unnamedPor Carla Kinzo
* versão integral do conto cujo trecho foi divulgado pela Ilustríssima.

Dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo o seu fôlego tentando conquistá-lo, era o que você não me dizia da estante, do livro que não me esquecia, que não era você, e que, no entanto, era você inteira – “para que você não se esqueça”.

 

Eu me lembro. Eu precisava esquecer. Primeiro de abril, mil novecentos e sessenta e quatro. Duas e quarenta e cinco da manhã. Acordo antes do despertador. Perco um tempo olhando o teto do quarto, suas manchas. Elas não me dizem muito – e olho. Da janela, uma lufada de vento me lembra que há mais do que o teto.

Lembro que é hoje o dia. O despertador vai tocar em quinze minutos.

Lembro, foi há um ano que te deixei em São Paulo.

 

O tempo sabe dizer do que não saberemos nunca, do que não deveríamos saber. De copos sujos sobre a pia. Daquilo que temos que abandonar ao fazer a mala que talvez precise durar o resto de uma vida. Do que há no verso de dedicatórias breves, em livros que irão para sempre nos perseguir, “para que você não se esqueça”.

 

Duas e cinquenta e dois. Levanto quase sem pressa, mas calculo os minutos que antecedem a chegada do carro que me levará à fronteira. Confiro o que falta fazer: nada. Quase nada. Preciso deixar um trabalho inacabado sobre a mesa. Ainda tenho algum tempo, dá tempo. Devo ser um monge para dar conta dessa espera – e da rua, e de mim, e dessa falta agora, quarta-feira, de repente.

 

Agora, essa palavra que mente. Sinto: devo te escrever. Para me salvar de desaparecer, se tudo der errado. E quem sabe mudar o curso dos acontecimentos; me salvar de desaparecer aqui (outra palavra que mente).

 

Aqui. Agora. Enquanto há algum tempo.

 

Então agora (e aqui): você. Esquecer os ponteiros. E depois, lembrar: são três horas da manhã. Tenho duas horas.

Olho a escrivaninha. O livro que você me deu é grande demais, não há espaço para ele. Olho ao redor: há alguém, outra pessoa em mim, muito desleixada, que me acompanha. E ela quer te escrever, dizer o que está se passando: talvez eu tenha que mudar meu nome. É por isso, é porque devo desaparecer que quero que você não me esqueça, que não deixe ir essa parte de mim que te lembra agora, que carrega o nome que vou ter que esquecer. Minha outra metade, essa que será rebatizada, me diz, prática: seja um monge. Esquece. O tempo é curto. Deixa ir São Paulo, esse livro, o seu nome, deixa Maputo; esquece a ideia de escrever a essa mulher, não há tempo, meios, como dizer.

 

Olho a máquina de escrever sobre a mesa e, depois, o livro que você me deu. Não para que você se lembre do tempo. Agora, Ana, e aqui: esse tempo. Você escrevendo o verbo dos dias que me prenderiam para sempre no dia em que parti – esquecer. (O livro me diz para não lembrar, você me diz para não esquecer; eu não te escrevo, mas fico a sua volta como um besouro) (Você sob o sol: minha lâmpada).

 

Três e quinze da manhã. Sento à máquina, sem café. A mala feita ao lado da cama é pequena, como deve ser. Tento organizar um texto que me dê um álibi em volta do mecanismo das teclas. Se não tivessem me avisado tão em cima da hora, tão sem tempo pra pensar direito, esse texto já estaria escrito. Abro meus cadernos com anotações de um ano atrás, feitas no Brasil; cinema, literatura e, de repente, você: como se diz amanhã em Changana, “você me distrai”; Diz! “Por que, Ana?” Porque sim – e eu me rendo às suas respostas curtas, porque sim, era sempre assim. “Mundzuku”. Então Mundzuku você não vai estar mais aqui. “Vem comigo.” Eu? Em Moçambique? Vou fazer o quê em Moçambique? Você ri. Eu finjo que rio; será que você se dá conta do que acontece em mim quando você ri e eu finjo?

