por Eduardo Muylaert

Tribunal_560

Eu conheço esse homem nos mínimos detalhes, dizia no Cartório a escrevente para quem quisesse ouvir. Os outros funcionários não falavam nada, mas olhavam desconfiados, pois morriam de medo do Dr. Álvaro Perdiz, já há oito meses substituindo na Terceira Vara Criminal. Os juízes, quando chegam, em geral procuram uma aliança com os serventuários, alguma camaradagem, pois sem eles o serviço empaca e o Corregedor vem atrás. Dessa vez, foi diferente. O homem não sorria, no primeiro dia cumprimentou cada um com o braço duro e a mão fria, forçando a distância. Depois, nada, nem bom dia. Funcionário também é gente, por que esse horror de nós? E que intimidade é essa de que Liria fica se gabando, se o homem mal fala com ela? É verdade que ela é a escrevente da sala de audiências, a que digita no computador decrépito as coisas que o magistrado dita com vagar, numa dicção tão forçada que parece que é para a cretina não perguntar nada e o réu perceber que a justiça é fria e implacável. O povo simples do Taboão da Serra estranhava a figura do novo juiz, sempre de terno preto, camisa branca e gravata muito escura. Parecia uma daquelas pinturas antigas de desembargador que assombram o Palácio da Justiça, mas que se sentiriam deslocadas naquelas instalações precárias, com sua freguesia ainda mais precária. Na verdade, a escrevente também tinha medo do juiz, não como os outros funcionários que temiam uma advertência, ou remoção para o interior. Quem trabalha há muito tempo na justiça logo reconhece um juiz de verdade, um que tenha sentimentos. E detecta, com a mesma rapidez, o incapaz que se arvora em autoridade para esconder a incapacidade de compreender e lidar com o ser humano. O Dr. Perdiz não olhava no rosto das pessoas, conversava de soslaio, do alto do estrado que o fazia parecer maior do que era. Mas gostava de olhar bem no olho do acusado, fulminando durante toda a sessão o coitado que chegava algemado, mal vestido e suplicante. Só tratava a escrevente de A Senhora, o promotor e o advogado de Doutor, era como se ninguém tivesse nome. Só o réu, diga seu nome, fale com clareza, não gosto de repetir a pergunta. As absolvições eram raras, a escrevente podia adivinhar pelo ar de enfado do magistrado ao ouvir as testemunhas e argumentos da defesa. Os dedos batiam nervosamente na mesa, como se todo aquele ritual fosse tempo perdido, já que não ia dar em nada. Não é que o juiz não tivesse sentimentos, é que Liria nunca detectou nele qualquer amostra de bom sentimento. Quando a resposta do acusado não era a que ele esperava, ou queria, o pomo de adão começava a subir e descer, como se quisesse fugir do pescoço, o homem ia ficando vermelho, falava mais alto e mais rápido, nem dava para entender. Ela sabia quando ele começava a cansar, pois saía da postura ereta e se inclinava ligeiramente para um dos lados. Era o sinal para ela trazer um copo de água e um café, que ele agradecia com um rápido piscar de olhos, sem desviar o rosto do processo sobre a mesa. Num dia ele cruzava as pernas sem parar, puxando a barra das calças para baixo. Liria fez que não viu, mas havia um furo na meia preta e ele não se aquietou até a hora de ir embora. Nem para o joelho da escrevente ele olhava, ela que às vezes vinha com uma saia mais curta, numa espécie de experiência. Nesses dias, ele carregava nos erres, A Senhorra, porr favorr. Mas nenhum comentário. Sentindo seu misterioso poder, Liria um dia deixou o cabelo solto e com ele roçou o braço do magistrado ao devolver um processo. O pescoço dele arrepiou como uma galinha, e retesou-se como que preparando um torcicolo. O lábio fino deu uma tremida, só do lado esquerdo, mas a tentativa de disfarçar deu uma aparência de isquemia no rosto do juiz. Ela conhecia os humores dele, as rugas na testa na hora da contrariedade, as pálpebras caídas depois da insônia, um esboço de sorriso, rapidamente contido, nas raras e eventuais incongruências que detectava na vida à sua volta. O desejo passava longe, não estava à mostra. O homem é um monstro, pensou Liria. Para dar um jeito nesse cara, só uma boa moça da periferia. Acho que vou me casar com ele.

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