Assim é parece

Noemi pediu para que escrevêssemos em um papel uma frase de que gostávamos. Cada trio recebeu, aleatoriamente, três desses papéis – e, com as frases recebidas, deveríamos produzir um texto

*

BAGAGEM

¾ Acabou. Você fica com a casa. Não esquece a ração do cachorro.

¾ Tinoco

¾ O que?

¾ Tinoco. O nome do “cachorro”. Você nunca aprendeu o nome dele.

¾ …

¾ Tudo parece simples para você. Me deixa a casa, um pote de ração vazio… e uma tarefa. E segue a vida. Pelo jeito é sua maneira de resolver as coisas quando elas ficam embaraçosas. E desconsidera tudo que a gente construiu. Juntos. Vinte anos de história. Depois de toda a dificuldade que a gente enfrentou. Quantas! Até chegar aqui, conquistar o que a gente conquistar. Uma história cheia de tanta luta, de amor, de respeito.

¾ Respeito?

¾ Por acaso, você acha que acabou o respeito?

¾ Assim é se lhe parece.

¾ Fez de novo. Tudo você resolve com uma resposta curta, uma frase de efeito, um resmungo. Você se fecha em copas cada vez que eu tento conversar. Você sempre faz isso. No fundo, acho que nem te conheço mais. Sempre quieto, na sua. Eu hoje decido tudo sozinha, arrasto você pelo pé. E você? Desiste no primeiro obstáculo. Pula fora quando a água nem começou a subir ainda. Sempre quieto pelos cantos. Parece um boi encostado numa cerca.

¾ É isso mesmo. Ninguém sabe o que eu sou quando rumino. Machado de Assis!

¾ Tá vendo? Ainda ironiza. Quer saber de uma coisa? Vai mesmo. Você tem razão. Eu cuido do cachorro, da samambaia.

Ela se levanta da mesa e caminha em direção à porta de entrada. Ao passar pelo sofá, vê duas malas e uma mochila.
¾ Você já tinha até feito as malas! … Você já está indo.

¾ O taxi está lá embaixo.

¾ Então, nos encontramos depois, no tempo da delicadeza.

(Alcino, Maria Fernanda e Elidia)

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Ele disse: não gosto de palavra acostumada. Foi a primeira coisa que ouvi dele. Eu também não gosto, prefiro palavra inquieta. Mas naquele dia não deu tempo nem de concordar. Ele logo foi embora. O acordo entre nós era como um pequeno milagre.
O primeiro bilhete dele dizia: ni pa ti, ni pa mi. Era um jeito de avisar que nada aconteceria entre nós. Meus olhos nublaram e naquela névoa ele desapareceu. Diadorim era minha neblina.
E foi sempre assim, a mesma névoa vindo não sei de onde e a gente se perdendo nela, a gente se perdendo da gente.

(Luciana Annunziatta)

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Talvez seja isso, tanto tempo esperando e você não veio. Quase nunca vem! SUPORTANDO O SACRIFÍCIO DE NÃO MERECER, assumo para mim essa dor. Me visto com ela, desço as escadas e ganho a rua. O bloco que cruza a avenida me lembra que é terça de carnaval. Só eu sei, A DOR É MINHA, É MEU TROFÉU, É O QUE RESTOU. Entre plumas, brilhos e suor, as nossas brigas, como um videotape. Esbarra em mim uma ave do paraíso, PASSA AVE, PASSA, E ENSINA-ME A PASSAR”.

(Cristina Maria, Wilson, Lidia)

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Você é livre, ele disse. Pode ir onde quiser. Mas como vencer o oceano, se é livre a navegação, mas proibido fazer barcos? Por trás da grade, olho a rua, eu olho a rua, a rua. Seria mais fácil se fosse o mar. Você quer tudo, ele diz. Quem tudo quer, tudo perde. O mar sobe rápido, muito rápido. A água entra pelas frestas, a cela imunda e eu, peixe, com minhas guelras, escapo dessas paredes sem nenhum lugar – tem alguém aí? Só quem me responde é o tijolo: “Se queres mel, suporta as abelhas”. Acho a resposta medíocre.

(Elza, Carla)

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pretérito perfeito

Noemi pediu para que escrevêssemos uma cena usando o pretérito perfeito.

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Entrei no galpão da Dona Cida costureira. Era escuro e fundo. As fantasias da companhia inteira tinham sido penduradas junto ao teto num estranho sistema de varais. Vistas de baixo, as saias formavam grandes flores amarelas, vermelhas e as mais compridas, as azuis que seriam usadas pelas meninas mais velhas, eram túneis por onde eu poderia mergulhar e furar o telhado.
Minha mãe pediu que eu me sentasse numa banqueta junto à porta e foi ter com Dona Cida. Voltou com uma cara de desconforto e o olhar triste que eu já conhecia. “Qual delas é a minha?”, perguntei ansiosa, “a da flor de lótus”, ela disse. “Isso eu já sei” e desviei o olhar para Dona Cida que vinha caminhando lá do fundo com um mirrado conjunto verde piscina composto de uma única camada de musselina presa com uma flor branca.
Tive vontade de rasgar o paninho, mas a costureira foi mais rápida e me levou até o provador, de onde eu saí instantes depois, meu corpo magro sem um único adereço a não ser aquela coisinha pobre que “tinha um ótimo caimento”.
Minha mãe quis me consolar. Disse que a flor de lótus era a mais linda e contou algo sobre a Índia de que não me lembro. No banco de trás, chorei. Eu nem tinha idade para acompanhar minha mãe no banco da frente, mas ouvi quando ela gritou coma Professora Beatriz no telefone. E entendi tudo.

