Noemi pediu que casa um de nós escrevêssemos um trauma em um papel e passássemos ao amigo ao lado. A ideia era fazer um trabalho entre o presente e o passado: a personagem está vivendo no presente e se lembra de um trauma do passado.

*

INOPERÁVEL

É nessas horas que a gente pensa em se tornar vegetariana. A cabecinha, depois a água fervendo e as penas arrancadas aos poucos, primeiro com as mãos, daí com a pinça. De que adianta? Continua sendo um frango. O corpo ainda se mexe, mesmo depois do corte. Movimentos involuntários, dizem. E o que fazer das vísceras? O coraçãozinho, a pele, o fígado. Hoje não doaria mais os órgãos. Não doaria mais nada. Guardaria tudo comigo, para continuar olhando até a gente desaparecer, até a gente desaparecer junto. Porque lembrar de quando ela aprendeu a falar e a primeira palavra foi cocô já não é mais divertido. O pequeno cérebro que, aos poucos, doía mais do que funcionava. O tumor crescendo e o olhar complacente do médico. Preferia lembrar do nome do remédio que passei em seu joelho depois daquele tombo na praça, quando eu disse que ia parar de doer. Eu jurei que não doía mais. Preferia não ter mentido. Nós seríamos, as duas, vegetarianas agora.

(Elidia Novaes)

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Ela, olhos castanhos quase pretos por trás dos óculos, cabelo não se sabe de que cor e textura debaixo da toca, boca escondida, boca escondida é bom, boca e dentes escondidos, boca e dentes escondidos é bom, boca e dentes atrás da máscara, não dentes, não dentes, não dentes, calma, é só a dentista, não dentes, não dentes, não dentes, que lhe pedia para segurar o espelho, não espelho, não espelho para a perna mutilada sem anestesia na boca de um, na boca de um, na boca de um, um dia falará, na boca de um tubarão, sem anestesia, a gente desmaia, o bom é que a gente desmaia sem desmaiar, não sei, não vi, vi boca, vi fileiras de dentes, vi mar, vi vermelho, vi perna não perna, anestesia, anestesia, doutora, para a menor cárie, por favor, anestesia, e o espelho para enxergar melhor o trabalho bem feito, sem cárie, sem tártaro, sem gengivite, vi gengiva, dentes pontiagudos, fileiras, não vi, vi vermelho, vi azul, vi minha perna na boca de um, na boca de um, um dia falará, o espelho não, não precisa, doutora, confio no trabalho, não, não tire a máscara, não agora, não dentes, não sorriso, um mundo banguela, seres banguelas, só termine, doutora, só termine.

(Luciana Gerbovic)

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Eu sei que você me ama, eu sei, acredito, gostei do anel, é lindo, parece um antigo que eu perdi, mas aquele não era tão bonito, tinha um brilho meio falso, falso como foi tudo, como era o jeito dele pra conseguir o que queria. Olha a lua como está clara hoje, e tem um brilho, parece o brilho desse anel que você me deu. A lua era clara e eu e ele, o canalha, eu tão menina, tão feliz, tão crédula, corola intocada. Acredito que você me ama, é lindo o anel, vou usar sempre. E ele me convenceu, adoro você mais do que tudo e meu pai, minha mãe, eu sem saber explicar o sumiço, e agora o brilho da lua já desaparecendo, como um dia você vai também fazer, você e esse anel tão lindo, me deixando só com a lua.

(Lidia Izecson)

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A balburdia daquela festinha: um corre-corre, gritinhos estridentes e a criançada tentando ver de perto os presentes do Carlinhos.
Zeloso de suas posses recém adquiridas, ele foi juntando tudo na caixa grande do caminhão tanque.
Flavia, um tanto alheia, observa o neto cumprir com seriedade esta tarefa de proteger o que é seu. Ela pensa que não protegeu bem seu bem maior. Naquele sábado ela tomava champanhe e conversava despreocupada com amigos. Enquanto isso sua filha querida enfrentava seu desespero íntimo, suas horas derradeiras.
– Mãe!
Quando seu filho chamou, sua atenção retornou ao aqui e agora. A festinha alegre do neto.
Pelo canto dos olhos reparou em sua neta Celina debruçada sobre a caixa de brinquedos. Quando ela se levantou, tinha nas mãos o lança dardos de plástico. A menina empunhou o brinquedo, introduziu o cano na boca e começou a chupar como se fosse pirulito.
Flavia desesperou pois enxergou a cena – uma cena que ela criou, não sabe se foi assim – a cena em que a moça bonita e inteligente, sua filha caçula, enfiou a pistola na boca e puxou o gatilho arrancando a parte de trás da cabeça.
O “não” ensurdecedor que gritou para a neta, fez com que a menina corresse e fosse chorar na saia da mãe.
Flavia desculpou-se rapidamente com todos e foi para casa chorar.

