Essa semana Noemi nos fez uma proposta divertida. A partir de uma história pessoal dela, nós deveríamos recontar a cena de acordo com uma perspectiva diferente, que ela designou para cada um de nós.

A história da Noemi: “Eu estava com um namorado recente, por quem eu estava apaixonada. Ele dormiu na minha casa e acordou cedo para me fazer café da manhã. Eu acordei e ele me disse: “dorme, eu te chamo”. Eu estava meio sonada e fiquei com uma dúvida martelando na minha cabeça: “Ele disse “eu te amo?” ou foi “eu te chamo”? Depois de um tempo, tomei coragem e perguntei se ele tinha me dito “eu te amo”. E ele respondeu que não, ” imagina dizer isso a essa hora da manhã”.

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Trágica
por Adriana Rossatti

“Acordei. Nem dormi. Ele apertava o snooze do rádio-relógio-despertador. Dormir a primeira vez na casa dele é como ganhar autorização para uma dimensão perdida. Móveis escuros, o lençol tem bolinhas e o travesseiro é fino demais para o meu gosto. A maçaneta do banheiro está quebrada. Ele coleciona caixas de fósforos. Atrás da porta tem um poster do DIO, na geladeira um bilhete da empregada. Fingi que ainda dormia, mas ele me beijou. Colocou a camiseta de ontem sobre o corpo nu e foi fazer café. ‘Dorme mais um pouco. Te amo’. Olhos estatelados. Me ama? Ou me chama? ‘Dorme mais um pouco. Te chamo’. Me chama? Ou me ama? Ele me ama? Será que finalmente ouvi? Será que ele é tão emocionalmente disponível assim? Parem as máquinas. Ele me ama. Tirem as crianças da sala. É amor. Eu mal acreditava que tinha acontecido. Vamos poder, enfim, passar para a fase em que a gente se ama, e nada mais precisa ser provado. Eu vou retribuir, preciso deixá-lo seguro. Talvez eu agradeça os ovos. ‘Ovos bennedict, meus favoritos! Como descobriu? Também te amo!’. Ou te chamo? Ou será que nem aconteceu?

Coloco a camisa aberta. Arrumo o despenteado do cabelo, o borrado da maquiagem. Escovo os dentes. Não quero falar nada com bafo. Chego na cozinha descalça, brincando com meus dedos no batente da porta. Fiz uma cara de frágil, porque eu estou. Eu estou frágil. ‘Aquilo que você falou. Foi te amo ou te chamo?’. Ele não fazia ovos. Cortava com uma faca cega as bordas do pão Pullman. ‘Te chamo, óbvio. Imagina dizer isso a essa hora da manhã.’

Acordei. Nem dormi. Fiz dois cortes fundos que me drenaram pela banheira de esmalte descacado. Embaixo da torneira tinha um fiapo de ferrugem escorrendo e em cima da caixa de descarga, exemplares antigos da Placar, da Playboy e da Carta Capital. A maconha, joguei toda na privada. Em cima do botão de snooze, do rádio-relógio-despertador, deixei um post it. ‘Desculpe fazer isso a essa hora da manhã. Te amo’.”

Fantástico
por Eva Maria Lazar

“Aquela luz forte entrando pela janela me acordou. Lembrou filme de ficção. Vou dormir mais um pouco, cada sonho. Uma voz gentil com um jeito metálico me deu um susto: quer café? Não tenho certeza se eu disse sim. Dorme, eu te chamo. Passos, a luz sumiu, me encolhi, virei para o lado. O olho estatelou; como assim, quer café, quem? O coração acelerou, levantei. Comecei a descer as escadas, meio pé ante pé. Coragem, entra logo na cozinha.

Eu e minha camiseta amassada entramos. Um homem alto, usando roupa estranha, mexia na cafeteira; na mesa, pão fatiado, queijo e geleia. O medo, já curioso, disse: quem é você? O rapaz era lindo, parecia Charlton Heston no Ben Hur de ontem à noite na Sessão Coruja. Sorriu, com os 94 dentes mais bonitos que já vi, você já levantou? Ia levar na cama. Fiz o olhar mais digno possível; quem é você? Riu; você gosta forte, né? Esperei o coração bater menos de 100 vezes por minuto: você falou eu te amo? Ele riu de novo: claro que não, a uma hora dessas? E continuou a preparar o café, enquanto eu sentava em silêncio à mesa.”

