1o de abril
Por Elidia Novaes
* versão integral do conto cujo trecho foi divulgado pela Ilustríssima.

“Dou-lhe este relógio, não para que você se lembre do tempo, mas para que possa esquecê-lo por um momento de vez em quando, e não gaste todo o seu fôlego tentando conquistá-lo.” – William Faulkner

– Tá de bem comigo, amigão?

Rua São Bento logo cedo, fervilhando de pedestres em frente à Botica Ao Veado d’Ouro. O homem segue sem reação com sua mala de caixeiro.

Agora sorri para uma jovem de uniforme do Caetano de Campos. Levanta o polegar em sinal de positivo.

– Tá de bem comigo, mocinha?

Talvez ela o tenha ignorado. Talvez só não tenha ouvido. Desta vez são dois cavalheiros descendo a rua com olhos fixos no prédio da Bolsa de Valores. Sorriem vagamente em resposta e passam ansiosos pelo dia.

Um casal vem do Mercado Central com uma sacola de lona que cheira a manjericão e orégano. Rapazes de calças jeans boca-de-sino carregando livros de capa dura a caminho do Largo São Francisco. Músicos da orquestra, funcionários do Banco do Brasil, soldados do exército. Dois homens-placa conversam: um anuncia ouro, o outro uma liquidação. Um trio toca Luiz Gonzaga na Quintino Bocaiúva.

Com a força dos meus braços

Pego a enxada e cavo o chão

Quando cai uma chuvada

Pranto arroz, mio e feijão

Ele fala com todos.

– Tá de bem comigo, amigão?

As pessoas que trabalham por ali já estão acostumadas. Às vezes, alguém lhe responde o cumprimento.

– Tô de bem. E você?

–  Tudo bem, amigão. Seu relógio! Eska Automático – “traga no pulso esta obra prima de precisão e técnica”.

A pessoa fita o próprio pulso, sorri e segue adiante. Ele sempre acerta.

– Tá de bem comigo, mocinha?

Ela espera o ônibus e venta frio. Resmunga algo.

– Omega – “algum dia, alguém que muito a quer ofertar-lhe-á o relógio com que você sonha”.

E quando alguém elogia sua memória? Ao menos sorri. Ele imediatamente avança para a próxima fase.

– Quer trocar? O meu é Lincoln. “Lincoln define o bom gosto de seu possuidor”.

O diálogo costuma terminar por aí, alguns puxando o punho da camisa até cobrir o relógio e tomando o primeiro ônibus ou buscando a segurança do vendedor de churrasco grego ali na Rua Direita. Mas quem trabalha naquela parte do centro entrega para ele seus relógios definitivamente sem conserto. Ele guarda todos e os alterna o tempo inteiro – às vezes usa até dois no mesmo pulso.

Hoje ele não me viu; agora segue em direção ao Viaduto do Chá. Mas aqui termina meu percurso. Trabalho no Cine Alhambra. Vendo balas ali no hall. Apareça! Temos um faroeste ótimo em cartaz. “Quando um homem é um homem”. John Wayne e Maureen O’Hara. Sabe como é com os faroestes: tem diversão, aventura, tiro pra todo lado. Além do mais, o mocinho sempre ganha no final. Conquista a garota, encontra o dinheiro roubado, prende o bandido, mata o índio. E ainda tem aquelas pistolas que a gente não vê por aí. Com um tiro, o cowboy mata três fora-da-lei e ainda derruba um do telhado. A gente brinca que tem uns que acertam até na poltrona da fileira G. Mas o que importa é que toda a plateia sai satisfeita.

Olha lá. São 8h50. Cheguei cedo. Ele diria que, com o meu Omega, eu sempre chego na hora. E completaria: “Omega, um relógio notável!”

Lá vai ele… Agora abordou uma mulher ali em frente à Sloper… Ha! O cara é de lascar mesmo. Você ouviu? Ele disse “Eterna Matic. Tonia Carrero escolheu Eterna Matic”. Não erra nunca. A madame até sorriu.

Ele dorme num banco no ponto de ônibus coberto do Patriarca. Eu guardo seus pertences no meu armário aqui no Alhambra: um agasalho, um cobertor, algumas roupas, um par de sapatos que alguém lhe deu e, é claro, sua coleção de relógios inoperantes, muitos dos quais desprovidos de ponteiros. Um Tissot, dois Technos. Tem até um Mido e um Seiko. Também uma carta toda amarrotada e encardida, o envelope rasgou. É da mãe. Está sempre lendo de novo. Ele repete que ela vai voltar às 11. Toda vez eu digo que não entendi. Já perguntei, mas ele não explica.

