Noemi pediu para que escrevêssemos em um papel uma frase de que gostávamos. Cada trio recebeu, aleatoriamente, três desses papéis – e, com as frases recebidas, deveríamos produzir um texto.

*

BAGAGEM

¾ Acabou. Você fica com a casa. Não esquece a ração do cachorro.

¾ Tinoco

¾ O que?

¾ Tinoco. O nome do “cachorro”. Você nunca aprendeu o nome dele.

¾ …

¾ Tudo parece simples para você. Me deixa a casa, um pote de ração vazio… e uma tarefa. E segue a vida. Pelo jeito é sua maneira de resolver as coisas quando elas ficam embaraçosas. E desconsidera tudo que a gente construiu. Juntos. Vinte anos de história. Depois de toda a dificuldade que a gente enfrentou. Quantas! Até chegar aqui, conquistar o que a gente conquistar. Uma história cheia de tanta luta, de amor, de respeito.

¾ Respeito?

¾ Por acaso, você acha que acabou o respeito?

¾ Assim é se lhe parece.

¾ Fez de novo. Tudo você resolve com uma resposta curta, uma frase de efeito, um resmungo. Você se fecha em copas cada vez que eu tento conversar. Você sempre faz isso. No fundo, acho que nem te conheço mais. Sempre quieto, na sua. Eu hoje decido tudo sozinha, arrasto você pelo pé. E você? Desiste no primeiro obstáculo. Pula fora quando a água nem começou a subir ainda. Sempre quieto pelos cantos. Parece um boi encostado numa cerca.

¾ É isso mesmo. Ninguém sabe o que eu sou quando rumino. Machado de Assis!

¾ Tá vendo? Ainda ironiza. Quer saber de uma coisa? Vai mesmo. Você tem razão. Eu cuido do cachorro, da samambaia.

Ela se levanta da mesa e caminha em direção à porta de entrada. Ao passar pelo sofá, vê duas malas e uma mochila.
¾ Você já tinha até feito as malas! … Você já está indo.

¾ O taxi está lá embaixo.

¾ Então, nos encontramos depois, no tempo da delicadeza.

(Alcino, Maria Fernanda e Elidia)

*

Ele disse: não gosto de palavra acostumada. Foi a primeira coisa que ouvi dele. Eu também não gosto, prefiro palavra inquieta. Mas naquele dia não deu tempo nem de concordar. Ele logo foi embora. O acordo entre nós era como um pequeno milagre.
O primeiro bilhete dele dizia: ni pa ti, ni pa mi. Era um jeito de avisar que nada aconteceria entre nós. Meus olhos nublaram e naquela névoa ele desapareceu. Diadorim era minha neblina.
E foi sempre assim, a mesma névoa vindo não sei de onde e a gente se perdendo nela, a gente se perdendo da gente.

(Luciana Annunziatta)

*

Talvez seja isso, tanto tempo esperando e você não veio. Quase nunca vem! SUPORTANDO O SACRIFÍCIO DE NÃO MERECER, assumo para mim essa dor. Me visto com ela, desço as escadas e ganho a rua. O bloco que cruza a avenida me lembra que é terça de carnaval. Só eu sei, A DOR É MINHA, É MEU TROFÉU, É O QUE RESTOU. Entre plumas, brilhos e suor, as nossas brigas, como um videotape. Esbarra em mim uma ave do paraíso, PASSA AVE, PASSA, E ENSINA-ME A PASSAR”.

(Cristina Maria, Wilson, Lidia)

*

Você é livre, ele disse. Pode ir onde quiser. Mas como vencer o oceano, se é livre a navegação, mas proibido fazer barcos? Por trás da grade, olho a rua, eu olho a rua, a rua. Seria mais fácil se fosse o mar. Você quer tudo, ele diz. Quem tudo quer, tudo perde. O mar sobe rápido, muito rápido. A água entra pelas frestas, a cela imunda e eu, peixe, com minhas guelras, escapo dessas paredes sem nenhum lugar – tem alguém aí? Só quem me responde é o tijolo: “Se queres mel, suporta as abelhas”. Acho a resposta medíocre.

(Elza, Carla)

*

 

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