Como exercício em nossos encontros no meio de tantos feriados, Noemi nos propôs que cada aluno disesse o nome de um móvel OU uma ferramenta OU um objeto OU uma parte do corpo OU uma ação. Com a palavra escolhida, cada um deveria usar como tema de um texto erótico, o qual, por sua vez, não podia ser explicitamente erótico ou fazer uso de palavras explicitamente eróticas/sexuais.

freud

SOCAR

O silêncio foi se instalando a partir dos halteres lá perto da porta. Os supinos. Depois os aparelhos de remada, a área de abdominais, as bolas de pilates, o grande ringue do centro da sala… Eu estava no fundo, socando um saco de areia. Mas também fui calada por sua aparição. Eu só o conhecia do cinema e dos cartazes imensos que divulgavam café expresso.

Era tudo; e mais. Ali não havia photoshop, como diziam as línguas maldosas. E ele agora estava ao meu lado, numa bicicleta ergométrica.

Os sons aos poucos voltaram ao salão, mas tudo era diferente. Parecia ritmado, obedecendo aos círculos daqueles pedais.

Eu não, que não me dobro a Hollywood. Arregacei as mangas da camiseta, mas só porque… panturrilhas… estava calor…. aquilo são quadríceps… e voltei a esmurrar o saco de areia… peitoral… socos e chutes… socos e chutes… socos e chutes… que costas… socos… socos, socos, socos, abdômem… jab, jab, jab, jab, jabjabjabjabjab

Elídia Novaes

O CANAPÉ(Ê)?

Um acento muda tudo. O canapê, com o circunflexo no ê, é um pãozinho ou torradinha, aperitivo, com muitas possíveis variações, todas de grande gulodice: ovo, salmão, tomate, pepino, não há limite ou fórmula pronta, pode-se inventar a gosto. Sendo de pequeno porte, acaba permitindo o contato, acidental ou não, dos lábios com os dedos, o que fica ainda mais interessante se a mão for do sexo oposto, ou complementar, como queiram. Vem do francês canapé, com o acento agudo no é, mas que se lê como ê, o que permite a transposição para o nosso chapéuzinho. Já o canapé brasileiro, palavra que vem do latim canapeu, é uma espécie néo-espartana de sofá, depojado de maior conforto, mas firme a ponto de poder dar guarida a variadas espécies de investidas. Posta de lado a veleidade gramatical, e mesmo a etimologia que remonta à antiga Grécia, o que dá vida ao canapé é o contato do assento que nele se assenta, pois é a função que faz o órgão, e não o contrário. Nada mais triste do que um canapé sem história, sem boas histórias para guardar, pois um canapé de verdade é mais discreto do que um amante casado. As boas lembranças ficam só para ele, não as compartilha com ninguém, mas ninguém mesmo. Quem nasceu para canapé não se deixa passar por reles aperitivo. Cada um com seu acento, mas a memória do verdadeiro canapé é um cofre que se compraz com a saudade do roçar dos melhores assentos.

Eduardo Muylaert

 TORNOZELO

Não é do cheiro do café na tua boca quando vinha me dar bom dia, eu sempre deixando o começo do dia para depois, você sempre querendo o começo do dia para ontem. Não é da dança ridícula – o quadril duro demais para o rebolado – que você fazia enquanto preparava o estrogonofe do domingo. Não é do teu cheiro salgado-doce, como aquelas balinhas de goma envoltas em pedrinhas de sal, que grudava na toalha que você largava ao pé da cama quando eu já estava lá. Do que eu mais sinto falta, ainda, vinte e cinco anos depois, é da tua mão ao redor do meu tornozelo, as veias do teu braço e da tua mão saltadas, a vontade que eu tinha de apalpá-las enquanto meu pé, preso, se retorcia. A marca da tua mão na minha pele avermelhada: você me soltou, mas eu ainda ainda a enxergo.

Luciana Gerbovic

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s