Noemi propôs a Carla que fizesse a adaptação do conto “O pastelzinho”, de Nelson Rodrigues, de modo que fossem explorados os diálogos.

*

  1. DIA – CORREDOR DE HOTEL

Não há ninguém, além de Sérgio, um homem de aproximadamente 40 anos, no corredor do hotel. Ele está bem vestido, terno, camisa, mas nota-se que sua gravata está afrouxada no pescoço. Sérgio está em frente a uma das portas do corredor, da qual não tira os olhos. Está visivelmente nervoso, mas se contém Ele faz que vai bater à porta, mas desiste, a mão em concha no ar. Com a mesma mão débil, investiga o maço de cigarros nos bolsos da camisa – sim, o maço está ali. Ele checa o relógio de pulso, quase seis, depois olha para os lados. Não há ninguém. Sérgio faz uma nova tentativa. Desta vez consegue bater com o nó dos dedos nervosos na porta, encorajado pela solidão do corredor.

 

SÉRGIO (a voz contida) – Dalva.

 

Tempo.

 

SÉRGIO (mais assertivo) – Dalva!

 

Sérgio tenta abrir a porta, mexe na maçaneta. É então que a mulher do outro lado responde.

 

DALVA – Sérgio, por favor!

 

SÉRGIO – Meu bem…

 

DALVA (enérgica) – Por favor, Sérgio!

 

SÉRGIO – Eu só queria te…

 

DALVA (definitiva) – Fica aí!

 

Um casal passa no fundo do corredor. Sérgio olha para eles com o canto dos olhos, como que pego fazendo algo errado. O casal não percebe que ele está ali; eles conversam animadamente, apaixonadamente. Esperam o elevador. Sérgio espera que eles saiam. O elevador demora. Sérgio transpira. Ele limpa o suor da testa com os punhos da camisa. Ouve-se o soar da chegada do elevador. O casal sai da visão de Sérgio. Suas vozes se distanciam. Sérgio espera que elas sumam de vez para tentar falar com Dalva mais uma vez.

 

SÉRGIO (batendo uma única vez com o nó dos dedos na porta) – Dalvinha…

 

Tempo.

 

SÉRGIO – Dalva!

 

DALVA – Meu Deus, Sérgio!

 

SÉRGIO (cuidadoso) – Querida, não é o caso de um… elixir paregórico?

 

DALVA (quase histérica) – Não!!!

 

Sérgio vira os olhos, impaciente. Agarra sem prudência um dos cigarros do maço dentro do bolso, enfia-o na boca; retira do bolso da calça um isqueiro e, ao se virar sobre os calcanhares, acendendo o cigarro, dá de cara com um funcionário do hotel. Eles se encaram. Tempo.

 

SÉRGIO (irritado) – Que foi?

 

FUNCIONÁRIO – É que. Não pode fumar aqui, senhor.

 

SÉRGIO – Ah.

 

FUNCIONÁRIO – Me desculpe, senhor, mas.

 

SÉRGIO – Sim, sim.

 

Sérgio tira o cigarro mal aceso da boca e, sem jeito, acaba quebrando-o ao meio.

 

SÉRGIO – Mas que merda, que merda.

 

O funcionário está saindo devagar, quando Sérgio se vira para ele.

 

SÉRGIO – Por favor!

 

FUNCIONÁRIO – Sim.

 

SÉRGIO – Acha que…

 

Tempo. Funcionário parado olhando-o. Sérgio olha para a porta.

 

FUNCIONÁRIO – Senhor?

 

SÉRGIO (falando mais baixo, afastando-se da porta pela qual conversou com Dalva) – Rapaz, acha que poderia ir até a farmácia para mim?

 

FUNCIONÁRIO – É que. Eu não posso…

 

SÉRGIO – É caso grave.

 

FUNCIONÁRIO – …deixar meu posto…

 

SÉRGIO – É vida ou morte, rapaz!

 

FUNCIONÁRIO – …sem autorização do meu superior…

 

SÉRGIO (retirando dos bolsos uma nota de dinheiro) – Por acaso isso aqui…

 

FUNCIONÁRIO (olhando para os lados) – …e se alguém me vê sair…

 

SÉRGIO (com a nota no ar) – …isso ajuda?

 

  1. DIA – RUA EM FRENTE AO HOTEL

O funcionário do hotel está esperando para atravessar a rua e retornar. Ele olha ora para os lados, ora para a avenida. Está apressado – e não quer ser visto. Tem nas mãos um pacotinho de farmácia, com o elixir dentro. O farol demora para abrir para pedestres. É então que ele ouve um grito e, súbito, o corpo de uma mulher cai em frente ao hotel. Gritaria, confusão. Funcionário atônito.

 

 CORTA PARA CRÉDITOS:

O BEM-CASADO

Adaptação do conto “O pastelzinho”, de Nelson Rodrigues, por Carla Kinzo

 

 

  1. DIA – SALA DE DEPOIMENTO/DELEGACIA

Os depoimentos a seguir compõem uma longa sequência de cenas, não enumeradas. A ideia é que haja uma composição polifônica sobre o ocorrido.

O AMIGO, um homem de aproximadamente 40 anos, dá seu depoimento.

