Rembranteyes

Noemi propôs a escrita de um texto sobre um acontecimento que já foi muito discutido/falado/veiculado, narrado sob um ponto de vista excêntrico. Ex. de acontecimentos: Holocausto, caso Isabela Nardoni, Guerra do Vietnã, ataque do PCC em São Paulo, chacina do Carandiru etc.

Olha só!, o Rafa, o boy, saindo mais cedo…Três da tarde e ele saindo do prédio assim, sem pastinha, sem mochila, só com os fones enterrados nas orelhas, ô Rafa, ô Rafa! Arre, essa molecada vai acabar surda. Ô Dona Joana, a senhora também indo mais cedo? Ô Dona Joana! Mas que diabos que a mulher saiu em disparada e nem pra me olhar? Abriram a porta da senzala, foi? O Doutor Ricardo dispensar a Dona Joana assim e ficar sem o cafezinho com bolacha das cinco? Ô Rita, ô Rita, mas o que tá…? Peraí, Rita, o interfone tá tocando, péra um minuto aí, Rita, alô!… Oi Doutora Magali, tá tudo … Como é que é? … Trancar a porta? … Tá … Ninguém mais entra? … Só sai? … Sim, tô entendendo, Doutora Magali, tô entendendo, mas o que… Peraí que o Doutor Ricardo já tá lá na garagem buzinando… vou abrir o portão pra ele, sim … tô indo, Doutora Magali, tô indo, mas peraí … Ô diacho que desligou, mas que porra é essa que tá acontecendo? Doutor Ricardo vai tirar alguém da forca, é? Calma, hómi, que eu tô indo… Ô Dona Carmem, ô Dona Carmem, mas o que é que tá …? O quê? Não, Dona Carmem, não tá lembrada que tiraram a TV e proibiram rádio aqui na portaria? Eu não vi nada, não… Como é que é? Ataque? PCC? Aqui? A cidade toda? Toda, todinha? Ô Dona Carmem…. Ô Dona Carmem … Ah, Dona Carmem, vai com Deus, viu, vai com Deus… Eu? Eu fico por aqui mesmo, se vocês já tivessem visto metade do que eu vi, não iam correr de PCC não…
{Luciana Gerbovic}

*

Uma babá é sempre uma babá. É a pessoa que mais cuida daquela criança que lhe foi entregue. Dá de comer, lava a roupa, nina para dormir, canta ao acordar. Fiz eu mesma, com as minhas mãos, aqueles 5 botõezinhos de crochê que enfeitavam o seu vestido naquela tarde. Eram bojudos, com uma estrela verde no meio. Um deles, eu já havia percebido, estava bambo, caindo; precisava ser preso novamente. Balançava pra lá e pra cá, quase solto no ar, na iminência de uma queda. Qualquer movimento mais ríspido poderia levá-lo para sempre. Eu devia ter avisado alguém.
{Lidia Izecson}

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A bola vinha surfando na arrebentação. Será possível? A molecada na praia parou de jogar e ficou esperando que o juiz trocasse a bola do jogo. Claro que Vô Pedro Moreno nem via direito. Aquilo estava longe ainda. Mas naquele dia, ali, para baixo de San Diego, quase no México, a turma ia receber um presente. Quando a pelota chegou na areia, o Vô quis ver. Aí enxergou. E entendeu que o presente tinha acabado de chegar do Japão.
{Alcino Bastos}

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O quarto do casal permanecia intacto, como um museu de cera: tudo imóvel no lugar. No chuveiro, o sabonete que ela usava, já ressecado.  Na cabeceira, o copo d’água. As roupas dela no armário. As flores murchas no vaso davam um pouco de aflição. O marido nunca deixou ninguém tocar em nada, nem para limpar. Ele mesmo parecia um fantasma no seu próprio quarto, pois antes de tudo preservava a intimidade da mulher, quer dizer, da esposa morta já há alguns anos. Isso devia ter servido de alerta, mas a filha nunca quis contrariá-lo. Pai e filha foram encontrados na garagem da casa da rua Tupy. Ele fechou todas as frestas e ligou o motor do carro velho. Queria preservar a filha dos perigos dessa vida. Mal sabia que, sem a sua guarda, agora iam tirar tudo do lugar.
{Eduardo Muylaert)

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Eu acordei. Eu abri os olhos. Eu não tinha para onde ir outra vez. Havia um pedaço de jornal enroscado em meu dedão – aquele que fugia do meu sapato furado bem no dedão.
Não quis saber as notícias de um mês atrás. Não hoje. Peguei meu caneco com um pouco de água de chuva e fui bebendo meu café da manhã com antecedência, enquanto olhava as plantas.
Ainda era muito cedo quando ouvi o som da moto, estourando bem pertinho do meu ouvido, bem encostadinho no portão de ferro. Espiei pela frestinha e vi o símbolo do Disk Pizza. Quem pedia pizza àquela hora?
O cara tirou o capacete e respirou fundo. Eu farejei, mas não senti o cheiro de comida. O que meu nariz pegou (e tinha olfato apurado para tal) foi o olor inconfundível de tiner, ah! Tão bom. E vinha dele mesmo, do motorista. Daí veio o som do spray, que foi bem rápido. Como um gato noturno, ele tatuou no portão “Puta”, bem ao lado de “Assassina”.
Depois, subiu na moto e foi embora.
{Rachel Poli}

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