Ingênua
por Mônica Carvalho

“Tomei o último gole de vinho antes de fechar os olhos; a taça, agora vazia, tinha sido preenchida até a borda, e eu também. Sempre achei que vinho combina bem com os primeiros passos: na festa em que não se conhece ninguém, na paixão da qual ainda pouco se sabe. Ele não fala quase nada, acho que porque essa vida de repórter internacional demanda tanto de contato com todo tipo de gente que ele prefere nem comentar. Já é bom poder estar junto, mesmo que só as sextas, hora de almoço.

Nem acreditei quando disse que ficaria para dormir, ele que nunca passa das duas da tarde por aqui. Sim, merece o vinho! Comprei com cuidado, junto com tudo mais; uma conta desse tamanho só cabe uma vez por ano, mais quem sabe, se ele topar voltar e ficar. Ainda bem que aquele tantinho que espirrou quanto tirei a rolha (agarrada, esforço danado tive que fazer) não borrou o livro que ele tinha deixado semiaberto em cima da mesa (li, sem querer, um “não se esque…”, acho que era isso, escrito no post-it da primeira página), mas desviei os olhos antes que fosse indiscreta de verdade; sim, teria sido um desastre estragar o tal livro que ele carregava meio ansioso quando chegou.

Acordei, ele não estava ali.  Chamei.
‘Não venha, eu te chamo’!
‘Eu também’!
‘Ainda é cedo!’.
‘Não, não é, sempre amei assim: de olhos bem abertos’.”

Poética
por Elza Tamas

“Vi quando ele abriu a janela, tinha sol, então acreditei que ele tivesse dito.  Logo depois um cheiro de café gostoso invadiu o quarto, -ele fazendo café pra mim?- então devia ser verdade. Eu estava sem óculos quando ele disse, possível ver um dia arrebentando de lindo, mas difícil perceber os detalhes do movimento da sua boca, sem óculos eu nem escuto direito.
Era primeira vez que ele dormia na minha casa, nossos corpos se entendiam e nenhum de nós se banhou, queríamos manter todas as impressões. Depois conversamos, e adormecemos sem perceber. Dormir juntos é o que há de mais intimo. Agora a pouco, ele me deu um beijo, tímido, acordei e ele disse dorme, dorme, eu te amo, e eu coloquei as mãos sob o travesseiro, as duas, juntas, quase uma reza, feliz, tudo de melhor acontecendo, ele me ama, mas ai senti um desconforto, leve, mas desconforto, talvez ele possa ter dito eu te chamo, porque foi fazer o café, deve ter sido, dorme, eu te chamo.

Precisava perguntar, mas uma pergunta destas não se faz nua. Vesti a camisa dele, jeans, manga longa; virei os punhos, arrumei a gola, os dois primeiros botões desabotoados, e mordendo a boca de vergonha, perguntei: Você falou ‘eu te amo’ ou ‘eu te chamo’? Eu? não lembro, por quê?,  mas ‘eu te amo’ eu não disse, porque imagina dizer isso a esta hora, não ia ter sentido, riu e me olhou danado, gostando de me ver na roupa dele.Você quer com pouco ou muito açúcar? O quê? perguntei.”

Filosófica
por Eduardo Muylaert

“Hoje eu acordei na caverna de Platão e me senti uma toupeira. A frase saiu do fundo do travesseiro e eu não acreditei. Ele nunca tinha dormido na minha casa, se ofereceu para fazer o café e eu, como boa epicurista, achei demais. Mas o que eram aquelas palavras mágicas? Podia ser “Dorme, eu te amo”, mas também “Dorme, eu te chamo”. Será? Mesmo apaixonada, sou adepta do mais puro ceticismo e quis trazer clareza à essência da inesperada declaração. Sei da volatilidade das palavras e das múltiplas possibilidades de significado, mas era preciso adequá-lo ao texto correto, sem perda de tempo. Você disse eu te amo? Não pensei, claro, no amor como virtude, em Platão sou mais a caverna e a escuridão. Mas quando ele disse “imagina dizer isso na primeira noite” eu achei que era hora de largar a filosofia e voltar para a terapia.”