(Luciana Annunziata)

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Olhei para o terraço do hotel e não vi ninguém. No saguão, salão de jogos, ninguém.
Parece que, na confusão, fiquei para trás. Meu pai pensou que eu estava em outro carro. Talvez com minha mãe, uma das tias. Elas pensaram que eu estava com meu pai.
Quando vi a arrumadeira, chorei um pouco. Segurando o choro.
– O menino ficou, ela disse ao gerente.
Então tentaram me distrair com uma bolinha de pingue pongue.
– Quanto anos você tem?
– Quatro.
A arrumadeira, Dirce, foi muito esperta e me deixou brincar com o rolo de papel higiênico. Funcionou melhor. Fui desenrolando, desenrolando, em volta das pernas das pessoas, das cadeiras, do relógio carrilhão.
Seu Honório também veio ver. Brinquei com o doce de leite e ,claro, comi um pouco também.
Quando perceberam o que tinha acontecido meus pais vieram me resgatar. Eu não estava mais chorando.
Sempre reclamei do que aconteceu. Do trauma, do abandono. Falei na terapia.
Para meus pais isso nunca ocorreu. Produto da minha imaginação!

(Alcino Bastos)

 

detalhes

Noemi pediu para que descrevêssemos alguma coisa simples, que se fizéssemos cotidianamente, de forma tão detalhada que ela acabesse soando estranha.

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A barriga encostada na pia. Começa pelos olhos e desloca de um lado a outro a película transparente. Com sorte, as lentes estarão no lugar, mas às vezes é preciso levantar a pálpebra e buscar (consequentemente com um olho só, o outro) onde estará a maldita dobrada no canto do fundo da puta que o pariu. Lamenta não ter praticado a vesguice tanto quanto as amigas no pátio da escola, (sempre teve medo que assoprassem seus olhos e ela ficasse assim para sempre). A parte do rímel é fácil, algodão, tecnologias bifásicas e está resolvido, mas ela sempre enfia uma nova etapa depois disso, um novo sabão, um creminho removedor de algum resquício da poluição ou da idade. Mas o pior é a bendita pia. Ela jamais desconfiou que teria que apoiar a cabeça na torneira com os olhos fechados e se orientar pelo som para ter certeza de acertar a água dentro da área quadrada da pia modernosa, pequenina mas ordinária, sugerida pela arquiteta (que certamente não lava o rosto tão bem quanto ela). E não adianta: entra sabão no olho, arde, ela se apressa e mancha a toalha com os restos invencíveis de rímel (maldita tecnologia bifásica). A água sempre escapa, formando uma poça no tampo de ladrilhos coloridos, ou quase sempre, o que torna certas noites muito mais especiais.

(Luciana Annunziata)

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O som é eletrônico. Conhecido. 1o, 2o, 3o, 4o, para. 1o, 2o, 3o, 4o, para.
Duas orelhas brancas, dois olhos pretos. Escuro. Quieto.
O som é eletrônico. Chato. 1o, 2o, 3o, 4o, para. 1o, 2o, 3o, paro.
Agora um pé. Encolhe.
Uma mão. Desaparece. Devagar.
O som é eletrônico. Insistente. 1o, 2o, 3o, 4o, para. 1o, 2o, 3o, 4o, para.
Dois pés. Duas mãos. Dois braços.
Duas orelhas brancas, dois olhos pretos. Duas patas. Mais duas. Uma língua.
O som é eletrônico. Feio. 1o, 2o, 3o, 4o, para. 1o, 2o, 3o, 4o, para.
Olhos no teto.
O som é eletrônico. Odeio. 1o, 2o, paro.
O pé no tapete. A janela aberta. A árvore e a rua.
Um rabo branco, duas patas traseiras.

(Elidia Novaes)

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Estendo a mão para o tubo de sabão e espalho em quatro espaços: face direita, face esquerda, queixo e, quantidade um pouco maior, no lugar do bigode.
Depois o pincel: deve ser encharcado com agua fria e sacudido para eliminar o excesso. Na mesma sequencia pincelo a face direita, molho o pincel, face esquerda, molho o pincel, queixo, molho o pincel e, com esmero, toda a área por baixo do nariz.
Agora a lâmina – que deve ser trocada toda a semana – segue inicialmente por um desvio invertendo em parte o caminho do sabão e do pincel: primeiro o bigode. A seguir volto ao caminho antigo: face direita, esquerda e queixo.
O que sobrou de sabão no pincel vai novamente para o bigode, área essa que tem o privilégio de uma repassada mais lenta e cuidadosa da lâmina.
A mão percorre toda a face para ver se algum retoque é necessário. Tudo em ordem? Então a língua empurra a bochecha logo abaixo do canto da boca de um lado, lâmina, de outro, lâmina. E pronto. Em dois minutos estou entrando na ducha.

(Alcino Bastos)

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Café da manhã

O caminho do quarto até a cozinha: 18 passos às 8 da manhã. Talvez apenas 10 às 2 da tarde. O café na máquina não leva mais de um minuto, mas a torrada com requeijão não tem tempo certo. Pego uma na lata que veio com panetone, sempre a mais tostada, e, com a faca de cabo azul, da mesma forma que um assassino estuda a sua vítima, me preparo para abrir a tampa do pote Poços de Caldas. Uma vez aberta, observo aquela brancura quase cósmica que tem consistência de nuvem e desejo de ser deflorada. Sem desgrudar o olho, miro o centro da massa espessa e penetro fundo com a faca até sentir que já se formou ao redor dela um creme consistente que deito suavemente sobre a torrada, cuidando para que não escorra pelas bordas.

(Lidia Izecson)

cadarços

Noemi pediu para que a Ana nos contasse um caso bem antigo de sua infância. A tarefa era recontar essa história, como se fosse nossa – e que nela houvesse uma pequena digressão.

