Noemi pediu para que escrevêssemos um texto curto, em que usássemos nossos nomes. O texto deveria começar com as primeiras linhas de A metamorfose.

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Quando certa manhã Carla Kinzo acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada em um inseto monstruoso. O despertador havia sido ajustado para que a manhã não fosse curta demais naquele dia em que faria o teste para a peça do Plínio Marcos – assim como o figurino passado e dobrado na véspera; o texto estrategicamente posicionado ao lado da cama (caso acordasse de madrugada procurando uma fala). Mas quando acordou nada do que fora preparado no dia anterior tinha valia diante daquelas antenas compridas, as costas abauladas e a ausência de pescoço. Não existem atores sem pescoço.

(Carla Kinzo)

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Quando certa manhã Luciana Gerbovic acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada num inseto monstruoso. Finalmente ele consegui me reduzir a isso. Finalmente ele terá que levantar e tentar tirar as crianças da cama. E tirar os pijamas, e vestir os uniformes, e procurar as meias e os sapatos que nunca estão onde deveriam estar, e pedir uma duas três quatro, cinco vezes aos berros, para que saiam da cama. E pentear os cabelos, e escovar os dentes, e arrumar as mochilas, e aos berros, mais uma vez, chamar o elevador enquanto prepara as bisnaguinhas com manteiga, não, sem manteiga, não, com manteiga, não, sem manteiga, não, com manteiga, vocês vão comer o que eu der!, ele vai gritar, e Luciana vai ouvir, não sem um sorriso de satisfação, mesmo olhando para seu corpo asqueroso na cama ainda quente.

(Luciana Gerbovic)

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Quando certa manhã Alcino Bastos acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
A ausência de mãos fez com que saltasse da cama diretamente sobre o trinco da porta, que se abriu de um tranco. Foi andando sobre as quatro patinhas finas pelo casarão que rangia como sempre. Ultrapassou a saleta e todo o assoalho de madeira corrida da sala de jantar evitando as latinhas com veneno de rato espalhadas pelos cantos. Escutou o carrilhão bater o primeiro quarto depois das sete.
– Que bom – pensou – minha mãe está tomando o café. Ela vai me ajudar.
O que assustava era aquela gosma que escorria e ia marcando seu caminho pela casa.
Pai e a mãe olharam para o menino.
– E esses lápis atrás da orelha?
– São antenas.
– Meu filho, você está todo molhado. Fez xixi de novo?
Agora o pai:
– Troque de roupa e limpe este nariz. Já!

(Alcino Bastos)

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Quando, certa manhã, Elidia Novaes acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada num inseto monstruoso. Levantou-se sobre as patas traseiras e, pelo espelho, constatou suas novas feições. Com uma antena, derrubou a escova de dentes da pia do banheiro. Correu a esconder os chinelos sob a cama e esgueirou-se pela casa até o armário onde ficava o material de limpeza. Com grande esforço, jogou para o chão os vidros de álcool e o detefon. Empurrou tudo para trás de uma cortina.
Tentou tomar banho e se vestir. Não havia dentes para escovar, mesmo que agora pudesse alcançar a escova.
Comeu açúcar e farelo de pão no café da manhã. A carteira de habilitação seria inócua, assim como o próprio carro. Tomou o metrô e foi dar aula. Já estava atrasada. Viver, ainda que assim.

(Elidia Novaes)

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Quando certa manhã Lidia Izecson acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se metamorfoseada num inseto monstruoso. Com dificuldade, arrastou-se para fora da cama e rastejou pelo piso frio passando pela fresta da porta da sala. De lá, viu os olhos remelentos do irmão reclamando da falta do suco, e a mãe com seu roupão azul. Inconformada ela dizia: Getúlio morreu. Era o pai dos pobres, conseguiu os direitos para os trabalhadores como eu. Mas tinha que morrer justo numa quarta feira? Para isso não pensou nas mães trabalhadoras. Já ligaram da escola avisando que não vão abrir por luto. Onde vou deixar vocês? Com quem?
Sem fazer ruído, ela voltou para o quarto, escalou a cama e, sorrindo um sorriso que só as baratas sabem fazer, enfiou-se embaixo das cobertas pensando: oba, hoje não tem aula!

(Lidia Izecson)

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Quando certa manhã Luciana Annunziata acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada num inseto monstruoso e vomitou. Por sorte não estava como Gregor, de barriga para cima, mas em posição lateral, mais precisamente fetal lateral, e por sorte maior ainda, ou por uma prudência superior aos efeitos da bebida, Luciana havia posicionado um balde ao lado da cama.
Sentiu-se momentaneamente aliviada, contemplou a gosma que havia expelido e voltou seu olhar para fora do balde, percebendo o quadro colocado na parede do sítio daquele namorado provisório: quem colocaria uma paisagem praiana na suíte de um sítio? Quem? Que bom que… Ela estava em posição fetal lateral e novamente pôde acertar o balde, aliás, que ótimo, o namorado proisório havia sumido e não podia observa-la naquele estado monstruoso, fétido, peludo (as pernas, de fato, deviam ser depiladas no caso das relações provisórias), as unhas descascadas, as manchas do tombo de bicicleta, bem mais roxas do que no dia anterior, os cabelos desgrenhados e ela ali enroscada, retorcendo-se toda com a certeza de que ele se queimaria se tentasse tocá-la.

(Luciana Annunziata)

 

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