de Alcino Bastos

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– Dá para acreditar? E, depois, o autor ainda disse o seguinte: “Barthes, no fundo, é muito parecido com Platão, para quem a mimese era apenas a imitação de uma imitação”.

– Para você entender melhor, é preciso dizer que o grupo era muito homogêneo. 

– Se eu destoava? Claro, uma das poucas exceções. A maioria deles e delas dizia ter trinta e cinco anos. No máximo. 

– A idade dele?

Saco. Ficam me atropelando e a Beth mais que ninguém.

– Deixa ver. A nota sobre o autor diz que nasceu em 1964. 

Estou casado com a Beth há pelo menos uns trinta anos. Acho. No princípio era o verbo e, depois, tudo veio à luz. Explico curto e grosso: no princípio achei que ela gostava de literatura e depois entendi que não. A Beth tem trinta e cinco anos. No máximo.

Outra explicação: eu estava contando tudo isso para Helena, não para a Beth. A Helena tem trinta e cinco anos e fala para quem quiser ouvir que tem cinquenta e sete. Não sei se quer contar vantagem ou causar comoção.

Bom, eu falava a respeito daquela noite. Cheia de pessoas com nomes como Licibeth Fakiani, Marianne Brepohl, Françoise Forton, Sarah Swolfs, Michel Lassner, Alexandre Reitzfeld. Nossa! Muito bacana. Contava tudo para Helena. Que ria.

Contar para a Beth era desnecessário: ela estava lá comigo naquela ocasião.

Existem esses encontros à noite. Todos de copo na mão. Uísque. Vinho também serve, mas acaba saindo mais caro se você quer um vinho razoável. Vamos de uísque mesmo. E, rápido. 

Essa historia da idade – essa precisão dos trinta e cinco anos – foi o que escutei logo de início. Ninguém admitia envelhecer e comentavam coisas da moda: autoplásticas de rejuvenescimento; bactérias inteligentes, ativadas com sensores que viajam dentro do corpo, combatendo doenças e aplacando qualquer possibilidade de envelhecimento. Alguns mais ousados discutiam abertamente a possibilidade, num futuro próximo, de optar entre morrer e não morrer. Assim, de orelhada, me pareceu que a maioria do grupo ali presente optaria por permanecer sempre com os trinta e cinco anos que tinha agora. Discussões mais acaloradas dividiam as pessoas entre “nós” e “eles”. “Nós” tínhamos preguiça, “eles” não. Eu rapidamente admiti que fosse preguiçoso e aceitaria a morte. Até já tinha lido um texto falando da minha preguiça: “preguiça de congelar a cabeça, de bactérias que curam males, de viver muito mais. Preguiça das sacolas; das assinaturas com firma reconhecida; dos dentistas; dos eletricistas; de não saber e de não saber; das esperas; de passar fio dental; dos medos, todos; da solidão; dos aeroportos; de muitas pessoas; de poucas pessoas; do medo de morrer”. Uma moça de trinta e cinco anos deu um salto e contra argumentou: “Se você tem medo de morrer então seria melhor não morrer, ou não?”. Para evitar falar de novo em preguiça eu disse que, para acabar com este medo, bastaria decidir sobre o que vem depois da morte: nada (nadinha mesmo?), reencarnação para aprimoramento contínuo (olha aí a preguiça!) ou vida eterna ao lado de deus (escutei alguém falar de tédio?). Uma coisa é certa: todo mundo acredita em morte após a vida. Já o conceito de vida após a morte é controverso. E por fim esse papo sobre a morte acabou morrendo de morte natural ou talvez tenha sido encapsulado numa câmara criogênica para ressuscitar no futuro com roupa nova e cara de jovem.

Parecia haver uma música no fundo (talvez um PC lá na cozinha, em regime de streaming e com o volume bem alto) e o som era tão abafado que permitia a conversação normal ali no living. Andei na ponta dos pés pela cozinha e encostei o rosto no congelador, aspirando os complexos cheiros da vida. Não achei nada produzindo música, nem dentro nem fora da geladeira. A geladeira era velha, com congelador na parte de cima. Dentro do congelador um saco de gelo, aberto. Na parte de baixo uma grande bandeja com bombas de chocolate (aquilo que os franceses chamam de éclair) e muitas tortas de pequeno tamanho abertas na parte de cima (é isso que os franceses chamam de quiche?). Alho-poró, queijo, frango etc.