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Os cadarços dele sempre desamarravam, porque ele era pequeno e os cadarços, sempre longos demais, assim como as histórias na hora de dormir, ele nunca terminava de ouvi-las. E então eu olhava para dentro de sua boca escancarada que continha todos os sonhos dos pequenos, um lugar misterioso, rosado e fedendo a leite que já não era o meu (mas qual era o meu lugar afinal?).
Quando acordávamos, tudo se repetia: ele tardava a terminar pão, deixava restos irritantes de leite no copo e caminhava lento demais para cruzarmos a rua no tempo tão restrito que antecedia o sinal da escola. Pior, quando chegávamos na calçada, seus cadarços estavam sempre desamarrados e eu tinha que ajudá-lo, ajoelhada diante da entrada, no que era ultrapassada por todas as colegas de classe (tão mais espertas do que eu).

(Luciana Annunziata)

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A casa era velha mas era nossa escola. Em frente à Igreja de Santa Teresinha, na Maranhão.
– Professora, posso ir ao banheiro?
Quando saí da sala encontrei minha irmã que se arrastava para a aula de educação física.
– Sei que você não gosta, mas não precisa chorar.
Foi quando notei os cadarços do tênis soltos pelo chão.
O grande problema da escola era o banheiro. O trinco travava e prendia os alunos lá dentro. Eu nunca trancava a porta e enfrentava o risco de me verem urinando. A situação era urgente e pensei em seguir em diante rápido, entrar, sair e voltar para a classe.
Me agachei e dei um laço. Minha irmã fez o mesmo com o outro pé. Tão depressa que nem entendi como. Sorriu e se mandou. Depois, na vida, chegou a disputar o campeonato estadual de salto em altura.
O xixi? Deu tempo e ninguém me viu no banheiro. Mais uma coisa: nunca fico preso pois procuro sempre deixar as portas abertas.

(Alcino Bastos)

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Lembro como se fosse hoje! Você tão pequeno, eu a irmã que sabia de tudo.
É fácil, você vai ver, eu sei que a mamãe já te ensinou. Mas eu vou mostrar de um jeito diferente, você vai aprender agora mesmo. Essa ponta tem que ficar do mesmo tamanho dessa outra e, dobradas assim, viram duas asas de borboleta. Percebeu?
Parada na frente do vaso de flores já meio murchas, me pergunto se esse é o melhor jeito de dar laço. Tentei fazer tantos – firmes, resistentes, daqueles que durariam a vida toda. Nunca viraram borboletas – desculpe irmãozinho – foram sempre lagartas que não ultrapassaram a crisálida.
Você me olhava curioso, inflando meu lado professora. É assim, Paulinho. Depois você passa um lado por baixo do outro e estica bem até sentir que não vão se soltar nunca mais. Aprendeu?

(Lidia Izecson)

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As asas de uma borboleta batem em uma velocidade que seria impossível pará-las, pegá-las e dar um nó. Mas eu lembro que foi assim que eu falei pro meu irmão mais novo, naquele intervalo de aula, cada um saindo da sua sala, cada um com sua sede, ele com os cadarços desamarrados; duas asas de borboleta, uma vai por cima, passa por dentro da outra, depois só puxar, um nó que não se desfaz, uma lembrança para sempre em um casulo.

(Samir Mesquita)

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Ele estava parado no meio do corredor, sozinho, como se me esperasse, só a mim. E eu, como se soubesse de tudo, me aproximei. Foi sem que falássemos coisa alguma – nós nos fizemos assim, até hoje seguimos com essas pequenas cenas predestinadas – que eu o ensinei a amarrar, “dois laços, uma volta”, os cadarços de seu sapato.

(Carla Kinzo)

 

Noemi pediu para que pensássemos em algo que não gostaríamos de contar – e que contássemos isso, negativamente.

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Não pensa na dor. Não, não pensa na dor. Já vai passar. Pensa… Pensa no… Não pensa na dor.
Lembra de quando o senhor era moço, na fazenda, andando a cavalo com o cachorro Blindado do lado, pisando na sombra do cavalo… Não, não aquela briga com os dois pastores do sítio vizinho. Não pensa nisso. Não pensa que ele morreu cedo demais. Já vai passar, espera só um pouquinho. Já vai.
Não olha pra esses tubos. Não, aquilo não deve ser sangue. Não olha pra lá. Olha pra mim, conversa comigo. Não dá bola pros barulhos, pensa que eles têm ritmo. Ritmo de coração. Olha, escuta… Esse ritmo… Podia ser…
Tombando a velhinha aos pés do altar
Tira do peito sangrando
Da velha mãezinha o pobre coração…
Não, não pensa nessa. Pensa… O ritmo… Vamos ver…
Que tal esta?
O salgueiro que você plantou
De chorar quase morreu, resistiu e cresceu
Mas o cão adoeceu, sentiu sua falta demais…
Não, essa também não.

(Elídia Novaes)

*

Não quero me lembrar do sol daquela manhã que me prometia apenas um bronzeado. Não quero a luz daquele sol de novo na minha retina, que não me deixava enxergar com nitidez o mensageiro, o porteiro do prédio pedindo para eu deixar a praia, alguém me procurava, não quero lembrar que voltei; não, não quero recontar os passos até o prédio, os passos até o apartamento com o recado nas mãos – ligar para Janaína. Se não me lembro mais da voz da Janaína, se mal me lembro do rosto da Janaína, por que não esqueço também as palavras “o”, “César”, “acabou”, “de”, “morrer”?

(Luciana Gerbovic)

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que liguei para ele era depois de meia-noite eu preferia esconder, que liguei e liguei, dezesseis vezes, chorando, havia três horas, celular desligado, eu não queria dizer, que então peguei o carro e dirigi até a casa dos pais dele, e o esperei chegar e ele não chegava nunca, não vou contar, que ele não dava sinais de ódio muito menos de amor, que havia aquela menina, da empresa também, estagiária também, que ele havia visto de biquini, eu preferia não saber, que desisti da tocaia em frente ao prédio e voltei para casa, que assim que cheguei, eram três da manhã, liguei de novo, desta vez para o fixo, desta vez ele atendeu,a voz sonolenta, eu não disse nada, desliguei e fui para cama não dormir.

