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Noemi propôs um exercício em que observamos uma parte do corpo e a descrevemos como se estivéssemos olhando-a pela primeira vez.

Coberto por minúsculas escamas que se abrem em pontas duplas e até mesmo triplas, aumentam de volume com a umidade e alisam sob o efeito do calor de aparelhos que podem fritá-lo, podem crescer desordenados ou em linha reta, mas nunca param. Usam de navalhas a tesouras afiadas para seu corte. Ressecam na ponta, mas produzem um substância oleosa na raiz. Mudam de cor com a luz, com o Sol, com agentes químicos e com a idade. Fino ou grosso, em certas épocas do ano, caem em profusão.
(Regina Datti)

*

É duro no meio de partes moles. Claro. De repente avermelhado. Vários tons. Conforme eu mexo as partes moles, ele muda de cor. Na outra extremidade é claro de novo. Em lâmina. Parece solto. Um pouco solto. Acho que se desprende em camadas. São as partes moles que o mantêm atado. Tentei arrancar, mas dói em mim. Dói em mim. Como ele consegue? Alguma forma de hipnose ou avançado controle remoto. Outra vez. A extremidade branca parece ter aumentado de tamanho, mais alongada. Dói, mas vou conseguir. Ele não vai assumir o comando desta noz aqui na parte superior da estrutura.
(Elidia Novaes)

*

Não é firme nem mole. A cor também não diz nada, é a mesma do resto. Mas há nela algo que grita: linhas. Imperfeitas, marcadas, plurais, revelam que está acostumada a se dobrar, inteira e sobre si.
(Isabela Noronha)

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Como se duvidasse do caminho, como se não fosse ela aquele percurso, hesita. Risca a superfície e desiste antes do tempo. Retira-se devagar, negando a matéria, desejando o seu oposto. Na realidade, quer tanto a carne que não a entalha. Por excesso de vontade, desaparece.
(Carla Kinzo)

*

Há uma montanha. A superfície é aparentemente regular de um lado. Regular e lisa, com exceção de minúsculas crateras que se distribuem aleatoriamente, algumas pequenas hastes muito finas e sulcos vermelhos, que serpenteiam sem caminho. O outro lado, que espelha o primeiro, é idêntico no geral, mas muito diferente nas minúcias. E na terceira face, duas enormes cavernas levam a um interior escuro, profundo e misterioso, de onde vem um som arenoso e o ribombar rítmico de um motor.
(Daniel Benevides)

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Poderiam ser duas crateras na superfície de um planeta recém-descoberto.
Mas não seriam crateras já que não trazem profundidade.
Então, não poderiam armazenar água, e sem água não haveria vida sobre  aquele planeta,
e não seria assim uma hipótese de fuga.
Vistas ao longe ou de perto, duas manchas em uma superfície, apenas isso.
(Samir Mesquita)

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é porque é novo que é tão claro. não tem cor ainda. tem sim, é rosa.
é rosa presunto.
rosa sobre rosa sobre rosa.
é um pequeno sol que escala o horizontezinho dos meses.
e, quando atinge o plenilúnio, aí já é possível enxergar um novo arco,
mais pálido,
tomar lugar do antigo.
(Ana Estaregui)

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Uma espécie de Monte Fuji para os seres microscópicos que habitam a minha superfície. Possível de ser escalado, com diferentes graus de dificuldade – imagino, levemente esverdeado com o cume borrachudo, uma montanha com uma cama elástica no seu ápice, de onde se pode descer escorregando como num tobogã ou simplesmente saltar num suicídio.
(Luciana Gerbovic)

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O pedaço de carne branca cabia no espaço de uma sola de sapato e partilhava dos pés e das línguas felinas a mesma aspereza. Obedecendo às leis de seu destino escuro e enclausurado, se banhava na água que brotava de si em dias quentes e respirava o odor preso pelas suas próprias colunas, não havendo quem quisesse lambê-lo, não fosse o sabor salgado que compelia apenas os mais afinados com seus próprios desejos. Por isso, ele era bastante solitário.
(Rachel Poli)

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Como é mesmo? Parece que com os milênios de evolução, foi interessante colocar os olhos em cavidades ósseas. Para proteção, sabe? É, parece bom. Mas porque mesmo colocar uns pelos por cima da pele e dos ossos que protegem os olhos? Duas taturanas bem ali? Explicação que me deram: os pelos protegem um pouco os supercílios. Quem não tinha sobrancelha vivia menos e não deixaram muitos descendentes. Será por isso que gente sem sobrancelha acabou desaparecendo? Já olhou de perto? É ridículo! Ou é fantástico?
(Alcino Bastos)

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Comprida, redonda, escura, entre azul e roxo. Chega uma hora bifurca, nem diz para onde. Pulsa. É paralela ao punho na direção da mão; ou do cotovelo? Salta, do nada para o nenhum. Se fecho a mão com força ela cresce, parece brava; se solto fala mais baixo. Alguém desavisado poderia dizer que é apenas uma veia.
(Eva Lazar)

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