 

AMIGO – Foi. A gente conversou pouco antes do casamento. Coisa de. Coisa. Cara, coisa de amigo, entende? É que ele tava preocupado com a noiva. Não, não com ela, mas com eles, entende. Não, eles não tinham um problema não, não é isso. É que Sérgio é um homem. Um homem. É um homem por natureza emotivo… É normal que se preocupasse. Com a primeira. Com a primeira… Cara, com a primeira, entendeu?

 

O MÉDICO, um homem de aproximadamente 60 anos, dá seu depoimento.

 

MÉDICO – Eu o atendi, sim, dia 14. Uma semana atrás. Eu ainda pensei que pudesse ser o caso de um calmante, mas depois, conversando melhor, achei que não. Acontece, as pessoas ficam ansiosas, é natural que às vésperas do… Como? Agitado…? Pode-se dizer que sim, um pouco.

 

O FUNCIONÁRIO DO HOTEL dá seu depoimento.

 

FUNCIONÁRIO – Elixir paregórico. Não faço perguntas, doutor. Não, não podia sair, mas acontece que. Bem. Ele disse que era caso de vida ou morte. É, ele disse. Confirmo. Tava. Olha, doutor, eu só fui atrás do elixir, não fiquei olhando muito pra ele não.

 

O SOGRO dá seu depoimento.

 

SOGRO – Sim. Obrigado. Eu só quero resolver isso o mais rápido possível. Pode ser sem ser gelada, obrigado. Eu nunca gostei desse homem. Nunca. A Dalvinha não era disso, depressão… E o que é que é isso, depressão? Minha filha era um doce, tranquila, sem um pingo de tristeza nos olhos. (Emociona-se) Perdão. Mas me diz, meu bom rapaz, por que uma noiva se atira da janela na noite de núpcias? Ou ela foi jogada…?

 

A DOCEIRA dá seu depoimento.

 

DOCEIRA – Meus doces nunca deram problema, isso é uma afronta, há trinta anos que eu trabalho com casamentos, a história desse noivo é um absurdo completo e eu me recuso a continuar com essa palhaçada! (Tempo. A doceira se apazigua) Tá bom. Tá bom! Olha, podem checar minha cozinha, data de validade de tudo, meu bem. Não uso nada estragado, nada passado, nada vencido e nem perto de vencer, é tudo fresco, limpo, higienizado, organizado, embalado no mesmo dia com três qualidades de papéis finíssimos!

 

O TAXISTA dá seu depoimento.

 

TAXISTA – Eu sei lá, eu não fico, assim, ouvindo conversa alheia quando tô trabalhando. Ok. Ela tava. Com uma cara, assim, incomodada. É. Cara de gases. Ele queria era chegar logo, falou pra eu correr, mas olha, eu não ando acima da velocidade, viu. Eu sei lá, coisa minha.

 

Os depoimentos seguem cada vez mais entrecortados.

 

MÉDICO – Sim, a recomendação era evitar as frituras.

 

DOCEIRA – Não, os bem-casados não são fritos, que pergunta.

 

FUNCIONÁRIO – Sim, só elixir paregórico.

 

AMIGO – Não, eu não vi ele comendo nada na festa.

 

SOGRO (bebendo um copo d’água) – Uma coisa é certa, eu sempre tive o pé atrás com esse um…

 

DOCEIRA – 30 gemas, 20 claras, farinha e açúcar. (Tempo) Que foi? É, doutor, é bastante ovo.

 

AMIGO – Disse. Ué, mas é verdade ou não? A primeira noite é quando se decide tudo. Ou tô errado?

 

DOCEIRA – Se não tiver ovo, não tem doce, é simples desse jeito, agora a culpa de tudo é o ovo?

 

MÉDICO – A recomendação era dar preferência aos bifes, às carnes assadas, melhor ainda se sangrentas.

 

TAXISTA – Ela pulou do táxi, isso foi, saiu correndo. Ele? Assim, ele tava com uma cara meio branca, meio sem sangue, assim, sei lá.

 

MÉDICO – A recomendação é evitar esse tipo de docinho.

 

AMIGO – Eu comi um monte no fim da festa…

 

SOGRO – Dalva nunca foi de se empanturrar!

 

AMIGO – Não notei nada. Bom, minha mulher achou o doce pesado…

 

FUNCIONÁRIO – A camareira disse que ouviu o homem aos berros, “foi o bem-casado, o bem-casado!”

 

AMIGO – Conheci assim, assim. Sei que não falava muito. Aliás, era uma esfinge. Não transpirava; o cabelo sempre no lugar, moça fina.

 

MÉDICO – Pode ser que ela tenha tido uma reação emocional a tudo aquilo, pode ser que tenha sido um mal-estar, pode ser.

 

SOGRO – Dalva nunca foi de excessos!

 

DOCEIRA – Não, a noiva não chegou a experimentar antes, não.

 

SOGRO – Quero esse homem na cadeia.

 

AMIGO – Ele não merece passar por isso depois do que aconteceu. Percebe? O cara já tá marcado…

 

MÉDICO – Pobre rapaz.

 

TAXISTA – Eu que não queria tá na pele desse cara.

 

DOCEIRA – Coitada dessa menina.

 

SOGRO – Estava tão linda a minha filha. Parecia uma rainha.

 

AMIGO – Pareciam tão bem os dois na cerimônia.

 

FUNCIONÁRIO – Ela parecia que voava. Parecia uma coisa que voava. Coitado… E eu nem tive coragem de entregar o elixir paregórico… Será que eu posso deixar o remédio na delegacia, doutor?

 

FIM

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