Em nosso encontro de 06 de Outubro, Noemi nos propôs um exercício surpresa. Cada um de nós recebeu uma palavra do colega sentado ao lado. Deveríamos escrever um parágrafo sobre “O que é escrever”, fazer uma digressão no meio do tema sobre o assunto recebido pelo colega, e voltar o tema principal novamente.

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MORTE
por Adriana Rossatti

Me sinto um tanto canastrona em falar sobre escrever. Escrever é um troço orgânico para mim. Escrevo como tomo banho, roo a unha e vou dormir com dor de cabeça em dias quentes e vagarosos. Quem fala de coisas assim, cagando regras do que nem se faz força, é canastrão e sem salvação. A verdade é que sou canastrona e preguiçosa. Se não fosse tão fácil para mim, talvez nunca escreveria. Às vezes penso se não vou morrer nessa ambição meia-boca. Acho que é na morte que a coisa toda pega. Chegando lá deve ter um “tio”, um juiz, alguém com um talão de Zona Azul para prestar contas. ” E aí!? O que você fez de extraordinário?”. Nada. Só escrevi. Vou ser cobrada por não mexer uma palha da minha zona de conforto. A morte é quando o bicho pega. Ninguém sai ileso dela. E só porque acho que ela está longe demais, falo com essa consciência danada..de quem está ferrada, mas não vai mexer a bunda do lugar. Acho também que, se escrever não fosse tão fácil quanto bocejar, se não fosse tão natural quanto me lambuzar de manga e tirar casquinha de pipoca do dente, eu daria um jeito. Eu iria arrancar sangue, deformar membros, mas acharia um jeito de fazer com que a escrita fosse o que me é hoje. Respirar.

SEQUÊNCIA DE LETRAS E CAMINHOS ERMOS
de Elidia Novaes

É mesmo como dizem. Escrever é terrível; bom de fato é ter escrito. A gente fica olhando para cima, mirando à direita e à esquerda com olhares cegos, à cata de assuntos. Abana as mãos, pretende formas no ar enquanto as palavras, sinônimos, estruturas passam ali adiante e não se deixam agarrar. A respiração fica curta, o coração acelerado, os dentes trincam, as mãos ensopam – lembra uma crise de pânico ou o prenúncio de um derrame. O deserto pode ter areia, animais, pedras, oásis ocasionais. Mas caminhar por ele é coisa para tuaregue, não para turista. Não se vê o fim. Lá vêm as cores, as formas, algum movimento, mas a assimilação escapa. Até que uma ideia vem com bússola.

NOITE
por Lidia Izecson

Eu, no garimpo. De palavras, verbos, sons. Essa frase está artificial, talvez seja melhor tirar os adjetivos, ou deixar só: aquela mulher gorda. Não, também ficou ruim e ainda perdeu o ritmo. Quem sabe, aquela mulher comia como um…, um …, um o quê meu deus? É isso que dá escrever de manhã, as ideias não fluem, não se organizam. Se eu tivesse escrito esse conto ontem à noite, com aquela inspiração que chega nas madrugadas, congelada nos cubos de gelo do gin tônica que só o Vicente sabe preparar e, que é feito com gin do bom, senão dá dor de cabeça; ele sempre diz que tem de ser do caro, bem caro. Daí tudo estaria terminado e eu não estaria aqui sofrendo.
Maldito prazo.

UÍSQUE
por Eduardo Muylaert

Quais as condições ideais para escrever? Cada escritor tem suas manias, seus horários, sua disciplina – ou sua indisciplina. Alguns precisam de drogas, outros de álcool. Embora o vinho seja mais refinado, o uísque sempre foi a bebida por excelência dos escritores. O cachorro engarrafado, como foi chamado por um amigo de todas as horas. Uns gostam de bourbon, o de milho, mais americano. Outros querem mesmo é o scotch, vindo da Escócia (nem é preciso dizer), com sua base em malte. Já ouvi dizer que o uísque era a droga da minha geração. Pode ser, mas para fotografar o álcool é péssimo: o foco demora, a mão treme, as imagens borram, um tremido sem poesia, ainda por cima. Produzir sob efeito de uísque é para poucos; um dos maiores advogados que conheci costumava absolver o réu, embora subisse cambaleante à tribuna do Júri. Mas escrever? Escrever exige concentração e empenho. Muitas vezes, as ideias movidas a álcool, postas num guardanapo ou outro pedaço de papel, viram lixo na manhã seguinte. Sem uísque, portanto. A escrita sai sozinha, de um canto do cérebro que está em sintonia com os braços, as mãos, e também o resto do corpo. É preciso sobriedade, inspiração, concentração e vontade, até para deixar aflorar a memória afetiva, emocional, e as lembranças de fatos e pessoas, com as sensações que carregam. Há grandes escritores que associaram sua figura à do uísque, basta citar Hemingway e Vinícius. A maioria, porém, só se embriaga depois de entregar a lição de casa. Ou de se entregar à preguiça do bloqueio criativo ou da dor de cotovelo.

OFICINA MECÂNICA
por Luciana Gerbovic

O clichê da página em branco, na tela ou no papel, não importa. A questão está em juntar as palavras e formar uma frase que preste. E uma frase que preste tem beleza, impacto, boa combinação de nomes, adjetivos, advérbios, sei lá o que faz de uma frase uma frase boa, mas tem uma combinação que não é mágica. É fruto de trabalho mesmo, sem milagres. Um mecânico que todas as manhãs abre a porta da oficina e olha para todos aqueles carros ali, à espera da combinação perfeita das peças que o colocarão para rodar novamente. Com a diferença da inspiração, talvez: todas aquelas gostosas em pôsteres. Vou colocar uma foto do Billy Bob Thornton na parede. Não, George Clooney. Casou, o desgraçado. Qualquer inspiração deve valer para encontrarmos a frase boa, que deve se juntar com outra frase boa, a rebimboca que se junta à parafuseta, até alcançarmos o ponto final, que pode nunca representar o fim.

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