Noemi pediu para que pensássemos em algo que não gostaríamos de contar – e que contássemos isso, negativamente.

*

Não pensa na dor. Não, não pensa na dor. Já vai passar. Pensa… Pensa no… Não pensa na dor.
Lembra de quando o senhor era moço, na fazenda, andando a cavalo com o cachorro Blindado do lado, pisando na sombra do cavalo… Não, não aquela briga com os dois pastores do sítio vizinho. Não pensa nisso. Não pensa que ele morreu cedo demais. Já vai passar, espera só um pouquinho. Já vai.
Não olha pra esses tubos. Não, aquilo não deve ser sangue. Não olha pra lá. Olha pra mim, conversa comigo. Não dá bola pros barulhos, pensa que eles têm ritmo. Ritmo de coração. Olha, escuta… Esse ritmo… Podia ser…
Tombando a velhinha aos pés do altar
Tira do peito sangrando
Da velha mãezinha o pobre coração…
Não, não pensa nessa. Pensa… O ritmo… Vamos ver…
Que tal esta?
O salgueiro que você plantou
De chorar quase morreu, resistiu e cresceu
Mas o cão adoeceu, sentiu sua falta demais…
Não, essa também não.

(Elídia Novaes)

*

Não quero me lembrar do sol daquela manhã que me prometia apenas um bronzeado. Não quero a luz daquele sol de novo na minha retina, que não me deixava enxergar com nitidez o mensageiro, o porteiro do prédio pedindo para eu deixar a praia, alguém me procurava, não quero lembrar que voltei; não, não quero recontar os passos até o prédio, os passos até o apartamento com o recado nas mãos – ligar para Janaína. Se não me lembro mais da voz da Janaína, se mal me lembro do rosto da Janaína, por que não esqueço também as palavras “o”, “César”, “acabou”, “de”, “morrer”?

(Luciana Gerbovic)

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que liguei para ele era depois de meia-noite eu preferia esconder, que liguei e liguei, dezesseis vezes, chorando, havia três horas, celular desligado, eu não queria dizer, que então peguei o carro e dirigi até a casa dos pais dele, e o esperei chegar e ele não chegava nunca, não vou contar, que ele não dava sinais de ódio muito menos de amor, que havia aquela menina, da empresa também, estagiária também, que ele havia visto de biquini, eu preferia não saber, que desisti da tocaia em frente ao prédio e voltei para casa, que assim que cheguei, eram três da manhã, liguei de novo, desta vez para o fixo, desta vez ele atendeu,a voz sonolenta, eu não disse nada, desliguei e fui para cama não dormir.

(Isabela Noronha)

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Não é minha vontade dizer isso. Só que é verdade: ela não é adotada. Não é bonito repetir o tempo todo como é diferente dos irmãos e que não se formou na USP como os outros. Nem é preciso dizer que a própria também duvidava de suas origens, pois partiu dela essa história do exame de DNA. Reluto em escrever essas palavras porém, de fato, foi uma decepção quando se confirmou que era mesmo filha do nosso pai e da nossa mãe. E agora não posso nem pensar nas desculpas que vou dar daqui por diante.

(Alcino Bastos)

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Não quero que saibam que elas me perseguem, sou cheia delas, mais de 400 espalhadas pelo meu corpo. Não quero que descubram que já extirpei 25 e que 2 eram malignas da pior espécie. Nem vou revelar a ninguém que tive tanta vontade de matar a dermatologista responsável pelo diagnóstico, que fiquei 3 dias sem conseguir dormir pensando na melhor maneira de eliminá-la. Também não quero que saibam que, apesar de todos os alertas, – nunca tome sol; è um veneno para você; uma dessas pintas ainda vai matá-la – quando me vejo sozinha na praia, abro os braços e declamo para ele os meus melhores versos.

(Lidia Izecson)

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Não vou desenhar um mapa das veias que têm nascido nas pernas, porque não são veias, são pequenos rios avermelhados que indicam os caminhos que nunca percorri, e que portanto não podem ter gerado qualquer dor, ou lesão, ou a irrupção de vasos sanguíneos. Nunca fui a lugar nenhum a não ser este corpo liso e sem estrias de onde escorrego e onde me agarro. Não são minhas as veias. Não sei desenhá-las.

(Luciana Annunziata)

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Nada do que digo sobre ele pode ser encarado como verdade além do nosso laço sanguíneo, nada sobre saudade, nada sobre afeto, nada sobre boas lembranças, nada sobre como está, sobre o que tem feito, o que fará; nada sobre seu temperamento, sobre suas manias, sobre como somos tão desconhecidos, embora tenhamos o mesmo sobrenome e os mesmos pais em nossas identidade.

(Samir Mesquita)

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Disto ninguém saberá: que eu não me culpo por não sentir falta do meu pai; que sua morte, por mais trágica que tenha sido, não tem muito significado para mim; que eu imagino que uma vida com ele seria pior; que eu detesto quando minha mãe tenta transformá-lo num herói possível; que isso que chamam de amor paterno, mais parece obrigação. Não quero contar nada disso, porque meu objetivo aos escrever não é chocar.

(Edmar de Souza)

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Não quer que saibam de seu pânico em ficar doente, que já fez uma ressonância magnética para uma dor na coluna que desapareceu no dia em que pegou o exame, “sem alterações”; não quer também que jamais relacionem fragmentos desconexos de sua vida, que poderiam justificar bobamente seu medo: a amiga que morreu de repente aos vinte e sete anos; o cuidado excessivo dos pais com sua saúde quando era pequena; a irmã caçula da mãe que a avó escondeu a vida toda porque tinha acessos de epilepsia; o que esses episódios não dizem, o que poderiam dizer, não quer que nada disso fale de quando tem certeza de que não está tudo bem.

(Carla Kinzo)

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