Nosso encontro do dia 18 continuamos a discutir nossos temas de interesse nesse semestre: a banalidade cotidiana como tema. A banalidade, quando colocada em detalhes, torna-se interessante. A partir disso entramos em uma reflexão sobre a nuance no texto. Pode-se criar nuances do personagem através desses detalhes. 

Como exercício, Noemi nos propôs descrever uma tomada comum, e a partir dessa descrição, o leitor deveria reconhecer um sentimento do narrador. Eis o resultado.

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“É fêmea. Logo se vê, tem cara de menina. O espelho de plástico, emoldurando a tomada redonda, com os dois buracos marcados para entradas dos padrões europeu e americano. Parece um rosto, de olhos arregalados e despertos, ansiosos pela vida na sala, a rotina das botas, o ir e vir das luzes do Sol e do abajur. Só consigo pensar em quão ingênua essa tomada parece ser. Mal sabe que ao conectar qualquer objeto elétrico, perde seus olhos, sofre um curto e derrete-se por dentro. Talvez a mudem para o padrão britânico ou asiático. Sem olhos que possam ver.”
(Adriana Rossatti)

“Você levou o adaptador, junto com suas camisas, cuecas, sapatos, perfume e livros. Agora só eu, toda noite, olhando para essa tomada branca – dois buracos não sei o quão profundos -, nessa parede branca, nesse quarto branco, sem poder me aquecer com a luz amarela do abajur.”
(Luciana Gerbovic)

“Um retângulo. No centro, um círculo com dois furos. E para que? No escuro. Sem campainha…
De que adianta estar na França e ter uma panela de raclete à mão? Tanto queijo, pão, batatas, cremes. E esses dois furos me encarando. Rindo. Os parafusos parecendo sobrancelhas de filme mudo. Comédia. Odeio filme mudo. Detesto raclete. Não suporto a França. E te odeio, tomada. Você com esses dois furos inúteis, essas sobrancelhas desprezíveis, esse focinho de porco enjoado. Tome uma batatada. E um pote de creme nas fuças. Lá vai pão, casca dura. Farelo também. E veja se gosta de queijo!! Assim!”
(Elidia Novaes)

“O sol que incide sobre ela todas as manhãs do verão fez com que seu amarelo semifluorescente tornasse ainda mais semi, e quase apenas um vestígio de amarelo. Pode parecer ridículo, mas este fato dificultava acertar de primeira (serei honesto, nunca antes da quarta tentativa) o plugue do carregador do celular. Pelo que lembrava minha avó dizer, o sol só cegava quando se olhava diretamente para ele.”
(Samir Mesquita)

“Igual a todas; bom, nem todas, tem as com 3 buracos para os novos pinos doidos, as tipo beliche, duplas; também as encaixadas numa peça redonda, as das peças quadradas. Essa é branca; existem de várias outras cores. Simples, comum. Mas essa tem uma coisa bacana: os buracos em par, pertinho um do outro, amigos e precisam estar juntinhos para funcionar.”
(Eva Maria Lazar)

“A tomada que vejo atrás desse balcão é um retângulo de latão brilhante, com um circulo que contém dois buraquinhos. Prestem atenção, somente dois buraquinhos conseguem acender o abajur que ilumina esse bar; fazer rodar o toca discos que enche o ambiente de romantismo; ligar o liquidificador que prepara meus whisky sauers. E eu com muito mais orifícios não consigo emprego, muito menos arrancar um sorriso da loira senta do outro lado do balcão.”
(Dominique Girard)

“Resolveu acender a luminária, se abaixou e tocou na tomada. Talvez ela nunca tenha chegado tão perto de uma. Olhou para aqueles dois furos simétricos, calmos, irradiavam a paz dos casais afortunados. Passou a ponta dos dedos naquele marrom escuro uma, duas, três vezes e o orvalho salpicou seus olhos.”
(Lidia Izecson)

“A tomada é: um quadrado dentro de outro quadrado. E é branca. É isso”, digo.
“Mas como são os furos?”, você pergunta.
Os furos, eu me esqueci. Como pude? Os furos não são nem parte da tomada, os furos são a tomada em si, todo o resto é adereço, pouco importa. Como pude?
“Está certo, os furos. São como nas outras, são dois. E têm traços nas laterais. Está bem: uma tomada é um quadrado dentro de outro. Brancos, os dois. E os furos são pretos, profundos, com traços. Satisfeita?”
“Não é um quadrado”, você diz. “É um retângulo. Um quadrado dentro de um retângulo.”
(Isabela Noronha)  

“A tomada branca parecia deslocada naquele canto obscuro de coluna. O arredondado da moldura é um arremedo, não chega a dar conforto aos contornos mal retangulados. O miolo, perfeitamente quadrado, impõe a forma dominante, restringindo a área de onde emana a energia. Nos orifícios, que lembram essa praga moderna que são os emoticons, pode-se subentender terminais de cobre, ou latão, com polaridades diferentes, um positivo, carregado, e outro neutro, mero auxiliar de um circuito a ser fechado. O bi-fásico é assim, um mais e um menos. Ah, se houvesse um fio terra, como hoje é recomendado, aí sem haveria por onde descarregar os excessos. Se a instalação fosse tripolar, dois positivos e um negativo gerariam voltagem em dobro e choques assustadores. Mas, em resumo, trata-se apenas de uma tomada simples, pobre, branca, sem cor e sem graça.”
(Eduardo Muylaert)

“Tomadas com buracos são tomadas femeas, negativas, passivas; dependem de que uma outra tomada, essa sim, positiva, tomada macho, a penetre pra que algo aconteça: o vinho gela, um abajur acende, e ele não vem.”
(Elza Tamas)

 
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