Noemi nos pediu para imaginarmos uma situação e contá-la em dois diálogos, cada um tendo um interlocutor diferente.

*

1.

Nossa, o que aconteceu com a porta do carro?

Ah, bateram.

Nossa, mas como bateram? Quem bateu?

Eu.

Você bateram?

É, bati. Eu bati. Na garagem, aquela coluna, sabe?, aquela coluna que a gente não consegue ver, naquele ponto cego, eu não olhei, quer dizer, eu olhei, mas…

Mas, o quê? Você olhou? Não olhou? O carro apita todo quando se aproxima de algum objeto.

Então, mas aí, bem aí na porta, não apita, e eu não vi. Não vi, ué, acontece.

Hum-hum, acontece.

2.

Nossa, o que aconteceu com a porta do carro?

Puta que pariu, bati manobrando na garagem, não vi a coluna.

Não viu a coluna?

Não vi a coluna, ué, saí toda torta, olhando o whatsapp, terminando de passar a maquiagem, ah, essa correria danada todo dia, puta que pariu não aguento mais correr desse jeito, não vi a coluna, acontece.

É, acontece.

(Luciana Gerbovic)

*

1.
Meu Deus, foi quase! Quase, quase, quase. Me distraí falando com você e passei num amarelo quase vermelho e veio um ônibus e…Não, a Marina não tá no carro. Hum. Mas eu disse que precisava desligar e você veio falando da festa da vovó, hum. Hum. Então…Hum. Deixa…Hum, ó, tá, agora preciso ir mesmo, beijo!

2. Senhor, olha, me desculpe, me desculpe mesmo, mil desculpas. Mas é o que o sinal ainda não estava vermelho, o ônibus também foi um pouco afobado, eu, sabe, eu sou mãe, viu, uma menininha, é, dez meses, não ia me arriscar assim, né.

(Isabela Noronha)

*

1.
– Eu entendo. Mas uma viagem tão longa?
– Como assim? Seis meses?
– Então; você não prefere primeiro tomar pé no trabalho e depois, com mais dinheiro…
– Não vai fazer falta. Eu não fico no Ritz, sabe? Não fico vendo estrela de restaurante para comprar meu sanduba.
– Bom, você já tem idade para saber. Só acho que sua mãe vai ficar triste.
– Ah sei! Quando ela perceber já estou de volta. Aí conto para ela que fui, tá?

2.
– Nossa! Demais mesmo. E o Carlinhos?
– Ué! Vai comigo.
– E seus pais? Sabem?
– Da Viagem. Do Carlinhos nem pensar. Sou louca por acaso?
– Se inveja matar então já morri.
– Sabe que minha mãe nem falou nada?
– Como assim? Não perguntou nada?
– É. Nem para onde eu vou.

(Alcino Bastos)

*

1.

– Finalmente.

– Finalmente o quê?

– Finalmente vou poder mexer com madeira, vou fazer aquele curso de marcenaria agora, pensa que não?, vou mexer com parafuso, martelo, prego, furadeira; o tempo é meu! Meu!

– Mas o que houve?

– Saí! Pedi as contas! Sou um homem livre!

 

2.

– Então.

– O quê?

– Tenho que te contar uma coisa.

(…)

Tive que pedir demissão.

(Carla Kinzo)

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