Noemi fez uma atividade experimental com o grupo, em que cada de nós respondeu com um texto a uma pergunta feita por um colega.

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– que música é essa que se recusa a ocupar meus vazios?

– essa é a música que escuto fraquinha, não sei se vem ou se vai para longe, e quando tento acompanhar, dançar seus compassos, meus passos falseiam pois me falta jeito e me falta ritmo e tudo isso, meu deus, me faz tanto falta!

(Alcino Bastos)

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Desrespeita a coluna. Desconsidera as articulações e não sente o sangue nos dedos. Em nome do belo, sustenta o corpo pelo diafragma, prende a respiração e só olha em frente. Não sabe o que acontece em volta. Não faz diferença. Segue o ritmo e a coreografia. Nunca muda… Não gosta. Nunca olha para os pés.

(Elidia Novaes)

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Mínimas, semínimas, fusas, semifusas, buracos, montanhas abissais de ocos coloridos, quem os pintou? quem ainda vai pintá-los? vai chegar carregando o sofá embaixo do braço para poder dormir, abraçar o mundo, levá-lo para o outro lado cruzando rios e pontes vazias lotadas de nada? vômitos sem cheiro que escorrem sobre páginas brancas a serem escritas?

(Lidia Izecson)

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Enquanto tudo ruía, ela lustrava os copos. Entrei na sala e fiquei a observá-la absorta em ocos que não era os seus, o vestido sujo das imperfeições dos últimos dias, mas os copos brilhando, colocados um a um sobre a mesa e ela, o vestido recolhido no braço esquerdo, a barra desfeita desfiada que ontem mesmo ela disse: deixa que é assim o tempo e a sorte vai dizer o quanto dura; e era quase uma camisola, entrando, saindo, arredondando o espaço ao redor dos copos com uma música que só os cristais. E os cristais não eram dela, eram da falecida que os deixou lacrados; mas ela não, ela preenchia esses ocos e formava algum desenho indecifrável sobre a mesa, um tipo de código que seria preciso a autorização de algum Deus para entender. Por que os copos ornados com pequenas flores tinham que estar tão à beira? Por que as taças se reuniam redondas no centro em torno de um oco sem copo e sem toalha que só a madeira da mesa da falecida era capaz de ver? E eu sei que dentro dela tocava algum piano ordenando tudo em mínimas, semínimas e que as cheias pingavam orientações precisas sobre os cristais, coisas tecidas ali mesmo, pelas mãos dela, pelo vestido, pelos fios que escapavam, pelas bordas tão finas que quase. E nem quando foi buscar o jarro ela tropeçou no copo de vidro fosco, nosso copo tosco de todos os dias, que tinha ficado entre a mesa e o piso esperando ser notado; nem quando rodopiou sobre si mesma ela intuiu: o copo ou a minha presença. Voltou com a água e encheu um a um os cristais, nunca além da metade como se aguardasse. É preciso confiar na espera dos ocos, ela não disse, mas eu soube. E foi com a borda do mesmo vestido que ela enxugou a testa, como que de cansaço. Foi assim que a ruína dos dias tatuou seu rosto.

(Luciana Annunziata)

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