Metalinguística
por Elídia Novaes

“O despertador toca.
Ela – mmmm… zzzzzzzzz
Ele – O que você disse?
Ela – ahn? hmmm…? quê? eu…?
Ele – Ah, dorme. Eu te chamo.
Ela – Você viu o que você falou? Está precisando mesmo se consultar com uma fonoaudióloga. Não se entende o que você diz. Eu estou aqui do lado e não sei se você disse chamo, amo, se espirrou ou fez algum tipo de crítica ao meu hábito de dormir até mais tarde.
Ele – Eu disse Dorme que eu te chamo.
Ela – E não precisa responder assim. No grito é que as coisas não se resolvem. Se não funcionou para Dom Pedro I, não seria para você. Ora você fala enrolado, ora me trata como se fosse surda. Não é assim que o diálogo vai se estabelecer.
Ele – …
Ela – E aí? Nada mais? Isso é jeito de conversar? Veja como funciona: um pergunta e o outro responde. Depois invertem. O outro pergunta e o um responde. Chama diálogo… Você não vai perguntar nada? Nada mesmo? Você está ficando impossível de conviver.
Ele – Você… Na primeira vez, eu disse que te amava. Mesmo que fosse tão cedo. Daí, fiquei sem graça, achei que você estava dormindo e mudei, disse que te chamava. Ia voltar ao assunto mais tarde.
Ela – Viu como você está precisando visitar a fonoaudióloga? Bem que eu te disse.”

Ironia
por Luciana Gerbovic

“Você disse que ia fazer o café…
Disse.
E depois?
Depois o quê?
Depois de dizer que ia fazer o café, você disse outra coisa…
Disse?
Disse… Eu te amo? Ou eu te chamo?
Ah! … Eu te chamo, claro. Imagina se eu falaria “eu te amo” às sete da manhã.
Ah… E à noite, você falaria?
O quê?
Eu te amo!
Ah … Não. “Eu te amo” só falo entre duas e quatro da tarde. “

Prolixo
por Lidia Izecson

“Depois de quase 6 meses de encontros no café Brasil, no bar do Afonso, no salão de danças do Andrei, eu tinha certeza que naquela noite as coisas iriam acontecer. Era a primeira vez que eu subia até o apartamento dele, nunca antes ele havia me convidado, nem mesmo no dia 7 de março, dia do seu aniversário e quando fizera um bolo para os mais íntimos. O hall do prédio era suntuoso, cheio de tapetes persas, e a escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo me deu um pouco de tontura. Essas escadas que copiamos dos franceses podem ser muito bonitas, mas não são nem um pouco práticas, enrolam daqui, enrolam dali, e a gente acaba tendo que gastar muito mais energia e tempo do que o necessário. As modernistas brasileiras, mais retas e com menos adornos, se prestam muito mais ao nosso estilo de vida.

Quando cheguei, de língua de fora e quase sem ar, vi a porta aberta e entrei. O relógio cuco, do qual ele tanto falava, estava pendurado na parede maior da sala, pintada de verde claro, e eu fiquei lá imóvel, esperando. Não sabia quem ia aparecer primeiro: se ele ou o cuco. Foi então que a voz dele, aquela voz rouca de locutor da rádio Eldorado anunciando o concerto da tarde, me chamou lá de dentro: – vem aqui, quero te mostar uma coisa. No quarto, a cama ocupava todo o espaço e, por cima dela, a colcha de matelassê  me trouxe um certo alívio. Era de bom gosto e não tinha aquela cara de coisa comprada na 25 de março, rua onde ele gerenciava a loja de tecidos do pai. A claridade que entrava pela janela não me deixava ver senão a silhueta dele, e quando chegou perto e me abraçou, percebi que já estava só de cuecas. Eu então tirei minha blusa de seda da China pintada à mão, deixando que ele visse a tatuagem que fiz na India, aquela de quando passei lá os quatro meses do curso de Ioga. O sorriso dele foi lindo e ele me abraçou falando alguma coisa que parecia um doce murmúrio, mas bem nessa hora o cuco resolveu sair da casinha dele lá na sala e começou a berrar : cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô, cucôôôôô. Ele falava coisas no meu ouvido, mas eu só escutava os berros do cuco. E quando o maldito pássaro, cuco é um pássaro?  parou com a barulheira, ele soltou o meu corpo e, com uma cara contrariada, foi logo dizendo: eu sabia que você não me amava de verdade; agora tenho certeza disso. Se me amasse, como vive dizendo, teria respondido à minha pergunta. – Mas o que você perguntou? -Ah, isso só se fala uma vez, e acho melhor pararmos por aqui. Eu ainda insisti, implorei por quase dez minutos, mas ele se trancou, sentou-se na beira da cama e não disse mais uma palavra. Não tive outra alternativa, senão vestir minha blusa de seda da China e descer novamente aquela maldita escada com três lances encaracolados e grades de ferro cor de chumbo.”

