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Quando desci da nave no meio de um lugar que os terráqueos chamam de São Paulo, percebi logo que eles são muito diferentes de nós. São alongados, alguns nem tanto, têm uma esfera em cima com vários furos e se movimentam com pressa flexionando suas duas partes inferiores contra o piso. Mas o que mais me chamou a atenção é que do meio desse piso sobem blocos muito grandes, alguns gigantescos, com orifícios que se abrem, se fecham, se olham, me olham. Chega a dar medo!  Enfileirados, querem alcançar o céu, mas percebi que nenhum deles consegue.
{Lidia Izecson}

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Conheci os grandes líderes da Terra. Eles são mais baixos que os humanos, o que engrandece ainda mais sua realeza, pois todos se curvam perante eles. E os servem, lavam, alimentam, vestem, penteiam. Alguns humanos dialogam com eles por longos períodos. Ouvem atentamente seus ensinamentos e os temem. Alegram-se com sua fala e seus trejeitos graciosos.
Esses seres são um pouco difíceis de identificar a princípio, porque assumem vários tamanhos, cores e formatos. Mas tudo se esclareceu quando vi que os humanos os seguiam por toda parte, atados a eles, servis, guardando até seus excrementos. Talvez algum tipo de talismã.
{Elidia Novaes}

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Na viagem estava planejado a gente visitar moradias dos terráqueos, e matar a curiosidade sobre seus hábitos. Imaginem que em todas as moradias existe um objeto plano, alto, que chamam de mesa. Ao redor, outros objetos mais baixos, onde eles repousam dobrados e chamam de sentar. Quando todos estão ali, chegam uns discos redondos com coisas em cima e eles comem; isso mesmo, COMEM, acredita?
Teve um objeto que não consegui parar de olhar; era redondo, alto, mole, meio marrom, meio roxo, úmido e quente. As pessoas puxavam umas pontas e aquilo ia se desfazendo; punham na boca, faziam uma cara estranha e colocavam no pratinho ao lado.
Parecia uma imagem que estudamos antes da viagem, num lugar chamado Índia, era grande e faziam adoração. Esses daqui eles comiam. Puxando as lascas até ficar só um montinho redondo. De repente atacavam este miolo a dentadas, até sumir.
Tive medo, mas eles pareciam calmos, até felizes.
{Eva Maria Lazar}

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Aquilo se movimenta um milhão de vezes mais devagar do que uma névoa cósmica, deve ser menos ainda, talvez não tenhamos nada a que comprar.
E se escondem dentro de uma nave, rígida sim, mas que imagino que se desintegraria completamente se percorresse a via láctea na velocidade das nossas naves.
E apenas nesta hora de se esconder são mais rápidos.
Talvez sejam o que estávamos procurando: nossa origem.
{Samir Mesquita}

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Imagine algo pequeno, pequeno mesmo, quase incapaz de ser visto, feito de, não sei, fios, ou qualquer outro material bem frágil, algo que pode se quebrar com um leve encostar dos nossos dedos. Mas aí está a questão: nossos dedos não o alcançam. Isso: é algo pequeno e frágil, que se mantém longe dos nossos olhos e das nossas mãos, mas próximo, bem mais próximo do que podemos suportar, dos nossos ouvidos.
Então é assim: depois de um dia perambulando pela Terra, você resolve descansar. Deita ou senta em algum lugar e fecha os olhos, agradecendo aquele momento silencioso. Respira fundo uma vez, duas vezes, sente prazer em estar na Terra, e quando vai respirar fundo pela terceira vez ouve um barulho, como um mergulho cortante rumo ao mais fundo dos nossos ouvidos. Você se assusta, abre os olhos, levanta, olha em volta procurando a nave ou qualquer coisa do gênero, pergunta “quem está aí?”, mas não há nada nem ninguém visível. Então pensa que é por ser marciano e estar na Terra que ouve esse tipo de coisa e volta a fechar os olhos. E de novo o barulho, um rasante, que te faz levantar, gritar, falar com o nada, pular, dar cambalhotas e pensar em posições de luta. Mas não há nada nem ninguém, até você relaxar e fechar os olhos novamente. E então, já esgotado, depois de mais ataques, crente de que alguma loucura da Terra te atingiu, você vê essa coisinha pequena e frágil escondida.
E acho que vi essa coisinha rindo da minha cara.
{Luciana Gerbovic}

