o hálito de limo nos dentes, quando ela dizia boa noite

Noemi pediu para que Maria Fernanda Elias Maglio escrevesse um conto a partir de uma imagem em Eleanor Rigby, dos Beatles: Father McKenzie costurando uma meia.

Colocamos em sequência a primeira versão do conto, chamada “Era um cacto de coração” e a versão final retrabalhada – que recebeu um novo nome, “o hálito de limo nos dentes, quando ela dizia boa noite”.

*

I. Primeira Versão

Era um cacto de coração

 

                                                                                             “All the lonely people

                                                                                                                                            Where do they all come from?

                                                                                                                                            All the lonely people

                                                                                                                                            Where do they all belong?”

                                                                                                                                            (Lennon/McCartney)

 

 

Ninguém veria a meia guardada no sapato, o furo preenchido pelo amontoado da linha. Nem os sapatos, o colarinho em clausura, a batina de barra brocada. Ainda assim costurava. Furava a agulha no fino do tecido preto e puxava a linha até que estivesse esticada o suficiente para a nova volta. Mudava a feição quando a costura franzia: os olhos encrespavam e a boca se contorcia em um discreto bico. Soltava a agulha e, com as mãos em força contrária, repuxava até que a meia retornasse à forma de origem. No instante em que o tecido se recompunha, o pregueado dos olhos e da boca desaparecia. A agulha engolida pelo pano, surgindo do outro lado, como um fantasma que atravessa paredes, rompe a barreira da morte. Saía para depois entrar e sair e entrar de novo e de novo. Tão rápido, que não se sabia ao certo onde estava a agulha, se dentro ou fora do tecido, se do lado de cá, dos vivos, ou se vagava a imprecisão dos mortos.

 

Quando a meia estava íntegra, sem lembrança de buraco, o nó arrematando a costura, a linha excedente partida nos molares, o homem se levantou. A pele tinha a textura de casca de árvore e os cabelos, sem nenhum sinal de calvície, se assemelhavam à grama queimada. Também o coração tinha natureza vegetal: era um cacto de flor vermelha, resistente e frágil, que despreza água e reclama sol.

 

O sermão ainda espalhado na mesa de jantar. Sete páginas fora de ordem preenchidas pela letra miúda do homem de coração de cacto. Havia diabo, inferno, danação, pecado, alma e céu. Diabo estava escrito vinte e três vezes, seguido de pecado (dezoito) e alma (onze). Céu aparecia sete e uma vez, uma única vez, perdão. A última palavra era Deus: quem ousa ofender a Deus? E na manhã seguinte, quando o sermão fosse lido para a plateia invisível, que não veria a meia costurada no abrigo do sapato, ninguém ofenderia a Deus. E era preciso que alguém ousasse ofender, porque o inferno não existe se não há quem blasfeme Deus e não pode existir céu, se não existir inferno, nem virtude, se não houver pecado e nem mesmo Deus, se não existir o diabo. E o diabo existia, isso sim. Ele podia jurar por Deus. Aliás, de Deus duvidava um pouco. Nos momentos cativos de solidão, cerzindo as meias que ninguém veria, pregando para os bancos da igreja, para os vitrais e o cálice de hóstia vazio, duvidava da existência de Deus. Do diabo nunca.

 

Juntou os papéis na sequência, olhando com censura a mancha de manteiga na segunda folha, bem depois de alma, no meio do ponto final. A gordura dissolveu a tinta da caneta, expandindo o ponto em uma roda aguada de azul. Sentou-se em uma das cadeiras. Não era a única cadeira. Além dela, mais três. Quatro cadeiras em uma mesa onde só comia um. Seis pratos e cinco xícaras. E toda manhã apenas uma xícara de café com leite, um único prato com migalha de pão, uma faca besuntada de manteiga. Guardou o sermão na pasta de elástico e colocou-a no sofá, ao lado das meias cerzidas, da batina dobrada, as calças estendidas no encosto do sofá, os sapatos no chão, ainda exalando graxa.

 

Foi para o quarto pensando na filha. Tinha certeza de que estava viva. A genética dele não era dada à mortes, de modo que ela poderia ter contraído tifo, tomado dois tiros no peito e um na cabeça, ter um bebê engastalhado na trompa, que estaria viva, do lado de cá do pano. Seu coração de cacto saberia se a filha tivesse morrido. E se o coração falhasse, podia contar com o diabo. Nos sonhos de febre, em que torcia para que estivesse mesmo sonhando, para que não fosse verdade o fogo cozinhando suas pernas, o oceano de lava derretendo sem doer as meias e os pés, o diabo segredaria: a filha está morta. E ele sairia da casa, da igreja vazia, das xícaras sem par, queimaria os sermões, as pastas de elásticos, as batinas, os furos das meias. Podaria a grama ressecada dos cabelos e arrancaria a flor vermelha do cacto do seu coração. Se a filha estivesse morta, se a filha morresse um dia, ainda que ele já estivesse morto, não seria capaz de resistir.

 

A menina nem sabia que tinha pai. A mãe se encarregou da mentira, alguma coisa sobre o pai ter morrido, ido embora, ter sido ungida por fecundação imaculada, sêmen de anjo. A mãe da menina era a única que ouvia os sermões. Sentava-se em um dos bancos do meio, nunca o primeiro, nunca o último, com o véu bordado de flor cobrindo o rosto. Tinha mais de quarenta anos, se chamava Euride e nunca tinha provado do amor. Por ignorar o gosto, adivinhava amor onde não havia e acreditou que aquele padre de cabelos de capim falava de amor quando contava, apenas para ela, das labaredas fritando os pecados das gentes do mundo inteiro.

