521199887-19-1650 TP_z_1

Noemi propôs a escrita de um texto de humor, a partir de uma combinação de situações que os participantes imaginaram e sortearam.

Senhor Governador do Estado, prezados membros do júri
É motivo de forte emoção e orgulho a conquista deste [gravata, excelência, sua gravata] deste prêmio. A literatura [está torta] reside em minha vida desde a mais tenra [torta, eu disse que está torta, torcida, fora de prumo] a mais tenra idade. Meus avós paternos foram quem [ajeita que tá torta, o colarinho amarrotado] foram quem me incentivou e me forneceu os meios [a gravata, eu disse, pega mal na foto] os meios para me iniciar, primeiro na leitura [desentorta] e depois [refaz o nó] na escrita. Oh! Que oportunidade a minha de viver entre a ficção [para que entortou mais ainda] e a realidade [deixa que eu mesmo arrumo para você].
Obrigado a todos [agora sorri]
{Elidia Novaes}

*

Era a neta mais velha. E a preferida, ainda que toda a família não tocasse no assunto. Por isso tomou para si a tarefa de discursar no enterro do avô. Não aceitou nem mesmo tirar par ou ímpar com o primo, mais novo que ela, mas o neto mais velho, ainda que toda a família fingisse não haver esse tipo de hierarquia.

Escreveu duas páginas, certa de que o avô, estivesse onde estivesse, ficaria orgulhoso. Mencionou honra, bondade, firmeza e princípios. Achou que muitos chorariam no final, inclusive ela.

Comprou um vestido preto e justo para mostrar a todos os quinze quilos que havia perdido no último ano. Vestiu salto e óculos escuros, fez escova no cabelo. Por sorte não choveu. Acompanhou o enterro quase grudada nos homens, os mais próximos do avô, que carregavam o caixão. Quando o féretro começou a descer pelo buraco recém-aberto na terra vermelha, antes de começar seu discurso, pegou uma rosa das mãos da mãe para jogá-la ao que restava do avô. Ajoelhou, para que a flor caísse com delicadeza, e ouviu a costura das costas do vestindo se soltando, milímetro por milímetro, como se fosse a explosão de dez ou vinte bombas ao mesmo tempo. Prendeu a respiração. Tentou olhar levemente para trás, para ver, afinal, quem estava por ali; alguém que pudesse socorrê-la, desde que não fossem as primas desdenhosas dos quilos que ela havia perdido e as tias-avós que a entupiam de bolachas na infância, “pois com essas bochechas deve gostar de comer, né, queridinha?”, mas não enxergava nada nem ninguém, a não ser uns sapatos pretos cujos donos não reconhecia.

Continuou imóvel e com a respiração presa. Não daria essa vitória para as primas e as tias-avós e assim que o caixão atingiu o fim do buraco se jogou por cima dele: vovô, não me deixe!, não me deixe, vovô!
{Luciana Gerbovic}

*

João atendeu o celular só porque era Lilian, e interrompeu a reunião.
O que? Agora? Você tá no taxi pro hospital?
Senhores, desculpem, preciso ir. Meu filho vai nascer.
Esqueceu o paletó. Ainda bem que a chave do carro fica no contato na garagem. Quis dar um tiro em cada farol vermelho.
Quando entrou esbaforido na maternidade via a mulher se contorcendo de dor no final do corredor, esperando atendimento. Correu, agachou perto da cadeira dela, e começou a rir.
Ela no meio do gemido olhou para ele com horror. Enlouqueceu, João?
Ele não parava de gargalhar, apontava para o vestido dela. Lilian continuava sem entender, foi ficando furiosa.
Ele pegava no vestido, na alça, na barra. Foi aí que ela notou que na pressa tinha colocado o vestido do avesso.
João passa um fim de semana sim, outro não, com o filho.
{Eva Lazar}

*

A noiva entrou na igreja como um castelo que decide sair para passear e encontra uma porta aberta. Havia mais vestido no corpo do que corpo no vestido. Tanto que não dava para saber onde começava a noiva. A mãe, de perto, olhava a filha com medo, como se a mulher fosse quebrar. Olhava a filha tão atentamente que viu seu nariz escorrendo e lembrou da época do colégio, em que todos os dias a menina tinha “extravagâncias nasais”, como a própria mãe costumava dizer.

Com medo do nariz não parar de escorrer, a mãe pensou nas fotos do casamento, lembrou que nas fotos de hoje em dia nenhum detalhe escapa, imaginou que os netos olhariam para o álbum de fotos da mãe e ficariam horrorizados com a falta de higiene, e pensou que os netos desenvolveriam uma silenciosa ojeriza com o ato de casar por causa daquela cena tórrida da mulher que escorria pelo nariz na frente de todo mundo. A mãe correu e, com um pedaço do vestido da filha, limpou seu nariz. Voltou ao banco da igreja fingindo que nada aconteceu e vendo por dentro os netos que não nasceram já a agradecendo para sempre.
{André Gravatá}

*

É porque é muito católica que ficou careca”, falava-se no bairro. E isso foi dito tantas vezes, que a mulher quase virou santa por ter esquecido a água oxigenada no cabelo, no dia em que o papa desceu de avião em sua cidade. Havia se preparado a semana toda para recebê-lo, mas deixara a raiz dos cabelos para a manhã de sua chegada; cresciam rápido demais. Duas horas seriam suficientes para uniformizá-lo, mas naquela manhã, junto com o papa, o feijão estourou na panela de pressão, a vizinha teve um piripaque, a filha se trancou rebelde no quarto. Tudo aquilo junto, e mais a água oxigenada, a tornaram quase santa, ainda que tenha perdido a chegada do papa.
{Carla Kinzo}

*

O velório tinha durado a noite toda, uma noite fria e úmida de inverno paulistano. Foi com certo conforto que a família, que tinha chorado muito, viu chegar a hora da despedida. Um rapaz alto e magro, cara compungida, aproximou-se solenemente do caixão e se inclinou em sinal de respeito. As flores já meio desbotadas ainda exalavam perfume e acabaram provocando um espirro e uma tragédia: a gravata do falecido ficou salpicada de uma massa esverdeada pouco elegante. Os parentes ficaram em suspense, enquanto o desastrado sacava do bolso um impecável lenço branco e o desdobrava sem pressa. Parecia que ia, afinal, assoar o nariz, mas a mão trêmula começou a ir e vir num movimento mecânico na direção do desastre. Sem coragem de chegar ao alvo, o moço olhava em volta em busca de algum apoio, mas todos disfarçavam. Uma senhora enxugava as lágrimas na manga da camiseta do filho. Todos se mexiam nas cadeiras, produzindo uma sonoridade que agravava o clima de tensão. O agente funerário pigarreou, sinalizando que queria terminar seu trabalho. Quando ninguém aguentava mais, foi um garoto gordinho que deu a palavra de ordem, para alívio geral: Desgruda do velho, cara. Você vai junto na gravata.
{Eduardo Muylaert}

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s