(Isabela Noronha)

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Não é minha vontade dizer isso. Só que é verdade: ela não é adotada. Não é bonito repetir o tempo todo como é diferente dos irmãos e que não se formou na USP como os outros. Nem é preciso dizer que a própria também duvidava de suas origens, pois partiu dela essa história do exame de DNA. Reluto em escrever essas palavras porém, de fato, foi uma decepção quando se confirmou que era mesmo filha do nosso pai e da nossa mãe. E agora não posso nem pensar nas desculpas que vou dar daqui por diante.

(Alcino Bastos)

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Não quero que saibam que elas me perseguem, sou cheia delas, mais de 400 espalhadas pelo meu corpo. Não quero que descubram que já extirpei 25 e que 2 eram malignas da pior espécie. Nem vou revelar a ninguém que tive tanta vontade de matar a dermatologista responsável pelo diagnóstico, que fiquei 3 dias sem conseguir dormir pensando na melhor maneira de eliminá-la. Também não quero que saibam que, apesar de todos os alertas, – nunca tome sol; è um veneno para você; uma dessas pintas ainda vai matá-la – quando me vejo sozinha na praia, abro os braços e declamo para ele os meus melhores versos.

(Lidia Izecson)

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Não vou desenhar um mapa das veias que têm nascido nas pernas, porque não são veias, são pequenos rios avermelhados que indicam os caminhos que nunca percorri, e que portanto não podem ter gerado qualquer dor, ou lesão, ou a irrupção de vasos sanguíneos. Nunca fui a lugar nenhum a não ser este corpo liso e sem estrias de onde escorrego e onde me agarro. Não são minhas as veias. Não sei desenhá-las.

(Luciana Annunziata)

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Nada do que digo sobre ele pode ser encarado como verdade além do nosso laço sanguíneo, nada sobre saudade, nada sobre afeto, nada sobre boas lembranças, nada sobre como está, sobre o que tem feito, o que fará; nada sobre seu temperamento, sobre suas manias, sobre como somos tão desconhecidos, embora tenhamos o mesmo sobrenome e os mesmos pais em nossas identidade.

(Samir Mesquita)

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Disto ninguém saberá: que eu não me culpo por não sentir falta do meu pai; que sua morte, por mais trágica que tenha sido, não tem muito significado para mim; que eu imagino que uma vida com ele seria pior; que eu detesto quando minha mãe tenta transformá-lo num herói possível; que isso que chamam de amor paterno, mais parece obrigação. Não quero contar nada disso, porque meu objetivo aos escrever não é chocar.

(Edmar de Souza)

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Não quer que saibam de seu pânico em ficar doente, que já fez uma ressonância magnética para uma dor na coluna que desapareceu no dia em que pegou o exame, “sem alterações”; não quer também que jamais relacionem fragmentos desconexos de sua vida, que poderiam justificar bobamente seu medo: a amiga que morreu de repente aos vinte e sete anos; o cuidado excessivo dos pais com sua saúde quando era pequena; a irmã caçula da mãe que a avó escondeu a vida toda porque tinha acessos de epilepsia; o que esses episódios não dizem, o que poderiam dizer, não quer que nada disso fale de quando tem certeza de que não está tudo bem.

(Carla Kinzo)

“E esse lápis atrás da orelha? São antenas”

Noemi pediu para que escrevêssemos um texto curto, em que usássemos nossos nomes. O texto deveria começar com as primeiras linhas de A metamorfose.

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Quando certa manhã Carla Kinzo acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada em um inseto monstruoso. O despertador havia sido ajustado para que a manhã não fosse curta demais naquele dia em que faria o teste para a peça do Plínio Marcos – assim como o figurino passado e dobrado na véspera; o texto estrategicamente posicionado ao lado da cama (caso acordasse de madrugada procurando uma fala). Mas quando acordou nada do que fora preparado no dia anterior tinha valia diante daquelas antenas compridas, as costas abauladas e a ausência de pescoço. Não existem atores sem pescoço.

(Carla Kinzo)

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Quando certa manhã Luciana Gerbovic acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada num inseto monstruoso. Finalmente ele consegui me reduzir a isso. Finalmente ele terá que levantar e tentar tirar as crianças da cama. E tirar os pijamas, e vestir os uniformes, e procurar as meias e os sapatos que nunca estão onde deveriam estar, e pedir uma duas três quatro, cinco vezes aos berros, para que saiam da cama. E pentear os cabelos, e escovar os dentes, e arrumar as mochilas, e aos berros, mais uma vez, chamar o elevador enquanto prepara as bisnaguinhas com manteiga, não, sem manteiga, não, com manteiga, não, sem manteiga, não, com manteiga, vocês vão comer o que eu der!, ele vai gritar, e Luciana vai ouvir, não sem um sorriso de satisfação, mesmo olhando para seu corpo asqueroso na cama ainda quente.

(Luciana Gerbovic)

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Quando certa manhã Alcino Bastos acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.
A ausência de mãos fez com que saltasse da cama diretamente sobre o trinco da porta, que se abriu de um tranco. Foi andando sobre as quatro patinhas finas pelo casarão que rangia como sempre. Ultrapassou a saleta e todo o assoalho de madeira corrida da sala de jantar evitando as latinhas com veneno de rato espalhadas pelos cantos. Escutou o carrilhão bater o primeiro quarto depois das sete.
– Que bom – pensou – minha mãe está tomando o café. Ela vai me ajudar.
O que assustava era aquela gosma que escorria e ia marcando seu caminho pela casa.
Pai e a mãe olharam para o menino.
– E esses lápis atrás da orelha?
– São antenas.
– Meu filho, você está todo molhado. Fez xixi de novo?
Agora o pai:
– Troque de roupa e limpe este nariz. Já!