 

Era quarta-feira de cinzas. Euride sentada na terceira fileira, o rosto descoberto do véu bordado (para ouvir melhor o sermão do amor), no vestido, dois botões desatados (para que batesse melhor o coração). A mulher escutava amor e o padre falava de profanação, dizia dos impuros quitando com o demônio o preço alto do sacrilégio. Quando o sermão acabou e o padre preparava o cálice com a única hóstia, ela se levantou. Não com dois botões abertos, mas quatro, os cabelos libertos do coque de todo dia, caindo sobre os ombros do vestido. O padre não reconheceu o pecado nos olhos, nem no suor que escorria pelas pernas sem meia calça, no miolo do decote desabotoado. Entendeu a investida como avidez de comunhão e quando ela se aproximou do altar, enfiou-lhe na boca a hóstia encharcada de vinho. Não era de Cristo que ela queria o corpo. Ali, no altar vazio, com São Bento, São Francisco de Assis, Nossa Senhora Imaculada Conceição e São Benedito de testemunhas, Euride teve o ventre inaugurado. Uma única vez e o que bastou. O corpo dela, sem esperanças de cópula, reteve a genética do padre e a converteu em filho. Euride grávida. Assistia aos sermões sem véu, os seios esmagados nos botões abertos, o abdômen alargando a saia. Alisava a barriga grávida a cada vez que o padre falava pecado. Comungava de olhos fechados, respondendo amém, antes de grudar a hóstia no céu na boca. Não deixou de ir à missa nem quando deu à luz. A menina nasceu em uma terça-feira, às três e quarenta da tarde e no domingo seguinte, às sete e meia da manhã, Euride estava na terceira fileira, cobrindo a filha com o véu bordado de flor.

 

A menina crescia aos domingos. Também às segundas e aos sábados, mas principalmente crescia aos domingos. O padre deixou de falar em inferno e aos poucos substituiu os sermões por histórias. A menina escutava vigilante ele dizer dos dragões e das princesas de cabelo de fogo, cerejas gigantes brotando dos troncos dos limoeiros, florestas de bétulas e jasmins de água, as raízes flutuando a correnteza. O padre reconhecia na menina os cabelos de planta e o coração de cacto. Talvez a flor dela fosse branca, amarela ou até nem tivesse flor, mas era cacto.

 

Em um domingo de páscoa elas não apareceram. O padre tinha escrito uma história de onze páginas, alguma coisa sobre um coelho enterrando sementes que viravam ovos de chocolate, uma jardineira infeliz e um casamento do coelho com a jardineira, muitos filhos coelhos, filhos crianças e de cabeça de criança e corpo de coelho. Nada de morte e ressurreição. Nunca mais soube delas. Andou pelo bairro, perguntando na padaria, na banca de jornal, no açougue e na loja de tintas. Ninguém nunca tinha escutado dizer da mãe de botões abertos e da menina de coração de cacto.

 

Deitou-se na cama pensando se reconheceria a filha se a encontrasse na farmácia, atendendo as mesas do café, ensaboando o chão do mercado. Ela tinha vinte e oito anos e a lembrança dele sete: uma menina de olhos aguados e cabelos indômitos de constituição vegetal, feito as florestas de bétulas e os jasmins aquáticos. Rezou um pai nosso e adormeceu sabendo que sonharia com o mar de caldeira e o diabo verificando a costura de suas meias e a graxa de seus sapatos.

 

*

II. Versão final

o hálito de limo dos dentes, quando ela dizia boa noite

 

                                                                                                                                            “All the lonely people

                                                                                                                                            Where do they all come from?

                                                                                                                                            All the lonely people

                                                                                                                                            Where do they all belong?”

                                                                                                                                            (Lennon/McCartney)

 

Ninguém veria a meia guardada no sapato, o furo suturado, nem o colarinho, a batina de barra brocada. Ainda assim costurava. Furava a agulha no tecido preto e puxava a linha até que estivesse esticada o suficiente para a nova volta. Quando a costura franzia, os olhos encrespavam e a boca se contorcia em um discreto bico. Soltava a agulha e repuxava até que a meia retornasse à forma de origem. No instante em que o tecido se recompunha, o pregueado dos olhos e da boca desaparecia. A agulha engolida pelo pano, surgindo do outro lado, como um fantasma que atravessa paredes, saía para depois entrar e sair e entrar de novo e de novo. Tão rápido, que não se sabia ao certo onde estava, se dentro ou fora do tecido.

 

Quando a meia estava íntegra, sem sinal de buraco, o nó arrematando a costura, a linha partida nos dentes, o homem se levantou. O sermão ainda espalhado na mesa de jantar, sete páginas fora de ordem. Havia diabo, inferno, danação, pecado, alma e céu. Diabo estava escrito vinte e três vezes, seguido de pecado (dezoito) e alma (onze). A última palavra era Deus: quem ousa ofender a Deus? E na manhã seguinte, quando o sermão fosse lido para a plateia invisível, que não veria a meia costurada no abrigo do sapato, ninguém ofenderia a Deus. E era preciso que alguém ousasse ofender, porque o inferno não existe se não há quem blasfeme Deus e não pode existir céu, se não existir inferno, nem virtude, se não houver pecado e nem mesmo Deus, se não existir o diabo. E o diabo existia, isso sim.

 

Juntou os papéis na sequência, olhando com censura a mancha de manteiga na segunda folha, bem depois de alma, no meio do ponto final. A gordura dissolveu a tinta da caneta, expandindo o ponto em uma roda aguada de azul. Sentou-se em uma das cadeiras. Não era a única, além dela, mais três. Quatro cadeiras em uma mesa onde só comia um. Seis pratos e cinco xícaras. E toda manhã um único café, um prato com migalha de pão, uma faca besuntada de manteiga. Guardou o sermão na pasta de elástico e colocou-a no sofá, ao lado das meias cerzidas, da batina dobrada, os sapatos no chão, exalando graxa.

