Noemi pediu para que pensássemos em um ofício que gostaríamos de ter. Depois, para que contássemos um episódio acontecido naquele dia conosco, como se fôssemos essa pessoa, com essa profissão.

*

Quando virei à direita a barreira policial estava tão próxima que obedeci a instrução de parar. A primeira coisa em que pensei foram nos muitos cálices de malbec argentino que havia tomado. A segunda foi se devia ou não soprar o bafômetro.
O policial que pediu os documentos devolveu-os rapidamente e me mandou seguir.
– Gosto quando comenta os jogos. Não acerta uma mas o importante é ser corintiano. É isso que vale.
Quase disse a ele para que time eu torcia, mas não estava tão bêbado assim.

(Alcino Bastos)

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Toda segunda-feira , por alguma razão, me dou o direito de ler o jornal inteiro. Sei que hoje existem várias ferramentas digitais que calculam com precisão a distância entre um ponto e outro mas sempre acho que vou acertar de cabeça. Levo 15 minutos dirigindo entre minha casa e o Instituto se acordar as nove da manhã e ler três cadernos do jornal, mas hoje é segunda-feira.

(Fernanda Brenner)

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Sobre cães e adiposes

– O seu é o amarelo ou o malhado?
– O sardento.
– E o seu? O mais gordo ou o mais magro?
– O meu cachorro não é gordo. É forte.
– Eu me atrapalho porque as coleiras são iguais.
– Não estou falando de coleira. Meu cachorro é forte. E daí se ele gosta de arroz com frango? Você está me julgando. Julgando meu cachorro.
– Bem, na verdade, isso nem é comida para cachorro.
– E você não é veterinário. E aquele solto ali? Está com você também?
– Volta aqui, Tocha!

(Elidia Novaes)

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KURO OBI*

Uma faixa na cintura não significa uma flexibilidade nos quadris, nem que o corpo responda de modo espontâneo aos seus comandos.
Uma faixa na cintura não quer dizer nada, por mais que você prepare esta pessoa que traz a faixa na cintura a ter flexibilidade nos quadris e que o corpo dela responda aos seus comandos.
Uma faixa na cintura apenas indica um tempo, um percurso, ou uma falha sua de ter permitido aquela faixa naquela cintura.
* faixa-preta

(Samir Mesquita)

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Um pão na chapa…não, espera…aquele pão na chapa com requeijão, sabe?, que fica bem tostadinho?, você fazem?…manda um. E um suco de laranja.

Sempre nos olham assim, né, Rodrigo, como se fôssemos PM que entra nas padarias com vale-coxinha, como se eu não fosse pagar pelo pão com requeijão tostado, mais caro. Ou nos olham assim porque acham que ficamos com parte do que recolhemos por aí e podemos pagar pelo mais caro na padaria? Suco no lugar de média, pão com requeijão tostado em vez de pão com manteiga. Agora todo mundo tem olhos pra gente, todos os dias nossos uniformes pretos na tevê e nos jornais carregando computadores e malas com dinheiro pra lá e pra cá, e aquele japonês da Lava Jato ainda foi nos foder, ninguém já separava mesmo o joio do trigo, agora, então, perdemos o respeito, mas esse uniforme aqui é bonito pra caralho, tenho um puta orgulho, desde criança era o que eu mais queria vestir, nada de conjuntinho e salto alto, queria esse pretinho básico aqui, vou é pedir mais um pão na chapa com requeijão tostado e uma tortinha de morango. Duas. Pra levar.

(Luciana Gerbovic)

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É amanhã! Melhor desmarcar? Tô perguntando isso desde as 10 da manhã e você fica aí com essa cara de bunda sem dizer uma palavra. É amanhã, entendeu? O prejuízo vai ser muito mais seu do que meu.
E tem mais uma coisa, a substituição do Bira por aquele percursionista novo deixou a banda meio capenga, eu não gostei. O ensaio ontem foi péssimo, você não tava lá então não sabe.
E agora essa, não dá, não vou conseguir fazer Atrás da Porta com toda aquela angústia se no meio eu tiver esse ataque de tosse. Desmarcamos? Vai continuar com essa cara de bunda sem dizer nada?

(Lidia Izecson)

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Último andar

A salada verde vermelha no prato na mesa na sala do
apartamento do 14o andar onde no quarto no lado leste do prédio
dorme a menininha doente no berço, 236 da Heitor, edifício Régio,
feito em 1973 por ordem da Igreja Católica, feito de pastilhas laminadas
cor de leite número 25 e ocre número 42 dispostas em colunas assimétricas,
o ocre nos detalhes, a menina dorme no berço no quarto do 14o andar,
acima só um teto falho de telhas metálicas que se movem em toda chuva.

(Isabela Noronha)

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Burocracia

Quando a moça do atendimento burocrático estiver diante de mim, não se lembrará que já estive aqui. Para logo me dispensar, dará a mesma informação pela segunda vez: pedirá para eu agendar um horário pelo site. Então saberei que esse condicionador de ar desligado para economizar energia; essa saleta de 3×3 com pé-direito desproporcional e duas claraboias encharcadas de limo são pilares da destruição do nosso bem-estar-social. Sairei contaminado, odiando ainda mais os prédios públicos projetados por algum sujeito desesperado para pagar suas contas e seus impostos.

(Edmar de Souza)

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Fingi que estava dormindo quando o ouvi falar, a quatro estações do meu destino, que era melhor pedir que roubar, mas antes que ele chegasse a mim com o papelzinho, “qualquer coisa ajuda”, tive vergonha dele (ou de mim) e fingi que despertava. Percorri mentalmente a carteira e, enquanto ninguém lhe oferecia nada, quis muito que chegasse logo minha estação. Eu não posso dar dinheiro a uma criança (era uma criança? Acho que sim) – não depois de hoje, desse dia difícil no fórum. Lembrei de duas moedas no bolso do casaco, esperei que ele se aproximasse pra decidir o que faria, mas quando a porta se abriu, ele pulou pra fora do trem.

(Carla Kinzo)

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