de Adriana Rossatti

Tungurahua volcano 4

Adriana espreguiçou o corpo, subindo a parte de cima do babydoll. A luz das velas espalhadas pela sala do apartamento improvisado marcaram o contorno de seus seios e as costelas aparentes. Sugou mais um gole da Coca Light batizada com vodka e gesticulava animada contando sobre o processo que passava na oficina do Teatro da Vertigem para o roommate. Estavam na semana de Jó. A gente já tava umas 3 horas fazendo meditação ativa, foi um tempão de kundalini e um trabalho corporal intenso, saca!? Eu tive até um orgasmo fazendo. Os joelhos tortos e pontudos estavam esfolados e hematomas subiam pela coxa. Pára! Como assim, no meio de todo mundo!? Corou, mas o rapaz não percebeu. Ninguém viu. Foi uma trip bem particular. Mas aí é que veio o lance doido! Separaram a gente em grupos e cada grupo elegeu o seu ‘cordeirinho’. Tipo, a gente tinha que subverter o cordeirinho… Os olhos do roommate brilhavam. Ele congelou com a boca no canudo de onde mamava uma baby Chandon. Quem foi o cordeirinho? Você foi o cordeirinho? Seus lábios tremeram levemente de irritação pela interrupção, e Adriana ofegou acelerando a história impaciente. Sim. Também. Todo mundo foi cordeirinho. Tipo, não posso falar o que rolou, porque tem um lance de sigilo, mas teve de tudo. T-U-D-O! O rapaz, na metade dos 20, cabelos desgrenhados e roupas sujas de tinta, ficou fitando a colega com um semi-sorriso safado, esperando um encerramento mais revelador. Arrancaram sua roupa, Bi!? Não, ninguém arrancou minha roupa, Bi. A minha não. Mas fiquei morrendo de medo de que me arrancassem. Sabe que eu tenho essa coisa com nudez. Enfiou dois Mentos na boca, acendeu um cigarro e sentiu vergonha pelo que tinha feito com o seu cordeirinho. Arrancara a cueca do ator, um homem já, subira no teto do galpão e jogara a peça pela janela enquanto ele engatinhava e chorava de humilhação. Sabia que aquilo fascinava o roommate – não só a ele, como a todos que conhecia – mas detestava a pessoa que tinha sido, detestava aquela pessoa do palco. Quanto tempo você não dorme, Dri? Esfregou as unhas negras nos olhos borrando o rímel, contando mentalmente os dias. Três dias. Teve aniversário do Pedro na quarta… Me deixa! Eu durmo quando eu morrer! Passava os dedos sobre as velas em cima da TV. Há três dias não dormia, nem cochilava. Lembrava-se do banho pela manhã, da sensação de nunca mais precisar dormir na vida. Bi, sabe o que eu mais amo em você!? Você é uma bicha que deu a sorte de nascer mulher. Riram. Adorava quando ele dizia aquilo. Era o melhor elogio que podia ouvir. Adorava pensar que era uma bicha, uma versão sonhada de bicha. São seus olhos! Deu um selinho no rapaz. E ontem? Quem era o bofe que dormiu aqui? Garçon do Ritz. Qual? Aquele tímido, que você acha gatinho. O roomate levantou da rede em um salto, dando um grito e jogando os braços para o alto. JEEESUUUUS!?????? Não me diga que você comeu o Jesus!? O nome dele não é Jesus. Pra mim ele é Jesus. O presente de Deus aos homens pra que a gente se lembre que ele nos ama! Riu histericamente da própria piada. Adriana tentou segurar o riso, mas a imagem do rapaz era boa demais. Riu com ele e mastigou outro Mentos. Pára! O moço é bonzinho, todo sensível, escreve poesia. É praticamente um clichê, coitado! O roommate começou a fazer cócegas nela. Conta! Conta detalhes!!! Como é, qual o tamanho? Pára! PÁRA! Não sei! Não fiquei com ele. Ele pára, dá um passo para trás desconfiado. Não comi o moço. Não rola, muito novo. Quantos anos? 19. É só 5 de diferença, Adriana. Seis. Muito novo para mim! Fiquei com dó. Trouxe para casa, só. O rapaz perde o interesse na conversa. Por mim, desde que você recolha da rua só garçons sarados e não cachorros pulguentos, você pode não transar com quem você quiser. Suga o restante da champagne fazendo barulhos com o canudinho e vai em direção da bolsa, chaves, casaco. Bom, sabe porque você não é uma bicha, Bi!? Por que? Porque uma bicha teria comido Jesus! Ela riu. Não pode ficar regulando muito essa mixaria