de Eva Maria Lazar

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Já tem uma hora que você não faz um movimento. Ontem no passeio da noite você andou mais devagar, eu achando que era cansaço da disputa pela bolinha de tênis. A cara da tua veterinária vem na minha cabeça e afasto. Teu tratamento foi um sucesso, lembro da festa quando ela te declarou curada. Aquele inchado perto da axila foi crescendo até que não pudemos mais ignorar, o teu olhar pedia. Daí foi aquela sucessão de internações, medicamentos, aplicações, teu pelo caiu, você mal comia e só dormia. Lembra? Foram dois meses muito difíceis para nós. Até chegar na comemoração, teve faixa de bem-vinda de volta.

Agora são seis meses de paz, teu pelo cresceu, mais liso, verdade, mas lindo. Você voltou a comer e a brincar, combinamos de esquecer o que tinha acontecido. Eu fiz minha parte, acho que você fez a tua.

Não quero pensar nisso agora, enquanto espero você acordar. Você sempre foi uma gozadora, está tirando uma comigo. É bom que descanse até mais tarde, afinal, hoje é sábado; o poetinha já disse que é o dia em que tudo acontece. Eu lia poemas dele em voz alta quando você ficava agitada, te acalmava e logo dormia. Poesia ajuda a deixar as coisas do tamanho que dá para lidar. Nem uma mexida involuntária do cotoco de rabo; nem orelha, nem pata. Eu com o coração parado. Lembra dos filmes que a gente assistia? No dia do Babe, você não piscou até acabar, eu ri muito.

Não quer mesmo tomar um pouco de água? Pego para você. Não? Tá bom. Quando quiser me avisa. Você está muito quieta. Ainda bem que não preciso ir trabalhar, posso te esperar. E lembra quando eu quebrei a perna e fiquei semanas de cama? Você deitava no gesso e não queria sair de jeito nenhum. Deu uma de enfermeira, só saía pra comer, ir no banheiro e voltava correndo. Até te dei a tala de presente quando não precisei mais, você roeu toda.

Tem gente que me acha louca por curtir tanto cachorro. E daí? É que não te conhecem. Quando viajei para aquele curso, você emagreceu um monte, fiquei culpada. Não adiantou falar que tive saudade todos os dias. Na volta te enchi de brinquedos, lembra? Na alfândega olharam esquisito para a minha mala.

Não quer mesmo dar uma volta? Não, não estou com pressa, só para saber. O dia lá fora está lindo. Tá, não pergunto mais. Acho que hoje você não está a fim de papo. Não, não quero sair daqui, não esquenta. Já disse que não preciso. Olha teu petisco favorito, encosto no focinho e nada. Chamo, busco a coleira, você imóvel.

Peraí, é a campainha, preciso abrir. Doutora, que bom que chegou. Ela está deitada ali, parada. Venha ver o que fazer, eu não consigo.

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