rabanada-light

Com a mão direita, Pilar segurava um pão adormecido, tomando o cuidado de deixar os dedos flexionados em paralelo, como havia aprendido nas aulas de gastronomia da TV, que assistia aos sábados à noite. Assim não corria o risco de se cortar, e sim, apenas o pão. Na outra mão, uma faca de serra com a ponta quadrada, uma verdadeira faca de pão. Essa, ela havia recebido de um admirador, tinha lamina de alumínio especial e serras de ondas largas, ela a escondia cada vez que terminava sua tarefa. O pão era cortado em fatias grossas, de aproximadamente três centímetros.

Aquelas que não possuíam essas medidas e também as pontas do pão, ela descartava em um recipiente específico, que denominava de “pudim de pão da sogra”; as fatias perfeitas eram depositadas em uma grande travessa retangular de plástico denominada “rabanada”. Ao cortar a segunda ou terceira fatia, o miolo do pão desabrochava. Era uma surpresa a cada vez, aquela massa branca e de natureza elástica, diferente dos tons beges amarelados da casca firme do pão. Uma massa formada por múltiplos poros, que se enrolava em espiral e se desprendia da casca, igual aos pensamentos. Todas aquelas fatias de pão dispostas nos recipientes formavam nuvens caracóis.

Pilar iniciava esse preparo às seis horas das manhãs de domingo, mesmo não sendo Páscoa ou Natal. Os clientes estranhariam muito, se por acaso, em algum domingo não encontrassem rabanada. Principalmente Antonio, um homem de meia idade, um cliente assíduo, que chegava à casa de pães logo após a missa das nove. Dizia não se satisfazer só com a hóstia. Logo que entrava, pedia um cappuccino e três fatias de rabanada. Sentava-se em uma das mesinhas olhando o movimento da rua. Aguardava que Pilar viesse se sentar junto dele para prosear, admirar seus olhos e lhe dar um mimo. “Noz moscada! Obrigada Antonio. Uma pitada e pronto; acende a paixão dos mais desacreditados.”

Ela aprendeu a receita da rabanada com sua Abuela Pilar. Uma mulher, que junto de seu marido e oito filhos, veio ao Brasil fugindo da segunda grande guerra. Uma abuelita de sorriso fácil; Certa vez , em uma reunião familiar, viu-se um leitão correndo no jardim, aquele que a Abuelita havia esquecido de mandar sacrificar para o almoço.

A mesma de quando ela se casou lhe havia dito: “Por que continuar a faculdade se você agora será esposa e mãe?” Desde pequena ajudava-a na cozinha, escolhendo as favas e os pimentões vermelhos e verdes para decoração da paella; ouvia as histórias de quantas vezes a avó gostaria de passar um, apenas um dia solteira novamente; Abuelita Pilar lhe dizia: “Em Valencia, antes de conhecer seu avô, eu e minhas amigas usávamos o leque como arma de sedução. Com o leque abanando em ritmo pensado, escondíamos os lábios e o nariz, fazendo com que os olhos bem maquiados saltassem para os rapazes.

Escolhi o seu avô porque tinha o carro mais bonito. Corte as fatias de pão sempre da mesma espessura; reserve; quando for passar no leite não esqueça do nosso segredinho.” E cochichava no ouvido de Pilar.

Alguns pães ela se demorava a cortar. Segurava aquela massa em forma de cilindro meia lua e apalpava-a. Era um ritual: deslizar os dedos para sentir as pregas e as rugas do relevo; olhar e imaginar o mundo que existiria dentro da crosta superior que se desprendia em forma de uma caverna; uma caverna no alto das montanhas, igual à que a forte e cigana Pilar de Hemingway usou para se esconder da cavalaria fascista. Pilar se escondia atrás da montanha de nuvens espiraladas que cortava todos os domingos na sua pequena padaria. Sua caverna desde que veio a necessidade de sustentar seus filhos. Uma manhã, o marido, que era francês, saiu de casa e disse que a noite traria pães para o jantar. No final da tarde, ela recebeu um telefonema do hospital municipal que informava um acidente. Naquela noite, ela ficou sem pão para o jantar. Quando terminou a reforma da casa de pão, não titubeou em nomeá-la com a versão francesa da rabanada: “Pain Perdu”.

(por Dominique Girard)

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