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no começo tive medo. fiquei observando de longe os movimentos repetidos daquela coisa, daquele ser imenso. tinha um ritmo próprio, uma cadência quase meditativa que me deixava em dúvida de saber se aquilo dormia ou se estava apenas respirando. depois de algumas horas analisando de longe, cheguei mais perto e toquei com as pontas dos dedos sua superfície fria. senti que os dedos atravessavam aquilo com uma facilidade que não previ. depois foram os braços, o pescoço, minha língua. não sei explicar bem, mas por um tempo eu era a própria coisa: uma espécia de molusco absoluto que se espalhava por todos os lados.
{Ana Estaregui}

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(Documento supostamente encontrado no deserto de Aral pelo ufólogo Enrico Grapellinni. A tradução, se podemos confiar em seu testemunho, é dele. Devido às más condições em que foi encontrado, o texto termina abruptamente.)

“Foi um pequeno passo para um marciano, mas um grande salto para a marcianidade. Salto mesmo. Mal cheguei à Terra, senti uma leveza surpreendente, e quando me dei por mim, tinha pulado cerca de 200 condronguers sem esforço algum. Em poucos draksons eu estava bem acima do solo, empoleirado num animal aparentemente estático, do qual brotavam muitos membros, cobertos de folhas. Senti uma cutucada e quando me virei, dei de cara com outro animal, estel bem móvel, agitado e fonte de muitos guinchos. Ele ficou me olhando bem de perto, me cheirando e tocando todas as partes do meu corpo. Deteve-se estranhamente em meus pondorks, que ficou amaciando com uma experssão curiosa no que pareceia ser o rosto. Só não fiquei com medo porque estava com minha languefont. Mas aí ele abriu a boca cheia de objetos pontudos e um pedaço de carne mole e gritou. Em menos de um drakson eu estava cercado por uma mult….”
{Daniel Benevides}

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Os terráqueos são compostos na maior parte do seu corpo físico por uma substância líquida, embora se apresentem como matéria densa e aglutinada. Ela é translúcida, fria e escorreria por nossas guelras. Quando se cansam muito ou se expõe ao sol , ela goteja através da pele, por pequenos poros, numa qualidade salgada. Quando sentem raiva ou se emocionam, ela desliza pelo canto dos olhos. Existe em grandes quantidades sobre a superfície do planeta- salgadas, adocicadas, azuladas- e atualmente vem tendo o seu valor mais e mais reconhecido, devido a uma previsão de escassez decorrente de mudanças climáticas. Parecido com o que aconteceu com o nosso Aurum Primordial.
Os terráqueos acreditam que o nosso planeta era pleno desta substância, sabem pouco sobre nós os terráqueos. Acham que somos verdes.
{Elza Tamas}

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Cai – e isso é o mais espantoso da coisa, ela cai. Não de uma vez, mas continuamente, ela cai. E depois de caída, ela some na terra, nos corpos, nas coisas. Se cai furiosa e você tiver paciência para olhar, às vezes do chão ela sobe, mudada, quase sem corpo, uma presença sutil querendo fazer o caminho de volta. Às vezes, depois da queda, o lugar de onde ela vem se ilumina. Às vezes, são as coisas debaixo dela que parecem se iluminar. Há os que correm quando ela vem. Como se ela queimasse. Mas o que ela faz – essa outra coisa espantosa – é levantar os pelos de nossas peles.
{Carla Kinzo}

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