coma-um-ovo-e-ganhe-musculos

Noemi propôs que o personagem do conto que estamos criando ao longo do semestre fosse colocado na seguinte situação: fritando um ovo enquanto falava ao telefone.

Agora eu não posso falar com você. Não, a Sônia está em baixo, na loja. É que me atrasei e perdi o almoço. Estou tentando fritar um ovo, mas com uma mão só não vai ser possível. Já derrubei a manteiga e perdi um ovo, bati forte demais na borda da frigideira. Desculpe, eu também preciso muito falar com você. A coisa complicou. Não, agora não dá. Se eu apagar o fogo, perco o último ovo que tinha na geladeira. Eu entendo, mas você vai ter que segurar sua ansiedade. Você tem razão, acho que seu marido desconfia de alguma coisa. Pronto, agora caiu o saleiro, era para por só uma pitadinha. Saudade do ovo de borda rendada que a mãe fazia, a gema molinha, essa aqui parece um caroço de manga. Mais tarde eu ligo, já falei, agora não dá, os meninos podem chegar. Quantas vezes preciso repetir: a pressa é inimiga da perfeição. Chega de histeria, já falei, depois eu ligo, aí falamos com calma.
{Eduardo Muylaert}

*

Quando o telefone tocou, eu obedecia às ordens de meu caríssimo doutor, que havia me prescrito ovos como forma de tratamento.
Admirava a louça portuguesa de mamãe, imaginando como ela gostaria que eu a servisse naquela manhã, usando todas aquelas belas relíquias, Mas, é claro, não seria nada frito. Ela seria tratada como a rainha que sempre foi.
Com o paninho bordado que leva meu nome, puxei o telefone do gancho.
“Alô?”
{Rachel Poli}

*

Alô, alô, tá bom mãe, vou ver no banco amanhã, prometo. Ai! Foi nada não, tô aqui na cozinha.
A gordura quente espirra na mão, ela recua, pega a escumadeira, apara o óleo, morde o lábio inferior. Amanhã, já disse. Fura a gema, ajeita a clara, joga um pouco de leite, polvilha sal. Vai dar certo, conheço a gerente, fica tranquila. Mexe a frigideira, ajusta o papel toalha no prato, serve o ovo para o filho. Beijo pra você também.
{Lidia Izecson}

*

Um ovo cozido com gema mole ele até sabia fazer, três minutos depois que a água ferve, aí tira e dá um choque térmico para parar o cozimento. Mas um ovo frito exige sensibilidade, não é algo que se cronometre. Um ovo daqueles que se coloca sobre o arroz ,depois se estoura a gema e ela encharca os grãos não é para qualquer um. Como, mãe?, tenho que colocar óleo ou azeite? E pra borda ficar douradinha igual quando você faz? Não entendi, a ligação tá ruim…Tá, tô empurrando o óleo nas bordinhas. E esses estalos são normais?, e essas bolhas na clara? Deixo o fogo alto o tempo todo? Que cor que a gema tá? Como assim, mãe? Amarelo ovo, ué.
{Samir Mesquita}

*

O óleo quente espirrou na mão direita, a que não segurava o telefone – por que não conseguia falar para a tia que o momento era impróprio? Dez minutos, no máximo – tempo de fritar dois ovos e comê-los misturados ao arroz soltinho – e já retornaria a ligação. Tia Cida nunca tinha uma questão importante mesmo, era o vestido que a costureira tinha feito um pouco mais largo na cintura do que ela gostaria, a viagem para Santos no final de semana que talvez não fosse tão proveitosa por causa da chuva, os capítulos da novela, tudo tão distante de Anita, mas era a única sobrinha, então não soltou nem o “ai” quando o óleo queimou sua mão. E a gema estourou bem quando a tia contava da dor de barriga que tinha feito seu cachorro gemer a noite inteira. Anita mandou a gema estourada com clara e óleo para o lixo, “que pecado, tia!”. Para o arroz com ovo frito ser um prazer a gema precisava ser estourada no prato, por cima do arroz, com um toque do garfo. A gema mole-amarelo-avermelhada-recém-estourada escorrendo pelos grãos branquinhos. Agora tudo no lixo, e a dor de barriga de Nero, o pastor-alemão da tia, ainda não tinha passado.
{Luciana Gerbovic}

*

Um ovo, um telefone e um doido por relógios

Ligação para você, amigão. E não demora, hein? Olha o preço do impulso! E vê se não queima esse ovo e não faz muita bagunça na minha cozinha.