 

Antes de entrar no banheiro, conferiu o mofo do corredor. Abriu a mão direita na mancha, recolheu o polegar no dedo mindinho e esticou de novo: dois palmos. Aproximou o nariz e aspirou. O cheiro do bolor lembrava a mãe, o hálito de limo dos dentes, quando ela dizia boa noite, com o queixo amparado na bochecha dele.

 

Teve um soluço quando apertava a pasta na escova. Uma fileira do creme dental escorregou na pia. Esperou novo soluço. Não veio. Destacou uma volta do papel higiênico e limpou a pasta escorrida. Escovou os dentes e doíam todos: os de osso e os de gesso. Sentou na privada e esperou. O inferno em suas vias urinárias. O mijo desceu vagaroso e incandescente, seguido de uma gota de pus. Foi para o quarto com as calças arriadas, os pés patinando o carpete, o pênis gotejando urina inflamada.

 

Deitou-se na cama sem tempo de pijama, despindo o embolado de calças e cueca sem usar as mãos. Mais um soluço e esperou o próximo. Quatro vezes, antes de tomar coragem e colocar no copo a água da moringa. Não se lembrava de quando a tinha enchido pela última vez, na semana passada ou na outra. Bebeu em três goladas imensas, a água que não coube na boca escorrendo pela camiseta. Tateou o interruptor e deitou-se, puxando a coberta até o pescoço. O cobertor protegeu os pés sem meias, as pernas, o pênis infeccionado, a camiseta e a água absorvida pela camiseta. Adormeceu sem rezar, conservando nas narinas o cheiro de fungo da respiração da mãe. Vai ver o diabo não existia.

Advertisements

Sem o eu

A proposta era escrever um texto pessoal/biográfico sem as palavras eu, meu, comigo, mim, si, ou verbos na primeira pessoa.

 

“Esquivo, meio que ingovernável, fazendo tudo um pouco ou completamente errado. Divagando bem na hora do comando, da ordem, do enunciado. Não se trata propriamente de deboche ou pouco caso, mas o que era mesmo pra fazer?”

Reginaldo Cruz

 

“É sabido que o olho e o nariz têm funções distintas, ainda assim é impossível respirar no escuro. A garganta fecha, a mão treme, o ar não entra. Em um pulo, de novo lá, a porta trancada, o chão frio, um metro por um metro, tudo escuro. A luz acende, o ar entra, afinal décadas depois, em casa.”

Cris Meirelles

 

“Concorda disso, sim. Sempre concordou das coisas. Toda a vida concordou das pessoas. Nunca quis desagradar de ninguém. Ofender da família. Brigar da mulher. É manso, cheios de des e dedos.”

Cris Penz

 

 

âncoras, escadas, chaves

Noemi pediu para que, a partir das características de algum objeto, escrevêssemos um texto em que houvesse uma perturbação semelhante a essas características.

*

ESCADA

Olhei para cima e não vi o fim. Não sei onde dava, nem de onde partia.
Começava em mim. Não sei se terminava em mim.
Talvez terminasse no outro de mim, o que morava onde não havia mais degrau.
Eu ia pisando em cada plataforma e rezava ave maria-pai nosso-salve rainha para que não tivesse fim.
Não queria cair no meu profundo.
Se eu despencasse no meu buraco, ficaria dentro de mim para sempre.
Ninguém se lembraria de vasculhar meu fundo.
Ninguém nem sabia quantos degraus eu tinha.
Nem que eu tinha abismo.

(Maria Fernanda Maglio)

*

CHAVE

​Meu poder, minha posse, em casa ninguém ousa substitui-la.
​Quando  caminho, eu a carrego comigo, não desgarro, apalpo mais que namorada; e,
​em movimento, escuto sua música minimalista no convívio com as outras.
De noite, em pesadelos, levanto-me para conferir sua verticalidade.
Obsessivo, não a esqueço, não perco, não troco.
​É meu pênis no útero do descanso.

(Paulo Ludmer)

*

ALFINETE

Tivesse aberto, eu poderia ao menos tentar perfurar uma parte mínima desta carne macia, mas a clausura me restringia ao êxito de minha finalidade. Eu queria atravessar o tecido macio e sedoso da pele nua que eu ajudava a esconder, não este trapo barato que, infortunadamente, eu mantinha em seu devido lugar.

(Reginaldo Cruz)

*

TREM DE BRINQUEDO

Tem algo em mim que não para, meus pensamentos dão voltas, circulam, percorrem elipses, ininterruptos. Não são silenciosos, muito ao contrário, quase dá para ouvi-los, sons agudos, apitos, música ritmada, perturbando tudo à volta. Vão sempre, teimosos, pelos mesmos caminhos, cruzam pontes, furam montanhas. Depois voltam em curva pelos mesmos caminhos que usaram para ir, até que, sem nenhuma explicação, paralisam, cansados, sem trilhos, é como um entristecer.

(Cristina Meirelles)

*

CABIDE

Minhas roupas lhe caem bem. Sempre impecáveis, sem vincos ou minimamente amassadas. Até paletós de linho. A culpa não é minha. Faço exercícios, tomo cuidado com a cerveja e mesmo assim essa barriga não permite abotoar o segundo botão dos paletós, as calças se perdem nas minhas pernas, pior que papel amarrotado. Com ele não é assim não senhor. E a comparação é desleal: aqueles ombros fininhos produzem caimento perfeito seja em peças de cambraia, lã ou casimira inglesa. Tenho certeza que todos podem notar essas diferenças. E as roupas são as mesmas, claro, nem poderia ser diferente. Ele usa minhas roupas. Todos sabem. Não é culpa minha.