aí, Bi. Daqui a pouco ninguém quer. Ela jogou a cabeça para trás no puff, soltou a fumaça para o alto. Estou abstêmia. Estava. Abstêmia de tudo o que compunha sua vida. Vai pra onde, Leco? Ferver? O rapaz olhou com um sorriso no rosto, um sorriso de quem está feliz, mas tem medo de contar para alguém. Vou passar o findi no Estevão… AHHHHHH!!!! Quem diria, sua bicha velha!!! Ela começa a pular e dançar em volta dele. Tá namorando-o, tá namorando-o!!! O rapaz ria, feliz. Eu sabia que eu viveria pra ver esse dia. Leco e a monogamia! Pára, pára, bicha abstêmia! Bicha monogâmica! Abstêmia! Monogâmicaaaaa!!! O rapaz sorri, radiante. Volta-se na porta, antes de sair. Você? Vai ferver? Ela ergue 3 DVDs. Ai! Você e esse Cary Grant! O que eu posso fazer!? É o homem perfeito, Bi. Ele era gay!!! Eu sei, mas nunca nos filmes. Nos filmes era perfeito pra mim. Fecha os olhos, sonhadora como uma menina. Larga a mão de ser velha, e vai ferver! Você é tão velha, Adriana, que até sua paixão platônica já morreu! Adriana joga o escarpin em direção a porta. O colega fecha antes de ser atingido. Volta para mostrar a língua e fecha a porta novamente, partindo. O apartamento fica em silêncio. Adriana vai até a porta, tranca, passa a corrente no ferrolho. Coloca o DVD no aparelho e aperta o play. Sente um alívio de não precisar sair. Sente um alívio por estar dispensada de ferver. Anda pelo apartamento descalça, um pouco ressentida de ele ainda ser um improviso depois de 3 anos. Não que ela precisasse, poderia morar no conforto da família. Mas ela quis. Na noite em que decidiram morar juntos, o rapaz tinha aparecido esbaforido na Torre do Dr. Zero. Trabalhava como produtor de objetos no mesmo filme em que a amiga que fazia cinema. Precisava de um novo roommate urgente, ou não tinha como fechar as contas do mês. Adriana topou, mas só por um ano. Vou viajar depois. Tirar um sabático. Tinha tudo planejado. Um bom emprego na área executiva de uma grande emissora de TV, um ótimo salário. Mas não quero aquela vida não. Eu olho pras mulheres da emissora, tudo surtada. Com os dentes trincados cheios de batom. Um ano e já estava bom. Abriu a bolsa, puxou o cantil de metal no qual gravou a inscrição pretensiosa de Kerouac. Vazio. A pia da cozinha acumulava louça de três dias que não eram dela. Na lavanderia tropeçou em pilhas de objetos da produção do rapaz. Havia restos da fantasia com a qual desfilou no Carnaval. Não lembrava o nome da escola de samba, mas assobiou o refrão. No alto da estante sua mochilona, que havia comprado aos 18 anos anos e nunca usado. Olhou para ela por alguns segundos, depois puxou uma nova garrafa de vodka e apagou a luz. Completou um copo com suco de laranja, guardou a vodka no congelador. No fundo nem gostava da bebida. Queria apenas se embriagar. Apoiou os ombros ossudos no batente da sala. Havia uma lanterna japonesa pendendo no fundo do cômodo, em cima de um enorme puff branco de curvim. Ao lado dele, seu stereo ficava no chão, junto a uma torre de 350 CDs organizados em ordem alfabética. Abriu a caixa do Immaculate Collection para descobrir o CD do Jamiroquai. Puta que o pariu, Leco! Custa guardar onde achou!? A porta de entrada ficava no outro extremo da sala, isolada de todo o resto do apartamento. Um sofá grande, mais 3 puffs espalhados e uma rede cortando a sala ao meio. A TV era nova. Tinha acabado de comprar. Seguindo pelo corredor dava de frente para o seu quarto, uma porta para o banheiro, e o outro quarto. O quarto do rapaz fedia a maconha. O colchão estava direto no chão, os lençóis amarrotados no pé. As telas inacabadas estão encostadas sem cuidado na parede oposta à janela. Depois se diz um artista! Um pote de Cup Noodles apodrecia em cima de uma pilha de vinis. No seu quarto a organização imperava. Seus livros ficavam na estante, organizados em ordem alfabética. Assim como os contratos em seu escritório. Meu mundo em ordem alfabética. Episódio de hoje: O cordeiro. Os travesseiros afofados depois que Jesus passou a noite, um bichinho de pelúcia. Fotos