(Alcino Bastos)

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Quando, certa manhã, Elidia Novaes acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada num inseto monstruoso. Levantou-se sobre as patas traseiras e, pelo espelho, constatou suas novas feições. Com uma antena, derrubou a escova de dentes da pia do banheiro. Correu a esconder os chinelos sob a cama e esgueirou-se pela casa até o armário onde ficava o material de limpeza. Com grande esforço, jogou para o chão os vidros de álcool e o detefon. Empurrou tudo para trás de uma cortina.
Tentou tomar banho e se vestir. Não havia dentes para escovar, mesmo que agora pudesse alcançar a escova.
Comeu açúcar e farelo de pão no café da manhã. A carteira de habilitação seria inócua, assim como o próprio carro. Tomou o metrô e foi dar aula. Já estava atrasada. Viver, ainda que assim.

(Elidia Novaes)

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Quando certa manhã Lidia Izecson acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se metamorfoseada num inseto monstruoso. Com dificuldade, arrastou-se para fora da cama e rastejou pelo piso frio passando pela fresta da porta da sala. De lá, viu os olhos remelentos do irmão reclamando da falta do suco, e a mãe com seu roupão azul. Inconformada ela dizia: Getúlio morreu. Era o pai dos pobres, conseguiu os direitos para os trabalhadores como eu. Mas tinha que morrer justo numa quarta feira? Para isso não pensou nas mães trabalhadoras. Já ligaram da escola avisando que não vão abrir por luto. Onde vou deixar vocês? Com quem?
Sem fazer ruído, ela voltou para o quarto, escalou a cama e, sorrindo um sorriso que só as baratas sabem fazer, enfiou-se embaixo das cobertas pensando: oba, hoje não tem aula!

(Lidia Izecson)

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Quando certa manhã Luciana Annunziata acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada num inseto monstruoso e vomitou. Por sorte não estava como Gregor, de barriga para cima, mas em posição lateral, mais precisamente fetal lateral, e por sorte maior ainda, ou por uma prudência superior aos efeitos da bebida, Luciana havia posicionado um balde ao lado da cama.
Sentiu-se momentaneamente aliviada, contemplou a gosma que havia expelido e voltou seu olhar para fora do balde, percebendo o quadro colocado na parede do sítio daquele namorado provisório: quem colocaria uma paisagem praiana na suíte de um sítio? Quem? Que bom que… Ela estava em posição fetal lateral e novamente pôde acertar o balde, aliás, que ótimo, o namorado proisório havia sumido e não podia observa-la naquele estado monstruoso, fétido, peludo (as pernas, de fato, deviam ser depiladas no caso das relações provisórias), as unhas descascadas, as manchas do tombo de bicicleta, bem mais roxas do que no dia anterior, os cabelos desgrenhados e ela ali enroscada, retorcendo-se toda com a certeza de que ele se queimaria se tentasse tocá-la.

(Luciana Annunziata)

 

“todos os dias nossos uniformes pretos na tevê”

Noemi pediu para que pensássemos em um ofício que gostaríamos de ter. Depois, para que contássemos um episódio acontecido naquele dia conosco, como se fôssemos essa pessoa, com essa profissão.

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Quando virei à direita a barreira policial estava tão próxima que obedeci a instrução de parar. A primeira coisa em que pensei foram nos muitos cálices de malbec argentino que havia tomado. A segunda foi se devia ou não soprar o bafômetro.
O policial que pediu os documentos devolveu-os rapidamente e me mandou seguir.
– Gosto quando comenta os jogos. Não acerta uma mas o importante é ser corintiano. É isso que vale.
Quase disse a ele para que time eu torcia, mas não estava tão bêbado assim.

(Alcino Bastos)

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Toda segunda-feira , por alguma razão, me dou o direito de ler o jornal inteiro. Sei que hoje existem várias ferramentas digitais que calculam com precisão a distância entre um ponto e outro mas sempre acho que vou acertar de cabeça. Levo 15 minutos dirigindo entre minha casa e o Instituto se acordar as nove da manhã e ler três cadernos do jornal, mas hoje é segunda-feira.

(Fernanda Brenner)

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Sobre cães e adiposes

– O seu é o amarelo ou o malhado?
– O sardento.
– E o seu? O mais gordo ou o mais magro?
– O meu cachorro não é gordo. É forte.
– Eu me atrapalho porque as coleiras são iguais.
– Não estou falando de coleira. Meu cachorro é forte. E daí se ele gosta de arroz com frango? Você está me julgando. Julgando meu cachorro.
– Bem, na verdade, isso nem é comida para cachorro.
– E você não é veterinário. E aquele solto ali? Está com você também?
– Volta aqui, Tocha!

(Elidia Novaes)

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KURO OBI*

Uma faixa na cintura não significa uma flexibilidade nos quadris, nem que o corpo responda de modo espontâneo aos seus comandos.
Uma faixa na cintura não quer dizer nada, por mais que você prepare esta pessoa que traz a faixa na cintura a ter flexibilidade nos quadris e que o corpo dela responda aos seus comandos.
Uma faixa na cintura apenas indica um tempo, um percurso, ou uma falha sua de ter permitido aquela faixa naquela cintura.
* faixa-preta

(Samir Mesquita)

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Um pão na chapa…não, espera…aquele pão na chapa com requeijão, sabe?, que fica bem tostadinho?, você fazem?…manda um. E um suco de laranja.

