Noemi nos pediu para sortearmos duas situações: uma importante e outra bem trivial. Deveríamos colocar duas pessoas conversando, uma falando sobre a coisa importante e a outra falando sobre a coisa trivial.

*

Luciana sorteou: 1. Morte da filha no dia de seu baile de debutantes | 2. pessoa com coceira atrás da orelha por causa de xampu seco.

– Ah, que bom que você voltou, como você tá? Imagino que péssima, não dá, né, pra superar, quer dizer, dá, mas, nossa, a gente rezou muito aqui por você, todos os dias, nem sei o que te falar…

– Não precisa falar nada, não… sei que rezaram, me ajudou muito, obrigada, mas como uma mãe supera a morte da filha no dia da sua festa de debutante, como?

– Não sei, não sei mesmo, que coisa mais triste, meu Deus, não repara não nessa coceira que eu tô, viu…

– Tudo bem, nem sei como levantei da cama esses dias todos, ainda bem que tenho esse emprego.

– Acho que fiquei com shampoo atrás da orelha. Sabe quando seca e coça?

– Não.

– E fica parecendo que eu tô distraída, né, mas olha…

– Eu sei, eu sei, tá tudo bem, fiquei dois meses fora, a diretoria foi tão compreensiva comigo.

– Mas você nunca ficou com shampoo seco atrás da orelha? Nunca?

– Não, acho que não, nem sei mais como eu lavo o cabelo…

– Nossa, que sorte a tua, olha pra mim, parece que tô com sarna.

– É. Bom, deixa eu ir, tô atrasada.

(Luciana Gerbovic)

*

Alcino sorteou: 1. dia de defesa da tese de doutoramento. | 2. pessoa removendo os pelos do buço.

– Beth, vamos! Preciso sair agora. Chegar antes, me posicionar, deixar o material no jeito.
– Um minutinho só pelo amor de deus! Não posso remover antes de cinco minutos.
– Tinha de fazer isso agora? Você quer que eu passe vexame; é isso?
– Ah, Alice! Não faz drama vai? É tudo proforma. Defesa de tese é só encenação.
– Ah é? Você é que não tem ideia. Sabe quem está na banca?
– Não sei e não quero saber e também não quero mostrar meu bigode para ninguém, tá?
– Não tem bigode nenhum. Está tudo perfeito. Você sabe disso.
– Ai meu deus. Olha só como ficou! Removi antes do tempo. Tudo vermelho. Vai embora, vai! Hoje eu não vou sair de casa.

(Alcino Bastos)

*

Rachel sorteou: 1. pessoa que ganha na loteria. | 2. alguém estalando os dedos.

– Ó, ó. Viu?
– Francisca, Francisca.
– Tá vendo? Não para mais.
– Francisca, olha isso aqui, peloamordedeus.
– Meu dedo vai ficar roxo, Maria. Vai cair. Tem que parar.
– Preciso ligar para as pessoas. Pensando bem, se eu sair contando pra todo mundo…
– Que meus dedos vão cair?! Não conta! Ele vai parar de estalar em algum momento. Tem que parar.
– Eu preciso parar de pensar pequeno. Agora posso contratar alguém para fazer tudo por mim. Será que vão repetir os números na TV?
– Você notou essa mudança? Antes, era o indicador, agora é o do meio. Será que quebrou?
– Não se preocupa, Fran. Eu te compro uma mão nova. Só preciso achar a próxima lotérica…
– Na lotérica tem implante de dedo? Segura a minha mão, Maria! Faz parar!
– Parar? Não quero que isso acabe nunca mais. Agora, a gente só para, quando chegar a Paris!

(Rachel Poli)

*

Samir sorteou: 1. encontro de adoração ao sol. | 2. alguém empilhando folha sulfite.

– Sai dessa posição e vem me ajudar.
– Não vê que estou impossibilitado no momento, o Ser Sol pode depois me punir com um eclipse total.
– Mas isso aqui é urgente.
– Uma pilha só é urgente se for alta suficiente para nos levar até o Ser Sol. Mas uma pilha de papel sulfite nem para isto prestaria, porque logo se queimaria.
– Mas pra gente não se queimar com o chefe é melhor você me dar uma mão aqui, vai.
– O Ser Sol merece respeito e devoção mais do que nosso chefe.
– Bem, só espero que te ensinem também nessa parada aí a se alimentar de luz.

(Samir Mesquita)

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Carla sorteou: 1. encontro de adoração ao sol. | 2. alguém empilhando folha sulfite.

– Então.

– Espera um pouquinho, espera um pouquinho… Que número que eu te falei?

– Dezoito?

– Dezenove! Isso. Ufa. Continua.

– E aí eu tô de branco desde ontem, mas é hoje que é obrigatório. Só que eu quis garantir, e olha, deu certo, você viu que manhã? Que sol?

– Ahã.

– Vai ser lindo. Você tem algum pedido? Porque eu posso mentalizar você na hora, tem? Vai ser meio-dia em ponto.

-Sim.

-Qual?

-Qual o quê?

-Pedido, flor!

-Espera um pouquinho… Ok. Vinte e quatro. Grava pra mim. Que pedido?

(Carla Kinzo)

*

Eva sorteou 1. Morte da filha no dia de seu baile de debutantes | 2. pessoa com coceira atrás da orelha por causa de xampu seco.

Nunca imaginei te ver aqui.
Pois é, nem eu me imaginei.
Fica calma, tenta vai, a vida tem umas coisas que a gente não entende…
Logo hoje? Logo hoje, Mazé?
Nem fala, tanta preparação, tanta expectativa…
A gente deveria estar cortando o bolo bem agora.
E a valsa? Teu marido numa elegância.
Mazé, não tô conseguindo nem ficar em pé… Mazé, o que você tanto coça esta orelha, mulher? Tá me deixando mais desesperada ainda!

(Eva Maria Lazar)

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