da família na cabeceira. Passou os dedos pelos livros. Pensou em estudar de novo. Pensou em um mestrado em semiótica. Poderia ser uma daquelas intelectuais sérias de óculos e calças de tergal. Eu podia estar ouvindo Zimbo Trio. Não era nada disso que ela queria estar fazendo em sua vida. Tinha o teatro, tinha Jó. Tenho nojo. Era isso. Tinha nojo do palco. Experimentou um sapato novo que estava na caixa. Colocou de volta em uma sacola para devolver. Imaginava sua vida como atriz à sério. A exposição, o contato físico com outros atores. Nojo! Não sabia de nenhuma outra atriz que se constrangesse com o que se faz no palco. Olhou-se no espelho. Lavou os olhos de guaxinim. E se meu tempo acabar? Talvez o que realmente quisesse era apenas um papel para representar. Colocou a bebida em uma taça e se sentou com o pé arqueado e os dedos em ponta. Cary Grant era perseguido por um avião no deserto. A cena é a mais genial do filme. Adriana gostava de discorrer sobre ela em mesas de bar. Hitchcock é gênio, me entende? Gênio! O cara subverteu completamente o cinema de ação, ok, que o filme nem é de ação, mas virou um ícone. Toda a série 007 veio dali. Olha só, você tem Cary Grant, largado no meio do deserto. E nada acontece, saca!? Tipo, passam uns carros, e o cara lá. Ele sabe que está deixando a gente tenso, então ele coloca um outro personagem. Um cara suspeito, que incomoda, intimida. Quando estamos quase reagindo, ele desvenda o cara. É só um passageiro, pegando um ônibus. E o Cary ainda lá, no deserto. Tem isso, é um deserto. Isolado, derretendo no Sol. Até que o tal avião de agrotóxicos, que até então a gente nem deu muita bola, começa a perseguir o herói. É lindo! É claro que nada ali soa muito real, soa absurdo tudo, na verdade. Mas é o que ele queria. Na vida real não tem nada de especial. Engoliu o resto da bebida, desligou o filme na cara de Eva Marie Saint e foi dormir. Ainda pensou em apagar as velas, mas a preguiça a deteve. Que queime! Queimaram. Amanheceu com o apartamento em chamas. Sentiu o babydoll se carregar de fuligem. A sala toda queimava, a TV nova havia explodido, a capa de “Ladrão de Casaca” derretia com a pilha de CDs e as labaredas alcançavam a lanterna japonesa. Ouviu pessoas na porta. Ouviu gritos, tentavam arrombar. O ferrolho. Correu até o quarto, arrancou uma fronha do travesseiro. Era sua chance de deixar tudo aquilo queimar. Deixar para trás aquela vida improvisada, cheia de faltas, cheia daquela pessoa que ela não gostava de ser. Pediria demissão. Compraria uma nova mochila. Essa pode queimar. Encontraria o grande amor da sua vida. Iria viajar. Eles iriam para a Índia, fazer trilha no Himalaia. Escreveria poemas nas areias da Tailândia, andaria de elefante na África. Ele a tiraria para dançar em uma piazza da Itália, e cantaria “Tiny Dancer” em seu ouvido vendo o por do Sol na Grécia. Estava acordada. Há tantos dias, só agora acordada. Colocou a fronha no rosto, o cheiro de amaciante lhe deu enjôo. Rastejou pelo corredor pensando em fugir. Tudo o que eu tenho está nesse apartamento. De repente se deu conta de que nada daquilo era importante. Colocou fogo em uma vida para se ver livre, mas nada do que queimava valia a pena. As labaredas lambiam as paredes, cavalgavam sobre os puffs como animais. O som do crepitar, as pequenas explosões de plástico. Tudo tão lindo! Durante 25 anos quis  se sentir viva, durante 25 anos procurou algum momento que lhe trouxesse maravilhamento. Então, quando está prestes a fugir, quando a fronha em seu rosto começa a se encharcar de lágrimas, ela entende. Não era assim que seria definida. Não naquele apartamento, não em um sabático alguns anos depois. É o que eu faço agora que me define. Era sua negação da vida que levava. Era sua recusa em se tornar uma pessoa comum. Assalariada. Com ticket refeição. Baixou a fronha do rosto. Foi até a janela e abriu. Deixou o oxigênio entrar. Deitou na cama. Que queime! Talvez tenha chegado. Talvez fosse sua hora de dormir.

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