Passando a porta de vidro, a balbúrdia de uma aglomeração. Três garotas distribuíam chicletes, convidando todos a mascarem a goma e agregarem a uma imensa bola formada de pequenas bolotas disformes em vários tons de verde e rosa, do cítrico ao esmaecido. Aquele hall rescendia a tutti-frutti e hortelã.

– Não, obrigada, a arte não precisa de… minha colaboração. E eu estou acabando de crer que não entendo nada de arte conceitual.

Um imenso círculo de arames

Garrafas de Coca-Cola® enfileiradas

Uma coluna pintada com restos de esmaltes de uma puta de Berlim

A sombra projetada de um pequeno cavaleiro e sua montaria

Minúsculos carros de metal parodiando monumentais acidentes e congestionamentos com o fundo musical de cantos de pássaros

“Foda-se” escrito em ideogramas chineses

Pelos corredores, pais perseguiam crianças com picolés e saquinhos de amendoim. E chicletes.

Uma porta estreita levava a um salão mais vazio, onde se via uma única pintura. Talvez 10 metros por dois. De azul.

– Por favor, você pode me explicar essa arte?

– Oh, isso é um Yves Klein, disse a emocionada monitora.

– Mas a pintura… do que se trata?

– É International Klein Blue.

– A cor é dele?

– Sim, não é linda?

– É azul.

– Evidente. Azul Klein.

– Mas… obrigada.

Mais uma porta, mais uma sala. As portas pareciam cada vez mais estreitas e os salões maiores.
Desta vez, havia umas vinte telas pelas paredes. Todas brancas. As telas.

– Estes quadros ainda não foram pintados?

– Foram. São artistas de países nórdicos e eles representaram o que viam de suas janelas no inverno. Eles dizem que, assim como nossos olhos se acostumam com a paisagem de floresta e ficamos mais sensibilizados aos inúmeros tons de verde, eles conseguem distinguir mais brancos.

– …, …, …, …, obrigada.

Rampa acima, as pessoas se acotovelavam para entrar na sala especial. É bacon, diziam. Confesso que achei que finalmente chegávamos à praça de alimentação.

Mas não.

Enfileirados, bem acima de nossas cabeças, retratos do Papa Inocêncio X. Todos sentados em tronos, que às vezes lembravam ringues de luta livre. Todos vestindo umas batinas do rosa profundo ao púrpura e ao azul marinho. Não consegui sustentar o olhar daquelas caras, que pareciam ter sido borradas por impressões digitais do autor; a tinta escorrida em alguns dos quadros parecia revesti-los das barras de uma cela.

Boquiaberta. Meu olho tentava, e temia, olhar para cima. Senti a têmpora umedecer. As mãos geladas. Eu mirava uma mancha esmaecida na parede, bem abaixo das molduras. Depois, fixava o olhar numa plaquinha de identificação. O tênis de um passante, um pouco de poeira no rodapé, um cesto de lixo. A lembrança de uma prova de matemática, aquela vez em que eu fui pega passando cola, o dia em que quebrei a antena do rádio e pus a culpa em meu irmão.

Voltei a olhar para cima, mas o olhar daquela cara-digital era impositivo e opressor. Minha coluna cedia um pouco, encurvada.

Tentei me convencer de que aquilo era só tinta e tela. Que Francis Bacon tinha morrido e os quadros eram de cinquenta anos antes. Meu coração, no entanto, continuava acelerado. Tinha vontade de pedir perdão, dificuldade de sair dali. Quase confessava pecados e aguardava uma penitência que me tirasse aquela sensação. Quase inventava pecados.

Olhei para cima novamente, a tempo de ver uma daquelas bocas se abrindo para berrar impropérios. Tampei os dois ouvidos com as mãos. Algumas pessoas trombavam em mim, bolsas enganchavam as alças, uma reclamação em voz baixa. A respiração continuava acelerada e curta, forrada da imagem daquelas máscaras prepotentes, disformes. E eu de cabeça baixa, petrificada pelos gritos que ecoavam naquelas paredes.

por Elidia Novaes

innocent

 

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