Noemi pediu para que escrevêssemos uma cena usando o pretérito perfeito.

*

Entrei no galpão da Dona Cida costureira. Era escuro e fundo. As fantasias da companhia inteira tinham sido penduradas junto ao teto num estranho sistema de varais. Vistas de baixo, as saias formavam grandes flores amarelas, vermelhas e as mais compridas, as azuis que seriam usadas pelas meninas mais velhas, eram túneis por onde eu poderia mergulhar e furar o telhado.
Minha mãe pediu que eu me sentasse numa banqueta junto à porta e foi ter com Dona Cida. Voltou com uma cara de desconforto e o olhar triste que eu já conhecia. “Qual delas é a minha?”, perguntei ansiosa, “a da flor de lótus”, ela disse. “Isso eu já sei” e desviei o olhar para Dona Cida que vinha caminhando lá do fundo com um mirrado conjunto verde piscina composto de uma única camada de musselina presa com uma flor branca.
Tive vontade de rasgar o paninho, mas a costureira foi mais rápida e me levou até o provador, de onde eu saí instantes depois, meu corpo magro sem um único adereço a não ser aquela coisinha pobre que “tinha um ótimo caimento”.
Minha mãe quis me consolar. Disse que a flor de lótus era a mais linda e contou algo sobre a Índia de que não me lembro. No banco de trás, chorei. Eu nem tinha idade para acompanhar minha mãe no banco da frente, mas ouvi quando ela gritou coma Professora Beatriz no telefone. E entendi tudo.

(Luciana Annunziata)

*

Olhei para o terraço do hotel e não vi ninguém. No saguão, salão de jogos, ninguém.
Parece que, na confusão, fiquei para trás. Meu pai pensou que eu estava em outro carro. Talvez com minha mãe, uma das tias. Elas pensaram que eu estava com meu pai.
Quando vi a arrumadeira, chorei um pouco. Segurando o choro.
– O menino ficou, ela disse ao gerente.
Então tentaram me distrair com uma bolinha de pingue pongue.
– Quanto anos você tem?
– Quatro.
A arrumadeira, Dirce, foi muito esperta e me deixou brincar com o rolo de papel higiênico. Funcionou melhor. Fui desenrolando, desenrolando, em volta das pernas das pessoas, das cadeiras, do relógio carrilhão.
Seu Honório também veio ver. Brinquei com o doce de leite e ,claro, comi um pouco também.
Quando perceberam o que tinha acontecido meus pais vieram me resgatar. Eu não estava mais chorando.
Sempre reclamei do que aconteceu. Do trauma, do abandono. Falei na terapia.
Para meus pais isso nunca ocorreu. Produto da minha imaginação!

(Alcino Bastos)

 

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