Cada um de nós recebeu uma frase no passado, no presente e no futuro. Essas frases deveriam ser colocadas, da forma como recebidas, em um parágrafo que tivesse sentido. As frases estão em negrito.

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É o lufa-lufa da vida na grande cidade. E pra gente que chega, assim, desavisada? Quer dizer, avisar, avisam, mas quem acredita que a gente entra mesmo num vagão do metrô sem querer e não sai quando chega na estação porque não alcança a porta? E que se gasta quatro, até cinco horas do dia, no transporte público, só pra ir e voltar do trabalho? Me contavam, mas eu não acreditava porque na desgraça todo mundo exagera. E quando cheguei na rodoviária, aquele cheiro de sujeira no ar, tudo cinza e frio, tão perdida quanto eu estava uma cachorrinha no meio da rua, parecia um graveto. Peguei no colo e levei pra casa, nós duas vamos descobrir isso aqui e engordar, eu disse pra ela, que batizei Nena, apelido da minha mãe que ficou longe. Dez anos. Dez anos com a Nena me esperando chegar do trabalho, aquecendo a minha cama. Tenho uma Nena aqui, eu dizia pra minha mãe, que ria. Sofri muito quando minha cachorra morreu. Não quero mais. Voltarei depois que tudo acabar.

(Luciana Gerbovic)

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Quando seu quarto pegou fogo por causa da vela na cabeceira da cama, o velho saiu caminhando pela rua como um cego amparado pela bengala. Com o branco nos olhos, o choro escorrendo e a humilhação aos saltos, deixa-se levar pela lua que sussurra no seu ouvido: a pescaria de domingo vai ser um sucesso.

(Lidia Izecson)

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Ela toma um sorvete de açaí e observa a menina brincando.
Mesmo sabendo que haverá um momento cheio de silêncio e algum constrangimento, não resiste.
Na altura da filha, lá embaixo, estalou um beijo na testa, que demorou o tempo dela fechar os olhos e fazer carinha de brava.
– Mãe, para com isso!”

(Alcino Bastos)

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Quando eu for velho vou me lembrar do que acabou de acontecer e darei o troco. Tenho tempo, venho estudando há anos como voltar lá; aprendi muito, estou entupida de conhecimento. A coisa aconteceu sem eu me dar conta, distraída pelos pensamentos. Há horas passeava por aquele campo, ele veio em marcha batida pela estrada do alto. Passou por mim, dei bom dia. Já me afastando, senti a pedrada nas costas ao som da risada louca dele. Ah, me aguarde, um dia eu volto.

(Eva Maria Lazar)

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Mas eu sirvo o jantar sem ele?, ela pensava, enquanto estendia a toalha; semana passada já foi a maior confusão porque esse homem se atrasou e eu tive que esperar a gritaria terminar pra pensar em voltar para casa; é, eles brigam e eu pago o pato, ela sofria, mas antes que alcançasse os pratos, ouviu o patrão abrir a porta, “fui comer uma pizza“; eita que é hoje que a porca vai torcer o rabo.

(Carla Kinzo)

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