(Alcino Bastos)

*

CORDA

Desde que voltei do hospital venho melhorando. Estou mais flexível. Adoro serpentear por este chão, saltitar pelo quintal com minha filha e jogar, em cada pulo, a grama longe. Só não me amarro quando ela me esquece lá durante a noite, pois agora, curado, perdi um pouco do meu brilho. Não sou mais uma lanterna.

(Marcos Bassini)

*

BONECA ANTIGA

Sempre a mesma carinha, né? Você não pode ao menos mudar um pouco essa sua expressão enfastiada? Pode ou não? Lembro bem da minha surpresa quando você chegou, suas roupas tinham cheiro de riqueza, coisa boa a gente reconhece de longe. Mas essa sua expressão opaca… Tentei de tudo. Servi centenas de chás com torradas, alternando sempre os sachezinhos para ver se este doce ou aquele mais ácido combinavam mais com o seu paladar. Mobiliei seu quarto; lembra como escolhemos com cuidado o papelzinho de parede? Eu insisti para quem fosse com motivos circenses, achava que poderiam inspirar seus sonhos, os malabaristas brilhavam no escuro do quarto, lembra? Nada. Nem o sono borrava a sua maquiagem, nem os meus esforços diários alteram a aspereza do seu olhar. Suas roupas já estão desbotadas, cansei de trocá-las. Você não merece.

(Ricardo Lombardi)

*

ÂNCORA

Haveria de ter peso, se quisesse afundar-me sozinho como quem não dependesse de alguns para se arremessar e, lá de longe e embaixo, pudesse ainda prestar serviço. Não deixei que partissem minhas filhas, minha ex-esposa, não deixei. Ela tinha um mestrado em Harvard, não deixei que fosse e levasse as meninas com ela.

Quanto mais no silêncio do ferro que se encrespa na maresia, mais me apavorava a sua figura que a mim agora se assemelhava. Antes, quando ainda era pequeno, fui flexível o bastante com a junta das pernas e sabia bem adquirir-lhe a forma. Era das coisas de ser magro, leve e versátil. Mas agora, essas de ter a massa do ferro denso e restar, o medo dessa corda descer velozmente até o inferno, enganchar-se em minha canela e ser eu a segurar o mundo, não deixá-lo pôr-se a rodar.

(André Fratti Costa)

 

 

Elis, Nina, Getúlio, Fidel

Noemi pediu para que escrevêssemos em quatro papéis o nome de alguém famosos, uma ação, um lugar e uma data. Depois, sorteamos os papéis. A proposta era escrever um texto que conjugasse essas quatro informações.

*

Fosse uma praia ampla – e não esse picote de areia em pata ferrada -, não se sentiria no ar o forte cheiro de barriga em decomposição, aquele meiado de ser que a gente sabe que sempre apodrece primeiro e, ainda, silenciosamente por dentro, inquieto, aquele caldo de banha que o mar vem lavar à noite, quando ninguém mais a banhar-se. Uma enorme carcaça que barrava o caminho dos baldinhos até a água, um resto de história mal acondicionada no corpo de um Fidel Castro nessa baía inventada pela rocha em pleno litoral norte de São Paulo, tudo bem nos dias mais ensolarados de 2025.

(André Fratti Costa)

*

Ela chupava o osso. Já tinha comido a carne, mastigado a pela oleosa. Escutei o barulho dela triturando a ponta do osso entre os maxilares.
No palco, uma falação sem fim. Um blá blá blá no megafone sobre férias, décimo terceiro, salário maternidade. O cara gritava as condições as condições sem que as mulheres trabalhavam na fábrica de água sanitária, as pontas dos dedos derretidos pela soda.
E eu ouvia ela roendo o frango. Juro que ouvia. Ela estraçalhando a ponta oca do osso, nem aí para as mulheres que esfolavam os dedos no veneno. Não trabalhava em fábrica e decerto nunca tinha sentido o cheiro de água sanitária. Nem sabia que cheirava a porra.
Cara, ela era Elis Regina. Comia um osso já sem frango, na praça da Sé, em um primeiro de maio.

 

(Maria Fernanda Maglio)

*

1970, BerlimAlexanderPlatz, a caminho do teatro, Nina Simone sai da estação do mestrô e tromba com ciganos arrumando a roda de uma carruagem. Sofrem apupos de skinheads, que ameaçam sequestrar uma jovem cozinhando um ovo numa espiriteira lá dentro.

(Paulo Ludmer)

*

Tivesse sido em 23 de novembro de 1554 o último discurso parlamentar de Getúlio Vargas (e não quase 400 anos depois, em 24 de agosto de 1954), talvez não teríamos perdido um presidente para o suicídio; talvez não fôssemos assombrados pela instabilidade no poder, pela degenerescência, pela loucura, talvez. Não dá pra saber. Mas o fato de tudo ter acontecido no Catete e não no interior de algum país da Europa, isso sim confere um aspecto sombrio à nossa história; talvez tudo tivesse sido diferente não fosse esse pormenor.

(Carla Kinzo)

Desrespeita a coluna

Noemi fez uma atividade experimental com o grupo, em que cada de nós respondeu com um texto a uma pergunta feita por um colega.

*

– que música é essa que se recusa a ocupar meus vazios?

– essa é a música que escuto fraquinha, não sei se vem ou se vai para longe, e quando tento acompanhar, dançar seus compassos, meus passos falseiam pois me falta jeito e me falta ritmo e tudo isso, meu deus, me faz tanto falta!

(Alcino Bastos)

*

Desrespeita a coluna. Desconsidera as articulações e não sente o sangue nos dedos. Em nome do belo, sustenta o corpo pelo diafragma, prende a respiração e só olha em frente. Não sabe o que acontece em volta. Não faz diferença. Segue o ritmo e a coreografia. Nunca muda… Não gosta. Nunca olha para os pés.