Quando voltei para a sala, um rapaz, com trinta e cinco anos no máximo, estava dizendo: “São duas as grandes razões que fazem alguém ler: a busca de entretenimento e a do conhecimento. Mas, no mundo tecnológico em que vivemos, esse leitor não necessita mais da cadeia intermediaria entre ele e o conteúdo. Assim, editores, distribuidores e livreiros tornam-se, muitas vezes, dispensáveis o leitor, pois encarecem o produto”. Foi atacado e defendeu-se como pôde: “Não acredito no fim do livro em papel. Acredito no poder de uma boa história, seja em livro impresso, digital, cinema, qualquer ferramenta.”

Não. Não tinha mais conversa e nem era mais uma reunião comum. Foi assim, de repente.

– Virou uma palestra?

– Pode ser. Melhor ainda: uma aula do autor de meia idade para alunos de trinta e cinco anos, no máximo.

Claro, não era para ser assim. Todos haviam pensado em distribuir ideias, fazer networking, trocar figurinhas, marcar encontros, aproveitar o bem estar físico que os trinta e cinco anos proporcionam, tudo isso. Mas, para o bem ou para o mal, ele monopolizou.  Era de noite, entende? Com uísque na mão. Todos foram ficando com uma capacidade rara de entendimento dos conceitos e das verdades absolutas que iam sendo distribuídas de maneira tão generosa pelo autor: “Não posso escutar a palavra cinema”. Silêncio respeitoso. “O gênero mais privilegiado em termos econômicos para uma boa história (há,há), para o entretenimento (há,há), e dentro deste realismo totalmente apático, é o cinema comercial. O realismo comercial monopolizou o mercado e se tornou a marca literária mais poderosa. O realismo não passa de uma gramática, um conjunto de maneirismos e técnicas que obscurece a vida literária”.

A partir daí, urbi e orbe, o autor começou a proibir: “não usem situações de conseguir ou perder o emprego”; “nunca ninguém deve brincar com a comida enquanto está pensando em alguma coisa”; “nada de cartas de amor ou propostas de casamento”; “nada de doenças e suicídios em sucessivas gerações de uma mesma família e, importante, nem pensar em incesto”; “evitar a todo custo rapazes promissores de olhos azuis e moças com decote mostrando o arfante vale entre os seios”.

E, didático, explicava: “o realismo nada mais é do que uma convenção que reflete as aspirações de leitores pequeno-burgueses”.

Helena ria e se deliciava. Era isto que eu gostava nela. Muito natural que, depois desses anos todos como minha amiga, ela estivesse pensando se tudo aquilo era mesmo verdade, se o coquetel tinha acontecido e se o autor tinha dado aquela aula. Que importava? Era engraçado, não era? 

– Então era sobre o realismo?

E queria mais.

– Ele não falou dos personagens? Diálogos, linguagem? Ele falou mesmo um “há, há” para desmerecer uma “boa história”? O que ele falou sobre a figura do “flâneur”?

– Nada. Sobre isso tenho certeza de que não disse nem uma palavra.

Na noite do coquetel, quando eu estava voltando para casa, a Beth passou a desancar o autor. Fiquei surpreso e reconheci que ela tinha entendido pelo menos uma parte do que tinha sido dito; a mensagem que o autor quis passar chegou até a Beth. Um pouco borrada. Uma espécie de telefone sem fio.

O fato é que ela estava muito brava com tudo aquilo e desandou a falar. Saco. Eu queria dizer para a Beth o seguinte: “vamos falar sobre isso a qualquer outra hora, meu bem, mas, por favor – só desta vez, vai? – não agora”. Infelizmente este tipo de comentário constava da lista de proibições do autor e, então, permaneci calado. Se eu tivesse dito aquela frase, ela teria retrucado: “você não me ama mais?” e eu teria respondido: “não é isso, é só que estou muito cansado”. Estas duas frases também constavam da lista do autor e então eu cheguei a pensar que a vida me seria mais difícil daquele dia em diante.