Hoje meus pés estão me matando. Quando começar a primeira sessão, vou sentar no fundo da sala pra assistir e descalçar os sapatos.

Mas antes disso, tenho muito que fazer. A gente limpa a sala, esvazia os cinzeiros e os cestos de lixo. Tenho que repor o estoque e bater o caixa de ontem. Às duas começa a primeira sessão. Só dá tempo de eu comer a marmita. Hoje tem arroz, feijão, salada de tomate com cebola e ovo frito. Ontem também tinha isso.

E depois da sessão das duas, ainda tem mais três antes da última, às dez da noite. É fogo, meu chapa! Daí eu preciso correr pra pegar o cata-bêbado, que sai à meia-noite e quinze, sem furo, lá do Parque Dom Pedro.

Quase meio-dia.

Vou até a porta da rua. Bem na hora. Lá vem ele de novo, agora a caminho da Líbero Badaró. Todo dia. Gosta de ficar ali perto dos Bancos ou em frente à Casa Godinho. Sempre passa alguém pra ele puxar assunto na hora do almoço.

– Ei, ei! Conseguiu trocar algum relógio hoje? Ganhou algum novo?

– Oh! Tá de bem comigo, amigão?

– Tudo bem. Diga, quer assistir um faroeste? John Wayne. Bom à beça! Começa daqui a pouco.

– Oh, amigão. E aí? – Ele olha para meu pulso, interessado – “Omega, um relógio notável!” Dezessete rubis.

– Acertou, mas o meu você já conhecia. Não vale. Agora me diga, qual é o seu relógio hoje?

Bate com o dedo no vidro de um mostrador grande e moderno.

– “Relógio militar – 75 anos de precisão em tempos de guerra e paz. Vem com o fascículo”.

– E cadê o fascículo?

– Em casa, minha irmã cuida dele.

– Você tem uma irmã? Você nunca falou. Que irmã? Mora por aqui? Ela…

– “Omega – Relógios finos para damas de escol”.

– Não. Eu perguntei da sua irmã. Não quer falar nela? Não quer falar, tudo bem…

– “para damas de escol”.

– Não quer tocar no assunto, já entendi. Tudo bem. Mas diga lá, que horas são no seu relógio? … Espera um pouco! Cadê os ponteiros desse? O de horas e o de minutos. Foi você quem arrancou? É você quem arranca?

– Minha irmã. Minha irmã guarda o fascículo…

– Que irmã é essa? Onde ela está? Ela mora em São Paulo? Mora por aqui?

– Ela passou outro dia. Muitos amigos. Passou com eles. Indo pra Praça da Sé.

– Por que você não mora com ela? Podia ter uma cama, um lugar para manter suas coisas. Não que eu me importe de guardar pra você.

– Meus relógios, todos eles… Ela…

Ele olha para o chão e balança a cabeça como se o mundo tivesse explodido. E conclui. “Nenhum…”

– Ela jogou fora? Sua irmã jogou seus relógios fora?

Ele já segue em direção à Líbero mirando o pulso de um cavalheiro. Quer saber? Vou descansar meus pés um pouco.

Fim da tarde, lá vem ele com seu jeito manquitola. Eu fumando no meio-fio enquanto espero começar a sessão das seis. Mais duas ainda antes de eu ir para casa.

Ele faz menção de me dizer alguma coisa. Nessa hora, um escapamento de carro faz um barulho muito alto. Parece bomba. Ele se agacha na fachada do Cinema. Olha para os lados assustado. Treme.

– Tudo bem com você? Quer um copo de água?

– Muitos amigos. Barulho, barulho alto. De repente, ela sumiu. Não vi mais. Panos, gritos, papeis. “Nossa Senhora Aparecida, iluminai os reacionários”. Ela.

– Do que você está falando? Da sua irmã?

– “Verde amarelo sem foice nem martelo”. “Deputados patriotas, a família brasileira está com vocês”. “A família contra a aliança dos corruptos com os comunistas”.

– Sua irmã estava na Marcha da Família? Foi lá que você a viu?

Ele afasta a manga direita da camisa e indica o pulso.

– “Sua memória entra em férias com o Omega Seamaster Calendar”.

– Quer entrar aqui no cinema? Descansar um pouco? Você se assustou. Entra, assiste ao filme. Quer? Tem pipoca fresquinha. Fui eu que…

Ele já acompanha uma mulher que vai puxando uma criança pela mão. Tá de bem comigo, mocinha?

 

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