ludmer)

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ALFINETE

Tivesse aberto, eu poderia ao menos tentar perfurar uma parte mínima desta carne macia, mas a clausura me restringia ao êxito de minha finalidade. Eu queria atravessar o tecido macio e sedoso da pele nua que eu ajudava a esconder, não este trapo barato que, infortunadamente, eu mantinha em seu devido lugar.

(Reginaldo Cruz)

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TREM DE BRINQUEDO

Tem algo em mim que não para, meus pensamentos dão voltas, circulam, percorrem elipses, ininterruptos. Não são silenciosos, muito ao contrário, quase dá para ouvi-los, sons agudos, apitos, música ritmada, perturbando tudo à volta. Vão sempre, teimosos, pelos mesmos caminhos, cruzam pontes, furam montanhas. Depois voltam em curva pelos mesmos caminhos que usaram para ir, até que, sem nenhuma explicação, paralisam, cansados, sem trilhos, é como um entristecer.

(Cristina Meirelles)

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CABIDE

Minhas roupas lhe caem bem. Sempre impecáveis, sem vincos ou minimamente amassadas. Até paletós de linho. A culpa não é minha. Faço exercícios, tomo cuidado com a cerveja e mesmo assim essa barriga não permite abotoar o segundo botão dos paletós, as calças se perdem nas minhas pernas, pior que papel amarrotado. Com ele não é assim não senhor. E a comparação é desleal: aqueles ombros fininhos produzem caimento perfeito seja em peças de cambraia, lã ou casimira inglesa. Tenho certeza que todos podem notar essas diferenças. E as roupas são as mesmas, claro, nem poderia ser diferente. Ele usa minhas roupas. Todos sabem. Não é culpa minha.

(Alcino Bastos)

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CORDA

Desde que voltei do hospital venho melhorando. Estou mais flexível. Adoro serpentear por este chão, saltitar pelo quintal com minha filha e jogar, em cada pulo, a grama longe. Só não me amarro quando ela me esquece lá durante a noite, pois agora, curado, perdi um pouco do meu brilho. Não sou mais uma lanterna.

(Marcos Bassini)

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BONECA ANTIGA

Sempre a mesma carinha, né? Você não pode ao menos mudar um pouco essa sua expressão enfastiada? Pode ou não? Lembro bem da minha surpresa quando você chegou, suas roupas tinham cheiro de riqueza, coisa boa a gente reconhece de longe. Mas essa sua expressão opaca… Tentei de tudo. Servi centenas de chás com torradas, alternando sempre os sachezinhos para ver se este doce ou aquele mais ácido combinavam mais com o seu paladar. Mobiliei seu quarto; lembra como escolhemos com cuidado o papelzinho de parede? Eu insisti para quem fosse com motivos circenses, achava que poderiam inspirar seus sonhos, os malabaristas brilhavam no escuro do quarto, lembra? Nada. Nem o sono borrava a sua maquiagem, nem os meus esforços diários alteram a aspereza do seu olhar. Suas roupas já estão desbotadas, cansei de trocá-las. Você não merece.

(Ricardo Lombardi)

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ÂNCORA

Haveria de ter peso, se quisesse afundar-me sozinho como quem não dependesse de alguns para se arremessar e, lá de longe e embaixo, pudesse ainda prestar serviço. Não deixei que partissem minhas filhas, minha ex-esposa, não deixei. Ela tinha um mestrado em Harvard, não deixei que fosse e levasse as meninas com ela.

Quanto mais no silêncio do ferro que se encrespa na maresia, mais me apavorava a sua figura que a mim agora se assemelhava. Antes, quando ainda era pequeno, fui flexível o bastante com a junta das pernas e sabia bem adquirir-lhe a forma. Era das coisas de ser magro, leve e versátil. Mas agora, essas de ter a massa do ferro denso e restar, o medo dessa corda descer velozmente até o inferno, enganchar-se em minha canela e ser eu a segurar o mundo, não deixá-lo pôr-se a rodar.

(André Fratti Costa)

 

 

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