van-gogh-corvos-no-campo-de-trigo

Noemi propôs um exercício em que escrevemos sobre uma pessoa diante de um quadro de Van Gogh. Inesperadamente, o trigo no quadro começa a se mover.

Flexíveis se deixavam dobrar pelo vento, os trigos, de um lado para o outro. O dourado do sol, o azul, de um lado para o outro. Naquela galeria escura, de corredores apertados e paredes cobertas de quadros, os amarelos de Van Gogh dançaram para mim. Só para mim.
(Elza Tamas)

*

Não pode ser. Vamos lá: Eu. Campo de trigos. Tela. Tinta. Pincel. Parede. De novo. Vamos lá, do começo: Um trigo. Dois trigos. Três trigos. Olha lá, de novo! Ninguém mais vê? Tantos ao meu redor e ninguém com os olhos gritando. De novo: Um trigo. Dois trigos. Três trigos. De novo! Ninguém mais vê? Mais uma vez: Um trigo. Dois trigos. Três trigos. O mesmo! De novo: Um trigo. Dois trigos. Três trigos.De novo, o mesmo, sempre o mesmo! De novo: Um trigo. Dois trigos. Três trigos. Mexeu, de novo, mexeu, o quarto trigo se mexe! Mais uma vez, daqui não saio até ele parar: Um trigo. Dois trigos. Três trigos…
(Luciana Gerbovic)

*

Bate o vento. O chapéu de Vicente cai. Ao redor, o ar parece, no entanto, estagnado. Abaixa-se. Levanta-se. Entende. O vento está na sua frente. No quadro de Van Gogh. No trigo. No trigo que balança.
(Daniel Benevides)

*

A calça é de lã, a camisa de flanela, o olhar fixo no quadro. Está imóvel. Com as mãos nos bolsos, examina as ramas do trigo. De repente, um discreto sorriso que se alarga e a voz escapa: e não é que se mexem! As pupilas vão e vêm, vão e vêm, vão e vêm, vão e vêm.
(Lidia Izecson)

*
As curvas, o desenho das nuvens. Van Gogh é um mestre! A folhagem. O movimento do trigo no campo. A gente quase sente o vento. O vento… o trigo…
Moço, não, nada… Ah, moço, o senhor se importa de fechar essa janela? Obrigada.
(Viu? Parou.) Essas árvores no fundo. Como é bonito, como é…
[som de carros acelerando lá fora, uma sirene de ambulância]
Mexeu de novo. Ali no canto.

Não senhora, não estou falando sozinha. Estou falando com a senhora. Está vendo o trigo?

Ali, de novo. Se mexeu.

Você é monitor aqui? Pode me ajudar? O movimento do trigo neste quadro só acontece quando abrem a janela?

Não, não quero dizer que uma verdadeira obra de arte é sempre nova, toda vez que a miramos. Estou falando que o trigo se mexeu.

Não, não estou medicada.

Não, também não estou precisando. Mas é lindo. Tomara que não pare nunca.
(Elidia Novaes)

*

Que sorte. Vagou um lugar no banco bem na frente. Agora, sem pressa, vou ficar olhando essa maravilha. Vou tirar uma foto bacana e colocar no Instagram. Sem flash, claro. Fazer várias, até chegar na perfeita.

Tela incrível, como é que as pessoas não o achavam um gênio. Loucos são todos os outros. Inclusive esse povo todo aqui no museu, passando depressa, sem mergulhar no trigo. Azar deles, eu sou o único aqui com olho para enxergar o movimento sutil dele. Será?
(Eva Maria Lazar)