Sempre nos olham assim, né, Rodrigo, como se fôssemos PM que entra nas padarias com vale-coxinha, como se eu não fosse pagar pelo pão com requeijão tostado, mais caro. Ou nos olham assim porque acham que ficamos com parte do que recolhemos por aí e podemos pagar pelo mais caro na padaria? Suco no lugar de média, pão com requeijão tostado em vez de pão com manteiga. Agora todo mundo tem olhos pra gente, todos os dias nossos uniformes pretos na tevê e nos jornais carregando computadores e malas com dinheiro pra lá e pra cá, e aquele japonês da Lava Jato ainda foi nos foder, ninguém já separava mesmo o joio do trigo, agora, então, perdemos o respeito, mas esse uniforme aqui é bonito pra caralho, tenho um puta orgulho, desde criança era o que eu mais queria vestir, nada de conjuntinho e salto alto, queria esse pretinho básico aqui, vou é pedir mais um pão na chapa com requeijão tostado e uma tortinha de morango. Duas. Pra levar.

(Luciana Gerbovic)

*

É amanhã! Melhor desmarcar? Tô perguntando isso desde as 10 da manhã e você fica aí com essa cara de bunda sem dizer uma palavra. É amanhã, entendeu? O prejuízo vai ser muito mais seu do que meu.
E tem mais uma coisa, a substituição do Bira por aquele percursionista novo deixou a banda meio capenga, eu não gostei. O ensaio ontem foi péssimo, você não tava lá então não sabe.
E agora essa, não dá, não vou conseguir fazer Atrás da Porta com toda aquela angústia se no meio eu tiver esse ataque de tosse. Desmarcamos? Vai continuar com essa cara de bunda sem dizer nada?

(Lidia Izecson)

*

Último andar

A salada verde vermelha no prato na mesa na sala do
apartamento do 14o andar onde no quarto no lado leste do prédio
dorme a menininha doente no berço, 236 da Heitor, edifício Régio,
feito em 1973 por ordem da Igreja Católica, feito de pastilhas laminadas
cor de leite número 25 e ocre número 42 dispostas em colunas assimétricas,
o ocre nos detalhes, a menina dorme no berço no quarto do 14o andar,
acima só um teto falho de telhas metálicas que se movem em toda chuva.

(Isabela Noronha)

*

Burocracia

Quando a moça do atendimento burocrático estiver diante de mim, não se lembrará que já estive aqui. Para logo me dispensar, dará a mesma informação pela segunda vez: pedirá para eu agendar um horário pelo site. Então saberei que esse condicionador de ar desligado para economizar energia; essa saleta de 3×3 com pé-direito desproporcional e duas claraboias encharcadas de limo são pilares da destruição do nosso bem-estar-social. Sairei contaminado, odiando ainda mais os prédios públicos projetados por algum sujeito desesperado para pagar suas contas e seus impostos.

(Edmar de Souza)

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Fingi que estava dormindo quando o ouvi falar, a quatro estações do meu destino, que era melhor pedir que roubar, mas antes que ele chegasse a mim com o papelzinho, “qualquer coisa ajuda”, tive vergonha dele (ou de mim) e fingi que despertava. Percorri mentalmente a carteira e, enquanto ninguém lhe oferecia nada, quis muito que chegasse logo minha estação. Eu não posso dar dinheiro a uma criança (era uma criança? Acho que sim) – não depois de hoje, desse dia difícil no fórum. Lembrei de duas moedas no bolso do casaco, esperei que ele se aproximasse pra decidir o que faria, mas quando a porta se abriu, ele pulou pra fora do trem.

(Carla Kinzo)

o vermelho daquele ano

Noemi pediu que casa um de nós escrevêssemos um trauma em um papel e passássemos ao amigo ao lado. A ideia era fazer um trabalho entre o presente e o passado: a personagem está vivendo no presente e se lembra de um trauma do passado.

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INOPERÁVEL

É nessas horas que a gente pensa em se tornar vegetariana. A cabecinha, depois a água fervendo e as penas arrancadas aos poucos, primeiro com as mãos, daí com a pinça. De que adianta? Continua sendo um frango. O corpo ainda se mexe, mesmo depois do corte. Movimentos involuntários, dizem. E o que fazer das vísceras? O coraçãozinho, a pele, o fígado. Hoje não doaria mais os órgãos. Não doaria mais nada. Guardaria tudo comigo, para continuar olhando até a gente desaparecer, até a gente desaparecer junto. Porque lembrar de quando ela aprendeu a falar e a primeira palavra foi cocô já não é mais divertido. O pequeno cérebro que, aos poucos, doía mais do que funcionava. O tumor crescendo e o olhar complacente do médico. Preferia lembrar do nome do remédio que passei em seu joelho depois daquele tombo na praça, quando eu disse que ia parar de doer. Eu jurei que não doía mais. Preferia não ter mentido. Nós seríamos, as duas, vegetarianas agora.

(Elidia Novaes)

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Ela, olhos castanhos quase pretos por trás dos óculos, cabelo não se sabe de que cor e textura debaixo da toca, boca escondida, boca escondida é bom, boca e dentes escondidos, boca e dentes escondidos é bom, boca e dentes atrás da máscara, não dentes, não dentes, não dentes, calma, é só a dentista, não dentes, não dentes, não dentes, que lhe pedia para segurar o espelho, não espelho, não espelho para a perna mutilada sem anestesia na boca de um, na boca de um, na boca de um, um dia falará, na boca de um tubarão, sem anestesia, a gente desmaia, o bom é que a gente desmaia sem desmaiar, não sei, não vi, vi boca, vi fileiras de dentes, vi mar, vi vermelho, vi perna não perna, anestesia, anestesia, doutora, para a menor cárie, por favor, anestesia, e o espelho para enxergar melhor o trabalho bem feito, sem cárie, sem tártaro, sem gengivite, vi gengiva, dentes pontiagudos, fileiras, não vi, vi vermelho, vi azul, vi minha perna na boca de um, na boca de um, um dia falará, o espelho não, não precisa, doutora, confio no trabalho, não, não tire a máscara, não agora, não dentes, não sorriso, um mundo banguela, seres banguelas, só termine, doutora, só termine.

