por Isabela Noronha

twins-burns

Que situação.

Que situação.

Um dilema.

E olha que eu tenho intimidade com a dita cuja, a que não se diz o nome, a derradeira, a dona da foice. Desde sempre, desde o útero. Eu brotei com um gêmeo. Convivemos, irmãos, um ao lado do outro, até o último ultrassom. Papai e mamãe estavam finalmente felizes. Tinham demorado anos para engravidar. Fizeram tratamento. Queriam meninos, meu pai tinha nome e sobrenome para varão, dois então, um tanto melhor. Mas éramos um casal. Tudo bem, ainda era benção, a justiça se fazendo divina.

Mas no dia do parto, só um estava vivo. Eu.

O médico me tirou primeiro, pelos pés, a pele acinzentada e brilhante, coberta de sangue, um ser berrante. Depois foi ele, a mesma pele cinza, o brilho, o sangue. Silêncio. Um bicho morto, um frango que balançava pelo peso da cabeça, sem penas, sem vida, sem nada. 

1. Um sonho

2. A mínima possibilidade de dar certo


Essa parte do frango mam
ãe não contou. Fui eu que imaginei. Pensando bem, é desnecessária. Desculpe. É que trabalho em um açougue. 

A morte do meu irmão foi rara. Os médicos disseram que ele não tinha coração. Ele tinha, só não batia mais. Para mamãe, fui a primeira suspeita. Qualquer mínimo golpe poderia ter causado a tragédia: um chega para lá no útero, um pé mal colocado bloqueando o cordão umbilical e lá se ia todo o ar dele. Sufoco. Papai desconfiou de mamãe, de algum funcionamento errado, um gene torto, uma falha. Ela tentou argumentar. O médico interrompeu. Buscar culpados não mudaria nada. O tadinho não era para ser, vontade de Deus, seguíssemos em frente. Fomos. Meu pai sem o varão. Minha mãe sem o filho, eu sem o irmão, nós duas suspeitas, cúmplices e testemunhas, a verdade daquele crime na memória das nossas células.

Em casa, os dois berços no quarto, próximos, unidos, os nomes em placas acima deles: Carla e Abelardo. Abelardo era o nome do pai do papai, que tinha nos dado a casa e também o carro e também os médicos e o parto. Carla era só eu.

Mamãe ora me punha em um berço, ora em outro. Chamava papai para ver a criança ali, em paz, respirando bonitinha, abaixo da placa Carla, abaixo da placa Abelardo, decretando assim a presença dele, a nossa, a morte de ninguém.

Não eram berços iguais. O do meu irmão era mais espaçoso, reforçado. Meninos são maiores, mais fortes, até um pouco violentos, mamãe dizia. Quando eu fiz 3 anos e não cabia mais nem no berço do Abelardo, ela teve que tirar os dois do quarto. No lugar do meu berço, pôs meu colchão. No lugar do berço dele, outro.

Só o lugar de papai ficou vazio. Percebi que ele nunca mais tinha jantado com a gente e perguntei. Viajou, ela respondeu, definitiva. 

3. Um casamento

Mamãe me ensinou a me vestir com as minhas roupas e com as do meu irmão. Tínhamos o enxoval pronto até os 3 anos. Sorte, porque as roupas do Abelardo caíam perfeitamente em mim até os 5, quase 6. Meninos são maiores, mais fortes. Até um pouco violentos.
Fui
ótima aluna, principalmente em matemática e ciências. Nos esportes, preferia futebol. Era a capitã do time da escola que foi vice no intercolegial de 2004. Ouvia metal, AC/DC. Aprendi a tocar piano. Mamãe gostava de Branca. Nessa época, passei a assinar as lições como Carlabelarda. Carla era curto demais, Pedi aos colegas que me chamassem pelo novo nome. Quem não aceitasse, apanhava. Tinha os amigos certos. Era a rainha e o rei da pré-escola.


4. Uma pomba (sem querer)
5. Uma legi
ão de formigas
6. Tr
ês ou quatro besouros
7. Uma barata
8. A vontade de cortar o cabelo bem curto

9. Uma curiosidade: como é ser feliz?

Até que dona Lúcia me convidou para uma conversa na sua sala e quis explicações. Não dei, não tinha para dar. Ela ameaçou chamar mamãe. Implorei que não fizesse isso. Expliquei que mamãe não precisava de mais problemas, estava cozinhando para fora, trabalhando muito. Nos dias que conseguia. Nos outros, ela sumia, só voltava de noite, com comida ou roupa ou jornais ou outra coisa que conseguia na rua. Dona Lúcia não me ouviu, e então, do nada, bati a mão na mesa dela e disse: Filha da Puta. Algo me subiu. Era o Abelardo.