*

Sempre adorei Van Gogh e seus amarelos. Um médico atribuia a fixação nessa cor a uma doença do fígado, outro a uma intoxicação por absinto. Gosto de vir ao museu logo cedo, pouca gente, sem filas, um banco inteiro só para mim. À frente, o campo de trigo, inerte, só para mim. Apesar da sensação de movimento na pintura dos impressionistas, nunca imaginei ver movimento num quadro. Se me contassem, daria risada. A pintura é estática por excelência, ninguém duvida. Talvez eu tenha olhado muito fixamente, pode ser que tenha me distraído, mas juro que vi o trigo se mexer. Não, não é figura de linguagem. A moldura estava parada, a parede no mesmo lugar, o vigilante distraído, as crianças da escola entretidas. A cortina, que filtrava a suave luz da manhã, não se movia. As nuvens no céu, estagnadas. Nenhum som, nenhum ruído, a não ser o eco longínquo das vozes das crianças. Fechei um olho de casa vez. Uma alucinação, uma febre, um espasmo, uma vertigem? Nada. Estou bem. Levantei-me e voltei a sentar. Fechei os olhos. Consegui trazer os dedos de cada mão até o nariz, sem dificuldade. As hastes do trigal, no quadro, balançavam de verdade. Aproximei-me e cheguei a ouvir o vento sobrando no campo, alguém resmungava ao longe, em holandês arcaico, contra a ventania. Ninguém, aparentemente, tinha percebido. Feições impassíveis agora começavam a povoar o museu. Pais explicando às crianças a mágica dos impressionistas: depois vamos comprar um cartão postal para mostrar à professora. Achei melhor ficar quieto, optei pelo silêncio. Volto outro dia para conferir. Sei que ninguém me acreditaria, mas, como disse Galileu, contrariado: E pur si muove!
(Eduardo Muylaert)

*

– Concordo com você. É muito bonito.
Querem saber? Falei por falar. Não tinha gostado tanto assim. Traços grosseiros, tinta dando uma sensação de espessura que era desnecessária.
Além disso estava desconfortável. Escutava, baixo e grave, um som que atribuí a algum motor responsável pela ventilação do ambiente. Um ventinho que vinha não se sabe de onde mas me causava arrepio.
Antes de sair olhei de novo para o quadro e a plantação de trigo parecia ondular. Talvez por causa da ventilação.
Então, claro, ri desse meu pensamento absurdo.
Foi só tomando o café, já no andar de baixo, é que fiquei me perguntando se eu tinha visto ou não uma folha cair, oscilante, daquela árvore do lado direito do quadro.
(Alcino Bastos)

*

Pareceu ser dentro do olho, no começo. Ou ao redor dele, na pálpebra. Um movimento súbito, depois contínuo, da direita para a esquerda, querendo escapar para fora do quadro. Segurei um dos olhos de uma vez, como se quisesse surpreendê-lo antes que ele alçasse voo: não era nele. Não era em mim. Era o trigo, dentro da moldura; era o que a moldura não pegava, nem meus olhos. Era o que não era o vento sob a tinta, mas que se disfarçava dele.
(Carla Kinzo)

*

Apertou os olhos e se aproximou do Van Gogh. Será? Virou o rosto para o lado e encontrou uma senhora estacionada em frente ao mesmo quadro. Olhou para suas grandes e peludas sobrancelhas, aguardando pelo mesmo efeito – que ela apertasse os olhos e buscasse por alguém. Buscasse por ele.

A velha se aproximou da parede e se demorou por longos minutos. Ela batia a ponta dos dedos grossos nos lábios da boca, que era um pouco torta e cheia de fissuras. Puxou e soltou o ar com seu nariz adunco, de respiração pesada e rançosa, como a de um touro nas telas de Picasso.

Um pouco incomodado, ele retornou aos trigos de Van Gogh, certo de que ainda se mexiam, embora muito mais agradáveis para ficar olhando. Ainda precisava saber se estava enlouquecendo. Talvez aquela respiração espessa e contínua fosse um sinal – uma prova de que ela também estava enxergando coisas. Ele tomou coragem para perguntar, caso você, minha senhora, também esteja vendo que os trigos estão se movendo, não, não está sozinha, pois eu também os noto e estão, de fato, muito vivos, então virou o rosto para o lado, com o lábio já semiaberto e a primeira palavra pronta na língua, mas a velha não estava mais lá.
(Rachel Poli)

*

Há uma faixa de segurança na área em que o quadro está silenciosamente instalado. “Não ultrapasse a faixa”, diz o aviso perto do quadro. Essa é a primeira vez que me pergunto se esse aviso é para mim ou para o quadro. Os seguranças do museu estão aqui para proteger o quadro das minhas inclinações destrutivas ou para me proteger da personalidade macia deste quadro que se insinua para mim, que quase roça sua espécie na pele do meu olho? “Não ultrapasse a faixa”, é o aviso que o quadro desrespeita lentamente, sem nenhum pudor de ser percebido. O despudor do quadro me deixou com vontade de que meus olhos fossem mãos.
(André Gravatá)

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