“Ferida, triunfante, eu respondia em desafio: pode me mandar! Mas ele não mandava, senão estaria me obedecendo. Mas eu exasperava tanto que se tornara doloroso para mim ser o objeto de ódio daquele homem que se certo modo eu amava. Não o amava como a mulher que eu seria um dia, amava-o como uma criança que tenta desastradamente proteger um adulto, com a cólera de quem ainda não foi covarde e vê um homem forte de ombros tão curvos. Ele me irritava. De noite, antes de dormir, ele me irritava. Eu tinha nove anos e pouco, dura idade como o talo não quebrado de uma begônia, Eu o espicaçava e, ao conseguir exacerbá-lo sentia na boca, em glória de martírio, a acidez insuportável da begônia quando é esmagada entre os dentes; e roía as unhas, exultante. De manhã, ao atravessar os portões da escola, pura como ia com meu café com leite e cara lavada, era um choque deparar em carne e osso com o homem que me fizera devanear por um abismal minuto antes de dormir. Em superfície de tempo fora um minuto apenas, mas em profundidade eram velhos séculos de escuríssima doçura. De manhã, como se eu não tivesse contado com a existência real daquele que desencadeara meus negros sonhos de amor – de manhã, diante do homem grande com seu paletó curto, em choque eu era jogada na perplexidade, na vergonha e na assustadora esperança. A esperança era meu pecado maior.”
Clarice Lispector, “Os Desastres de Sofia

Inspirados nesse trecho do conto de Clarice, Noemi nos convidou a escrever um parágrafo como exercício. Como tema devíamos falar de alguém que estivéssemos com raiva e usar pelo menos três junções de substantivos e adjetivos opostos e não comuns.

“Era sempre pela manhã. Pelas soturnas manhãs que eu me deparava com a imagem e já começava o dia irritada e resignada. Existia algo na imagem, no formato do cabelo, na simétrica imperfeição das pernas tortas, que me faziam piscar longamente e desejar sumir com estardalhaço de uma vez. A voz também causava um conforto agudo. Eu sentia ainda mais raiva por não poder simplesmente me levantar e sair.
Nesse momento, me irrita também esse exercício, o esforço lúdico que faço para pensar em extremos, para escrever algo inteligente ou engraçadinho, ou que apenas gere rara manifestação de aprovação. Já que amanhã cedinho, a terna e raivosa imagem estará lá novamente. No espelho.”
Adriana Rossatti

Apito

“Ele apitou. Com olhos cândidos começou a escrever a multa, cravando suavemente a caneta no bloco. Não fiz nenhum movimento para sair do carro ou olhar para ele. Não ia lhe dar este gostinho terno. Teria que vir e trazer o papel, rastejando sua autoridade até mim. Eu o pegaria com dezprezo carinho, sem dizer uma palavra.”
Eva Maria Lazar

Raiva amarela no tapete.

“Eu o encarei com gosto de castigo fugaz. Seu rabo em pêndulo se agarrou no meu ódio macio, embaraçando aquele pelo duro na minha pele de hortelã. Ele sabe dar respostas à irresponsabilidade confortável da dona que o deixa só.”
Lidia Izecson

“Encostei a porta para que nenhum barulho o acordasse. Cerrei as cortinas. Ele tinha dormido mal à noite, eu vi pela escuridão refletida na tela de tevê. Dormia feito uma criança: egoísta. Era sempre assim, com ele finalmente adormecido na manhã, que eu sentia vontade de matá-lo levemente com as minhas mãos. Um gigante indefeso. Meu sorriso de café, gelado e sem açúcar.”
Luciana Gerbovic

“Eu não queria esquecer, nem por um minuto, da raiva secular que me corroía gostosamente os nervos e alimentava o premeditado desejo de sobreviver àquela mulher, foco da minha confortável volúpia, beleza de mármore incandescente com a voz gutural e doce que parecia provir de celestial demônio a se comprazer com cândida e agora inalcançável luxúria.”
Eduardo Muylaert

“De fato! A despedida me trouxe alegria. Pois a tinha visto chorar. Ela disse que queria sentir aquela solidão sozinha. E que eu deveria retornar, só, à companhia de meus livros de doce amargura.
Porque não ficou, não sei. Minha mulher amada é mesmo uma idiota; quando voltar vai apanhar muito para que não continue sofrendo.”
Alcino Bastos

“Me senti insultada: dez poucos minutos, ele disse; são a eternidade, respondi.
E na mesma trinca onde aquele atraso sovina reverberava, meu braço hipertenso queria amolecer em generosidades; porque era disso que se tratava, não mais esperas,  eu queria um atalho lépido para amá-lo com demora.”
Elza Tamas

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