Ela disparava a falar. “Ele fez pouco de gente boa. O que está errado com Le Carré ou P. D. James? Eu não gosto de Flaubert ou George Eliot, e daí? O Barthes é um bundão ridículo”. (Eu concordava com isso, mas, permaneci cuidadosamente calado). “A lista de proibições foi primária, não foi?”. (Achei que não precisava dizer nada, mas, educadamente, emiti um han-han que, se preciso, poderia ser confundido com um pigarrear suave). “Ele pensa o quê? Que somos crianças? Será que ele não via que todos ali já tinham trinta e cinco anos, no mínimo?”

Ah, bom, no mínimo. No mínimo fizemos algum progresso naquela conversa. Bem mais tarde, no fim de semana, a Beth me disse que precisava viajar por uns dias. Ia visitar um sobrinho.

Por mim tudo bem.

Depois que o autor falou sem cessar por um tempo que não consegui medir com precisão, ele calou-se. Imagino que tenha se dado por satisfeito com as lições generosamente oferecidas ao grupo, ou quem sabe esperava perguntas ou mesmo comentários inteligentes. Não sei dizer por que não perguntei nada a ele. No entanto, notei que o grupo estava catatônico e tinha perdido a voz. Não estou dizendo que tinha perdido a voz por causa de uma epidemia de gripe, de uma amigdalite grupal; eu estou dizendo que o grupo tinha sentido um impacto tão grande com as palavras do autor que, de alguma maneira, a voz que porventura ainda tivessem lhes havia sido arrancada como em uma operação cirúrgica. Até aí tudo bem. O interessante foi que este acontecimento me permitiu vislumbrar algumas diferenças ainda hoje existentes entre homens e mulheres. Sim, olha só. Para os homens recuperarem a voz é necessário jogar umas duas pedras de gelo dentro de um copo largo e baixo e completar até a borda com uísque. Foi o que os homens fizeram em caráter de urgência. Já, no caso das mulheres, é diferente. A dona da casa, que tem trinta e cinco anos, foi rapidamente até a cozinha, esbarrando nos móveis, e voltou para a sala carregando uma grande bandeja com bombas de chocolate (aquilo que os franceses chamam de éclair). Verifiquei que basta consumir duas ou três dessas bombas para que a voz das mulheres retorne. Tão melodiosas como sempre. Foi fácil ver quando homens e mulheres ficaram subitamente felizes, confiantes nas bactérias inteligentes, nas enzimas geneticamente modificadas: todo este pequeno mundo, ativado por sensores, em movimentação constante dentro daqueles corpos, combatendo quaisquer efeitos deletérios do chocolate, do uísque ou de eventuais conceitos literários desagradáveis à estética de cada um.

Outros comentários desagradáveis: “não há grandes novidades ou livros realmente notáveis”. “Não vemos um pensamento novo. Os livros hoje são os mesmos dos últimos anos”.

Helena (que gosta de literatura) lamentou-se comentando que tudo que havia para ser escrito já tinha sido escrito. Inúmeras vezes. Eu tinha que concordar, mas ponderei:

– Eu não tenho vergonha de escrever de novo o que já foi escrito. E se as palavras dos outros foram melhores que as minhas, eu uso aquelas mesmas palavras, sem dó nem piedade.

Helena bocejou e, antes de apagar a luz, perguntou o que havia acontecido depois que todos tinham recuperado a voz. 

– A reunião estava no fim. Antes das despedidas fui me postar ao lado do autor e disse para o grupo: “o escritor tem que agir como se os estilos e métodos literários disponíveis estivessem constantemente à beira de se transformar em meras convenções e, por isso, ele precisa tentar vencer esse inevitável envelhecimento. Precisa agir como se a própria vida estivesse sempre à beira de se tornar convencional”.

Helena achou que eu era um gênio e resolvi não dizer para ela que as palavras não eram minhas. Eu só achava que elas eram inspiradoras.

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