(Elidia Novaes)

*

Mínimas, semínimas, fusas, semifusas, buracos, montanhas abissais de ocos coloridos, quem os pintou? quem ainda vai pintá-los? vai chegar carregando o sofá embaixo do braço para poder dormir, abraçar o mundo, levá-lo para o outro lado cruzando rios e pontes vazias lotadas de nada? vômitos sem cheiro que escorrem sobre páginas brancas a serem escritas?

(Lidia Izecson)

*

Enquanto tudo ruía, ela lustrava os copos. Entrei na sala e fiquei a observá-la absorta em ocos que não era os seus, o vestido sujo das imperfeições dos últimos dias, mas os copos brilhando, colocados um a um sobre a mesa e ela, o vestido recolhido no braço esquerdo, a barra desfeita desfiada que ontem mesmo ela disse: deixa que é assim o tempo e a sorte vai dizer o quanto dura; e era quase uma camisola, entrando, saindo, arredondando o espaço ao redor dos copos com uma música que só os cristais. E os cristais não eram dela, eram da falecida que os deixou lacrados; mas ela não, ela preenchia esses ocos e formava algum desenho indecifrável sobre a mesa, um tipo de código que seria preciso a autorização de algum Deus para entender. Por que os copos ornados com pequenas flores tinham que estar tão à beira? Por que as taças se reuniam redondas no centro em torno de um oco sem copo e sem toalha que só a madeira da mesa da falecida era capaz de ver? E eu sei que dentro dela tocava algum piano ordenando tudo em mínimas, semínimas e que as cheias pingavam orientações precisas sobre os cristais, coisas tecidas ali mesmo, pelas mãos dela, pelo vestido, pelos fios que escapavam, pelas bordas tão finas que quase. E nem quando foi buscar o jarro ela tropeçou no copo de vidro fosco, nosso copo tosco de todos os dias, que tinha ficado entre a mesa e o piso esperando ser notado; nem quando rodopiou sobre si mesma ela intuiu: o copo ou a minha presença. Voltou com a água e encheu um a um os cristais, nunca além da metade como se aguardasse. É preciso confiar na espera dos ocos, ela não disse, mas eu soube. E foi com a borda do mesmo vestido que ela enxugou a testa, como que de cansaço. Foi assim que a ruína dos dias tatuou seu rosto.

(Luciana Annunziata)

Não gosto de palavra acostumada

Noemi pediu para que escrevêssemos em um papel uma frase de que gostávamos. Cada trio recebeu, aleatoriamente, três desses papéis – e, com as frases recebidas, deveríamos produzir um texto.

*

BAGAGEM

¾ Acabou. Você fica com a casa. Não esquece a ração do cachorro.

¾ Tinoco

¾ O que?

¾ Tinoco. O nome do “cachorro”. Você nunca aprendeu o nome dele.

¾ …

¾ Tudo parece simples para você. Me deixa a casa, um pote de ração vazio… e uma tarefa. E segue a vida. Pelo jeito é sua maneira de resolver as coisas quando elas ficam embaraçosas. E desconsidera tudo que a gente construiu. Juntos. Vinte anos de história. Depois de toda a dificuldade que a gente enfrentou. Quantas! Até chegar aqui, conquistar o que a gente conquistar. Uma história cheia de tanta luta, de amor, de respeito.

¾ Respeito?

¾ Por acaso, você acha que acabou o respeito?

¾ Assim é se lhe parece.

¾ Fez de novo. Tudo você resolve com uma resposta curta, uma frase de efeito, um resmungo. Você se fecha em copas cada vez que eu tento conversar. Você sempre faz isso. No fundo, acho que nem te conheço mais. Sempre quieto, na sua. Eu hoje decido tudo sozinha, arrasto você pelo pé. E você? Desiste no primeiro obstáculo. Pula fora quando a água nem começou a subir ainda. Sempre quieto pelos cantos. Parece um boi encostado numa cerca.

¾ É isso mesmo. Ninguém sabe o que eu sou quando rumino. Machado de Assis!

¾ Tá vendo? Ainda ironiza. Quer saber de uma coisa? Vai mesmo. Você tem razão. Eu cuido do cachorro, da samambaia.

Ela se levanta da mesa e caminha em direção à porta de entrada. Ao passar pelo sofá, vê duas malas e uma mochila.
¾ Você já tinha até feito as malas! … Você já está indo.

¾ O taxi está lá embaixo.

¾ Então, nos encontramos depois, no tempo da delicadeza.

(Alcino, Maria Fernanda e Elidia)

*

Ele disse: não gosto de palavra acostumada. Foi a primeira coisa que ouvi dele. Eu também não gosto, prefiro palavra inquieta. Mas naquele dia não deu tempo nem de concordar. Ele logo foi embora. O acordo entre nós era como um pequeno milagre.
O primeiro bilhete dele dizia: ni pa ti, ni pa mi. Era um jeito de avisar que nada aconteceria entre nós. Meus olhos nublaram e naquela névoa ele desapareceu. Diadorim era minha neblina.
E foi sempre assim, a mesma névoa vindo não sei de onde e a gente se perdendo nela, a gente se perdendo da gente.

(Luciana Annunziatta)

*

Talvez seja isso, tanto tempo esperando e você não veio. Quase nunca vem! SUPORTANDO O SACRIFÍCIO DE NÃO MERECER, assumo para mim essa dor. Me visto com ela, desço as escadas e ganho a rua. O bloco que cruza a avenida me lembra que é terça de carnaval. Só eu sei, A DOR É MINHA, É MEU TROFÉU, É O QUE RESTOU. Entre plumas, brilhos e suor, as nossas brigas, como um videotape. Esbarra em mim uma ave do paraíso, PASSA AVE, PASSA, E ENSINA-ME A PASSAR”.