(Alcino Bastos)

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“Não consigo fazer nada melhor”, e João posiciona as pedras no tabuleiro, encostando a letra “U” e “A” no “R”, que faz parte da palavra “mulher”. Pina bebe o vinho muito alegre, ainda distraída com as cutucadinhas de Mirra, mesmo sendo sua vez de jogar. “O que vem aí?”, pergunta ao marido um pouco embriagada. “Mulher” e “Rua” e agora Pina se esforça com suas próprias pedras no cavalete, pegando a letra “N” e “A”, que podem formar “Nua”, encostadas no “U” de mulher. “Ta calor aqui, num tá?”, Pina se abana e João se dispõe a abrir a janela, mas ela não quer, de repente, irritada com o marido, pensando que nem todo homem gentil de fato pode ser confiado. “Não, João. Estou bem”. E as pedras ainda nas mãos fazem as palmas soarem. O peito avermelhado de calor e descoberto pelo decote, de súbito, causa constrangimento e ela diz. “Me empresta a blusa, Mirra.” “Mas você não estava com calor?”, e a amiga estende a malha. No tabuleiro, a mulher na rua, poderia estar nua, mas Pina não larga as pedras das mãos. Encara o marido, o homem que colocou a mulher lá.

(Rachel Poli)

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O ônibus vermelho de dois andares parou e ele estendeu o pé para o primeiro degrau. A viagem tão planejada a Londres estancou. Sons de tossidinhas discretas queriam fazê-lo avançar, os londrinos são educados. O carro parecia estar a uma distância infinita, ali, virando a esquina naquele final de dia. O passo não rendia, o coração cozinhava no calor insuportável como o do dia no fusca, do vermelho vivo que só foi fabricado naquele ano.
Apoiou-se no cano da porta para se erguer pelo segundo degrau e alcançar o interior do ônibus, o motorista com cara de espanto desagradado, e a esquina do fusca não chegava, e o seu corpo deitado no banco de trás de manhã, latido agradecido pelo passeio.
Sentou no primeiro assento, com a visão escurecida, sem enxergar a Londres sonhada.
Quando chegou ao fusca, ele estava com os olhos mortos, língua de fora e unhas cheias do vermelho daquele ano.

(Eva Maria Lazar)

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Entra no quarto de estudos e escuta a babá com a menina lá embaixo no quintal. Tomam banho de mangueira, a babá, nova no posto, tinha pedido autorização, Presa na cadeira, ela deve sofrer nesse calor. A babá ri, a menina geme. De felicidade!, a mulher diz para si. Felicidade! Mas vem um vento e ela se lembra de que precisa organizar o quarto. E quando fecha a janela naquele dia de luz, sente-se cega por instantes, tropeça num sapato esquecido, quase cai, se confunde, busca o chão e acaba nele, reerguendo-se devagar, só, no escuro, como no dia que soube da doença do bebê em sua barriga.

(Isabela Noronha)

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Era vagaroso que andava – e curvado. Como era possível um animal de quatro patas estar tão curvado, olhando apenas para o chão? Maldito chão que não acaba; a impressão daquela noite era que a estrada não terminaria jamais – fechou os olhos como se freasse. Sentiu o focinho do animal tocar as pontas dos dedos. Estava velho. Somos dois, meu rapaz. Ou sou só eu? Era subitamente um velho naquela noite e desde então, há vinte anos atrás. Agarrou as orelhas do bicho, algo nele continha aquela velha cena: um homem olhando pra mim, deixando de olhar para mim, um homem no chão e, então, um homem que já não está mais. Era isso, aquele homem. Era ele que voltava, estou aqui, vê? Ainda. Na estrada, sob suas rodas.

(Carla Kinzo)

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