Em nosso último encontro Noemi nos contou uma história, que deveríamos transformar em um pequeno texto: “Um rapaz bem disperso, fora da realidade, apaixonado por linguística, foi assaltado no centro de São Paulo. Ele corre em disparada atrás do ladrão, mas ao invés de pedir a mochila de volta, ele pede apenas o dicionário de latim.”

torrinha

“Medo. Paura. Timore. Wehi.
A hora que a gente sente, sabe que sente e o que é.
Quando saí de casa, minha mãe só pensava nisso. No tóxico. No crime. No elevador fora de serviço do Crusp. Nem posso dizer que sou uma pessoa de posses. Tenho livros, isso sempre tive. Mas eles não colocam em risco a vida de ninguém. Devia ter suspeitado, que fazia peso, dava a impressão de ter algo de valor. Nunca saí de relógio, de carteira no bolso de traz. Ainda mais para andar no Centrão.
Medo burguês esse, o de ser assaltado. Se a gente não tem apego ao valor, vira doação. Distribuição de renda.
Mas livro na mochila chama atenção. O povo acha que é computador, câmera fotográfica. Dessas, tipo Nikon.
Foi assim, na inocência do meu assombro dom a tribo Kayowá fazendo discurso no marco zero.
Medo. Paura. Fear. Peur.
Minha mãe ficaria aliviada. “Graças à Deus não levaram nada de valor!”
Levaram a parte que eu não queria distribuir. Foi o dicionário de latim, e toda a etimologia do dia.”

Adriana Rossatti

“No centro da cidade, local dos não escolhidos, ele é o escolhido, ele  que anda sem rumo, que tropeça em línguas maldosas que não falam as  línguas que ele fala, levam sua mochila, sua bagagem, o pouco em que  se reconhece, se afirma, corre atrás do que tem, do que tinha, sua  dignidade em poucas palavras, uma negociação, devolve, ao menos meu  dicionário de latim.”

Samir Mesquita

Língua morta

“Se eu falar em língua morta, o gatuno pode entender mal e partir para   cima.  Detesto violência, é preciso cabeça fria e criatividade nessa hora.
– Que merda é essa de torrinha, cara?
– É meu dicionário de latim, meu. Para você não vale nada, mas é minha vida. Se você devolver o Torrinha[1], nem vou dar parte, fica com o resto.
– A mochila também, cara? Não tem muito dessas por aqui, ia ter que por no lixo para não dar bandeira.
– Fica com a bolsa, tudo que pegou, meu, mas devolve o livrão.
– Vale grana, cara? Tô mais acostumado a aliviar carteira, celular. O que você faz com isso?
– Sabe o que é, tenho asma, preciso levantar a cabeceira da cama, é questão de saúde.
– Bom, se é assim, dou o livro de volta. Minha mãe também tem bronquite, eu sei como é. Não vai dar parte de 155[2] mesmo? A mochila é bem legal, obrigado, cara, vai agradar no meu pedaço. Depois, sem B.O. e sem o livrão, a coisa fica bem mais leve. É bom encontrar uma pessoa justa, cara, muito prazer.”
[1] O Dicionário Latino Português de Francisco Torrinha, que apresenta o significado dos vocábulos e o sentido de frases de autores como César, Cícero, Virgílio, Horácio e Ovídio, encontra-se esgotado no fornecedor.
[2] Código Penal  –    Furto – Art. 155 – Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.

Eduardo Muylaert

“O ônibus perdido. Machado de Assis passa às quatorze e quinze. Ele chegou ao ponto dez minutos depois. Culpa da vitrine do sebo. Esperaria o próximo, agora com tempo para ler mais um capítulo de O Arco e a Lira. Desejava secretamente alterar a rota do Machado de Assis para que esse ônibus passasse pela Rua João Guimarães Rosa. Seria um bonito cruzamento. Pensava nisso quando a mochila foi levada. Um moleque correndo pela calçada, ele atrás: carteira com pouco dinheiro, não tinha trabalho remunerado; carteira de estudante, como frequentaria a biblioteca?; carteira de motorista, não tinha carro mesmo; identidade, foda-se; celular, sem crédito; chave de casa, a mãe tem uma cópia; o dicionário de latim…ei, ei, devolva o meu dicionário de latim!, só o dicionário de latim! O moleque desacelerou o passo.”

Luciana Gerbovic

“Centrão! O corre-corre de todo dia. Pega ladrão.
Um que corre outro que foge. Em cada cabeça uma mochila. Aqui o celular, PC, grana e sapato de tênis e correndo ali atrás os textos raros, anotações nas margens, dicionário analógico, português – francês, polonês, hebraico, sânscrito, latim, sei lá o que.
– Só quero o dicionário de latim.
– Hã?
E o diálogo ficou fácil. Dava para repartir a mochila de acordo com a cabeça de cada um. Sem briga.”

Alcino Bastos

“- Ei, volta aqui com minha mochila, pô! Meu dicionário de latim!
– Cai fora mano, te cuida meu, quem tá latindo aqui?
– Tô falando sério amigo. Tô de boa, pode ficar com as tralhas todas , eu só quero de volta meu dicionário de latim!
– Disse o que? Da lata de quem? Tu pirou meu irmão?
– Não! É latim, a língua de Cristo!”

Dominique Girard

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s