(Cristina Maria, Wilson, Lidia)

*

Você é livre, ele disse. Pode ir onde quiser. Mas como vencer o oceano, se é livre a navegação, mas proibido fazer barcos? Por trás da grade, olho a rua, eu olho a rua, a rua. Seria mais fácil se fosse o mar. Você quer tudo, ele diz. Quem tudo quer, tudo perde. O mar sobe rápido, muito rápido. A água entra pelas frestas, a cela imunda e eu, peixe, com minhas guelras, escapo dessas paredes sem nenhum lugar – tem alguém aí? Só quem me responde é o tijolo: “Se queres mel, suporta as abelhas”. Acho a resposta medíocre.

(Elza, Carla)

*

 

pretérito perfeito

Noemi pediu para que escrevêssemos uma cena usando o pretérito perfeito.

*

Entrei no galpão da Dona Cida costureira. Era escuro e fundo. As fantasias da companhia inteira tinham sido penduradas junto ao teto num estranho sistema de varais. Vistas de baixo, as saias formavam grandes flores amarelas, vermelhas e as mais compridas, as azuis que seriam usadas pelas meninas mais velhas, eram túneis por onde eu poderia mergulhar e furar o telhado.
Minha mãe pediu que eu me sentasse numa banqueta junto à porta e foi ter com Dona Cida. Voltou com uma cara de desconforto e o olhar triste que eu já conhecia. “Qual delas é a minha?”, perguntei ansiosa, “a da flor de lótus”, ela disse. “Isso eu já sei” e desviei o olhar para Dona Cida que vinha caminhando lá do fundo com um mirrado conjunto verde piscina composto de uma única camada de musselina presa com uma flor branca.
Tive vontade de rasgar o paninho, mas a costureira foi mais rápida e me levou até o provador, de onde eu saí instantes depois, meu corpo magro sem um único adereço a não ser aquela coisinha pobre que “tinha um ótimo caimento”.
Minha mãe quis me consolar. Disse que a flor de lótus era a mais linda e contou algo sobre a Índia de que não me lembro. No banco de trás, chorei. Eu nem tinha idade para acompanhar minha mãe no banco da frente, mas ouvi quando ela gritou coma Professora Beatriz no telefone. E entendi tudo.

(Luciana Annunziata)

*

Olhei para o terraço do hotel e não vi ninguém. No saguão, salão de jogos, ninguém.
Parece que, na confusão, fiquei para trás. Meu pai pensou que eu estava em outro carro. Talvez com minha mãe, uma das tias. Elas pensaram que eu estava com meu pai.
Quando vi a arrumadeira, chorei um pouco. Segurando o choro.
– O menino ficou, ela disse ao gerente.
Então tentaram me distrair com uma bolinha de pingue pongue.
– Quanto anos você tem?
– Quatro.
A arrumadeira, Dirce, foi muito esperta e me deixou brincar com o rolo de papel higiênico. Funcionou melhor. Fui desenrolando, desenrolando, em volta das pernas das pessoas, das cadeiras, do relógio carrilhão.
Seu Honório também veio ver. Brinquei com o doce de leite e ,claro, comi um pouco também.
Quando perceberam o que tinha acontecido meus pais vieram me resgatar. Eu não estava mais chorando.
Sempre reclamei do que aconteceu. Do trauma, do abandono. Falei na terapia.
Para meus pais isso nunca ocorreu. Produto da minha imaginação!

(Alcino Bastos)

 

detalhes

Noemi pediu para que descrevêssemos alguma coisa simples, que se fizéssemos cotidianamente, de forma tão detalhada que ela acabesse soando estranha.

*

A barriga encostada na pia. Começa pelos olhos e desloca de um lado a outro a película transparente. Com sorte, as lentes estarão no lugar, mas às vezes é preciso levantar a pálpebra e buscar (consequentemente com um olho só, o outro) onde estará a maldita dobrada no canto do fundo da puta que o pariu. Lamenta não ter praticado a vesguice tanto quanto as amigas no pátio da escola, (sempre teve medo que assoprassem seus olhos e ela ficasse assim para sempre). A parte do rímel é fácil, algodão, tecnologias bifásicas e está resolvido, mas ela sempre enfia uma nova etapa depois disso, um novo sabão, um creminho removedor de algum resquício da poluição ou da idade. Mas o pior é a bendita pia. Ela jamais desconfiou que teria que apoiar a cabeça na torneira com os olhos fechados e se orientar pelo som para ter certeza de acertar a água dentro da área quadrada da pia modernosa, pequenina mas ordinária, sugerida pela arquiteta (que certamente não lava o rosto tão bem quanto ela). E não adianta: entra sabão no olho, arde, ela se apressa e mancha a toalha com os restos invencíveis de rímel (maldita tecnologia bifásica). A água sempre escapa, formando uma poça no tampo de ladrilhos coloridos, ou quase sempre, o que torna certas noites muito mais especiais.

(Luciana Annunziata)

*

O som é eletrônico. Conhecido. 1o, 2o, 3o, 4o, para. 1o, 2o, 3o, 4o, para.
Duas orelhas brancas, dois olhos pretos. Escuro. Quieto.
O som é eletrônico. Chato. 1o, 2o, 3o, 4o, para. 1o, 2o, 3o, paro.
Agora um pé. Encolhe.
Uma mão. Desaparece. Devagar.
O som é eletrônico. Insistente. 1o, 2o, 3o, 4o, para. 1o, 2o, 3o, 4o, para.
Dois pés. Duas mãos. Dois braços.
Duas orelhas brancas, dois olhos pretos. Duas patas. Mais duas. Uma língua.
O som é eletrônico. Feio. 1o, 2o, 3o, 4o, para. 1o, 2o, 3o, 4o, para.
Olhos no teto.
O som é eletrônico. Odeio. 1o, 2o, paro.
O pé no tapete. A janela aberta. A árvore e a rua.
Um rabo branco, duas patas traseiras.