(Luciana Gerbovic)

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Eu sei que você me ama, eu sei, acredito, gostei do anel, é lindo, parece um antigo que eu perdi, mas aquele não era tão bonito, tinha um brilho meio falso, falso como foi tudo, como era o jeito dele pra conseguir o que queria. Olha a lua como está clara hoje, e tem um brilho, parece o brilho desse anel que você me deu. A lua era clara e eu e ele, o canalha, eu tão menina, tão feliz, tão crédula, corola intocada. Acredito que você me ama, é lindo o anel, vou usar sempre. E ele me convenceu, adoro você mais do que tudo e meu pai, minha mãe, eu sem saber explicar o sumiço, e agora o brilho da lua já desaparecendo, como um dia você vai também fazer, você e esse anel tão lindo, me deixando só com a lua.

(Lidia Izecson)

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A balburdia daquela festinha: um corre-corre, gritinhos estridentes e a criançada tentando ver de perto os presentes do Carlinhos.
Zeloso de suas posses recém adquiridas, ele foi juntando tudo na caixa grande do caminhão tanque.
Flavia, um tanto alheia, observa o neto cumprir com seriedade esta tarefa de proteger o que é seu. Ela pensa que não protegeu bem seu bem maior. Naquele sábado ela tomava champanhe e conversava despreocupada com amigos. Enquanto isso sua filha querida enfrentava seu desespero íntimo, suas horas derradeiras.
– Mãe!
Quando seu filho chamou, sua atenção retornou ao aqui e agora. A festinha alegre do neto.
Pelo canto dos olhos reparou em sua neta Celina debruçada sobre a caixa de brinquedos. Quando ela se levantou, tinha nas mãos o lança dardos de plástico. A menina empunhou o brinquedo, introduziu o cano na boca e começou a chupar como se fosse pirulito.
Flavia desesperou pois enxergou a cena – uma cena que ela criou, não sabe se foi assim – a cena em que a moça bonita e inteligente, sua filha caçula, enfiou a pistola na boca e puxou o gatilho arrancando a parte de trás da cabeça.
O “não” ensurdecedor que gritou para a neta, fez com que a menina corresse e fosse chorar na saia da mãe.
Flavia desculpou-se rapidamente com todos e foi para casa chorar.

(Alcino Bastos)

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“Não consigo fazer nada melhor”, e João posiciona as pedras no tabuleiro, encostando a letra “U” e “A” no “R”, que faz parte da palavra “mulher”. Pina bebe o vinho muito alegre, ainda distraída com as cutucadinhas de Mirra, mesmo sendo sua vez de jogar. “O que vem aí?”, pergunta ao marido um pouco embriagada. “Mulher” e “Rua” e agora Pina se esforça com suas próprias pedras no cavalete, pegando a letra “N” e “A”, que podem formar “Nua”, encostadas no “U” de mulher. “Ta calor aqui, num tá?”, Pina se abana e João se dispõe a abrir a janela, mas ela não quer, de repente, irritada com o marido, pensando que nem todo homem gentil de fato pode ser confiado. “Não, João. Estou bem”. E as pedras ainda nas mãos fazem as palmas soarem. O peito avermelhado de calor e descoberto pelo decote, de súbito, causa constrangimento e ela diz. “Me empresta a blusa, Mirra.” “Mas você não estava com calor?”, e a amiga estende a malha. No tabuleiro, a mulher na rua, poderia estar nua, mas Pina não larga as pedras das mãos. Encara o marido, o homem que colocou a mulher lá.

(Rachel Poli)

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O ônibus vermelho de dois andares parou e ele estendeu o pé para o primeiro degrau. A viagem tão planejada a Londres estancou. Sons de tossidinhas discretas queriam fazê-lo avançar, os londrinos são educados. O carro parecia estar a uma distância infinita, ali, virando a esquina naquele final de dia. O passo não rendia, o coração cozinhava no calor insuportável como o do dia no fusca, do vermelho vivo que só foi fabricado naquele ano.
Apoiou-se no cano da porta para se erguer pelo segundo degrau e alcançar o interior do ônibus, o motorista com cara de espanto desagradado, e a esquina do fusca não chegava, e o seu corpo deitado no banco de trás de manhã, latido agradecido pelo passeio.
Sentou no primeiro assento, com a visão escurecida, sem enxergar a Londres sonhada.
Quando chegou ao fusca, ele estava com os olhos mortos, língua de fora e unhas cheias do vermelho daquele ano.

(Eva Maria Lazar)

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Entra no quarto de estudos e escuta a babá com a menina lá embaixo no quintal. Tomam banho de mangueira, a babá, nova no posto, tinha pedido autorização, Presa na cadeira, ela deve sofrer nesse calor. A babá ri, a menina geme. De felicidade!, a mulher diz para si. Felicidade! Mas vem um vento e ela se lembra de que precisa organizar o quarto. E quando fecha a janela naquele dia de luz, sente-se cega por instantes, tropeça num sapato esquecido, quase cai, se confunde, busca o chão e acaba nele, reerguendo-se devagar, só, no escuro, como no dia que soube da doença do bebê em sua barriga.

(Isabela Noronha)

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Era vagaroso que andava – e curvado. Como era possível um animal de quatro patas estar tão curvado, olhando apenas para o chão? Maldito chão que não acaba; a impressão daquela noite era que a estrada não terminaria jamais – fechou os olhos como se freasse. Sentiu o focinho do animal tocar as pontas dos dedos. Estava velho. Somos dois, meu rapaz. Ou sou só eu? Era subitamente um velho naquela noite e desde então, há vinte anos atrás. Agarrou as orelhas do bicho, algo nele continha aquela velha cena: um homem olhando pra mim, deixando de olhar para mim, um homem no chão e, então, um homem que já não está mais. Era isso, aquele homem. Era ele que voltava, estou aqui, vê? Ainda. Na estrada, sob suas rodas.