Narrador Onisciente Intruso
por Isabela Noronha

“Ele acordou primeiro e se virou de lado. Achava patético isso de ficar olhando o outro dormir, não era esse tipo de cara. Tentou fechar os olhos de novo mas foi inútil, estava calor e, para ele, aquela cama, a cama dela, era muito apertada — embora, ainda que ele não percebesse, fosse do tamanho exato da sua. Ia para casa, ligaria depois. Ou esperaria ela ligar, que se dane. Mas quando pegou a calça do chão, bateu no abajur e a acordou. Ela quis saber aonde ele ia. Ele se viu sem opção, gostava de pensar que não era o tipo de cara que abandonaria a namorada assim, na lata, então disse que ia fazer o café e terminou de se vestir. Já fora do quarto, acrescentou: ‘dorme, eu te chamo’.

Ela ficou em silêncio, e ele, porque só acreditava no que queria acreditar, achou que ela tinha voltado a dormir. Mas a frase a tinha despertado inteira, ela não sabia se ainda era sonho e tinha ouvido direito, espera, não era sonho, ela tinha escutado algo sim. Aquilo. Não era? Espera. Era grande demais, felicidade demais. Talvez. Ficou com a dúvida, e a levou à mesa para tomar café com ele, depois ao parque, onde foram ler, e para o apartamento de novo, quando a chuva apertou de repente e os dois correram, mas se molharam mesmo assim, e chegaram encharcados e talvez fossem transar, talvez só se enxugar, mas ela interrompeu de qualquer forma para finalmente perguntar se, de manhã, sabe, naquela hora, sabe, que você foi, sabe, fazer o café. ‘Você disse eu te amo?’ ‘Mas é claro’, ele respondeu, ‘é claro que não. Imagina dizer isso tão cedo, de manhã’. Ele era esse tipo de cara.”

Técnico
por Dominique Girard

“Quando acordei, Paulo ainda estava lá. Ele, uns ruídos na cozinha e um aroma de café. Ao sentir minha movimentação nos lençóis, foi logo dizendo: “Dorme, eu te chamo”. Dobrei o travesseiro em dois, virei para o lado esquerdo da cama, fechei os olhos. Te chamo ou te amo? O que será que ele disse? Será que ele se utilizou de um léxico iniciado por  uma consoante fricativa sibilante, chhhhh ,  em que o som é formado pela passagem do ar por um canal estreito da boca, por um obstáculo? A  língua se curva de maneira a conduzir o ar sobre as pontas dos dentes. chhhamo? Ou, se desfez de todas as barreiras entre nós e optou por iniciar nossa manhã com a vogal “a”, em cuja emissão o ar passa livremente pela boca, sem obstrução? aaamo! A ansiedade não me deixou mais dormir. “Paulo, você disse: eu te amo?”. “Não, eu disse: eu te chamo.“ A prosódia é cruel.”

Humor
por Alcino Bastos

“Bocejo:
– Vou preparar o café. Eu te chamo.
Ele, aos gritos:
– Eu também.
Ela, de longe:
– Para que?
– Ué, amar não tem finalidade.
– O que? Felicidade?
– Sim, eterna.
– Eu sei. Sou a própria ternurinha.
– Não, a tesourinha não está aqui. Fala de novo que me ama.
Ela, entrando no quarto:
– Quem ama quem? O café está pronto.
– Você falou que me ama.
– Tá sonhando.
– Com você.
– Larga de ser ridículo. O café está pronto.
– Como assim?
– O café está pronto. Já disse três vezes.
– Que me ama?
– Ah, vê se acorda, vai!”

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