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Noemi propôs para Rachel um texto que se fizesse a partir do diálogo de um casal, na cama, antes de dormir. Eles se gostam, mas perderam o interesse um pelo outro.

 

Rachel Poli

– Você tá ouvindo esse barulho?
– De-sen-tu-piii-dor. Há.
– Ah, Augusta, francamente.
– Hahaha!
– Você quer que eu compre um pra você?
– Como você é egoísta, Fernando. É uma palavrinha só.
– Mas aí não sobra nada pra mim.
– Você fica aí parado, parece morto. Resolvi te ajudar.
– Obrigado, Augusta, pelo seu altruísmo.
– Desde quando você se importa com palavras-cruzadas?
– Sei lá. Resolvi ter um hobby.
– Tô vendo. Onde você arranjou isso?
– Você pode soltar o lençol? Tá deitada em cima…
Augusta levanta o corpo com desajeito, se desequilibra e cai. Tenta outra vez. Fernando puxa o lençol e o ajeita milimetricamente ao redor das pernas.
– Sobrou uma pontinha amassada ali — Augusta ironiza.
– Você não ia ver TV?
– Ia. — olha para a TV ligada — Mas tá passando aquela novela lá.
– Aquela do casalzinho, que se apaixona, blá blá blá?
– Nossa, é muito drama! Não aguento.
– Qual é o nome daquele ator mesmo?
– Qual?
– Aquele lá. Do peitoral.
– Peitoral?
– Augusta, você sabe muito bem quem é. O que tem o beiço do tamanho de uma jiboia.
– Ah. Cauã Reymond.
– Esse aí.
– Que que tem?
– Ah, sei lá… Ele tem cara de broxa.
– Broxa?
– É, é. Broxa. A moça fica lá, dando em cima, dando em cima. O cara, nada.
– Huumm.
– Você não acha?
– Ué. Não sei.
– Não sabe?
– Eu lá vou saber se o Cauã Reymond é broxa, Fernando.
Augusta muda de canal. Fernando coça o peito, descoberto pelo pijama de cetim.
– Eu nunca fui desse jeito.
– Hã?
– Meu avô chutava a minha bunda, quando achava que eu tava sendo mole.
– Ah é? O vô Durval?
– Não, o outro. O que morreu.
– O homofóbico?
– É.
– Huuuuuummmm.
– O quê?
– Nada não.
Fernando suspira e pega um maço de cigarro no criado-mudo.
– Ai, Fernando. Sinceramente.
– O quê?
– Nada, nada! Fuma o quanto você quiser.
– Obrigado.
– Te dá bafo.
– E eu ligo?
– Não liga pro bafo, não liga pra saúde, não liga pro teto que vai ficar todo preto com a fumaça… Agora, o Cauã Reymond! Ahhhhh, ele deve ser broxa.
– É. Quer um trago?
– Quero.
Os dois fumam. Augusta cospe a fumaça para o teto.
– Se ao menos isso aqui fosse um beque, hein, Fernando. Quem sabe, a gente não…
– Ó aí. De novo. Tá ouvindo?
– O quê.
– Esse barulho. Abaixa a TV.
– Não tô ouvindo nada.
– Shh. Ó. Ouviu?
– Não.
– Esse nhec-nhec-nhec. Não tá ouvindo?
– Hahaha!
– O quê.
– Deve ser a vizinha.
– … a vizinha? — Fernando amassa as palavras-cruzadas na mão.
– É. A vizinha.
– Qual vizinha?
– A de cima, ué. Qual mais?
– Ahh.
– Desde quando você conhece as vizinhas, Fernando?

 

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