Pouco depois desse episódio, foram dar lá em casa uns policiais e uma moça, na hora do almoço. Mamãe estava dormindo, eu abri a porta. Perguntaram por ela, subi para acordá-la. Mamãe desceu sem se pentear e os policiais começaram um discurso, palavras como chance, irresponsabilidade, quinta, vez, criança, chiqueiro, fome, magreza, doença, tratamento e uma que eu ouvia pela primeira vez mas entendi: abandondincapaz. Mamãe gritou, chorou, quis vir até mim. Um deles a segurou pelo pulso. A moça me pegou pelo braço e mandou eu fazer a mala. Fiz. Quando descemos, mamãe ainda chorava e aí percebi, ela não viria. Então eu também não ia. Também não ia. Não ia. Me agarrei no corrimão da escada, mas eles eram três e eu, só dois. Mamãe ficou sozinha.

Abandondincapaz. Nunca me perdoei.

Tentaram me encaixar com alguma família, mas ninguém queria uma criança velha. Eu tinha 8 anos. Fiquei em instituições, foi bom, porque continuei a estudar e tinha comida e cama. Mamãe foi me visitar uma vez, meses depois. Não falou nada. Chorou e tocou meu rosto, seus dedos deslizaram nos meus olhos, no nariz, na boca, tentando voltar para algum lugar, um território, a geografia dela e de Abelardo em mim. Depois não veio mais.


10. Aulas de religi
ão.
11. Aulas de moral e c
ívica.

12. Aulas em geral.

13. Duas aranhas de pernas finas e a mãe delas.
14. Carrapatos.
15. Um escorpi
ão amarelo.

  Quando fiz 16 anos e estava perto de ser maior, consegui autorização para voltar para a nossa casa para uma visita. Bati a campainha. E de novo. Ninguém atendeu. Assim também foi no dia em que Abelardo e eu completamos 18 anos. E outras três vezes no ano seguinte, as plantas do quintal da frente engolindo a casa, amordaçando as portas e as janelas.

16. Flores na porta de casa.

17. Uma pomba (por querer).
18. Mam
ãe.

Nesse período, eu tinha arrumado trabalho no Zeffa. Garçonete. Eu não era mais problema do governo, só meu. O bar ficava cheio toda noite, dava para pagar as contas. Morava com outras três meninas em um apê no Padre Eustáquio. O gerente me elogiava pelo atendimento jeitoso, atencioso. Em maio, tinha sido a funcionária do mês. Perto do Natal, em um almoço, senti algo, um esbarrão?, na bunda. Ignorei. Voltei para servir o filé. Um apertão, agora de mão cheia, agora sem dúvida. Pra quê. Me subiu, ele veio, o Abelardo. Quando dei por mim, a faca estava fincada naquela mão redonda, saliente, o cliente gemendo. Fui despedida no meio do salão.

O gerente me ligou depois e disse que aquele cliente era um porco mesmo. Mas não podia me dar o emprego de volta. Ele me indicou para atendente no açougue do amigo dele. Lá eu poderia usar a faca à vontade, ele disse. E riu.

19. Orgulho

O açougue é um ponto de encontro de mortos e vivos, tipo um cemitério. Mas as semelhanças param aí. Em vez de enterrar os que se foram, eu os tiro da solidão gelada e entrego para os clientes. O Pedro, o dono, me disse isso, e eu agora repito para todos, porque acho bonito. Essa frasezinha besta fez algo viver em mim. E algo morrer também.

Outra diferença, essa observei sozinha: daqui, as pessoas saem sorrindo. Quando elas vêm. Não tem muito movimento. Mas o Pedro acha tudo ótimo.

20. Tempo
21. Moscas

A gente está junto há seis meses. Isso mesmo. Namorando. Ele me quis assim, de pronto. Diz que sabia o necessário: sou jeitosa, atenciosa e boa com a faca. Semana passada, me tirou da república e me convidou para morar com ele. Não preciso mais ir ao açougue se não quiser.

Nosso apartamento é ensolarado, ventilado e, como fica no primeiro andar, tem quintal. Pedro é mais velho uns 20 anos. Gosto. O Abelardo diz que, em geral, Pedro é bom. Ele não quis ser apresentado. Não deixou sequer que eu falasse dele para o meu namorado.

Foi pior. Porque o Abelardo voltou da clausura auto-imposta maior, mais forte e até um pouco violento. Subiu no meio da briga, uma briga horrível. Ele chegou a pegar a faca. O Abelardo. E gritou, fez ameaças. Pedro desviou dos golpes, ainda bem. Chorou. Pegou umas roupas e foi em direção à porta. Antes de sair, disse: ou você muda ou não dá

Que situação.

Que situação.
Um dilema.

Abelardo não tem para onde ir. Não vai se mudar. A não ser, a não ser que.

Não.
Eu n
ão poderia.

Mas Pedro.

Pedro é minha chance. Minha rocha.

Você entende, Abelardo?

Desculpe.

Matei tanto na minha vida, precisei. Matei e anotei, para não esquecer, para pagar depois. Mas o meu irmão não. Você, eu não poderia.
Poderia?


22. Abelardo

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