Noemi pediu para que a Ana nos contasse um caso bem antigo de sua infância. A tarefa era recontar essa história, como se fosse nossa – e que nela houvesse uma pequena digressão.

*

Os cadarços dele sempre desamarravam, porque ele era pequeno e os cadarços, sempre longos demais, assim como as histórias na hora de dormir, ele nunca terminava de ouvi-las. E então eu olhava para dentro de sua boca escancarada que continha todos os sonhos dos pequenos, um lugar misterioso, rosado e fedendo a leite que já não era o meu (mas qual era o meu lugar afinal?).
Quando acordávamos, tudo se repetia: ele tardava a terminar pão, deixava restos irritantes de leite no copo e caminhava lento demais para cruzarmos a rua no tempo tão restrito que antecedia o sinal da escola. Pior, quando chegávamos na calçada, seus cadarços estavam sempre desamarrados e eu tinha que ajudá-lo, ajoelhada diante da entrada, no que era ultrapassada por todas as colegas de classe (tão mais espertas do que eu).

(Luciana Annunziata)

*

A casa era velha mas era nossa escola. Em frente à Igreja de Santa Teresinha, na Maranhão.
– Professora, posso ir ao banheiro?
Quando saí da sala encontrei minha irmã que se arrastava para a aula de educação física.
– Sei que você não gosta, mas não precisa chorar.
Foi quando notei os cadarços do tênis soltos pelo chão.
O grande problema da escola era o banheiro. O trinco travava e prendia os alunos lá dentro. Eu nunca trancava a porta e enfrentava o risco de me verem urinando. A situação era urgente e pensei em seguir em diante rápido, entrar, sair e voltar para a classe.
Me agachei e dei um laço. Minha irmã fez o mesmo com o outro pé. Tão depressa que nem entendi como. Sorriu e se mandou. Depois, na vida, chegou a disputar o campeonato estadual de salto em altura.
O xixi? Deu tempo e ninguém me viu no banheiro. Mais uma coisa: nunca fico preso pois procuro sempre deixar as portas abertas.

(Alcino Bastos)

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Lembro como se fosse hoje! Você tão pequeno, eu a irmã que sabia de tudo.
É fácil, você vai ver, eu sei que a mamãe já te ensinou. Mas eu vou mostrar de um jeito diferente, você vai aprender agora mesmo. Essa ponta tem que ficar do mesmo tamanho dessa outra e, dobradas assim, viram duas asas de borboleta. Percebeu?
Parada na frente do vaso de flores já meio murchas, me pergunto se esse é o melhor jeito de dar laço. Tentei fazer tantos – firmes, resistentes, daqueles que durariam a vida toda. Nunca viraram borboletas – desculpe irmãozinho – foram sempre lagartas que não ultrapassaram a crisálida.
Você me olhava curioso, inflando meu lado professora. É assim, Paulinho. Depois você passa um lado por baixo do outro e estica bem até sentir que não vão se soltar nunca mais. Aprendeu?

(Lidia Izecson)

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As asas de uma borboleta batem em uma velocidade que seria impossível pará-las, pegá-las e dar um nó. Mas eu lembro que foi assim que eu falei pro meu irmão mais novo, naquele intervalo de aula, cada um saindo da sua sala, cada um com sua sede, ele com os cadarços desamarrados; duas asas de borboleta, uma vai por cima, passa por dentro da outra, depois só puxar, um nó que não se desfaz, uma lembrança para sempre em um casulo.

(Samir Mesquita)

*

Ele estava parado no meio do corredor, sozinho, como se me esperasse, só a mim. E eu, como se soubesse de tudo, me aproximei. Foi sem que falássemos coisa alguma – nós nos fizemos assim, até hoje seguimos com essas pequenas cenas predestinadas – que eu o ensinei a amarrar, “dois laços, uma volta”, os cadarços de seu sapato.

(Carla Kinzo)

 

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