(Elidia Novaes)

*

Estendo a mão para o tubo de sabão e espalho em quatro espaços: face direita, face esquerda, queixo e, quantidade um pouco maior, no lugar do bigode.
Depois o pincel: deve ser encharcado com agua fria e sacudido para eliminar o excesso. Na mesma sequencia pincelo a face direita, molho o pincel, face esquerda, molho o pincel, queixo, molho o pincel e, com esmero, toda a área por baixo do nariz.
Agora a lâmina – que deve ser trocada toda a semana – segue inicialmente por um desvio invertendo em parte o caminho do sabão e do pincel: primeiro o bigode. A seguir volto ao caminho antigo: face direita, esquerda e queixo.
O que sobrou de sabão no pincel vai novamente para o bigode, área essa que tem o privilégio de uma repassada mais lenta e cuidadosa da lâmina.
A mão percorre toda a face para ver se algum retoque é necessário. Tudo em ordem? Então a língua empurra a bochecha logo abaixo do canto da boca de um lado, lâmina, de outro, lâmina. E pronto. Em dois minutos estou entrando na ducha.

(Alcino Bastos)

*

Café da manhã

O caminho do quarto até a cozinha: 18 passos às 8 da manhã. Talvez apenas 10 às 2 da tarde. O café na máquina não leva mais de um minuto, mas a torrada com requeijão não tem tempo certo. Pego uma na lata que veio com panetone, sempre a mais tostada, e, com a faca de cabo azul, da mesma forma que um assassino estuda a sua vítima, me preparo para abrir a tampa do pote Poços de Caldas. Uma vez aberta, observo aquela brancura quase cósmica que tem consistência de nuvem e desejo de ser deflorada. Sem desgrudar o olho, miro o centro da massa espessa e penetro fundo com a faca até sentir que já se formou ao redor dela um creme consistente que deito suavemente sobre a torrada, cuidando para que não escorra pelas bordas.

(Lidia Izecson)

cadarços

Noemi pediu para que a Ana nos contasse um caso bem antigo de sua infância. A tarefa era recontar essa história, como se fosse nossa – e que nela houvesse uma pequena digressão.

*

Os cadarços dele sempre desamarravam, porque ele era pequeno e os cadarços, sempre longos demais, assim como as histórias na hora de dormir, ele nunca terminava de ouvi-las. E então eu olhava para dentro de sua boca escancarada que continha todos os sonhos dos pequenos, um lugar misterioso, rosado e fedendo a leite que já não era o meu (mas qual era o meu lugar afinal?).
Quando acordávamos, tudo se repetia: ele tardava a terminar pão, deixava restos irritantes de leite no copo e caminhava lento demais para cruzarmos a rua no tempo tão restrito que antecedia o sinal da escola. Pior, quando chegávamos na calçada, seus cadarços estavam sempre desamarrados e eu tinha que ajudá-lo, ajoelhada diante da entrada, no que era ultrapassada por todas as colegas de classe (tão mais espertas do que eu).

(Luciana Annunziata)

*

A casa era velha mas era nossa escola. Em frente à Igreja de Santa Teresinha, na Maranhão.
– Professora, posso ir ao banheiro?
Quando saí da sala encontrei minha irmã que se arrastava para a aula de educação física.
– Sei que você não gosta, mas não precisa chorar.
Foi quando notei os cadarços do tênis soltos pelo chão.
O grande problema da escola era o banheiro. O trinco travava e prendia os alunos lá dentro. Eu nunca trancava a porta e enfrentava o risco de me verem urinando. A situação era urgente e pensei em seguir em diante rápido, entrar, sair e voltar para a classe.
Me agachei e dei um laço. Minha irmã fez o mesmo com o outro pé. Tão depressa que nem entendi como. Sorriu e se mandou. Depois, na vida, chegou a disputar o campeonato estadual de salto em altura.
O xixi? Deu tempo e ninguém me viu no banheiro. Mais uma coisa: nunca fico preso pois procuro sempre deixar as portas abertas.

(Alcino Bastos)

*

Lembro como se fosse hoje! Você tão pequeno, eu a irmã que sabia de tudo.
É fácil, você vai ver, eu sei que a mamãe já te ensinou. Mas eu vou mostrar de um jeito diferente, você vai aprender agora mesmo. Essa ponta tem que ficar do mesmo tamanho dessa outra e, dobradas assim, viram duas asas de borboleta. Percebeu?
Parada na frente do vaso de flores já meio murchas, me pergunto se esse é o melhor jeito de dar laço. Tentei fazer tantos – firmes, resistentes, daqueles que durariam a vida toda. Nunca viraram borboletas – desculpe irmãozinho – foram sempre lagartas que não ultrapassaram a crisálida.
Você me olhava curioso, inflando meu lado professora. É assim, Paulinho. Depois você passa um lado por baixo do outro e estica bem até sentir que não vão se soltar nunca mais. Aprendeu?

(Lidia Izecson)

*

As asas de uma borboleta batem em uma velocidade que seria impossível pará-las, pegá-las e dar um nó. Mas eu lembro que foi assim que eu falei pro meu irmão mais novo, naquele intervalo de aula, cada um saindo da sua sala, cada um com sua sede, ele com os cadarços desamarrados; duas asas de borboleta, uma vai por cima, passa por dentro da outra, depois só puxar, um nó que não se desfaz, uma lembrança para sempre em um casulo.

(Samir Mesquita)

*

Ele estava parado no meio do corredor, sozinho, como se me esperasse, só a mim. E eu, como se soubesse de tudo, me aproximei. Foi sem que falássemos coisa alguma – nós nos fizemos assim, até hoje seguimos com essas pequenas cenas predestinadas – que eu o ensinei a amarrar, “dois laços, uma volta”, os cadarços de seu sapato.

