No nosso encontro do dia 13 de Outubro, Noemi nos propôs usar duas frases que fossem provérbios ou clichês e que estivessem no texto de uma forma natural e não zombeteira. Sentamos e escrevemos isso:

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“‘O importante é ter sáude’, me falou com aqueles dentes tortos. Tomanocú! Tô cagando pra ter saúde. Importante mesmo é ser magra. Magra, linda e rica. Com Y. Ryca. E se eu tiver que tomar bola controlada pela Anvisa e ficar louca e agressiva por 6 meses para ficar magra, pode ter certeza que eu vou fazer. ‘Você pode trocar o requeijão por tahine com mel’. Tahine é um negócio que alguém coloca no meu homus. Eu não vou tacar mel no troço do meu homus. ‘Fica muito bom!’. A pele da vaca brilhava. Besuntada de tahine e mel. Eu fico pensando se existe mesmo esse planeta maravilhoso de nutricionistas funcionais, cheios de chia e flocos de amaranto e organismos desintoxicados e regulados. Algum planeta onde ela morasse com suas coleguinhas, comendo pão integral maçudo e desfilando regatas de alcinhas em dias de calor infernal. Tomanocú. Eu passo a pão e água, e uso moletom, até ficar magra.’
Adrinaa Rossatti

“Quando eu era pequena tinha uma inveja danada da Nurian. Por causa da mãe dela. A mãe da Nurian, o nome dela, era Esperança. Daí eu sempre ouvia a mamãe, conversando com as amigas no telefone. Interurbano. Dizia, quando contava da nova vida na cidade, da mudança e da loja que papai abria. ‘A Esperança é a última que morre.’ E eu pensava. ‘Que bom pra Nurian, né? Vai ser a última a ficar orfã.’ Porque todo mundo fica orfão. Uma hora ou outra. É a lei. Mamãe contou quando a Nona morreu, e o vovô tentou entrar no túmulo junto com ela. Ele chorava. Mamãe falou. ‘Vovô chora porquê tá orfão. Todo mundo fica orfão um dia. É a Lei da Natureza.’ Então tá, né!? Se é a Lei. Menos o Júnior, que morreu antes da mãe dele. Foi acidente de carro e ele voou pelo parabrisa. A mãe dele ficou com uma cicatriz em formato de C na testa. E ele morreu. Mas o Júnior era adotado. Acho que por isso não tinha como ficar orfão. Pena que a mãe dele não chama Esperança. Aí ele seria irmão da Nurian.”
Adriana Rossatti

“Só obedecia a uma regra autoimposta nessa vida: jamais comer numa praça de alimentação de shopping center. O sol nasce para todos, mas metade da população parece se esconder dele nessas praças, especialmente aos domingos. A promessa foi feita logo na primeira vez em que se viu nessa situação: se para morrer basta estar vivo, para não viver basta passar os sábados e principalmente os domingos enfiado numa praça de alimentação de shopping center.”
Luciana Gerbovic

“Ele estava lá dizendo aquelas coisas quando de repente me encarou – eu estava sentado bem no meio de uma plateia de 150 pessoas – e disse: faça o bem sem olhar a quem e você será recompensado. Recompensado, pensado, passado, sossegado, furtado, caluniado. Tudo isso me fez lembrar minha mãe com sua frase preferida: Mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico ir para o céu. Por que eu? Por que tinha que olhar justo pra mim que não enxergo direito, não faço o bem, não entendo de agulhas, de camelos, sou rico, gosto do meu iate, da mercedes, dos meus amigos do face, do instagram, dos companheiros da Petrobrás e amo o  meu cão? Encarei-o de volta e mandei ver: Vá pra puta que o pariu!”
Lidia Izecson

“Adolescentes, eles agiam como tal. A prova seria de geografia física. Sobre o mapa-múndi, coca-cola, pipoca e algo indecifravelmente marrom que eles haviam cozinhado, os celerados, sem a presença de um adulto ou, ao menos, de alguém sóbrio. O colega voltou do banheiro ainda fechando a braguilha. Tem algo de podre no reino da Dinamarca, disse apontando. A bolha cor de avelã já se espalhava pela Alemanha e chegava à Polônia. O rapaz alto de braços incontroláveis apressou-se. Minha irmã me mata. E lá se foi a coca-cola África afora, percorrendo do Marrocos à Serra Leoa. A garota CDF ia decorando os nomes dos países antes que desaparecessem, acometidos pela bolha parda. A loira gritou ‘Xi, é a última coca-cola do deserto! Pega um guardanapo… É isso aí!’. A essa altura, as pipocas já venciam as fronteiras planetárias e chegavam à cama, à porta do quarto, muitas escondidas sob a escrivaninha, perseguidas por Boris, o babento. O garoto de braços incontroláveis agarrou-o pela coleira dizendo: pode parar, seu Boris. Quem tudo quer, tudo perde! Vai ficar lá no quintal porque eu não vou limpar seu vômito de novo. Ao que as garotas responderam em uníssono: Blargh!”
Elidia Novaes

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