Tudo bem. Alô, mana? Tá de bem comigo, mana? Te vi ontem aqui no Centro, perto do Anhangabaú. Você e seus amigos. Depois não vi mais. Muitas faixas, muitos cartazes, gritaria.

Sabe o amigão do cinema? Perguntou do meu relógio. Achou bonito.

Qual relógio? Aquele que você me deu. “Relógio Militar: 75 anos de precisão em tempos de guerra e paz. Vem com o fascículo”.

Não, não troquei com ninguém. Ele é barra limpa, “cats balu”.

Espera um pouco. Tenho que virar um ovo.

Não, não vou virar um ovo. Vou virar um ovo. Estou fritando um ovo. Vim conversar com a mocinha aqui na Líbero Badaró. Ela me deixou fritar um ovo. Eu mesmo que vou comer.

Não, não ia trocar o relógio. Você que me deu!

O que? Segredo no corpo do relógio? Não sei de segredo nenhum, não entendi. E já falei… não vou trocar… com ninguém.

Ah, você viu onde estão os ponteiros?
{Elidia Novaes}

*

O telefone está longe do fogão. Isso, claro, não o impede de tocar. Teresa dorme acalentando a gravidez. Segurando a frigideira com uma mão, Alberto se estica para tirar a extensão do gancho. Como se estivesse incomodado com a interrupção inconveniente, um ovo rola de cima da pia e cai no chão. Pois não?, diz Alberto em seu malabarismo matinal. Precisamos botar o sabiá na gaiola, replica uma voz rude, acostumada a ser obedecida. Já fora do fogo, a frigideira se inclina para a frente, deixando escorrer o óleo sobre o ovo quebrado no chão, que chia, como um cigarro sendo apagado. Com todo respeito, Coronel, acha que esse é o melhor momento? Na gaiola, porra!, é a resposta. A clara, meio queimada, começa a se debruçar na beirada da frigideira. Por reflexo, Alberto levanta o cabo e a inclina a frigideira para o outro lado, derrubando óleo e o ovo semi frito no seu pé. Merda!, grita. Ouve um clique. Coronel? Coronel? Do quarto, Teresa pergunta: está tudo bem, meu amor?
{Daniel Benevides}

*

Dentro da casca

Pegou um ovo em cada mão, sentido a fragilidade áspera da casca. Eram os seios dela, pensou, e os segurou um instante a mais. De novo aquelas imagens. “De novo!” Disse em voz alta, com paixão, com nojo. E espatifou as cascas na beirada da bancada, as duas agora em uma mão só e as jogou no óleo que já fervia e ficou vigiando para não deixar queimar. Mas não conseguiu porque o telefone tocou e era ela. “Verônica?” “Oi, Dalva, estava mesmo pensando em você.”
{Isabella Noronha}

*

M-A-C-H-I…, soletra, “isso, isso, machim…” e o ovo estala na frigideira antes do fim da palavra explicada, “um minuto, rapaz, um minutinho”. Ele levanta a panela do fogo, “é que tenho só duas mãos”. “E vocês, dois idiomas!”, a voz do outro lado do telefone ri. “Duas? Aqui tem é mais de dezoito, presta atenção! M-A-C-H-I-M-B-O-M-B-O, machimbombo, entendeu?”. Mas antes que o outro responda que sim, que aquela palavra estranha está bem anotada no papel, o ovo negligenciado escapa da superfície lisa e se estatela no chão.
{Carla Kinzo}

*

deu batidinhas de leve ao longo de todo o perímetro do ovo para que ele se rompesse por igual, simétrico, se possível numa linha única e paralela ao chão. Lucia gostava das coisas, assim, bem feitas. o telefone toca no mesmo instante em que ela despeja clara e gema numa xícara, atenta às menores manobras do corpo escorregadio e gelatinoso do ovo. a gema está intacta. no telefone a mãe pergunta, responde, pergunta, quer saber sobre os exames, a casa, a Juliana, a tia Quitéria.
Lucia, monossilábica, aham, sim, aham, não sei mãe, deixa escapar a irritação que a impede de fazer como gostaria: com capricho. na frigideirinha de diâmetro ideal o azeite espirra de leve. Lucia despeja clara e gema, posiciona a gema no centro transparente que agora frita sem deixar furar. desliga o telefone e agora sim poderá se concentrar por inteiro a deixar que as bordas dourem completamente por igual.
{Ana Estaregui}

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