 

Volto para o quarto: agora e aqui. Três e quarenta cinco. Você em algum lugar em São Paulo e eu ainda aqui, neste lugar, em Maputo. Ainda. Por mais uma hora e quinze nesse quarto. De frente para o papel, penso se algum dia conseguirei ler o livro que você me deu de presente, a caminho do aeroporto, no dia em que voltei. “Faulkner?” Para que você não se esqueça.

 

Lembro: deixar um artigo inacabado na máquina, como se estivesse me esperando. “Maputo, primeiro de abril de sessenta e quatro”, digito. Quase quatro da manhã. “Os cafajestes, primeiro longa de Rui Guerra”. Certo, Rui Guerra. “O filme não se propõe a fazer um diagnóstico do Brasil, ainda que construa uma crítica contundente à classe média”, repito o que escrevi em algum lugar, algum tempo atrás. “A atriz Norma Benguell faz uma aparição memorável”. De repente, me dou conta, “a câmera é agressiva ao redor de sua nudez”, é para você que escrevo, “no longo plano-sequência”, como se conversássemos depois de uma aula, “são quatro profundos minutos”, aquelas nossas conversas sérias sobre nossos países, “que ressoam por muito tempo”, em que eu te revelava algo meu, “no deslocamento sem rumo”, querendo te confessar, “daquelas personagens”, de forma cifrada:

 

Nilava Wena.

 

Procure saber o que é isso, miúda.

Vejo suas sobrancelhas se levantarem, você não gosta que te chame de miúda. Gosto de te ver reagir ao meu jeito de falar o português que você fala.

 

Olho a mala: quatro e vinte. Tenho quarenta minutos. Se eu não me perder no tempo, se eu conseguir entregar a carta pra alguém… mas quem? Talvez Gulamo, Nilava Wena, talvez ele coloque o envelope no correio para mim, Nilava Wena, Gulamo não faz perguntas, Nilava Wena, vou até ele antes que o carro chegue.

 

“Você vai gostar do livro. Fala de algum jeito das plantações de algodão, do que está em volta disso. Lembrei das plantações em Moçambique. Do inferno branco. Isso um dia acaba, sabe.”.

 

Quatro e meia: troco de roupa, qualquer roupa. Tenho ainda meia hora, meia hora. Enfio o livro que você me deu na mala e escrevo num papel o que não lembro se cheguei a te dizer, Nilava Wena. Apenas isso. Você vai saber. Olho o quarto. Artigo inacabado na escrivaninha, desordem calculada de papéis, livros, copos sujos sobre a pia. Como alguém que vai voltar. Como alguém que um dia eu fui. Anoto seu endereço no envelope. A hora certa marca: oito e trinta e cinco. A hora certa diz: espere em seu quarto. Mas a hora certa aqui marca a hora errada onde você está.

 

Abro a porta do quarto, sem barulho. Me movo feito um tigre pelo corredor, subo as escadas. Bato na porta de Gulamo com o nó dos dedos. Quatro e quarenta. Nada. “Gulamo”, falo baixo. “Sou eu”. Ouço um barulho no andar de cima. Gulamo não está, Gulamo não está. Lembro das instruções: descer pouco antes das cinco, o carro não deve ficar parado na rua. Algo em mim estala, é isso? Vai ser assim? Sinto um tranco no estômago. Volto para o quarto. A mala, de repente, pesa. Me pergunto por que não li seu livro enquanto havia tempo. Então me lembro do tempo que fazia na última vez que te vi. Sem sol, mas você estava de laranja. Sua roupa aquecia aquele quadro. “Isso um dia acaba, sabe.”. Sim. Acaba.

Fecho a porta do quarto. O que há atrás da porta acabou-se também.

 

Tão cedo, quatro e cinquenta da manhã, e era tarde demais.

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