(Carla Kinzo)

 

Noemi pediu para que pensássemos em algo que não gostaríamos de contar – e que contássemos isso, negativamente.

*

Não pensa na dor. Não, não pensa na dor. Já vai passar. Pensa… Pensa no… Não pensa na dor.
Lembra de quando o senhor era moço, na fazenda, andando a cavalo com o cachorro Blindado do lado, pisando na sombra do cavalo… Não, não aquela briga com os dois pastores do sítio vizinho. Não pensa nisso. Não pensa que ele morreu cedo demais. Já vai passar, espera só um pouquinho. Já vai.
Não olha pra esses tubos. Não, aquilo não deve ser sangue. Não olha pra lá. Olha pra mim, conversa comigo. Não dá bola pros barulhos, pensa que eles têm ritmo. Ritmo de coração. Olha, escuta… Esse ritmo… Podia ser…
Tombando a velhinha aos pés do altar
Tira do peito sangrando
Da velha mãezinha o pobre coração…
Não, não pensa nessa. Pensa… O ritmo… Vamos ver…
Que tal esta?
O salgueiro que você plantou
De chorar quase morreu, resistiu e cresceu
Mas o cão adoeceu, sentiu sua falta demais…
Não, essa também não.

(Elídia Novaes)

*

Não quero me lembrar do sol daquela manhã que me prometia apenas um bronzeado. Não quero a luz daquele sol de novo na minha retina, que não me deixava enxergar com nitidez o mensageiro, o porteiro do prédio pedindo para eu deixar a praia, alguém me procurava, não quero lembrar que voltei; não, não quero recontar os passos até o prédio, os passos até o apartamento com o recado nas mãos – ligar para Janaína. Se não me lembro mais da voz da Janaína, se mal me lembro do rosto da Janaína, por que não esqueço também as palavras “o”, “César”, “acabou”, “de”, “morrer”?

(Luciana Gerbovic)

*

que liguei para ele era depois de meia-noite eu preferia esconder, que liguei e liguei, dezesseis vezes, chorando, havia três horas, celular desligado, eu não queria dizer, que então peguei o carro e dirigi até a casa dos pais dele, e o esperei chegar e ele não chegava nunca, não vou contar, que ele não dava sinais de ódio muito menos de amor, que havia aquela menina, da empresa também, estagiária também, que ele havia visto de biquini, eu preferia não saber, que desisti da tocaia em frente ao prédio e voltei para casa, que assim que cheguei, eram três da manhã, liguei de novo, desta vez para o fixo, desta vez ele atendeu,a voz sonolenta, eu não disse nada, desliguei e fui para cama não dormir.

(Isabela Noronha)

*

Não é minha vontade dizer isso. Só que é verdade: ela não é adotada. Não é bonito repetir o tempo todo como é diferente dos irmãos e que não se formou na USP como os outros. Nem é preciso dizer que a própria também duvidava de suas origens, pois partiu dela essa história do exame de DNA. Reluto em escrever essas palavras porém, de fato, foi uma decepção quando se confirmou que era mesmo filha do nosso pai e da nossa mãe. E agora não posso nem pensar nas desculpas que vou dar daqui por diante.

(Alcino Bastos)

*

Não quero que saibam que elas me perseguem, sou cheia delas, mais de 400 espalhadas pelo meu corpo. Não quero que descubram que já extirpei 25 e que 2 eram malignas da pior espécie. Nem vou revelar a ninguém que tive tanta vontade de matar a dermatologista responsável pelo diagnóstico, que fiquei 3 dias sem conseguir dormir pensando na melhor maneira de eliminá-la. Também não quero que saibam que, apesar de todos os alertas, – nunca tome sol; è um veneno para você; uma dessas pintas ainda vai matá-la – quando me vejo sozinha na praia, abro os braços e declamo para ele os meus melhores versos.

(Lidia Izecson)

*

Não vou desenhar um mapa das veias que têm nascido nas pernas, porque não são veias, são pequenos rios avermelhados que indicam os caminhos que nunca percorri, e que portanto não podem ter gerado qualquer dor, ou lesão, ou a irrupção de vasos sanguíneos. Nunca fui a lugar nenhum a não ser este corpo liso e sem estrias de onde escorrego e onde me agarro. Não são minhas as veias. Não sei desenhá-las.

(Luciana Annunziata)

*

Nada do que digo sobre ele pode ser encarado como verdade além do nosso laço sanguíneo, nada sobre saudade, nada sobre afeto, nada sobre boas lembranças, nada sobre como está, sobre o que tem feito, o que fará; nada sobre seu temperamento, sobre suas manias, sobre como somos tão desconhecidos, embora tenhamos o mesmo sobrenome e os mesmos pais em nossas identidade.

(Samir Mesquita)

*

Disto ninguém saberá: que eu não me culpo por não sentir falta do meu pai; que sua morte, por mais trágica que tenha sido, não tem muito significado para mim; que eu imagino que uma vida com ele seria pior; que eu detesto quando minha mãe tenta transformá-lo num herói possível; que isso que chamam de amor paterno, mais parece obrigação. Não quero contar nada disso, porque meu objetivo aos escrever não é chocar.

(Edmar de Souza)

*

Não quer que saibam de seu pânico em ficar doente, que já fez uma ressonância magnética para uma dor na coluna que desapareceu no dia em que pegou o exame, “sem alterações”; não quer também que jamais relacionem fragmentos desconexos de sua vida, que poderiam justificar bobamente seu medo: a amiga que morreu de repente aos vinte e sete anos; o cuidado excessivo dos pais com sua saúde quando era pequena; a irmã caçula da mãe que a avó escondeu a vida toda porque tinha acessos de epilepsia; o que esses episódios não dizem, o que poderiam dizer, não quer que nada disso fale de quando tem certeza de que não está tudo bem.

(Carla Kinzo)