Por Lidia Izecson

tirinha_laerte

AQUILO

Todos os dias eles conversam, veem TV, cozinham, às vezes vão ao cinema, cuidam da casa, do cachorro, e dormem sempre na mesma cama grande de casal. Mas eles nunca falam daquilo. Quando percebe que ela está nervosa, ele acha que é por causa daquilo. E quando ele fica parado olhando pro nada, ela tem certeza que aquilo o está perturbando. Ás vezes aquilo chega perto deles e os dois ficam mudos. Um dia, a mulher já cansada de carregar aquilo como se estivesse arrastando um enorme caixão, resolveu perguntar. Ele então tomou coragem e também quis saber. Ficaram tão aliviados depois dessa conversa que resolveram não se importar mais com aquilo. Mas em pouco tempo, sentiram tanta falta que começaram a desenvolver um novo aquilo.

CONVENTO

Nas escadas escuras, as suspeitas, as apalpadas, as escutas, as desculpas.
Chegou menina pobre como tantas outras, hoje madre Maria da Fé. Ontem Leila Milhahan, imigrante árabe alfabetizada nessa língua-desenho, as letras vindo da direita para a esquerda, depois tudo da esquerda para a direita, as duas se encontrando no meio, na fenda. Estrangeira no seu próprio território.

Com o tempo, a ordenação, o orgulho dos pais, a nova veste, mortalha de desejos.
Na padaria do convento a massa é quente e macia: mexo, estico, aliso, elas em volta, noviças, tão jovens, quase meninas, peitinhos amanhecendo. Chamo, assobio, faço ofertas –  doces em troca de mamilos rosados, moedas por princesas que querem virar rainhas, a farinha manchando meu hábito, nem tudo é preto, nem tudo é branco. Livrai-me das tentações senhor, livrai-me do mal, só o senhor me acompanha, só o senhor do meu lado, de que lado? Não posso, não devo, não quero, quero, quero, quero.

Às vezes, para se acalmar aspirava os tapetes, as outras dizendo: não faça madre, isso não é trabalho para uma superiora. Outras vezes, se dedicava a fechar as janelas do casarão – eram 22, uma dentro da outra. Gostava de ficar sozinha no sótão escutando Beethoven. Lá o seu mundo, lá não precisava ser quem fingia ser. O terno a encarava, a gravata lambia seu peito e o espelho se enchia de orgulho.  No dia em que foi à farmácia a pivete com a navalha a encarou: – passa a grana aí, urubu. Passou.

No sótão, madre Fé pediu que ela tirasse a roupa. Pela janela viu um sabiá laranjeira muito grande empoleirado em um galho fino que ameaçava quebrar com o seu peso. Havia muitos galhos mais fortes á sua volta, mas ele escolhera aquele. A garota colocou a navalha em cima da mesinha e a madre achou que ela tinha os seios muito grandes, desproporcionais para o seu tamanho. Observou o triângulo dourado daqueles pelos pubianos e pôs a sonata nº23 para tocar, recostando-se na poltrona florida. Sem desgrudar os olhos da navalha, a garota começou a andar de um lado para outro naquele espaço pequeno e abriu um armário. Tirou de dentro algumas caixas e uma lhe pareceu especial: bem acabada e toda revestida de seda vermelha. Abriu, e deu largo sorriso. Começou então a rir cada vez mais alto e a madre pediu que ela ficasse quieta. Ás gargalhadas, batia com os pés descalços no assoalho de madeira, requebrando os quadris no que parecia ser uma dança indígena. Um cheiro de bife saiu da cozinha e entrou pelas frestas da porta perfumando tudo com gordura. A freira levantou-se, tentou conte-la e, na tentativa de alcançar a navalha, se encontraram no corpo a corpo – os olhos da garota parecendo separados do resto, como se estivessem olhando de outro mundo – a madre gemendo na busca de uma força que não possuía mais, até que a pivete desembestou pelos corredores aos berros, exibindo o corpo nu. Levou com ela a caixa de seda vermelha, a navalha, a vingança.

Na hora do jantar, a madre conduziu as preces com serenidade: Pai nosso que estais no céu, bendito seja o fruto do vosso ventre, não nos deixais cair em tentação, Amém.

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