(Carla Kinzo)

lufa-lufa

Cada um de nós recebeu uma frase no passado, no presente e no futuro. Essas frases deveriam ser colocadas, da forma como recebidas, em um parágrafo que tivesse sentido. As frases estão em negrito.

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É o lufa-lufa da vida na grande cidade. E pra gente que chega, assim, desavisada? Quer dizer, avisar, avisam, mas quem acredita que a gente entra mesmo num vagão do metrô sem querer e não sai quando chega na estação porque não alcança a porta? E que se gasta quatro, até cinco horas do dia, no transporte público, só pra ir e voltar do trabalho? Me contavam, mas eu não acreditava porque na desgraça todo mundo exagera. E quando cheguei na rodoviária, aquele cheiro de sujeira no ar, tudo cinza e frio, tão perdida quanto eu estava uma cachorrinha no meio da rua, parecia um graveto. Peguei no colo e levei pra casa, nós duas vamos descobrir isso aqui e engordar, eu disse pra ela, que batizei Nena, apelido da minha mãe que ficou longe. Dez anos. Dez anos com a Nena me esperando chegar do trabalho, aquecendo a minha cama. Tenho uma Nena aqui, eu dizia pra minha mãe, que ria. Sofri muito quando minha cachorra morreu. Não quero mais. Voltarei depois que tudo acabar.

(Luciana Gerbovic)

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Quando seu quarto pegou fogo por causa da vela na cabeceira da cama, o velho saiu caminhando pela rua como um cego amparado pela bengala. Com o branco nos olhos, o choro escorrendo e a humilhação aos saltos, deixa-se levar pela lua que sussurra no seu ouvido: a pescaria de domingo vai ser um sucesso.

(Lidia Izecson)

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Ela toma um sorvete de açaí e observa a menina brincando.
Mesmo sabendo que haverá um momento cheio de silêncio e algum constrangimento, não resiste.
Na altura da filha, lá embaixo, estalou um beijo na testa, que demorou o tempo dela fechar os olhos e fazer carinha de brava.
– Mãe, para com isso!”

(Alcino Bastos)

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Quando eu for velho vou me lembrar do que acabou de acontecer e darei o troco. Tenho tempo, venho estudando há anos como voltar lá; aprendi muito, estou entupida de conhecimento. A coisa aconteceu sem eu me dar conta, distraída pelos pensamentos. Há horas passeava por aquele campo, ele veio em marcha batida pela estrada do alto. Passou por mim, dei bom dia. Já me afastando, senti a pedrada nas costas ao som da risada louca dele. Ah, me aguarde, um dia eu volto.

(Eva Maria Lazar)

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Mas eu sirvo o jantar sem ele?, ela pensava, enquanto estendia a toalha; semana passada já foi a maior confusão porque esse homem se atrasou e eu tive que esperar a gritaria terminar pra pensar em voltar para casa; é, eles brigam e eu pago o pato, ela sofria, mas antes que alcançasse os pratos, ouviu o patrão abrir a porta, “fui comer uma pizza“; eita que é hoje que a porca vai torcer o rabo.

(Carla Kinzo)

a polpa da cômoda

Noemi nos pediu para criar metáforas inesperadas. Cada um de nós colocou em um papel uma palavra. Elas foram sorteadas e cada um recebeu dois papéis. Foi a partir desse encontro de palavras que as metáforas foram criadas.

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Palavras: vaso e língua.
Ela está sempre com a língua no vaso = Ela só fala merda.

(Lídia Izecson)

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Palavras: cabide e palito de dente.
Magra (ou frágil etc.) como um cabide (feito) de palitos de dente.
Fazia cabides para palitos de dente = fazia inutilidades.

(Alcino Bastos)

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Palavras: vento e guarda-chuva.
Vento guarda-chuva: Aquele vento forte que vai e volta.

(Eva Maria Lazar)

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Palavras: lagartixa e espelho.

Lagartixa de espelho: pessoa que não consegue parar de se olhar, tem fissura pelo espelho, é apaixonada pelo próprio reflexo.

(Isabela Noronha)

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Palavras: lugarejo e intriga.
Intriga de Lugarejo: fofocas localizadas, pequenas.
Lugarejo de Intriga: lugares ordinários, onde brigas acontecem.
(Rachel Poli)

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Palavras: lesma e folha(s).
Folha de lesma: aquela escorregadia, não permite avanços.
Lesma de folha: o que vai engolindo tudo, leitor, escritor, devoradora de palavras e ideias.

(Elza Tamas)

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Palavras: polpa e cômoda.
Polpa da cômoda é uma expressão de origem incerta. Alguns dizem que vem da França de Luiz XV, que vivia às turras com sua consorte (?!), Maria Leszczyñska. Ora, em uma das muitas anunciadas separações do casal imperial, a imprensa marrom noticiou em primeira página: “15 e sua nr.1 prestes a separar até a polpa da cômoda.” Aparentemente, ela intuiu que a expressão nr.1 fazia referência a Madame du Barry, então amante do esposo – a nr.2. Amigos do casal afirmam que foi tanto fuzuê que Maria botou fogo na tal cômoda… até a polpa.

Mas a expressão atravessou o Atlântico e, de nó náutico em nó náutico, assumiu sentido inverso. Funcionários da mansão Aniston-Pitt são unânimes em dizer que a seguinte frase constava dos votos trocados na cerimônia de casamento. “Estamos determinados a compartilhar nossas vidas pela eternidade. Da cômoda, até a polpa.”

Outra vertente dá conta de que, ao criar sua célebre Poltrona Mole, Sérgio Rodrigues teria se sentado durante a semana do design de Milão e afirmado perante membros da imprensa, fotógrafos, outros designers e o público em geral enquanto dava tapinhas de leve em sua própria nádega: “é cômoda até a polpa”.

(Elidia Novaes)

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Palavras: guarda-chuva e calo.

Guarda-chuva de calo: uma mágoa muito profunda.

(Carla Kinzo)